Notas iniciais
Aqui está um mapa do mundo de George RR Martin, no qual se passa essa história. Para facilitar a localização, na diagonal inferior esquerda está Ulthos, e dali parte a história em direção à direita.
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Ulthos era o nome que os peludos davam para as suas cavernas de pedra. Viviam dentro delas, se alimentando de carne e frutos da natureza. Migravam por regiões semelhantes umas às outras, mas nunca estiveram em um lugar tão inóspito. Hummer saiu da tenda de Lell com o olhar baixo, com ar de derrotado, mas sem sinal de revolta. Era como de a tristeza lhe fosse maior que o ódio, e o amor pelos semelhantes fossem uma preocupação mais urgente que a simples vingança. Viram o bando de guerreiros partir entre o breu e a alvorada. Homens que antes foram fortes agora eram magros e raquíticos, mulheres e crianças mão podiam andar, e eram transportados sobre os búfalos que restavam, com homens cambaleantes andando aos seus lados.

Se a situação do bando de Hummer era deplorável, os outros estavam verdadeiramente mortos. Dos três mil que iniciaram a marcha, menos de oitocentos sobreviveram ao Deserto Vermelho. O primeiro sinal de habitação que encontraram foram as terras verdes dos dothraki. Lell fora à frente dez dias antes, correra e voara por horas, até encontrar a mancha verde no fim do deserto. O Mar Dothraki cheirava a vida em abundância. Eles possuíam um grande número de magos, mas Lell preferiu manter sua identidade em segredo até mesmo deles. O ambiente era vivo, mas quase ninguém o habitava. Não havia sinal de erva branca.

Foi a notícia dessas terras que impediu Andor de desistir da empreitada.

–A maior migração que qualquer homem peludo já fez – dissera-lhe Lell, buscando animá-lo.

–A maior migração que qualquer homem já fez. – Respondera Andor, resignado. Sua barba estava ensopada pelo suor do deserto. – Mas não busco glória alguma que não seja uma cuia com água para meus homens.

O bando de Andor abandonou a horda em uma região desocupada, próximo às terras dos Montanhas de Fogo. O povo dos cavalos não estava lá, e não aparecera para tirar essas terras dos peludos, o que foi bom para estes, que não mais buscavam conflito. Eram pouco mais de duzentos agora, com cento e setenta mortes contadas desde o início. Uma dessas mortes fora decretada pelo próprio Andor, após saber de um homem que matara seus filhos para comê-los. Canibalismo não era aceito por nenhum povo que Lell conhecesse.

Demoraram mais duas luas para seguir marcha. A área verde agradava à maioria dos homens de Ulthos, mas não era suficiente para eles. As tensões cresciam entre os bandos. Em uma noite qualquer, Allara entrara na tenda de Lell, com uma expressão alarmada no rosto.

–Não podemos continuar aqui. – Sua voz era quase chorosa, como de uma jovem de doze anos. – Um homem de Ib matou meu irmão. – Neste momento ela chorou, e, por um instante, a guerreira se desfaleceu dentro da mulher. – Vinguei-o. Arranquei os braços e as pernas do assassino. Ib também pagaria, mas deve estar além das montanhas a esta hora.

Era verdade. Ib não aparecia há quase uma lua, mas Lell ainda não se dera conta de sua ausência, já que a serpente peluda quase nunca falava. Allara continuou.

– Aquele covarde se esconde de nós, e talvez nem volte. Seu povo está se esvaindo, ataca tanto o bando de Andor quanto o meu. Ou melhor, o bando de Fellas – Foi então que Liknell compreendeu. Andor era irmão de sangue de Allara, haviam nascido e crescido na mesma caverna, lutaram juntos contra os Dothraki partilhavam da terra boa dos dothraki. Fellas era o último filho sobrevivente de Andor, e Allara tinha somente um filho, Mormont.

– O conforto me fez esquecer – Kellokk vinha de fora da tenda, com uma expressão melancólica, como se ouvisse tudo. Allara agora já parara de chorar. Sua face ainda estava vermelha, mas sua expressão era dura como rocha. – A viagem não terminou. Precisamos deixar Fellas aqui, se era a vontade de seu pai, mas os homens de Ib não sabem conviver com ninguém. Ouvi dizer que matam crianças em suas camas, e roubam as mulheres de outros homens para si. Mas não somos capazes de enfrentá-los.

Por alguma razão, era verdade. Os homens de Ib eram os mais peludos, depois que Hummer deixara a horda. Mesmo vivendo as mesmas dificuldades que todos, os desse bando não pareciam esmorecer. Todos os dias Ib falava com eles, e todos pareciam seguros e saudáveis. Havia boatos de que eles estavam aliados aos dothraki, ou que eles eram os dothraki, apenas com os pelos raspados. Sobre os boatos Lell não sabia a verdade, mas sabia que precisava afastar os homes de Ib, mas sem batalha.

– Resolverei isso. – garantiu Lell, com uma segurança demasiada no tom de voz. – Dentro de um quarto de lua partiremos para um lugar melhor. Allara, prepare seu bando. Kell, os homens que desejarem partir com você podem vir.

Alguns dos peludos de Hummer perseveraram à debandada e se mantiveram fiéis a Kellokk. Agora alguns homens de Fellas também desejavam partir, talvez por medo de Ib ou dos dothraki, talvez por não gostarem de carne de ovelha. Agora Kellokk era líder de um bando, com seus cento e oitenta homens, mais duzentas mulheres e crianças, que, somado ao bando de Allara, totalizava quinhentas pessoas.

Na noite que se seguiu a esta conversa, Lell observou as chamas. A mulher de fogo nada lhe ensinara, mas os deuses haviam-lhe contado quando ele adquirira a imortalidade. Pôde ver Ib no pico de um monte, rodeado por guardas peludos e... Cavalos. Os Dothraki tinham como ponto de encontro a o grande Vaes Dothrak, um imponente vale à sombra da Mãe das Montanhas. E era sobre ela que estava a manticora da horda de Kell.

Sob a forma de uma águia, Lell voou até a cabana de Ib, e lá entrou, já na forma humana. Ele dormia, mas foi acordado por uma língua de fogo que lhe queimou os pelos no peito.

–O que faz aqui¿ — sua voz era calma como se nada tivesse acontecido. Como me encontrou¿

–Venho pedir misericórdia – respondeu Lell, com uma calma quase sonolenta. –ou oferecê-la, como preferir chamar.

–Sou senhor dos senhores de cavalos agora, irmão de Kellokk. Não preciso de sua misericórdia. Vê¿ — apontou para fora da tenda. – São meus. Dez mil Arahks, a poucos quilômetros de seus peludos. São armas mortais, de feitas de materiais que não existem além do mar, mas são minhas.

–Sou senhor da magia, tolo. – Era a primeira vez que Lell se sentiu seguro para revelar isto a alguém. – Vê¿ — apontou para fora da tenda. – é meu. O mundo.

–E acha que eu devo acreditar nessas histórias de velhos estúpidos¿ — As palavras eram seguras, mas o tom de voz aumentara pouquíssimo, mas o suficiente para Lell perceber que faltava apenas um passo.

O Homem de lua surgiu naquela tenda, e Ib foi ao chão com a energia emanada do corpo brilhante. Mas se manteve acordado e consciente, olhando fixamente para a luz que não se propagava.

–O que quer de mim¿ — Finalmente a voz se desequilibrara. O medo era claro na voz, mas não nos olhos. Estes continuavam inabaláveis, como se já esperassem ver aquilo, ou... Como se nada vissem.

–Vá para longe, Ib. Longe dos homens peludos, longe dos Dothraki e longe de seus encantos baratos, feiticeiro cego. – Feiticeiros cegos. Estes homens vinham das Terras da Sombra, mas podiam ser de qualquer lugar. Dizia-se que os mais cruéis demônios haviam construído aquelas cidades, regaram sua terra com sangue humano e passaram a habitar os corpos dos homens que lá viviam. Jovens inspirados e desejosos de poderes mágicos, que entravam em barcos ou montavam em cavalos e se dirigiam àquelas casas de madeira negra e fogueiras que emanavam calor, mas nada iluminavam. Lá, os feiticeiros tinham rostos pálidos e sem expressão, mas eram capazes de mudar sua aparência e sua voz, bem como convencer qualquer homem de qualquer coisa, transformando qualquer mentira em uma verdade. Eles vestiam negro e viviam no negro, com os olhos vendados durante o tempo de aprendizes. Quando concluíam sua formação, aqueles magos arrancavam os próprios olhos e bebiam do sangue de um boi, ou do sangue de uma criança, segundo as versões mais macabras, e se vestiam com roupas feitas de magia. Os olhos eram oferecidos em sacrifício aos deuses, já que nas sombras não se precisava ver. Aqueles homens aprendiam a viver sem vida, falar sem voz, ver sem olhos e voar sem asas. Usavam palavras malditas, aquelas que só existiam na língua das Terras da Sombra. Seus deuses eram cruéis e frios, com uma sede incessante de sangue e de poder. Dizia-se, dentre os magos de Ass-hen-ayy, que um mago dos deuses era servo da magia, mas um feiticeiro cego era um escravo da morte.

O rosto de Ib se transfigurou, revelando o monstro que havia por baixo daquele disfarce. Seus lábios eram roxos, como se tivessem sido espancados, e, no lugar dos olhos, havia duas cavidades ocas, cheias de espíritos negros. O rosto era algo que poderia ser humano, mas se distanciava ainda mais que o próprio homem de lua. O corpo não era visível sob as vestes negras, como se não existisse nada além de mal. Aquele rosto era pálido como nada mais, mas emanava escuridão e morte, e cheirava sangue seco. Lell levara tempo para entender, mas foi depois do envolvimento de Ib com os Dothraki que ficou claro. Os encantos de convencimento e mudança de rosto. O jovem que já fora um peludo fora tomado pelos demônios das sombras já havia muito tempo.

– Então parece que o homem de lua soube de algo que não precisava – A frase fez Lell estremecer, mas não deixou seu medo transparecer por sua face prateada. – Os feiticeiros das Terras da Sombra são mais poderosos que os Asshai, e eu sou mais poderoso que qualquer feiticeiro das Terras da Sombra. Não sei o que você é, Liknell, mas prefiro seguir sua sugestão.

–É sensato, Ib. – respondeu Lell, voltando lentamente à sua forma original. – Neste momento surge a norte de Essos uma ilha, isolada da maioria dos homens e totalmente isolada de magia. Viverá lá com seu povo, morrerá de velho e construirá uma nação. Essa é minha oferta de misericórdia. Têm uma noite para partir. Aceita¿

–Aceito. – Afirmou o cego, resignado. Também voltou à forma de Ib. – Mas peço que me deixe com meus encantos de convencimento.

–Que seja. Mas não me peça mais nada, traidor. – terminou Lell.

Um quarto de lua depois, Liknell partiu para sul, com os bandos de Allara e Kellokk.