O Jogo do Diferente
5 Sobre mensagens e chips
Hiroji já estava, desde cedo, debruçado no último suicídio envolvendo o tal “Jogo do Diferente”. A nova vítima se chamava Minazuki Eimi e tinha dezesseis anos. Uma garota muito inteligente e dedicada, que desejava ajudar a tocar para frente o restaurante da família. Tinha boas notas, era apegada à família e tinha uma amiga confidente, cujo nome era Kanasawa Miiko.
Essa garota, junto com seu irmão mais velho, havia testemunhado o suicídio da Minazuki. Miiko tivera dificuldade em responder aos questionamentos, devido ao choque do qual estava saindo aos poucos. Era normal, após terem presenciado algo tão trágico. O irmão mais velho, Tatsuo, fora quem conseguira detalhar com mais precisão o momento exato do ocorrido.
Procurara conduzir os depoimentos dos irmãos de tal forma que não os pressionasse tanto, mas, ao mesmo tempo, obtendo o máximo possível de informações a respeito do comportamento de Eimi e as razões que a levaram a dar fim à própria vida. Teriam que trabalhar com os relatos dos irmãos de início, pois, os familiares da jovem estavam ainda muito abalados para prestar qualquer esclarecimento.
Tanto ele como a força-tarefa concordavam que prudência era tudo, e que essa onda de suicídios já estava o tempo todo na mídia nacional. E, o melhor era aguardar até a poeira baixar um pouco e evitar a exposição excessiva das pessoas que conviviam com as vítimas dessa onda de suicídios que assolava Sakumachi.
Sakumachi, com o decorrer do tempo e com o incremento progressivo do número de jovens se suicidando, havia ganhado um nada honroso título pelo qual passava a ser conhecida no país. Era chamada de “Cidade Maldita”, ou de “Cidade dos Suicidas”.
Inúmeras reportagens de rádios, TVs e portais de notícias da web buscavam explicações para tal fenômeno que ocorria na cidade. Mostravam as opiniões dos especialistas, como peritos, psicólogos, que faziam alertas massivos no tocante ao “Jogo do Diferente” e quanto a possíveis mudanças de comportamento dos adolescentes e jovens.
Por um lado, isso ajudava a buscar uma redução dos casos. Mas, por outro, surgiam as notícias sensacionalistas baseadas em boatos e era trabalhoso esclarecê-los, e ele estava à frente dessa tarefa de fornecer informações corretas e desmentidos.
Era muita coisa ao mesmo tempo.
Já quanto à sua vida particular, pouco a pouco as coisas começavam a entrar em seus eixos. Ryuhei despertara do coma há pelo menos uma semana, o que já deixava tanto ele como Keiko bastante aliviados. O garoto ainda estava meio confuso e retraído. Confuso, por ainda não conseguir assimilar bem o fato de ter ficado mais de três meses desacordado depois de quase morrer. E estava retraído, na verdade parecia envergonhado pelo o que fizera, mas ainda não conseguira ter coragem de falar a respeito.
Além disso, Hiroji e Keiko não queriam pressionar o filho para falar a respeito, preferiam esperar que ele falasse por si só. Mas, dava a sensação de que ele até queria conversar sobre sua tentativa de suicídio, só que não conseguia reunir coragem para tal. Isso também mostrava que o jovem estava consciente, e que não afetara seriamente as suas faculdades mentais. Entretanto, eram necessários mais exames para checar se houve alguma sequela, mesmo que sutil. A princípio, era precoce ainda qualquer conclusão, mas tudo indicava que ele teria uma boa recuperação.
Keiko continuava licenciada de seu trabalho, mas Hiroji não pudera fazer o mesmo. As investigações exigiam muito dele, mas mesmo assim, fazia tudo o que estava ao seu alcance. Ambos procuravam se dedicar mais ao filho, não só por recomendações dos médicos que o acompanhavam, mas porque sentiam que Ryuhei precisava deles.
E Hiroji estava ainda mais determinado a ajudar a descobrir o responsável ou responsáveis por essa maldita onda de suicídios.
― Com licença – a voz da jovem Ruriko o tirou de seus pensamentos.
― Pode entrar, Inagaki-san.
Ruriko adentrou a sala, sentando-se na cadeira à frente da mesa de Hiroji e, sobre ela, colocou seus relatórios, incluindo a transcrição das conversas entre Minazuki Eimi e uma pessoa desconhecida, que se apresentava simplesmente como “Tutor”, e as conversas entre a garota e Kanasawa Miiko.
― Ohta-san – Ruriko disse. – Fiz a transcrição das conversas do WhatsApp de Minazuki Eimi, conforme pediu. As conversas mais interessantes, além das que envolvem a família, são as que envolvem Kanasawa Miiko e um certo “Tutor”.
― “Tutor”?
― É como a pessoa se identificou para a garota Minazuki... E para os outros jovens suicidas.
― Foi possível detectar o telefone de origem do tal “Tutor”? Geralmente um número de telefone é associado ao usuário do WhatsApp.
― Infelizmente, não. Para cada vítima, o “Tutor” usou um número diferente de telefone. Ao fim desses contatos, quando há o suicídio, parece que ele ou ela se desfaz do número e usa outro número completamente diferente para um novo contato.
― É surreal imaginar alguém adquirindo mais de quarenta chips de telefone para fazer esse tipo de coisa.
― Com certeza. – Ruriko concordou. – Mas, conforme o que consegui apurar com o meu sistema, identifiquei cada número vinculado a uma conversa com uma vítima diferente. Ou essa pessoa está fazendo uma grande compra de chips de telefone celular, ou usa algum artifício para mudar o número e dificultar a identificação.
― É realmente algo muito estranho... – Hiroji comentou, enquanto tirava os óculos de grau e esfregava os olhos. – De todo modo, alguma forma é usada para evitar rastreamento... E isso está sendo feito com sucesso.
Olhou para a mesa com os relatórios e quedou-se pensativo por alguns instantes. Em seguida, rompeu o breve silêncio:
― Inagaki-san, lerei os relatórios mais atentamente e verei que medidas tomaremos para avançar nas investigações.
― Tudo bem – Ruriko assentiu, já se levantando da cadeira. – Qualquer dúvida, é só me chamar. Procurarei verificar com mais profundidade a respeito desses números de telefones usados pelo “Tutor”.
*
“De que adianta tentar se encaixar nos padrões podres e intolerantes da sociedade? Isso só causa sofrimento e dor em quem é diferente. Você é diferente. Vamos jogar para esquecer a dor que a sociedade nos causa?”
Miiko dormiu e acordou intrigada com aquela mensagem que recebera de madrugada. Era um número que não estava em sua agenda de contatos e lhe enviara aquela estranha mensagem. Aquilo a deixava pensativa e na dúvida se deveria responder ou não.
Lembrava-se de que fora um suposto “jogo” que levara Eimi à morte. Não só ela, como outras quarenta pessoas, conforme se noticiava com frequência.
“Caso algum de vocês receba alguma mensagem estranha, reporte-nos. Não caia na mesma armadilha que sua amiga e tantos outros da sua idade caíram.”
Lembrou-se das palavras do homem que tomara seu depoimento, cujo nome era Ohta Hiroji. Ele parecia demonstrar alguma preocupação, ao mesmo tempo que fazia a recomendação-padrão dos policiais para tentar evitar suicídios.
Era algo intrigante. Miiko encarou aquela mensagem aberta no seu telefone por mais um tempo.
Por que a convidariam para um “jogo”, para esquecer a dor causada pela sociedade?
― Ei, Miiko – a voz de Tatsuo a pegou de surpresa. – Por que olha tanto para esse telefone?
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