O Jogo do Diferente
3 Sem contato
Um novo dia amanheceu e o despertador do smartphone de Miiko tocou. Sonolenta, a garota desligou o alarme e, após esfregar os olhos, se levantou. Lavou o rosto, escovou os dentes e se trocou, vestindo o uniforme: camisa branca com o emblema da escola nas mangas, saia plissada azul-marinho, meias três-quartos e calçou suas pantufas. Por fim, penteou seus cabelos loiros cortados em Chanel e seguiu até a cozinha.
― Bom dia, Tatsuo-nii-san! – a garota cumprimentou.
Kanasawa Tatsuo era o irmão mais velho de Miiko. Tinha vinte e um anos de idade e estava colocando as torradas quentes sobre a mesa. Naquela casa, moravam apenas os dois. Os pais haviam morrido há dez anos em um acidente e, desde então, estiveram sob os cuidados dos avós paternos na zona rural. Quando Tatsuo conseguiu o emprego numa oficina mecânica de Sakumachi, ambos mudaram para a cidade, para ficarem mais próximo do trabalho do jovem.
― Bom dia, Miiko. – o jovem de estatura mediana, cabelos e olhos castanhos, respondeu enquanto bagunçava o cabelo da irmã. – Vai uma torrada?
― Ah, não bagunça o meu cabelo! Vou ter que pentear de novo!
Tatsuo riu. Ao contrário de Miiko, ele era mais extrovertido. Sempre fora assim. Nem parecia que ele buscava conciliar trabalho com estudos, pois cursava Engenharia. O salário que ganhava como mecânico ajudava a custear seus estudos e as despesas básicas de casa. E ele, apesar de ter uma vida corrida, não perdia o sorriso e o jeito brincalhão.
Miiko o admirava por tudo isso e também por ele assumir até mesmo responsabilidade sobre ela. Claro que não dependia tanto dele, mas para certas coisas – como reuniões na escola – era preciso um responsável legal, e ele agia como tal, assumindo uma figura quase paterna.
Um sempre podia contar com o outro.
Após tomarem o café da manhã, os dois irmãos terminaram de se arrumar. Tatsuo costumava levar Miiko em sua moto até a escola, que ficava no trajeto para o seu trabalho. E, como ele ia direto do trabalho até a faculdade, ao fim do dia ela costumava voltar com Eimi, que morava num bairro próximo.
Adentrou a escola e logo o sinal tocou para o início da aula. Deixou seus sapatos pretos bem lustrados no local de costume e calçou as sapatilhas brancas de usar dentro da sala de aula. Abriu seu escaninho e pegou os livros necessários para as aulas do dia e adentrou a sala.
Achou estranho Eimi não ter chegado ainda. Geralmente ela chegava bem em cima da hora.
Será que havia acontecido alguma coisa? Ela não era de faltar...
*
― ... Sim, Kazuya-kun – era a voz de Keiko. – Ele ainda está em coma. Também espero que ele acorde logo. Eu estou bem melhor da gripe, obrigada pela preocupação. – sorriu após ouvir algo de seu interlocutor. – Qualquer novidade seu pai ou eu te contamos. Beijo.
Ao finalizar a ligação, Keiko olhou para trás e viu Hiroji já à mesa. Cumprimentou-o com um selinho e sentou-se à frente do marido.
― Não parece muito animado, Hiroji. Está bem pensativo desde que voltou do hospital.
― Estes últimos dias me fizeram refletir muito sobre minhas atitudes com o Ryuhei.
― Não acho que você tenha feito nada errado com relação a isso... Talvez eu tenha, porque como mãe eu deveria ser mais presente e conciliar melhor meu trabalho e os deveres como esposa e mãe, mas não vejo nada de errado no que diz a você.
― Eu também achava isso, mas com o que está acontecendo na cidade, já não penso assim. Nem todo filho é igual para cuidar. Eu não deveria estar educando o Ryuhei exatamente igual ao Kazuya e à Asumi. Ele hoje tem trinta e sete anos e ela, tem trinta e três. Quando eles eram crianças, adolescentes, eu era mais presente, e a Chika também. Hoje já é diferente, nós dois trabalhamos muito e chegamos cansados, adiando tudo relacionado ao Ryuhei. Vendo os casos que minha equipe está investigando, cheguei a essa conclusão... De que eu não dei a atenção que ele merecia.
― Eu também me sinto assim. Demos brecha onde não deveria haver. Deveríamos ter nos importado mais com o que ele fazia.
― Espero que tenhamos uma segunda chance... Muitos pais não tiveram e agora se arrependem de não terem feito o que deveriam fazer.
― Teremos, sim, Hiroji. – os olhos castanhos de Keiko encontraram os olhos negros dele. – Quando o Ryuhei-kun acordar, estaremos lá. Não vamos errar de novo.
Após terminarem o café, Hiroji se despediu de Keiko e saiu para trabalhar. Ela permaneceu em casa, estava de férias há dez dias. Ela trabalhava como recepcionista em um hotel no centro de Sakumachi. O dono do hotel era um amigo de seu marido e, desde o incidente envolvendo Ryuhei, mostrara-se compreensivo e a liberava para ter uma jornada de trabalho mais flexível. Era raro haver gente assim e ela era grata por isso.
E também era grata pela família que tinha. Quando começou a se relacionar com Hiroji, então viúvo, chegou a temer alguma eventual rejeição dos filhos dele. À época, ele tinha quarenta e quatro anos, e ela, vinte e seis. Pensava que tanto a diferença de idade quanto o fato de a morte da primeira esposa de Hiroji ter sido relativamente recente – cerca de um ano – poderia interferir, mas os filhos a aceitaram bem. E a relação com eles era muito boa, tanto Kazuya como Asumi se preocupavam com ela. Ambos também se davam muito bem com o irmão caçula.
Não tinha do que reclamar dos Ohta. Estava feliz por ser parte da família.
*
Ruriko mantinha os olhos bem atentos à tela do computador, enquanto lia cada conversa do smartphone da última vítima do “Jogo do Diferente”. Tudo realmente seguia um padrão, um roteiro. O ator era outro, mas encarnava o mesmo papel. Katsuya Takehisa era mais um a encarnar o papel de adolescente com histórico de problemas familiares e/ou na escola e, em decorrência disso, problemas psicológicos.
Esses “atores” tendiam a não contar nada aos pais que, na maioria das vezes, eram ausentes devido ao trabalho ou realmente não se importavam com os filhos. Ao invés disso, geralmente desabafavam nas redes sociais, como o Facebook, o Twitter e o WhatsApp. Era a partir daí que alguém os “acolhia”.
O garoto Katsuya era o “ator”, que logo passou a ser mais um “fantoche” nas mãos do misterioso incentivador de suicídios. Ele vivia em Tóquio com seus pais, que eram traficantes internacionais de drogas e, obviamente, pouco se importavam com o filho. Na escola onde estudava, era alvo de brincadeiras de mau gosto e desprezado pelos colegas. Por fim, seus pais foram presos e ele passou a viver com os seus avós em Sakumachi. Na nova escola, pouco interagia, ficando isolado. A essa altura, ele já estava no tal jogo e suas interações nas redes sociais, de forma sutil, evidenciavam isso.
No caso desse garoto, tal comportamento não era surpresa. Os avós não desconfiavam de nada, conforme os depoimentos. Apenas desconfiavam de mangas longas e calças compridas em plena primavera, mas achavam que era apenas o estilo do garoto, vindo da capital. Sobre a reclusão e hábitos estranhos, tentaram ter mais contato, mas o garoto parecia mais distante a cada dia.
Neste caso, o garoto já estava perdido mesmo.
O maior problema era descobrir quem estava manipulando esses fantoches, matando-os sem sujar as mãos com o sangue desses jovens. Era especialmente difícil rastrear quem quer que fosse. Os aplicativos das redes sociais mais usadas possuíam criptografia de ponta-a-ponta, o que fazia com que fosse difícil descobrir a localização do incentivador ou dos incentivadores desse jogo macabro, que culminava nos suicídios.
Para isso, estava também trabalhando em algum programa que a permitisse passar por todas essas criptografias. E, conseguindo isso, pegariam quem quer que fosse!
*
Ao entardecer, Miiko já saía da escola. Pela manhã, tinha as aulas de sempre e, no contra turno, as atividades extracurriculares. Saía sozinha, pois Tatsuo a essa altura estava indo à faculdade e Eimi não aparecera nem mesmo atrasada. Tentara por várias vezes, durante o dia, contato pelo WhatsApp de todos os modos e ligação para o celular da amiga, mas ela não atendia e nem retornava o contato.
Era estranho, pois Eimi sempre lhe respondia. Nunca ficara tanto tempo sem ter uma resposta.
Tinha a sensação de que acontecera algo... Era muito esquisito.
Conectou os fones de ouvido ao smartphone e acionou o player de músicas, colocando-se a caminho do restaurante dos Minazuki. Como era mais próximo do que a casa de Eimi, deduziu que encontraria a mãe dela, que poderia lhe dizer algo a respeito.
Miiko seguiu seu trajeto sem maiores incidentes, chegando a um pequeno restaurante com características tipicamente nipônicas. Adentrou o local e perguntou por Minazuki Ryoko. Nashida Takeru, um dos dois funcionários, disse:
― Ryoko-san está com Eimi-chan no hospital.
― O que aconteceu com ela? Não consigo contato com ela.
― Eimi-chan veio toda ferida para cá ontem, aos prantos e em pânico e Ryoko-san já a levou ao hospital. A polícia está investigando o que aconteceu com ela, mas pelo o que entendi, ela foi atacada no caminho.
Miiko arregalou os olhos. Céus... Nunca imaginaria que Eimi poderia passar por algo assim...!
― Eimi-chan...!
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