O Instinto

1 My heart was never pure


Notas iniciais
Titia Thaís voltou, gente!

Pra entenderem melhor como essa fic funciona, PLEASE, leiam o Disclaimer. Cada capítulo será como um flash da noite em questão, e os conflitos serão revelados aos poucos.

Estou usando a 2ª pessoa porque fica mais direto e agressivo que a 3ª. Acho que não tá difícil de entender. Qualquer coisa, me falem. Juro que sou legal!

Esse capítulo é mais pra situar vocês em como está o relacionamento de Megavi. No capítulo que vem, começa a coisa boa (vulgo PUTARIA).

Reviews são VIDA, podem me encher delas! Beijinhos.

UM:

… and man is a giddy thing.

Pergunto-me aonde chegamos e aonde vamos parar. O que estamos fazendo um com o outro?

É apenas mais uma noite em nossas vidas. Estamos deitados na tua cama, de onde mal saímos desde o terrível acidente que lhe tomou a visão emprestada; falo assim pois tenho certeza que esse teu estado não é eterno, e, por isto mesmo, somente um estado, breve como tantos outros.

Ao menos, é o que eu acho.

Continua sendo apenas mais uma noite em nossas vidas. As pequenas carícias que riscas ao longo de meu peitoral não irão mudar esse fato — são as mesmas de todo dia. O modo como tentas enroscar tuas pernas nas minhas também é vazio à coisa toda, senão um tanto incômodo. Não me pediste uma singela sessão de leitura antes de dormir? Obedeci a ti, como sempre, e é exatamente isto que busco fazer em meio às distrações de tua carne. Não me julgues se não estou a dar-te todo o calor de que necessitas como a mulher carnal que és. Nunca estive bem à tua altura, deves saber. Apenas rogo que sejas piedosa comigo; por favor, não percas a paciência com esse pobre vassalo.

Deixa-me prosseguir. É mais fácil.

Sob a iluminação doente do abajur tenho em mãos esse livro lá de certa idade, cujas páginas desbotam da espinha direto em minhas mãos. Divido-me entre remendar a obra e enunciá-la com o cuidado digno de um recital. Imagino que gostes assim, ainda que tua expressão muito grave não denuncie nenhum sentimento.

Sendo assim, até o dia fatal de cerrarmos os olhos
não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade
antes dele cruzar as fronteiras da vida inconstante
sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento!
FIM

Fecho o livro com pesar. Na capa, o título Édipo Rei1 destaca-se na forma de letras descascadas.

Dás uns aplausos, momento em que a toalha a te envolver escorrega um tantinho. Não percebes, óbvio, mas eu tenho plena noção do seio que ameaça escapar dos confins do tecido, e não faço esforço para alertar-te.

“Esses aplausos são pra mim ou pra peça?”

Teus lábios desenham um sorrisinho ao mesmo que deslizas um dedo até a bainha de minha bermuda, desfazendo o caminho com a mesma rapidez que o perseguiu. Silêncio por uns minutos.

“Posso te contar uma coisa que vim pensando ao longo dos anos, Davi?” Finalmente tua língua dispara a falar, o que não é pouco exagero de minha parte — estás um tanto discreta para teu padrão, na verdade. Murmuro que continues.

“Eu acho que, no final de tudo, sempre terminamos meio Édipo.”

Uma de minhas sobrancelhas salta até a metade da testa.

“Apaixonados pela mãe?”

“Quem dera. Mom seria meu casamento dos sonhos.”

“Assassinos do pai?”

“Oh, sorry, Jonas Marra, mas quem dera também.”

“Você está me assustando.”

“É meu subconsciente falando, darling.” Dás de ombros, tateando em busca da caixinha de Marlboro2 cuidadosamente a teu alcance sobre o colchão. “Me ajude aqui.”

Com um suspiro, tomo o isqueiro e levo até o cigarro que já correste a prender na boca. Uma, duas tentativas e ele está aceso, pronto para que inicies a tragar. Fazes pois isto: para dentro e para fora, para fora e para dentro. Fico assistindo a cada movimento de teus seios com deslumbre quase virginal. Não recordo a última vez que toquei ou beijei tua pele nua. Talvez tenha sido uns dias antes do horrível acidente. Não sei. Prefiro não contar as semanas. Prefiro continuar te observando.

Estás um pouco Brigitte Bardot3, não tardo a notar: a lourice dos cabelos, o rosé da boca, o escarlate da toalha. A cena é linda — tu és linda —, mas assusta-me. A verdade é que tua grandeza intimida-me. De repente, já não consigo mais te olhar. Abro espaço entre nossos corpos e torno a deitar-me com o umbigo devidamente apontado para o teto.

“Por que somos todos Édipo?" questiono meio incerto. "Não vai desenvolver sua tese?”

Olho de esgueira para ti. À referência de frase tão emblemática saída de tua própria língua, mal mexes as feições, senão para expulsar a fumaça da boca. Terias percebido que me afastei? Deixe-me corrigir tal suspeita: tomo tua mão.

“Ah, that.” Teu esquecimento soa casual demais para que eu acredite nele. Aperto a mão com ainda mais força, como se estivesse a extrair fração por fração de teus sentimentos, banhando-me neles. Continuas a não esboçar reação. “Porque não aguentamos o peso da verdade. Passamos tempos fugindo dela, pois é trágica demais. O problema é que não há como negá-la para sempre, e quando chega o dia de prestar contas… Cegamos a nós mesmos pra não enxergar as merdas que fizemos.”

Arrematas teu argumento com uma baforada das mais teatrais. Largo tua mão.

“É isso mesmo que você acha?”

“Sim. Você não concorda?”

Estalo a língua.

“Acho um pouco… pessimista demais.”

Soltas essa gargalhada um tanto esquisita — sádica, eu diria? — e meus pelos crispam ao mero som. Volto a encarar-te, e lá estás a mexer e remexer a cigarrilha entre os dedos, jamais temendo que aquela pontinha incandescente desprenda-se e caia bem sobre tua pele.

“O que você acha que a vida é, Mr. Reis?” desafias. “Um yellow submarine?”

“Bem, Ms. Marra, só sei que certamente não é uma tragédia.”

Pausa para o silêncio.

“Me dê o cinzeiro.”

Obedeço. Esfregas o cigarro contra o dito objeto. Enfias o corpo entre as cobertas.

“Você que pensa, Davi.”

Metes a cara no travesseiro e deixa para mim a digníssima tarefa de apagar a luz.

Olho o relógio. Não são nem dez horas ainda. Eu próprio me escondo sob os lençóis.

É apenas mais uma noite em nossas vidas. Estamos deitados na tua cama, de onde mal saímos desde o terrível acidente que lhe tomou a visão emprestada.

Ao menos, é o que eu acho.

Notas finais
[1] Se não souberem muito sobre a peça Édipo Rei, aqui tem um resuminho malandro: http://www.lendo.org/edipo-rei/

[2] Acho que essa imagem da linda Brigitte no filme 'O Desprezo' tem muito a ver: http://www.metronews.fr/_internal/gxml!0/r0dc21o2f3vste5s7ezej9x3a10rp3w$hk74chlm96w2zjcjf5yl1lgh1lenlfo/sipa_00521279_000008.jpeg

[3] Acho que eu não preciso nem dizer que tô homenageando Monomania aqui. Volta Nymeria (NÃO ME PROCESSA PELA MEGAN FUMAR, NYMERIA KKKKKK).

O próximo capítulo será ozado, ou seja, tragam o estoque de calcinhas.

Apenas relembrando que reviews são mais gostosas que as encoxadas que o Carrão dá na Belle - acreditem ou não!

Vlw flws, mamãe ama vocês.