A Cidade Franca nem de longe poderia ser comparada à grandiosidade de Ghis ou mesmo de Astapor. Algumas mansões de pedra, portos relativamente bem desenvolvidos e muitas carruagens ocupavam aquilo que pretendia ser o coração de todo o mundo valiriano. Fora da cidade, quase não se via gente, exceto pelos escravos, camponeses e os próprios Senhores de Dragões. Enormes propriedades agrícolas se estendiam até onde a vista alcançava, e sobre elas pairavam enormes dragões.

Lell conhecera um valiriano em Ghis, aquele tal Jaemon Lyyr. O homem era velho e debilitado, mas possuía uma inteligência que poucos homens sonhariam em ter. Também conhecera o escravo Clerion, mas ao belo rapaz faltava toda a esperteza do velho, bem como a capacidade de conversar. Jaemon explicara a Lell quase tudo sobre o mundo de onde viera, que, em comparação com o mundo ghiscari, era pouca coisa. A Valíria de Jaemon era um conjunto de povoados de criadores de ovelha e agricultores, com uma cidade principal, onde ocorriam as relações comerciais e onde os nobres viviam. Mas os tempos mudaram, e agora havia dragões.

Graças à ignorância de Karkzan Yozz Argazz, os três primeiros ovos de dragão haviam sido chocados pelo calor das chamas de um vulcão. O primeiro Senhor de Dragões estava morto, tal como seus três pupilos, mas agora, quase catorze anos depois, centenas de outros dragões haviam nascido. Cada animal que chegava à maturidade voava para os vulcões e punha seus ovos, e, em menos de uma lua, um pequeno lagarto de fogo surgia. Os homens mais habilidosos eram capazes de domesticar esses animais, e, depois de dois ou três anos, eles já estavam suficientemente grandes para serem montados.

Os Senhores de Dragões agora voavam pelas redondezas cuspindo fogo e conquistando terras alheias, plantando e cobrando impostos de outros povos. Eles se tornaram a nova nobreza de Valíria, cada um com seu Nome e seus anéis, e não mais se concentravam na Cidade Franca, mas cada um em suas terras. Esses nobres ainda eram poucos, se comparados às tradicionais famílias latifundiárias, mas era claro para Lell que estes senhores viriam a dominar o mundo.

Lell decidira, pouco tempo após chegar a Ghis, que os Ulthi deveriam adotar os símbolos da nobreza entre seus líderes, e, como não houve objeção, criara para si mesmo e para os outros três líderes um anel de diamante incolor, assim como os olhos da Grande Harpia. Também Fez um anel de diamante azul para os maiores guerreiros e administradores de cada bando, totalizando trinta e cinco nobres. Os nomes de família escolhidos foram os nomes dos patriarcas. Assim, Kell passou a chamar-se Kellokk Kellokk, e Mormont era Mormont Mormont, assim como Angor era Angor Mormont. Liknell adotara o nome de seu soberano, tornado-se Liknell Karkzan. Os nomes serviam para ostentação do poder, mas não eram utilizados quase nunca.

Já fazia três luas que eles estavam na grande cidade de Valíria. Todos os ulthi haviam sido contratados para acelerar a construção e um enorme templo dedicado ao deus Vammenn, senhor do ouro. Os valirianos adoravam a cinco deuses supremos, e a mais de mil deuses menores. Os supremos eram, além de Vammenn, Yukkit, a grande mãe; Anpheris, senhor do mundo dos mortos; Hah, criador de tudo e grande juiz; e Gannay, protetor dos pobres e trabalhadores. As dimensões daquele templo eram maiores que qualquer outra construção em Valíria, e certamente maior que qualquer construção no mundo. Ao todo, trabalhavam naquela construção cerca de trezentos mil homens, mulheres e crianças, cada um recebendo uma moeda de cobre a cada vinte dias trabalhados, mas ainda tinham necessidade de mais mãos manejando pedras.

Lell, Kell, Mormont e Angor, em sua condição de nobres, estavam hospedados na enorme mansão do Senhor de Dragões Kahyr Laminnen, um homem jovem, mas enormemente gordo e simpático, que os recebera assim que chegaram à cidade. Outro nobre chamado Gharr Feny estava nos portos à procura de escravos, e se mostrara enormemente interessado nos galões ghiscari que vinham abarrotados de gente. Lell demorara quase uma hora para explicar a situação ao homem, que virara as costas amaldiçoando o que chamara de “selvagens invasores”. Logo que Feny saíra, viera um homem não muito alto e muito gordo vestido um enorme manto azul ornamentado com dragões dourados. Acima de ci pairava quase que silenciosamente um belíssimo dragão azul-escuro, quase da mesma cor do manto, com suas escamas cintilando à luz do sol.

- Estrangeiro! – chamara o Senhor de Dragões – Este anel na sua mão... você é nobre¿

- Sim, sou. – respondera Lell – no que lhe posso ser útil, lorde¿

- Ora, não há honra maior que abrigar nobres estrangeiros em minha mansão. – os demais nobres que vinham com Lell iam se aproximando – Este que vos fala tem a honra de ser Kahyr Laminnen, e eu estou patrocinando o projeto de uma construção magnífica. Creio que seus muitos passageiros possam trabalhar na construção do grande templo de Vammenn, e os senhores, nobres, podem ficar em minha casa pelo tempo que precisarem. – O homem tinha um rosto engraçadamente redondo, e falava sempre com um sorriso sincero. Possuía uma longa cabeleira loura muito clara, e seus olhos eram cor de fogo. Parecia que todos os valirianos tinham olhos de cores estranhas.

- Agradecemos por tudo, lorde. Ficaremos. – respondera Lell.

- Somos trinta e cinco. – Argumentara Angor – o senhor terá espaço para todos nós¿

- Temo que trinta e cinco seja uma quantidade demasiada. – respondera o homem, com uma tristeza cordial no rosto – Mas os de anel vermelho podem ficar nas mansões dos meus amigos, que são tão ricos quanto eu.

As três luas que se seguiram foram da mais pura calmaria no povo ulthi. A construção do templo de Vammenn estava muito acelerada, mas ainda estava longe de terminar. Os homens de pedra conviviam pacificamente com os valirianos – exceto por alguns conflitos de homens de Mormont com valirianos e outros ulthi. Certa manhã, Lell levantou-se de sua cama durante uma vermelhíssima alvorada. Seus aposentos eram grandes, não tanto quanto os antigos em Ghis, mas significativos. As paredes eram brancas e ornamentadas com dragões dourados, que, com a luz vermelha de Valíria, formavam um belo espetáculo de fogo.

Lell estava a caminho da copa, onde acompanharia seus amigos em uma refeição, quando passou por uma porta aberta, que costumava estar fechada. A velha curiosidade ainda existia naquele homem, e ele se esgueirou porta adentro. No centro do recinto estava o enorme Kahyr Laminnen, sentado em uma poltrona acolchoada com mais de três metros de largura, grande demais até para ele. Estava fitando as chamas de uma fogueira à sua frente, que lambiam uma peça ainda de forma indefinível.

- Chegue mais perto, Liknell de Assenhayy. – chamou Kahyr. – Sente-se ao meu lado.

Lell coube perfeitamente ao lado do homem na mesma poltrona gigante. A se sentar, viu que a peça era um rosto de madeira, predominantemente escurecido pela fuligem, mas era visível que o original era branco como o leite. O rosto parecia ser esculpido em uma casca de árvore, e tinha formas tão perfeitas e marcantes que provocaram certo espanto em Lell.

- Que bela peça, hã¿ — perguntou Kahyr. – bela não, horrível, aterradora. Mas é bela.

- Sim, sem dúvida. – concordou Lell. – É assustador, mas encantador. O que é¿

- Um rosto esculpido em árvore, das terras nebulosas do poente.

Lell estremeceu.

- Como... como é possível¿ — perguntou Lell.

- Uma expedição de aventureiros, há nove anos. Não fomos os primeiros, ah, não. Muitos, de muitas partes já tentaram, mas a névoa é tão densa quanto rocha, e os navios não conseguem alcançar.

- Já ouvi dizer que há uma ligação por terra.

- Eu também, mas os relatos que chegam do oeste indicam que essa passagem é ainda mais intransponível, Os rhoinares, que vivem mais próximos da suposta ligação, não avançam além das florestas nebulosas. Poucos sabem dessas passagens, sequer da existência desses povos selvagens, mas eu patrocinei diversas expedições.

- Se é assim tão impossível, como conseguiram o rosto¿

- Há nove anos, patrocinei uma viagem por mar, cujo capitão foi Vhagar Hastenn, desta vez saindo pelo sul, passado mais ou menos próximo a Sothoryos. Ele levou vinte e seis galés, num total de dois mil homens, mas somente três navios voltaram. Ouvi muitos relatos separados, e todos contavam a mesma história. Após uma eterna névoa de três dias, chegaram a uma densa floresta, provavelmente numa ilha, na qual havia enormes árvores de madeira branca e folhas vermelhas, nas quais estavam esculpidos rostos aterradoramente fascinantes. Como não foi possível cortar um tronco, me trouxeram o rosto. Depois disso, ninguém mais se lembrava de nada. Os três navios que voltaram vinham cheios de homens confusos e medrosos, como se dormissem no poente e só acordassem em Valíria.

Toda a história deixou Lell intrigado e imensamente curioso. Tudo o que ouvira até hoje a respeito das terras do poente fora que eram terras inalcançáveis e inóspitas, ou talvez sequer existissem.

- O senhor por acaso ainda tem interesse em patrocinar novas expedições¿- Lell perguntou a Kahyr.

- E por que haveria de tentar mais vezes¿ tive doze fracassos, todos terminando em perdas e mortes. Talvez um dia, quanto mais dragões estiverem crescidos, eu mesmo vá montado no meu Wlmat, junto com mais outros lordes aventureiros. Ainda não sou tão velho, sabe¿ Tenho vinte e oito anos, sei que ainda há tempo.

- Mas nunca é tarde para tentar pela última vez. Lorde, eu peço que me dê a capitania de uma missão. Sei que não o decepcionarei.

- Sabe¿ E o que sabe sobre governar navios¿

- Naveguei de Ghis até aqui.

- Se perdeu no caminho.

- Houve uma tempestade, e eu soube desviar dela.

- Bom, posso fornecer dez navios, não mais que isso. Você não é o único interessado, há capitães melhores na fila.

- Se for de seu desejo, posso ser um imediato. Que o capitão seja um navegante mais experiente.

- Se chegamos a um consenso, não vejo por que não. Enviarei cartas aos tripulantes que desejo contratar. Você será meu mensageiro. Enviará cartas sempre que algo acontecer. Sabe ler e escrever em valiriano, não sabe¿

- Sim, eu sei. Serei seu mensageiro, se é o que deseja, mas, nesse caso, não sou eu o responsável pelo sucesso da expedição.

O homem gordo se levantou, com uma facilidade que Lell teve dificuldade em acreditar ser possível, e, em meio a uma risada, respondeu:

- Ora, Liknell. Você me convenceu a patrocinar essa viagem. É claro que é o responsável.

Passaram-se duas luas até que todos os preparativos para a viagem estivessem feitos. Kahyr esteve muito ocupado com a construção do templo de Vammenn, mas, com o auxílio de Lell e de Maegor Garten, conseguiu acelerar a administração dos dois projetos, e hoje era o dia da partida. Estavam todos no maior barco, inclusive Kahyr, que desceria em instantes. Uma galé valiriana tinha metade do tamanho de uma ghiscari, e um oitavo do tamanho de um galeão. Eram inteiramente feitas de madeira, com uma densa cobertura de tintas coloridas. Milhares de dragões dourados sobre um fundo azul-escuro, pois este era o símbolo da Família Laminnen. Dentre os dez barcos, dois eram maiores que o resto, e um era maior que os outros dois, e lá iriam os nobres.

Kahyr chegara montado em seu dragão, imponente como nada mais no mundo. O azul das escamas do animal cintilava quase tanto quanto a mais pura prata, e ele cuspia fogo sempre que alguém se aproximasse, mas quase não fazia barulhos. Pousara silenciosamente no porto, aquele porto médio, bem menor que o de Ghis, e bem menos movimentado. Kahyr precisou da ajuda de quatro escravos para descer de seu dragão. Estava sentado sobre uma enorme cela de aço acolchoada, como uma cadeira que se prendia às costas e às asas do enorme animal. Na boca do dragão, um freio feito de pedra maciça estava amarrado, nas extremidades, a dois grossos cabos de aço valiriano, que funcionavam como as rédeas de um cavalo. Nada mais pode resistir ao fogo do dragão, pensara Lell. Uma escada de cinco metros de altura fora empurrada até se encaixar na cela, e Kahyr descera de lá, gordo e elegante como sempre, seguindo rapidamente para dentro da galé nobre.

- Vocês foram orientados, homens. – Disse Kahyr, olhando para sua tripulação mor. – Espero que tenham sucesso, e o mínimo de mortes possível. Ainda resta dúvida¿ — diante do silêncio, o homem fez uma reverência, deu meia-volta e desceu as escadas da galé em direção ao cais. Os escravos o ajudaram a andar até a escada, mas ele não teve dificuldades para subi-la. Ao que parecia, o homem ficava mais forte perto de seu dragão.

A fera era imensa. A parte inferior de suas asas era puro ouro, e, em todo o resto do corpo, um azul forte e pesado brilhava como o céu estrelado. Possuía vinte e seis metros de uma asa a outra, e, dos pés à cabeça, mais de sete. Saiu voando e desapareceu em meio às nuvens, com seu dono às costas. Lell imaginou qual seria a sensação, mas seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Maegor Garten.

- Senhor Liknell Arkrazz, sua presença é solicitara na cabine mor.

- Sim, claro. – respondeu Lell – Estou indo.

Maegor era intendente de navios, como Jaemon Lyyr já fora, há mais de cinquenta anos. Kahyr o contratara para auxiliar na administração e no planejamento do projeto, e agora ele iria como integrante da tripulação. No total, viajariam nos dez navios mil e quinhentos homens, dentre remadores, operadores de máquinas, leitores e fazedores de mapas, sacerdotes, intendentes e soldados, todos comandados por um grupo de cinco nobres, e, acima destes, o Capitão.

O Capitão desta expedição era Therion Alter, um nobre de família tradicional, alto e de aparência genérica, exceto pelo fato de não ter pelo algum no corpo. Ele fora Capitão da primeira expedição patrocinada por Kahyr, mas se perdera em meio a uma terrível tempestade, e encalhara na ilha de Naath. Lá, homens selvagens teriam capturado boa parte da tripulação, pretendendo comer sua carne. O tal Therion teria sentido seu copo incendiar numa fogueira, mas rolara por cima do fogo e, em meio à confusão da festividade que ocorria. Escondeu-se na mata e depois em um navio mercante que vinha de Asshai, e, para a sorte do homem, passaria em Valíria logo em seguida. Ele não possuía muitas marcas de queimadura, mas seu corpo liso indicava que certamente algo acontecera. Tudo isso Lell ouvira por meio de boatos, pois o nobre era muito calado, e seu comportamento não estimulava conversas.

Além do intendente e do Capitão, havia dois irmãos gêmeos idênticos, ambos baixos e magros, cabelos vermelhos em um tom escuríssimo, quase pretos, e um rosto estreitamente feio. Possuíam nariz longo e pontudo próximo demais aos pequenos olhos pretos. A boca era pálida e estreita, como se não existisse, e, quando falava era uma imagem realmente repugnante. Halter Javyr era o comandante mor, responsável por comandar os exércitos, no caso de qualquer conflito com um povo nativo, e Nuuset Javyr era o Mestre do Corpo, o único a bordo que estudara o corpo humano durante anos, e era capaz de curar as mais raras enfermidades e tratar de quaisquer ferimentos. Os mestres do corpo eram jovens de todas as partes de Essos que viajavam a Asshai, por volta dos oitos anos de idade. Nuuset retornara aos vinte e três, dez anos atrás, e sua função era a mais valorizada, até mesmo acima do Capitão.

A cabine mor era um enorme salão feito inteiramente de madeira. Não havia ornamentos nas paredes, apenas uma bandeira azul com um dragão dourado pendurada na parede, se estendendo nos três metros que separavam o teto do chão. Na parede havia apenas uma pequena janela, que dava visão para o mar e o porto. No centro da cabine havia uma mesa redonda de madeira rodeada por cadeiras simples, acolchoadas somente por pequenas almofadas azuis. O Capitão foi o último a chegar, sentando-se em uma cadeira como outra qualquer. Usava um grande manto vermelho, como era da cor de sua Família. Trazia na cabeça, como de costume, um grande gorro mole igualmente vermelho que chegava à altura dos olhos, que usava para esconder a ausência de cabelos na cabeça. Limpou a garganta e disse:

- Sejam todos bem vindos à expedição de lorde Kahyr Laminnen. Sou seu Capitão, mas como já fomos todos apresentados anteriormente, prefiro que tratemos dos assuntos de fato. Maegor, quanto temos em suprimentos e ouro¿

- O suficiente para três luas de viagem, mas creio que não seja necessário. – respondeu o intendente – Devemos parar para reabastecer nas florestas próximas ao Rhoine, e, ao que os relatos antigos indicam, as terras do poente podem nos fornecer alimentos.

- Prefiro não contar com isso. – interveio Liknell – Também baseado nos relatos, creio que não podemos confiar em nada que venha dessas terras nebulosas.

- Há quem diga que existe um povo selvagem habitando aquele lugar, mas ninguém, nem mesmo a expedição de Vhagar Hasteen. – disse Halter Javyr – Em todo caso, não sabemos o que nos espera, e não é somente a pessoas e armas que devemos temer.

- Sim, há também as doenças exóticas. – continuou Nuut Javyr. Ele tinha uma voz muito parecida com a do irmão, tornando quase impossível diferenciá-los. A única distinção entre os gêmeos era a cor do manto que usavam. Nuut vestia sempre algo dourado, enquanto Halter sempre estava prateado. – Quando estudei em Asshai, soube que em lugares distantes e selvagens sempre há fatores que matam das maneiras mais cruéis. Os primeiros viajantes que chegaram a Sothoryos sofreram de uma terrível enfermidade que fazia sangrar os olhos. Alguns asshai’i que estiveram em Ulthos trouxeram uma enfermidade que faz o corpo virar pedra. Só os deuses podem saber o que haverá no poente, mas sabemos que não estamos seguros de nenhuma maneira.

- Estamos seguros pelo ouro de lorde Kahyr. – interrompeu Therion, fazendo Lell começar a entender por que este homem era Capitão de Lamminen pela segunda vez. – Tudo o que precisarmos gastar, ou até mesmo comprar o favor de qualquer povo selvagem que viva por lá pode ser gasto por aqui. Maegor, ainda não pude ouvir de você. Quanto temos em ouro¿

- Dois mil milhões de dragões de ouro, mais quinhentos milhões de dragões de prata. Seria suficiente para comprar a milésima parte da Cidade Franca de Valíria, ou a centésima milésima parte de Ghis. O ouro está guardado em um cofre-forte nesta galé nobre, e, segundo ordens expressas de nosso patrocinador, somente eu posso ter acesso a este cofre.

- Não vejo por que haveríamos de contrariar lorde Kahyr – respondeu o Capitão – Ora, lordes, vejo que, assim como eu, estão todos a par do que nos espera, ou ao menos parcialmente. É hora de expor aos senhores a missão de que nosso patrocinador me incumbiu. Ele conversou comigo em particular seis dias antes de nossa partida, e escreveu esta carta, dando a ordem de ler para os senhores somente quando estivéssemos a bordo.

Lell olhou pela janela e avistou o porto submergindo ao horizonte. O Capitão retirou um rolo não muito espesso de dentro da manga e o desenrolou. Os hieróglifos eram grafados em pó de ouro sobre um tecido azul ornamentado, no verso, por dragões dourados.

- Caros nobres da décima sétima expedição às terras do poente, – começou a ler – conforme meu Capitão já lhes informou a missão provavelmente não será tão simples quanto imaginavam. Já enviei navios demais ao que poderia ser a costa sul, e somente uma missão chegou perto de dar certo. Desta vez desejo uma manobra diferente. Os senhores deverão avançar pelas proximidades de Sothoryos em direção ao oeste, sem nunca perder de vista o horizonte nebuloso. Quando considerarem adequado, deverão rumar para o norte, e seguir a costa até os limites disso que provavelmente é um continente. Cuidei para que tivessem todos os recursos necessários, mesmo diante dos protestos de meu intendente, que dizia ser exagero. Se por algum acaso desanimarem no meio as viagem, lembrem-se do contrato que cada um dos senhores assinou comigo, e lembrem-se de meu dragão. Atenciosamente, Kahyr Lamminen.

Todos se mostraram tão consternados quanto deveriam estar. Nem mesmo Therion se mostrava satisfeito com os planos do patrão, mas não perdeu sua postura de adulação. Lell realmente não se agradara da ideia, mas não pretendia desviar a rota, afinal, se havia algo a norte que interessava a Kahyr Lamminen, certamente também o interessaria. Por fim, levantou-se, e com uma expressão severa, disse a todos:

- Ora, senhores, a missão está dada. Os recursos estão aqui. Quem não desejar prosseguir, por gentileza, que pule da galé e retorne a nado.