O Hotel Shell (Hiatus)
4 Licantropo
Nicolau Kraves, o líder da maior e mais poderosa matilha europeia, era, assim como o título lhe incumbia de ser, uma figura imponente. Um homem com quase dois metros de altura, ombros largos e um rosto impassível coberto de cicatrizes, bem como o resto do corpo; algumas destas causadas pelo próprio Erik, que não hesitaria em causar mais algumas; pra ser sincero, ele adoraria. E enquanto Erik, prostrado atrás da enorme mesa de carvalho de seu escritório divagava sobre quanto tempo levaria para furar os olhos verdes e incisivos de Nicolau com o bico dos sapatos de couro que usava, o segundo homem, o que não pertencia àquele ambiente, permanecia de pé, numa postura tensa, mas ainda assim relaxada demais para alguém que sabia estar sob a ameaça eminente de ser atacado premeditadamente, ainda que ele soubesse.
Mas era sempre assim, não era? Vampiros e licantropos eram inimigos naturais e aquela rivalidade era tão ou mais imortal quanto eles mesmos, e os dois homens nunca deixariam de tentar imaginar uma maneira de matar um ao outro, ainda que conseguissem manter um tênue véu de pacificidade enquanto no mesmo cômodo, tudo por causa do tratado. Tratado este diretamente relacionado com aquela incômoda visita, Erik sabia bem, mas de qualquer forma não conseguia deixar de se sentir incomodado com o olhar do outro sobre si.
—Eu sou tão bonito assim, Nicolau?—perguntou cínico, depois de intermináveis minutos de observação mútua.
—Belos olhos, alma podre.—o homem respondeu, sem pestanejar.
—Sua sinceridade é um bálsamo, Nicolau; então... Por que não faz bom uso dela e me diz o que quer?
—Você sabe o que eu quero.
—Um ossinho?—Perguntou sarcástico.
—Resultados!—As mãos que se espalharam sobre a mesa eram grandes e visivelmente dedicadas à caça e a guerra, cobertas de cicatrizes claras, como pequenas linhas brancas envolvendo a pele áspera, e vieram com força o suficiente para abalar a estrutura do móvel. Erik, no entanto, não se abalou.
Estavam agora cara a cara, o vampiro e o licantropo, fúria nos olhos e rosnados presos nas gargantas, como nas antigas batalhas, mas Erik — infelizmente- não podia simplesmente atacar o outro, ou tudo aquilo teria sido em vão.
Nicolau parecia seguir a mesma linha de raciocínio, pois logo endireitou a postura e respirou fundo, jogando- se de qualquer jeito numa cadeira de couro perto da mesa que quase quebrara segundos atrás
—Olha, Erik—Nicolau retirou de um bolso da calça um maço de cigarros e um isqueiro, e continuava falando enquanto realizava o bom e velho processo de acender, tragar e soltar a fumaça.—Eu entendo a sua situação aqui. Não queria, mas entendo. É... Difícil controlar toda uma horda de criaturas, sejam os seus ou os meus, mas você estava ciente disso quando assinou o tratado- pelo menos, é o que eu espero- e se comprometeu a arcar com a responsabilidade. Então, Erik...—estava se levantando agora, caminhando lentamente em sua direção, a capa de pele de lobo albino oscilando conforme os movimentos do homem que a trazia nas costas como um adorno digno de sua posição.—Tome responsabilidade. Arque com as consequências, porque essa é a sua única opção , e não pense que é uma ameaça, apesar de ser em partes. Não, Erik, a questão vai muito além de mim , de você ou do dever como líder. Você é um vampiro Erik, um ser traiçoeiro e ardiloso que pensa como os seus , então ponha-se no lugar deles. —Estava se curvando sobre a mesa novamente agora, os olhos verdes brilhando em deleite ao ver o vampiro tão encurralado quanto os dois sabiam que ele estava—Se um de vocês desrespeita o líder — não, toda a hierarquia e sai impune, quanto tempo vai levar para que os outros tentem a sorte?—ele estava certo. Por todos os lordes, aquela besta descomunal estava certa e Erik sabia, mas aquele era apenas mais um motivo para que seu rosto atemporal permanecesse inexpressivo.
Mas nem toda a falta de expressão do mundo seria capaz de disfarçar aquela tensão, quase visível, pairando como uma névoa ao redor deles. A névoa, porém, se dissipou rapidamente quanto três batidas na porta se fizeram ouvir.
—Entre—disse Erik, enquanto Nicolau se punha ereto outra vez e direcionava o olhar para a porta que se abria, dando passagem à três vampiros; Uma asiática pequena de aparência frágil, um único homem e uma mulher de traços fortes, postura atrevida e cabelos peculiarmente róseos.
—Desculpe a intromissão Líder, mas trazemos os relatórios de buscas —quem se pronunciou foi Maki, e Erik quase deu graças a um deus em que não acreditava por isso, não aguentaria o sarcasmo de Fergus e tinha certeza de que se Eduarda se pronunciasse, não seria algo de útil.
—Me parece que temos aqui um assunto de meu interesse—disse Nicolau, a voz subitamente mais suave, e Erik tinha certeza de que não era dirigida à ele.—Não se preocupe comigo, prossiga, Hime.—Maki arregalou os olhos, surpresa e constrangida, talvez lisonjeada? Erik tinha certeza de que Nicolau esperava que sim, fosse aquilo um jogo de provocação ou não.
—Bem...—ela começou, incerta e Erik já sabia o que estava por vir, mas valeria a pena ver se o Licantropo manteria a mesma postura dócil —infelizmente, senhor, as buscas foram infrutíferas. Não encontramos nada.
—Oh, não é de todo verdade!—E o desastre estava por vir quando Fergus se pronunciou—Eduarda encontrou mais um de seus playgrounds em ruínas.
—Calado,Fergus!—vociferou a supracitada vampira.
—Já chega!—Erik levantou a voz e também o corpo, pondo-se de pé.—Como pode ver, senhor Kraves, infelizmente ainda não temos o que o senhor deseja, então eu peço educadamente que me dê algum tempo para resolver este... Probleminha.
—É engraçado.—Disse Nicolau—Eu poderia contestar, dizer que você literalmente tem todo o tempo do mundo, e no entanto, isso não me parece tão certo agora. Damas, cavalheiros, eu espero não voltar a vê-los tão cedo.—dizia ao se retirar, tão abruptamente quanto se fez presente. —Embora alguns motivos valham a pena—foi tudo o que disse antes da porta pesada de madeira fechar atrás de si.
—Parece que Maki ganhou um cão de estimação—comentou Fergus, alguns minutos depois que o Licantrope deixou o cômodo.—O que ele estava fazendo aqui?
—Diplomacia...—Erik se limitou a responder, se jogando sobre a cadeira .
—Hum...—Fergus parou por um instante, analisando a nova ( e única ) rachadura subindo pelo pé da mesa —Não parece que foram muito diplomáticos—murmurou para si mesmo, afinal, já era de se esperar algo do gênero quando se tratava de dois dos maiores líderes do mundo sombrio europeu.
* * *
Quando Hansel chegou no que hoje chamava de lar naquele fim de tarde, estava com um incrível bom humor. Bom humor este atribuído às atividades nada castas com as quais gastara o dia, porém, ao encontrar Gabriel prostrado na entrada do hotel,ele sabia que a alegria iria por água abaixo junto com a chuva que corria pelo terreno abandonado. Não era uma questão de não gostar de Gabriel, era mais uma questão de não encontrar maneira alguma de lidar com um adolescente centenário e rebelde.
—Sabe Hansel, eu nem precisaria do olfato de vampiro pra saber que você está cheirando a vinho e perfume masculino barato.
—Que observação inteligente, Gabriel. E você também apostaria que se eu fosse humano, estaria coberto de chupões ,não é?—Foi uma pergunta retórica, proferida enquanto Hansel entrava no saguão, se livrando da jaqueta molhada e soltando o cabelo escuro do rabo de cavalo que o prendia.
—Bem, é você quem está dizendo. O que eu não entendo é como, com tantas vampiras lindas por aí você sempre acaba na cama de um humano, homem.—Disse, dando ênfase na ultima palavra. Hansel não precisava se virar para saber que ele o seguia de perto, e no entanto o fez quando chegou no meio da escadaria.
—Me diz Gabriel ; você tem algum interesse romântico ou carnal em mim?—perguntou, ao que o outro ficou estático—Não foi uma pergunta retórica, responda.
—É claro que não!
—Então, com quem eu deito ou deixo de me deitar não é da sua conta.
Não deu margens para resposta, seguiu o seu caminho para o próprio quarto, suspirou cansado. Não bastava todos os problemas que tinha para resolver, ainda era obrigado a passar por estas situações em que tinha sua sexualidade contestada. Mas não reclamaria, afinal, era o fardo que tinha de carregar por nutrir aquele maldito instinto paternal pelos outros (bem, quase todos).
—Dia difícil? —uma voz perguntou, e Hansel levantou a cabeça pra dar de cara com Piper sentada sobre uma viga exposta do teto, balançando as pernas.
—O dia foi ótimo, difícil foi a chegada.—disse. Não era uma explicação muito precisa, nunca era quando se tratava deles, e mesmo assim as pessoas com quem mais se abriam eram um com o outro.
Com um só pulo e sem hesitar, Piper aterrissou no chão perto de Hansel e sem mais uma palavra, os dois seguiram pelo corredor.
—Sabe, as vezes eu quase me arrependo disso tudo. Do hotel, dessa... Família? Eu nem sei como chamar isso!
—Ah nossa! Eu sabia que o Gabriel é irritante, mas a ponto de te fazer desistir?
—Eu disse quase,Piper. Não, na verdade eu não me arrependo. Eu não iria aguentar a eternidade sem umas pestes em volta.
—Isso... Tem alguma coisa com o seu passado?—Piper estava pisando em campo minado, sabia disso, mas não conseguia evitar quando Hansel tinha aquele olhar distante. Ele hesitou por um instante, antes de lhe sorrir e desarrumar os cabelos coloridos dela
—Não, só com o meu complexo paterno de velho babão—ele disse, repetindo o que Alice lhe dissera uma vez.—Obrigado pela companhia, cavalheiro—completou, ao que Piper percebeu estarem em frente ao quarto que o homem de cabelos longos ocupava—é perigoso para uma dama caminhar sozinha por estas bandas.
Piper deixou escapar uma sonora gargalhada que ecoou pelo corredor, e então se abaixou numa reverencia, tomando a mão do homem que interpretava o papel de uma dama entre as suas e a beijando.
—Certamente que sim, dizem que há vampiros pelas bandas. Mas saiba, minha dama, que eu não deixarei nenhum mal lhe afligir.
—Oh, meu herói!—Ele disse com uma voz exageradamente aguda enquanto empurrava a porta com o próprio corpo e então sumiu quarto adentro.
Quando toda a graça daquela brincadeira se tornou somente uma memória agradável em sua cabeça, Piper se afastou pelo corredor, cantando baixinho
When oblivion... Is calling out your name... You always take it further... Then i ever can...
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