Demorou mais de duas luas até que a primeira carta chegasse. Ele havia orientado Liknell a escrever sempre que algo significativo acontecesse, e, mesmo se nada acontecesse, deveria escrever a cada lua. O rolo fora trazido por um falcão, como era de costume nos navios de Kahyr. Um escravo viera correndo do cais. Ele não o vira, mas ele estava suado e ofegante, mostrando que fora açoitado pelo sol vermelho de Valíria. Batera à porta nervosamente, e Kahyr se levantou para abri-la.

A visão do nobre gordo se escureceu quando ele se levantou rápido demais, e ele precisou se apoiar no espelho da cama para não cair. Sua cama era realmente enorme. Era redonda como o dono e tinha quatro vezes o tamanho de Kahyr, e era feita totalmente de madeira maciça sob o enorme colchão de penas de ganso. O quarto era grande, mas não tanto que ofuscasse a enormidade da cama. Próximo a ela havia uma mesa de madeira seca e uma poltrona alta e larga, com a estrutura em ferro e coberta com almofadas azuis, estampadas com dragões dourados, tal como as paredes, o chão e o teto. Tudo na casa de Kahyr remetia ao seu brasão. O breve esforço de andar da cama à enorme porta que permitia a passagem do nobre o deixou enormemente cansado. Um homem gordo está sempre cansado, pensou Kahyr.

Ele nem sempre fora daquele tamanho, e ainda se lembrava da época em que era capaz de correr entre as cabanas na área pobre da Cidade Franca. Fora uma criança comum, vestia farrapos e chinelos de couro cru, sempre correndo com outras crianças ou trabalhando com o pai. Seu pai era ferreiro, acostumado a fazer ferraduras, armaduras e espadas, mas possuía certa habilidade, e conseguia fabricar belas joias de diversos metais. Kahyr vendera as joias do pai durante sua infância, até que este morreu, deixando a esposa e os quatro filhos desamparados.

Como era comum na época, a mulher e três filhos morreram, exceto pelo pequeno Kahyr, que contava com nove anos de idade. Restara do pai apenas um anel de ouro puro, uma belíssima peça que Marger fizera para si mesmo, mas nunca pudera usar, pois as leis valirianas não permitiam que comuns usassem joias. Sem nada e com fome, o menino se vira obrigado a vender o anel, e conseguira apenas seis moedas de bronze por ele. Se por sorte grande ou bondade dos deuses ele jamais saberia, mas quando foi comprar um pão para saciar sua miséria, outro comerciante cujo nome era Lamminen o chamou para ser ajudante.

Lamminen era vendedor de verduras, e costumava transitar entre as fazendas e a cidade, e levava seus ajudantes consigo. Kahyr trabalhava para ele já fazia seis anos, e, apesar do pouco que recebia, tinha receio de abandonar seu sustento. O Quatorze Fogos era o melhor lugar do mundo para se plantar qualquer coisa, segundo todos diziam. Uma fazenda significativamente grande estava localizada ao pé de um vulcão, do qual saía um fino fio de fumaça branca há séculos, mais a terra nunca cuspira fogo sobre as plantações. O jovem encontrara um momento livre para se aventurar, e lá no alto estava o ovo. As escamas eram azul-escuro, mas o brilho que produziam contra a luz era como o ouro.

Kahyr escondera o ovo de dragão em uma bolsa, mas não foi possível manter o tesouro em segredo por muito tempo. O ovo chocou, e, antes que pudesse perceber, ele tinha um filhote de dragão nas mãos. Dera o nome de Wlman, em homenagem a um de seus irmãos, e começara a treinar o pequeno animal. Kahyr logo deixou de trabalhar. Agora todos tinham um profundo medo e admiração por ele, e tudo o que queria conseguia de graça. A princípio, uma casa e comida, uns cavalos e bens, uma carruagem e ouro. O dragão ficava solto nos campos, e, em dois anos, já estava do tamanho de um cavalo, pronto para ser montado. O antigo ajudante de um vendedor de verduras se tornara um dos primeiros Senhores de Dragões, conquistando propriedades alheias e tomando ouro, tanto de saques quanto de impostos.

Antes que se desse conta, Kahyr tinha tanto ouro que não lhe cabia em casa, e foi passando para mansões cada vez maiores. Instalara-se na Cidade Franca, onde começara a investir os mais diversos projetos. Uns davam certo, outros não, mas o dragão que andava consigo sempre garantia uma mesa farta e ouro em abundância. Enquanto ficava rico, o homem engordou vertiginosamente, e hoje se considerava uma enorme aberração. Kahyr fora ao Senado e comprara o título de nobre, e passara a usar um anel. Adotara o nome de Família de Lamminen, algo que lhe parecera conveniente na época, e o brasão do dragão dourado sobre o fundo azul, que estava exposto em tudo o que era dele. Dois dragões de ouro guardavam a entrada dos aposentos de Kahyr Lamminen. Fez certo esforço e abriu a porta, se encontrando com um escravo que segurava um rolo com seu próprio selo.

Ele aguardara ansiosamente por esta carta. Sem dúvida era de Liknell, certamente falando que haviam parado em Naath para se abastecer. Todos os navios paravam. Certamente falaria de como os homens estavam se portando, como iam as provisões e se tudo corre bem. Kahyr chegara a sonhar que estava no navio principal. Sempre sonhava, mas jamais aconteceria. Ele era gordo demais para ficar viajando, assim como não suportava ficar mais de uma hora em um barco sem vomitar seu próprio estômago. Talvez um dia viajasse sobre o dorso de seu dragão, mas temia a morte nos mares ou nas terras nebulosas do poente. Kahyr fechou a porta e retornou a sentar-se na cama, pois esta era a posição na qual se sentia mais confortável. Segurou as pontas do papel a certa distância do rosto e deixou o a carta se desenrolar, começando a ler os pergaminhos logo em seguida.

Lorde Kahyr Lamminen,

Escrevo esta carta em nosso trigésimo dia de viagem, mas é provável que a entrega atrase. Nossas provisões estão suficientes até agora, e, depois que passamos por Naath, ainda há comida e água suficientes para seis luas de viagem. Os nobres não se mostraram satisfeitos com vossa ideia de contornar o continente ocidental pelo norte, mas nenhum se opôs claramente. Agora estamos rumando para noroeste, a subir a costa de Sothoryos. A maioria dos tripulantes valirianos não é capaz de se orientar pelas estrelas, mas há um ou outro ghiscari que têm um enorme conhecimento marítimo, e por causa deles estamos avançando mais rapidamente. Algumas vezes houve conflitos na tripulação dos navios, e há uma semana um remador jogou outro no mar. Ele foi submetido ao julgamento do Capitão, que decidiu enforcá-lo. Há um copeiro preso na galé nobre, suspeito de tentar envenenar o intendente Maegor Garten. Este esteve acamado por seis dias, com febre alta e alucinações após beber uma garrafa de vinho. Prendemos o copeiro, mas o nobre tem certeza de que o crime foi planejado por Nuut Javyr. Os dois têm discutido constantemente, até mesmo Maegor puxou uma faca para ameaçar o outro. Maegor pede que o senhor demita Nuut, e seu irmão também, já que são do mesmo sangue ruim. Os Javyr garantem que Maegor está com loucura do mar, e o suposto veneno foi simplesmente uma doença, segundo garante o próprio Mestre do Corpo. O Capitão Therion pede o afastamento de Maegor, devido aos seus constantes acessos de loucura, e os gêmeos Javyr o apoiam. Therion chegou a sugerir Jaemon Lyyr para substituir o intendente, mas eu o informei de que está morto, então o novo poderia ser Lukey Hast, o homem que administração do templo de Vammenn. Aguardamos vossa resposta quanto a isso, e lhe enviaremos Maegor em um barco pequeno de volta à Valíria. Por enquanto sou eu, Liknell, que estou executando o trabalho do intendente. O Capitão Therion lhe deseja bons ares na construção do Templo.

Lorde Liknell Karkzan Yozz Argazz, mensageiro da expedição.

Exceto pela loucura daquele intendente de confiança, as notícias foram melhores que as expectativas. Era comum que houvesse falta de provisões falhas na condução dos navios, e nada disso ocorrera desta vez. Kahyr tinha de admitir que os ghiscari fossem muito melhores em navegação que os valirianos, e agradeceria a Liknell pela ideia de inserir alguns na tripulação. Ele já pensava em escrever uma carta de resposta, quando lhe ocorreu uma lembrança. Chamou Rexx, seu escravo e consultor pessoal, que sempre estava disponível. Quando este chegou, abriu a porta do quarto, fez uma reverência perguntou:

- Do que vossa excelência precisa, lorde Kahyr¿

- Ah, sim. – respondeu Kahyr — Rexx, se me lembro bem, estivemos na mansão de lorde Jaemon Lyyr há seis luas, certo¿

- Sim, senhor. Ele acabara de ser exilado de Ghis e estava de volta à Cidade Franca. O senhor mesmo indicou seu amigo Luther Shy para vender uma mansão para lorde Jaemon.

- Claro, lembro-me bem disso. E ele ainda está vivo, certo¿ Nenhum dos meus amigos morre sem que eu fique sabendo, e ele gozava de boa saúde quando conversei com ele, apesar de muito velho.

- Sim, ele está vivo e bem. Tem trabalhado como intendente oficial do Senado nas últimas quatro luas, com excelentes resultados na administração.

- Isso é estranho. Nesta carta Liknell me informa que o velho está morto, e eles trabalharam juntos, e certamente foram exilados juntos. Bom, de qualquer maneira, quero falar com Jaemon ainda hoje. Arranje um horário para ele me encontrar e mande-o esperar na minha sala e já o informe que tenho um trabalho para ele, e que conversaremos melhor na audiência. Pode ir, obrigado, Rexx.

O escravo fez uma reverência e saiu, fechando a porta delicadamente. Kahyr decidiu que ainda não escreveria a carta de resposta, mas esperaria pela reunião com Jaemon Lyyr. Era raro que alguém recusasse os contratos do riquíssimo Kahyr Lamminen, mas o intendente era velho e sábio demais para ser previsível.

Ainda era o fim da manhã, e Kahyr teria um longo dia pela frente. Saiu o quarto andando devagar por causa do peso que tinha de carregar, e seguiu pelos largos corredores da mansão. A moradia do nobre era a maior de toda a Valíria, e era superada em tamanho somente pelas torres nobres de Ghis. Fora projetada pelos melhores arquitetos e construída pelos melhores construtores. Possuía mais de cem quartos, a maioria deles vazios ou abarrotados de ouro. O teto era plano, possuía uma área de dez quilômetros quadrados, e era coberto de várias camadas de rochas, e era onde Wlman vivia. Todos os dias os escravos soltavam animais diversos no enorme campo do dragão. Cavalos, bois, zebras e leões, mas o que ele mais gostava era carne humana. Kahyr tinha um acordo com o Senado, que garantia que todos os condenados à morte poderiam servir de refeição para o dragão azul e dourado.

Desta vez Kahyr saiu pelo portão oeste. Todas as portas da grande casa eram grandes demais para serem portas, então ele decidira chamá-las de portões. O sol estava vermelho e escaldante, mesmo sobre as roupas leves que ele usava. Uma toca branca, um colete dourado feito de fios de ouro e um manto curto azul-escuro, com um único dragão dourado. Kahyr levou olhos de vidro azuis e um chapéu de aba rasa para fazer sombra sobre seu rosto. Ele já raspara a barba hoje, mas precisara fazê-lo novamente pouco antes de sair, para garantir o máximo de frescor, até mesmo no rosto.

Wlman estava dormindo sobre o teto da mansão. Ele se sentia mais confortável nos dias mais quentes. Fogo na forma de carne e ossos, pensou Kahyr, lembrando-se de um dito valiriano. Ele não gostava de acordar o dragão, tal como ele não gostava de ser acordado. Às vezes o nobre pensava que ele e o dragão compartilhavam os sentimentos. Decidiu deixar Wlman dormir desta vez e convocar uma liteira. A sua era no mínimo três vezes maior que as liteiras comuns, e era carregada por vinte e dois escravos. O caminho até o campo de obras que viria a ser o grande templo de Vammenn foi muito mais longo que de costume, mas Kahyr gostava de observar as ruas enquanto o tempo passava.

A área nobre em que ele vivia não era nem de longe tão tumultuada quanto os becos onde nascera e crescera. Viu várias liteiras passeando, todas com seu brasão pendurado nas laterais. Alguns senadores estavam sentados à beira de fontes de água discutindo algum assunto, sem duvida, política. Trabalham até enquanto descansam, reparou Lell. Talvez isso fosse bom, afinal, eram homens realmente interessados no governo. As maiores partes das ruas eram feitas de pedra derretida pelo fogo de dragões, assim como a mansão de Kahyr, e a superfície era tão lisa que refletia a luz vermelha do sol. Após pouco mais de uma hora de viagem, era possível ouvir ao longe o som de ferro batendo em pedra, e, alguns minutos depois, a enorme estrutura em nascimento já era plenamente visível.

Quando chegou às obras do Templo, Kahyr estava tão suado quanto qualquer operário que estivesse trabalhando. Havia milhares de ulthi, ghiscari, valirianos, sothoryosi, dothraki, asshai’i e todos os povos do mundo trabalhando ali, mas, mesmo assim, pareciam formigas perto de uma casa enorme. Havia centenas de forjas em torno das obras, todas produzindo peças de ferro e aço para a estrutura do templo. O alicerce já estava feito, era um templo subterrâneo feito de pedra maciça. Sobre ele, as bases estavam quase prontas, e as hastes metálicas se erguiam altas como o voo de um dragão, mas nada havia do interior ou das paredes, somente um chão muito amplo, mas ainda sem os azulejos que viriam a emoldurá-lo.

Kahyr olhara a construção dos céus, sobre o dorso de Wlman na semana anterior. A área que viria a ser o templo era no mínimo mil vezes maior que a mansão onde ele vivia, e, segundo os planos dos arquitetos, teria cem vezes a altura da mesma. O patrocinador investira mil milhões de dragões de ouro no início do empreendimento, mas ainda precisava injetar dez dragões a cada lua, para custos de manutenção e pagamento para os operários, mas, mesmo com tantos gastos, Kahyr não parava de enriquecer. Mais de trezentos nobres agricultores lhe pagavam impostos, além da maioria dos khalassares dothraki, mercadores ricos de Asshai a Valíria e o próprio Senado Valiriano, todos intimados por um temível dragão.

Ele tivera sorte, ou fora bênção dos deuses. Kahyr Lamminen foi o primeiro Senhor de Dragões, já que o tal Balerion fora morto por Karkzan Yozz Argazz. Atualmente, todos pagavam impostos a senhores de dragões, mas Kahyr era sem dúvida o mais rico. Sua fortuna total era de trezentos e setenta mil milhões de dragões de ouro, ao menos essa era a conta feita pelo seu antigo intendente pessoal, Maegor Garten. Ele agora devia estar enlouquecendo no mar, enquanto Luther Shy fazia seu trabalho em Valíria. Ao lembrar-se de Maegor, Kahyr decidiu que já era hora de voltar para a sua mansão. Certamente Jaemon Lyyr deveria estar esperando na sala de reuniões, provavelmente adormecido sobre uma poltrona gorda.

Ele já estava pronto para ordenar que seus escravos o levassem de volta para casa, quando ouviu sobre si um som muito baixo, mas inconfundível. Olhou para fora da liteira, e lá estava Wlman, planando sobre o dono em sua imensidão azul e dourada. Kahyr tirou os olhos de vidro azuis e desceu da liteira. O dragão estava encilhado, provavelmente porque Rexx o fizera. Havia uma escada de reserva dobrável em um compartimento da liteira, e os escravos que a carregavam armaram um andaime para que Kahyr pudesse subir. Sobre Wlman, a viagem se tornou muito mais prazerosa. Ele deu uma última olhadela do alto para o templo e voou para casa.

Havia uma porta no campo de Wlman que dava em uma escada que acabava no aposento principal de Kahyr. Assim que chegou no quarto, encontrou-se com Rexx, que já trazia toalhas e sais de banho.

- Senhor, Lorde Jaemon Lyyr o aguarda na sala de audiências.

- Sim, obrigado. Aqueça a água e jogue os sais de banho. Avise a lorde Jaemon que o atenderei em breve.

O banho do homem gordo era terrivelmente trabalhoso, mas somente para os escravos. Para Kahyr, era enormemente prazeroso. Os sais de banho produziam espuma, e ela fazia cócegas em sua pele, e a água quente era incrivelmente relaxante. Devido às grandes medidas do nobre, seu banho costumava levar uma hora, mas hoje, como havia outro nobre esperando por ele, ele dispensou o trato especial nos cabelos e saiu do banho em quarenta minutos.

Era metade da tarde quando Kahyr chegou à sala de audiências. Ele já não comia nada há quatro horas, e seu estômago roncava tão alto que até os mortos podiam ouvir, mas como não convidara Jaemon para uma refeição previamente, teria de se concentrar e esperar a reunião acabar. A sala de audiências era relativamente grande, e decorada da mesma maneira que o aposento privado. Jaemon Lyyr estava sentado sobre uma cadeira alta e almofadada, de frente para uma mesa de madeira negra envernizada, atrás da qual havia uma cadeira simples e gigantesca, onde Kahyr sentava.

A fome o torturava, e ele ansiava ao menos por algo doce descendo por sua garganta. Ordenou que Rexx lhe trouxesse uma garrafa de vinho espesso e serviu uma taça para Jaemon.

- Desculpe-me pela demora, lorde Jaemon. Obrigado por atender meu pedido.

- Ora, lorde Kahyr. Quem sou eu para negar um pedido seu¿ Mas afinal, em que posso lhe ser útil¿

- Como já deve saber, enviei recentemente mais uma expedição às Terras do Poente, novamente capitaneada por Therion Alter.

- O homem que não tem pelo algum, sei sim, Kahyr.

- Pois então, enviei meu intendente pessoal nesta viagem, dei-lhe instruções claras sobre nossas provisões e administração do tesouro, e o incumbi da responsabilidade de manter todos vivos até completarem a missão. – as palavras foram seguidas de um leve sorriso falso. – No entanto, ele foi acometido por alguma grave doença e agora está louco em alucinações e fortemente febril. Meu mensageiro me informou que todos da tripulação nobre desejam que o senhor seja o novo intendente. O que acha¿

Jaemon virou seus olhos vermelhos para lugar nenhum e fez uma expressão de reflexão. Após alguns segundos, disse:

- O senhor sabe que eu sou velho e de saúde frágil...

- Seiscentos milhões de dragões de ouro.

- ... e certamente será uma viagem cansativa e arriscada...

- Oitocentos milhões.

- ... em um empreendimento que, pelo histórico das suas expedições, tem poucas chances de dar certo...

- Novecentos milhões, é tudo o que posso lhe pagar. Nem mesmo o Capitão receberá um pagamento tão alto.

Jaemon olhou para seu interlocutor de maneira cínica, com seus rubis dos olhos se movendo rapidamente, como um cão farejador à procura de ouro. Não importa quantos anos passem, pensou Kahyr, um mercenário é sempre um mercenário. O homem velho finalmente respondeu:

- Mil milhões, e quero que me pague metade antes que eu parta.

- Mas isto é absurdo! – Kahyr estava realmente irado com a ganância do velho – Nenhum dos tripulantes recebeu sequer um cobre antes de partir!

- Nenhum dos tripulantes é o intendente mais renomado do mundo. Nenhum dos tripulantes sabe estalar os dedos e criar ouro. Nenhum dos tripulantes estará quebrando um contrato com o Senado Valiriano. Mudei de ideia. Quero dois mil milhões.

- Certo, aceito pagar mil milhões, e pagarei um terço antes de o senhor partir. Nada a mais que isso, ou passo a cobrar impostos do senhor também.

- Vejo que temos um consenso. Quando eu embarcarei¿

- Em dois dias. Enviarei um falcão com uma carta e lhe enviarei em uma galeota até a costa noroeste de Sothoryos, onde estão as galés. O senhor ficará na gele nobre e administrará os suprimentos e o tesouro.

- Preciso dos relatórios e dos dragões de ouro.

- Rexx vai lhe dar seu pagamento antes que saia daqui. Certamente precisará de uma carroça para carregá-lo, lhe darei uma e lhe emprestarei dois escravos e um cavalo. Os relatórios estão aqui. – puxou de uma gaveta debaixo da mesa oito grossos pergaminhos – Estude-os e administre minha expedição. Não se esqueça de que o senhor estará abaixo do Capitão, e que todas as suas ações me serão informadas pelo meu mensageiro.

- Eu poderia saber quem é seu mensageiro¿

- Liknell Karkzan Yozz Argazz, de Assenhayy.

Jaemon deu uma fraca risada, seguida de um ataque de tosse, se levantou e saiu.

Logo que o intendente saiu, Kahyr passou para seu quarto e se pôs a escrever a carta de resposta a Liknell.

Lorde Liknell Karkzan Yozz Argazz,

Estou satisfeito com o andamento da expedição. Jaemon Lyyr não está morto, e eu estou o enviando para a galé nobre. Envie-me uma carta quando ele chegar. Quero que a galeota que o enviou traga Maegor Garten e o copeiro suspeito de envenená-lo. Escolha um escravo para cada nobre e eles provarão a comida e a bebida destes. Quero guardas vigiando todas as ações de Nuut Javyr, mas que sejam homens de sua guarda pessoal, não do exército de Halter. Aguardo novas notícias sempre que possível.

Lorde Kahyr Lamminen, patrocinador e proprietário.

Dois dias se passaram e Jaemon Lyyr embarcou na sua galeota, mas, depois disso, não houve mais notícia alguma. Os gaviões iam e vinham, mas nenhuma carta era de Liknell. A construção do templo avançava cada vez mais rapidamente, mas ainda estava muito longe de estar finalizada. Depois de três luas sem receber nenhuma carta, Kahyr deixou de pensar que todos os gaviões estavam morrendo. Após quatro luas, ele mesmo voou até os portos, procurando por uma carta ou uma galeota, mas nenhum dos dois chegava. Ele só pensava dos milhares de milhões de dragões de ouro que ele estava perdendo, certamente afundando no mar, juntamente com seus homens de maior confiança.

Na quinta lua ele soube de uma expedição ghiscari para o ocidente, e contratou alguns homens naquela tripulação para procurar por barcos valirianos perdidos no Golfo da Mágoa ou na costa norte de Sothoryos, enquanto eles abasteciam no porto de Valíria. Notara a falta de harpias sobre os mastros dos galeões ghiscari, mas agora o símbolo fora substituído por algo diferente, uma estátua com cabeça de mulher, corpo de leão e asas de harpia. Duas luas após a partida da expedição ghiscari, veio a notícia de que os sete galeões ghiscaris haviam sido assaltados em Sothoryos, e que a expedição estava perdida, e a partir daí ele perdeu totalmente as esperanças. Uma lua depois, ele estava dormindo em seus aposentos, e foi acordado por Rexx no meio da noite.

- Senhor, preciso que se levante.

- O que há, Rexx¿

- Chegou um oficial da Cidade Franca, trazendo ma carroça com um conteúdo vindo do Porto.

Kahyr se levantou e andou, completamente nu, até o pátio externo de sua casa. As tochas acesas iluminavam o pátio como se fosse dia, mas o oficial demorou mais de um minuto para perceber que o nobre estava nu. Ele trazia uma carroça, e dentro dela havia um pequeno bote, do tipo que se põe dentro de embarcações maiores para o caso de naufrágios. O barco carregava a marca do dragão dourado Lamminen. A tinta azul estava completamente desgastada, mas o dragão era impresso em ouro e único. Dentro do bote ainda havia muita água, e, flutuando sobre ela, estava a figura macabra de um corpo inchado de barriga para baixo. Suas roupas já não tinham cores, mas o tecido eram muito resistente.

- Rexx – chamou Kahyr – vire o corpo.

Ele o virou, e era Therion Alter.