O Jogo do Diferente
2 O "Jogo do Diferente"
Hiroji tirou os óculos de grau enquanto encarava a jovem Ruriko, aguardando sua explanação sobre o tal “Jogo do Diferente”. Inagaki Ruriko era estudante de Sistemas de Informação e estava cumprindo estágio no Departamento de Polícia de Sakumachi. Ela era muito inteligente e estava fazendo, durante seu período de estágio, pesquisas relacionadas ao uso de tecnologia nas investigações policiais e, para isso, optara por auxiliar os policiais em um caso como aquele.
Ruriko era de Yokohama e, por conta das pesquisas que fazia para seu trabalho de conclusão de curso, participava das aulas de forma virtual por conta da distância. Interessara-se pelo caso dos suicídios para colocar à prova suas teorias e também ajudar com os seus conhecimentos. Desde que desenvolvera um software para checagem de dados de redes sociais diversas e o cruzamento de dados entre as mesmas, contribuíra para o avanço das investigações até o ponto em que estavam.
― Pelo cruzamento de dados que fiz dos vários casos, Ohta-san, descobri que há uma origem comum a vários padrões que são encontrados em todos os casos de suicídio até agora. E essa origem está no tal “Jogo do Diferente”. É um jogo em que são passadas tarefas para o participante cumprir, e ele sobe de nível a cada tarefa cumprida, tendo um desafio ainda maior, até chegar à tarefa final... O suicídio. Mas, sinceramente, não consigo entender por que caem nessa.
― Há um padrão nas vítimas. Segundo o que você me passou a respeito dessas suas análises e dos dados coletados dos celulares e computadores das vítimas, e juntando isso com o que a equipe de detetives obteve no decorrer dessas investigações, temos um perfil de vítimas bem definido... Em sua maioria, adolescentes de doze a dezenove anos, alguns têm problemas na família, outros, problemas psicológicos, traumas, entre outros. Acessam grupos de apoio virtuais, redes sociais, enfim, acredito que daí é que encontram suas “presas” em potencial.
― Olhando por esse ângulo, começo a compreender.
― O principal ponto é que são escolhidos os adolescentes, por serem mais suscetíveis a manipulações e influências. Tenho um filho adolescente – o mais velho disse com um olhar mais distante. – E ele é assim.
“... Ou era, até um tempo atrás.”, ele acrescentou em pensamento, com o olhar momentaneamente perdido.
― Então, a partir disso procurarei analisar mais detalhadamente cada conversa que consegui extrair dos pertences das vítimas e os relatos de quem as conheceu. Se eu cruzar os dados mais uma vez, certamente terei ainda mais informações. E isso poderia nos levar à pessoa ou às pessoas que incitam os suicídios.
― Esse é o ponto. Temos que ter o máximo de informação possível para termos certeza de que o causador de tudo isso está por aqui, em Sakumachi.
*
Ao entardecer, Miiko e Eimi seguiam conversando juntas após saírem do colégio. Ainda lamentavam a morte de Takehisa por suicídio, pois fora algo que ninguém esperava, sobretudo após tão pouco tempo da transferência dele de Tóquio a Sakumachi. Além do mais, elas procuravam ajudá-lo a se enturmar...
... Só que não dera tempo de conseguirem o objetivo.
― ... E é uma pena, Miiko-chan, que a gente não tenha conseguido fazer Katsuya-kun se enturmar.
― A gente tentou, Eimi-chan... Pelo menos a gente tentou, e isso é o que importa.
― Eu me pergunto por que ele iria querer se matar... Não parecia ter qualquer problema.
― Talvez tivesse.
― Você acha?
― Sim – a loira assentiu. – Fazia pouco tempo que ele estava aqui em Sakumachi, e morava com os avós. E por que ele morava com os avós, e não com os pais?
― Faz sentido. Mas talvez a gente nunca saiba porque ele acabou se suicidando.
― Pois é.
A determinada altura do percurso que faziam, as duas amigas se separaram. Eimi não iria direto para casa, mas ao restaurante da família, que não ficava muito distante dali. Miiko conectou os fones de ouvido ao celular, a fim de ouvir música durante o resto de seu caminho para casa. Adorava ouvir um bom rock, era o seu gênero musical favorito.
Eimi se lamentou por não ter levado seus fones e seguiu sua caminhada. O restaurante de sua família não era longe e, além do mais, havia combinado com sua mãe que iria encontra-la para, juntas, irem ao supermercado fazer compras. As duas eram bem entrosadas no que se referia àquele estabelecimento. Vez em quando sua mãe pedia e ela pesquisava por receitas de pratos que poderiam ser servidos e fazer a diferença aos clientes fiéis.
Aquele restaurante era da família Minazuki desde sempre, sendo passado de geração em geração.
*
Hiroji estacionou seu carro e, após ativar o alarme, seguiu para a entrada do hospital. Olhou para o relógio de pulso, a fim de checar o horário e entrou, para se identificar como visitante. Seguiu para a ala que desejava visitar e encontrou uma médica, a qual o cumprimentou. Em seguida, ele foi direto ao ponto:
― Como ele está?
― Ryuhei-kun aos poucos está respondendo aos estímulos, Ohta-san. Mas ainda é cedo para saber se de fato ele terá alguma sequela ou não. Afinal, ele deu entrada num estado bem grave.
― Compreendo. O importante é que ele está evoluindo. Keiko adorará saber disso hoje.
― Ela está melhor da gripe?
― Está melhorando, doutora. Ela contraiu uma gripe muito forte.
― Diga a ela que estimo as melhoras.
― Eu direi, Doutora Nonomura.
Nonomura Kumi era uma das plantonistas do centro de terapia intensiva do Hospital Geral de Sakumachi. Hiroji foi conduzido até o local onde Ryuhei estava após os procedimentos para higienização das mãos e outros cuidados.
Aproximou-se de um leito onde jazia um adolescente, cujos cabelos eram curtos e negros e sua palidez era bastante acentuada. Segundo a médica, ele seguia em coma, e isso já faziam quarenta dias.
Hiroji contemplou longamente o filho. Era fruto de seu segundo casamento, com Keiko. De seu casamento anterior, tivera dois filhos: Kazuya, que era professor universitário em Kyoto, e Asumi, que possuía um salão de beleza em Sakumachi. Sua primeira esposa, Chika, havia falecido em decorrência de um câncer agressivo de mama.
Keiko era dezoito anos mais jovem que ele e lhe dera Ryuhei como filho. O garoto tinha quinze anos de idade, era um aluno aplicado na escola e se destacava nos esportes, sobretudo o futebol. Adorava fazer graça, vivia sempre de bom humor.
Entretanto, recentemente o comportamento do jovem mudara de forma repentina. Com o passar dos dias, foi adotando um comportamento mais taciturno e ficando cada vez mais retraído. Evitava conversar com os pais e se isolava na escola, não desejando mais fazer aquilo que tanto gostava.
Adotara hábitos cada vez mais estranhos, e mesmo assim ninguém da família conseguia descobrir o que ocorria. Ryuhei seguiu assim até, cerca de quarenta dias atrás, tentar se suicidar. Tentara, no quarto, se enforcar com um cinto, mas algo dera errado e o baque chamara a atenção de Keiko, que iria tentar conversar com o filho.
Ele estava inconsciente e quase morrera. Em seus pulsos, marcas de vários cortes antigos e recentes; uns, cicatrizados, outros, não. No pulso esquerdo, uma sequência de cortes profundos com o sinal matemático que indicava diferença.
Seu próprio filho entrara para as estatísticas estarrecedoras de suicídios tentados e/ou consumados, por culpa de um jogo... O “Jogo do Diferente”.
E ele, Ohta Hiroji, estava cada vez mais determinado a descobrir, junto com a força-tarefa que liderava, quem estava por trás de tudo isso! Faria questão de ficar cara a cara com o assassino – sim, era um assassino! – que não sujava suas mãos para causar tantas mortes!
Não iria deixar isso impune, jamais! Era o mínimo que poderia fazer por seu filho, e por outros jovens na mesma situação!
*
Eimi estava a poucas quadras do restaurante, mas procurava apressar seus passos. Em boa parte do percurso, ela se sentia seguida e até tentou usar uma rota alternativa. Entretanto, nada tirava dela aquela sensação de que algo poderia acontecer a qualquer momento.
E, quando a sensação de que estava sendo seguida diminuiu... Sentiu seu corpo ser puxado para um beco e sua boca ser tapada. Seus olhos se arregalaram ante uma faca, cuja ponta tocava seu pescoço.
― Faça tudo o que eu mandar, gatinha. – o dono da faca afiada disse em tom ameaçador e, ao mesmo tempo, divertido. – E você não vai morrer!
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