O Jogo do Diferente
4 Aprecie o silêncio
Três e meia da manhã. O smartphone tocou algumas vezes, avisando da chegada de mensagens. Miiko, meio sonolenta, alcançou seu telefone e desbloqueou a tela, achando estranho ouvir aquele toque àquela hora. Estava em dúvida se havia realmente tocado, ou estava sonhando com aquilo. Pelo sim, pelo não, era melhor checar.
Deparou-se com notificações acusando mensagens enviadas por Eimi via WhatsApp.
Será que ela havia lhe mandado alguma mensagem depois daquele vácuo de mais cedo? Eimi, desde que fora atacada pelo maníaco naquele fatídico dia, nunca mais voltou a ser a mesma, e um dos sinais era deixa-la frequentemente no vácuo durante as conversas.
Abriu o aplicativo e tocou na conversa com Eimi.
“Eimi [03:30:22]: Miiko-chan... Me perdoe se em algum momento te deixei chateada...
Eimi [03:30:50]: Eu só quero te agradecer por tudo o que vivemos desde que nos conhecemos.
Eimi [03:31:20]: Obrigada por tudo, Miiko-chan... Nunca vou te esquecer...
Eimi [03:31:59]: Não espere que eu chegue à escola... Já não estarei mais neste mundo. Já terei decolado para o além.
Eimi [03:32:18]: Adeus, Miiko-chan...”
Por alguns segundos, Miiko ficou numa espécie de catatonia, encarando a tela do telefone até que ela se apagasse por si só. Porém, um “clique” veio à sua mente, em meio a recordações das últimas conversas que tivera com Eimi. Conversas essas em que sua amiga volta e meia se dizia cansada de viver, e não aguentava mais carregar o fardo de uma culpa que lhe era imputada injustamente por aquele incidente.
Certa feita, Miiko vira o telefone de Eimi com o WhatsApp aberto em uma conversa estranha sobre decolar, partir, desafios, dor, automutilação... Tentara descobrir algo, mas a garota estava cada vez mais retraída e arredia. Percebeu que ela precisava de ajuda, mas não conseguira fazê-la entender que estava com um problema grave.
A cada dia, Eimi estava mais distante de Miiko... Ela estava refém da depressão e, ao que tudo indicava, estava em um desafio macabro, que, segundo as notícias em jornais, TV e internet, ceifavam as vidas de pessoas como ela, e como Katsuya.
Tentara de todas as formas tirar da cabeça de Eimi essa ideia de que a morte seria a solução, mas...
“Já não estarei neste mundo. Já terei decolado para o além.”
Miiko logo se levantou, trocou-se rapidamente e saiu de seu quarto, indo ao quarto de Tatsuo. Precisava ir rapidamente atrás de Eimi, ou poderia ser tarde demais! Chamou de forma persistente pelo irmão, até conseguir acordá-lo. Precisava ser rápida, e isso só seria possível indo de moto.
Conseguiu convencê-lo da urgência que era encontrar Eimi em plena madrugada e, após se trocar, pegou a moto e os dois correram o máximo que puderam até a Biblioteca de Sakumachi, que era uma construção cujo telhado era bem alto. A Biblioteca era o local favorito das duas amigas, conheciam muito bem o local.
Miiko desceu rapidamente da moto, tão logo Tatsuo a parou e se desfez do capacete. O rapaz também fez o mesmo e correu atrás da irmã, que viu contra a luz da lua cheia a silhueta de outra garota.
― Eimi!! – ela chamou. – Não faz isso!
O apelo não adiantou. O corpo da garota balançou para a frente, começando a fazer sua trajetória descendente, para desespero dos irmãos Kanasawa.
― EIMI!! – o grito de Miiko ecoou.
Após isso, ouviu-se o som de um corpo colidindo com o chão e, em seguida, um berro aterrorizado irrompeu da garganta de Miiko.
*
Abraçada ao irmão na moto, Miiko não conseguia esquecer a cena terrível que presenciara na véspera. Foram dois meses de agonia que culminaram naquela cena trágica e assustadora, que marcaria o fim de uma amizade que era tão sólida. Tentara evitar de todas as formas que estavam ao seu alcance que chegasse a esse ponto, mas não conseguira.
Saíam, naquele momento, do funeral de Minazuki Eimi, logo que acabara. Durante todo o trajeto, os irmãos guardavam o mais profundo silêncio, ainda sob o efeito do que ocorrera na noite anterior.
Pelo retrovisor, Tatsuo via a expressão abatida da irmã caçula. Mesmo que ela fosse forte emocionalmente, a morte de Eimi fora algo chocante demais... Não só para ela, mas também para ele. Não sabia como havia conseguido ter a calma necessária para ligar para a polícia e para a equipe de resgate, pois fora a coisa mais terrível que já presenciara em toda a sua vida.
Nem podia comparar com a morte dos pais, visto que ele e Miiko não estavam junto a eles no dia do acidente, logo não presenciaram tal tragédia. À época, estavam na casa dos avós, pois eles iriam passar um fim de semana a sós para comemorarem o aniversário de casamento.
De todo modo, uma perda era uma perda. Dolorida, sofrida e dura de superar.
Ambos passaram o resto da madrugada em claro, na delegacia, depondo à polícia sobre o que testemunharam. Contaram tudo o que sabiam e o que viram, da forma mais detalhada possível. O que Miiko não conseguia contar a respeito da morte de Eimi, Tatsuo contava. Ele sabia do drama envolvendo a Minazuki, pois sua irmã compartilhava praticamente tudo.
Foram dois meses terríveis, desde que Eimi fora atacada e estuprada por um maníaco em um beco a caminho do restaurante da família. Segundo Miiko, quando a visitara, a amiga estava em estado de choque e não queria que ninguém se aproximasse, pois se sentia imunda.
Alguns dias se passaram, e Eimi tentou voltar à rotina. Não conseguia mais manter o mesmo padrão no aprendizado e, para piorar, alguns faziam troça com a garota e faziam comentários maldosos e até mesmo misóginos – além de perguntas extremamente desconfortáveis.
A coisa chegou a um ponto em que Eimi não quis mais ir à escola. Miiko procurava ajudar de todas as formas a amiga a se recuperar, juntamente com os Minazuki. Eimi começava a ficar mais reclusa e arredia, além de mudar seus hábitos – chegando até mesmo à automutilação, cujas marcas Miiko vira por um descuido.
Eimi não era nem sombra do que fora antes.
Tatsuo vira todos os esforços de sua irmã para ajudar a amiga e o quanto ela tentou, até o fim, evitar o pior.
― Miiko – quebrou o longo silêncio. – Quer passar em algum lugar antes da gente chegar em casa?
― Pode ser. – ela respondeu apenas por responder.
Tatsuo fez uma parada breve em uma loja de conveniência e comprou algo para comerem. Não demorou muito para chegarem em casa. O resto da tarde e o início da noite foi de poucas palavras trocadas entre ambos.
Era compreensível, devido à tristeza e ao cansaço depois de tudo o que acontecera.
Um pouco mais cedo do que o habitual, os irmãos se recolheram aos seus respectivos quartos. Precisavam descansar, realmente. Um deu boa-noite ao outro. Miiko adentrou seu quarto e logo foi se deitar em seu futon.
Talvez tivesse uma boa noite de sono para poder se refazer um pouco de tudo o que aconteceu. Estava cansada física e emocionalmente e precisava dormir.
*
Seu smartphone tocou. Miiko procurou com a mão até encontra-lo. Ao desbloquear a tela, viu que eram duas e quarenta da madrugada. Estranhou.
Quem iria mandar uma mensagem de WhatsApp àquela hora?
Por hábito, decidiu checar e abriu o aplicativo, deparando-se com a seguinte mensagem de um número completamente desconhecido:
“De que adianta tentar se encaixar nos padrões podres e intolerantes da sociedade? Isso só causa sofrimento e dor em quem é diferente. Você é diferente. Vamos jogar para esquecer a dor que a sociedade nos causa?”
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