O Homem Que Viu O Mundo
6 O caminho de pedras
O mar dothraki deixava saudades, apesar de tudo. Os perigos eram reais e constantes, mas a água era abundante e o solo, fértil. Havia um ou outro peludo, ou ulthi, como chamavam a si mesmos, que sabia as técnicas de cultivo, e era bom que fossem poucos. Melhor que não saibam plantar, refletira Lell, observando os homens desarmando suas tendas, as plantas criam raízes nos pés dos homens. Era verdade. Os Asshenayy e os Asshai vivam na Ponta do Mar há milênios, porque sabiam cultivar. Não haveria por que sair de um lugar se nesse pudessem produzir o próprio alimento, mas, naquele momento, uma mudança era necessária.
O bando de Fellas resolvera ficar, eles se garantiram à própria sorte, com os poucos arahks que haviam roubado dos dothraki, e suas flechas com ponta de pedra, que, segundo afirmara Fellas, eram capazes de matar dez homens de uma só vez. Este, ao contrário do pai, sempre tivera um espírito agitado, pronto a explodir perante qualquer contradição e disposto a brigar por quase qualquer coisa. Nem de longe era tão forte quanto Hummer; seus braços eram menores, e sua altura demasiada o tornava um tanto desengonçado, mas sua voz soava tão retumbante quanto os seguros paços de um leão das montanhas, e geravam um profundo respeito nos demais guerreiros.
Fellas decidira que vingaria a morte do pai, não importasse o que acontecesse, por isso, segundo disse aos demais líderes, ficaria e lutaria contra os dothraki e os homens de Ib. Os ulthi que o acompanhavam apoiaram sua decisão, uns pelo conforto que a região oferecia, outros por simples medo de seguir migrando, e uns poucos pelo verdadeiro motivo da vingança. A vingança, aquele veneno que corre nas veias dos homens e na língua das mulheres. Lell sentiu uma mistura de compaixão e orgulho do jovem. A bravura era o motivo de orgulho, mas o desejo obstinado e cego certamente seria o seu fim. O filho de Andor ainda não completara quatorze anos de vida, mas já andava e falava como homem adulto, como se a morte de seu pai o tivesse envelhecido, tal como acontecera a Liknell e Kellokk.
Allara convencera Fellas a dar direito de escolha aos seus homens, se deveriam ou não seguir sua sede de vingança. Este tivera uma reação violenta, falara mal à tia e empurrara o braço que estava sobre o seu. Apesar de tudo, consentira. No momento em que foi dar o recado ao seu bando, Fellas lançou a todos o mais penetrante dos olhares, como que ameaçando qualquer um que quisesse abandoná-lo. Mesmo assim, mais de cinco dezenas de homens, com suas famílias, abandonaram o bando do novo guerreiro e seguiram com Kellok ou Allara. Os mais sensatos, refletira Lell. O bando de Andor já não mais existe, e este pequeno infante não terá futuro em terras tão inóspitas.
Tentara transmitir estas palavras à Allara, mas não conseguia. Talvez por compaixão da dor que a mulher já sentia, talvez por que ela certamente já sabia. Do destino do sobrinho. Não cabia a homem, mortal ou imortal, lançar sal nas feridas de alguém que perdera o irmão. Lell se lembrara do dia em que Kell partira em viagem, este então com quinze anos, e aquele, com dez. Sentira-se triste e solitário, e, em alguns momentos, desesperado, mesmo confiante de que o irmão estava vivo. Quase podia sentir a dor de Allara naquele olhar vazio. A mulher já não era capaz de comandar, e deixava todas as decisões do bando para seu filho, a quem olhava agora como uma mãe olha para um bebê de peito.
Mormont agora participava das reuniões com a mãe e os dois irmãos Assenhayy’s. O homem era robusto e pesado, lento nos movimentos, mas incrivelmente forte. Seus pelos grossos pelo corpo, somado à sua voz baixa e grave, o faziam se assemelhar a um enorme urso negro. Era calmo na maior parte do tempo, mas não se continha em momentos de fúria. Quando soubera da morte do tio, assassinara com as próprias mãos três dos guardas de Ib na entrada de sua tenda, mas quando esta desmoronou sob seu peso, o feiticeiro cego não estava lá. Por muito pouco não aceitara a proposta de Fellas em permanecer no mar dothraki, mas as lágrimas da mãe falaram mais alto que o duro e frio olhar do primo.
Lell decidira que a melhor escolha seria não contar aos outros dois sobre o caso de Ib. Limitara-se a explicar que o convencera a partir, e, se perguntassem mais, desconversava. A esta altura aquele bando deveria estar um tanto fragmentado, não fosse a bondade de Lell ao manter os feitiços de convencimento na manticora de pedra. Provavelmente passavam pelo Mar dothraki, escoltado por alguns khalassares e lutando contra outros, em uma marcha obstinada para o norte. O senhor da magia retirara um bloco de terras de Ulthos e o transferira para Ibben, novo lar de Ib. Não era capaz de fazer algo surgir do nada, pois, segundo o deus que parecia uma mulher, o mundo era um só, e dele nada se cria ou se perde, somente se transforma. A magia seria a força transformadora no mundo dos homens, mas somente por enquanto, garantira a voz do homem. Lell não compreendera.
Allara passava os dias em pensamentos profundos, quase nunca falando, e, nos momentos em que Liknell tomava a forma de um rato e partia para um local distante para adorar seus deuses, podia ver a irmã de Andor acordada, do lado de fora da tenda, com os olhos fixos no infinito. Quase nunca dormia, a velha mulher, e, quando dormia, tinha pesadelos que a faziam gemer de terror à noite e parecia tão cansada de manhã como se tivesse lutado numa guerra. Aos poucos foi perdendo o poder de argumentar, ou talvez perdesse a vontade de falar sobre qualquer coisa.
As chamas tinham poder de revelação, mesmo quando os deuses não vinham dançar com o senhor da magia. Ele vira o passado daqueles irmãos. Andor era seis anos mais velho que Allara, e ficara órfão apenas seis luas depois de ela nascer. Um ataque de flechas de pedra, de um bando rival matara o pai, que ainda lamentava a morte da esposa no parto. Andor fugira com o bebê, vivendo em ulthos obscuros e lutando para sobreviver. Caçava gatos com paus e pedras e colhia os frutos que cresciam nas plantas rasteiras para os dois comerem, pois ainda não era capaz de subir nas árvores da Grande Floresta. Certa vez arranjara leite de uma fêmea de rato-boi, mas este tinha um sabor terrível, e a pequena menina rira da careta que o irmão fizera.
Andor aprendera a lutar sozinho, e ensinara a irmã mais nova a sobrevier com apenas uma lança com ponta de pedra. Juntaram-se a um bando migrante quando Allara tinha seis anos, onde conheceram amigos e formaram seus próprios bandos. Aos vinte e um anos, Allara era líder de um grupo de peludos, e Andor passou a migrar com ela, até que juntou o próprio bando. Allara conhecera um homem, um caçador qualquer, que lhe dera um filho e morrera tentando matar um leão na lua conseguinte. Por necessidade do destino, os irmãos se separaram durante anos, até que um velho amigo chamado Hummer convidá-los para ir com aquele estrangeiro de Além-mar, tal Kellok.
Então Ib tinha dezesseis anos e era um grande amigo de Mormont, apenas que contava com apenas doze. Apesar de simpatizar com o filho de Allara, Ib estivera antipático com Fellas desde a primeira vista, ou talvez Fellas estivesse antipático com Ib. Uma briga entre o filho de Andor e a manticora de pedra provocaram o afastamento. Proibido de ver o amigo, o sentimento de afeto deu lugar à apatia, até o dia em que disputara por uma mulher. Fora neste momento que Ib usara seus feitiços pela primeira vez, e se deitara com a mulher que Mormont queria para si. O ódio pairou entre os dois, mas preferiam se afastar a se matarem.
Ib permaneceu distante durante três anos, sem contato algum com ninguém dos bandos aos quais pertencera. Em um dia qualquer, ele reaparece, com um novo bando de guerreiros peludos. Kellok nem sequer convidara o feiticeiro para ir consigo, mas este se unira voluntariamente, e Kell, ingenuamente, aceitara. Depois do momento em que Ib fazia um peludo qualquer matar Andor, as causas do feiticeiro e os pensamentos de Allara de tornavam nebulosos, e as chamas se apagavam.
Há três luas atravessavam o mar dothraki, e agora o solo verde se esvaía, dando lugar a areia branca novamente. Os montes rodeavam a paisagem, e o calor era cada vez maior. Em breve chegariam, Lell sabia que chegariam. Ele a vira em uma noite, sob a forma de uma águia branca. Apesar da imponência da ave em que se tornara, Lell se sentira minúsculo perante aos seres que habitavam os ares daquela cidade de pedra. As harpias eram grandes como cavalos, poderosas como ursos e barulhentas como leões. Um simples bater de asas impulsionava uma ave para frente como um barco é impulsionado por uma onda no mar. Elas berravam umas com as outras e brigavam por se alimentar falcões no céu. Quando cansadas, repousavam sobre altas torres de pedra vermelha como o sangue, umas mais altas que as outras, interligadas por escadas de madeira e cordas.
Um estreito mar separava a terra da poderosa Ghis. Estavam a poucos quilômetros de um grandioso porto, aqueles povos de outro mar. Era esse um dia nublado e ventoso. Allara estava lá, com uma expressão mais cansada que nunca, com os olhos vidrados no fluxo de enormes embarcações ghiscaris. Mormont observava, possivelmente perplexo, apesar da expressão apática em seu rosto. Kellok não conseguia parar de falar. Estava tão encantado pelas gravuras nos barcos; as harpias que sobrevoavam o porto, os homens e mulheres sem nenhum pelo no corpo, com suas peles tatuadas com gravuras iguais às dos barcos que as transportavam. Não pareciam felizes, pois possuíam argolas nas mãos. Andavam lentos e cabisbaixos, mas não produziam som algum, como se não tivessem língua, ou se fossem proibidos de usá-la.
Montaram o acampamento ainda no continente, a mais de cinco dias de viagem do porto, mas mesmo assim viram um enorme fluxo de caravanas indo naquela direção. A maioria do bando ficou lá, avançando somente os líderes e seus principais guardas. Na direção do porto iam khalassares com seus muitos cavalos, que, apesar de assustar os peludos à primeira vista, não lhes prestaram atenção. Estavam lá apenas para pegar o dos outros e dar o seu em troca, como fizera um cavaleiro qualquer, da guarda de Ib dando um arahk a Lell em troca de uma manticora de pedra que este esculpira. A associação fez Liknell rir. Alguns Assenhayy’s vinham com seus ratos-boi e peles de ursos. Um homem de pele absurdamente negra trazia um cesto com gramíneas brancas nas costas, e uma enorme pele vermelha de leão das montanhas era carregada por asshai’s tão vermelhos como ela. Acompanhando essas caravanas, o pequeno grupo atingiu o grandioso porto.
Havia mais de mil casas de pedra ao longo da margem, todas com chamas que rodopiavam sobre seus tetos. A estrutura do porto era da mesma pedra fria que se fazia os arahks, mas era negra e maciça como rocha de fogo. Os maiores barcos de pesca de Ass-hen-ayy não chegavam a nem um décimo do tamanho dos barcos mercantes de Asshai, mas estes passariam vergonha diante da monstruosidade que eram aqueles de Ghis. Feitos de madeira grossa, e revestidos com piche da terra, eram tão grandes que precisariam de mais de cem árvores gigantes de Ulthos para construí-los. Uma explosão de cores vinha na parte de fora, com representações de homens e animais, semelhantes às gravuras que os peludos faziam em suas cavernas. Os barcos de seis remos que Lell vira a vida toda podiam ser controlados por três pessoas, ou por um home forte se a correnteza estivesse calma. Os barcos que via agora possuíam seis mil remos, com vinte homens controlando cada, e mesmo assim gemendo de dor a cada movimento. Enormes pedaços de couros vinham amarrados aos mastros, tremulantes ao vento, e eram baixados e levantados toda vez que navio partia ou chegava.
Se aproximaram de uma saída de barcos, olhando tudo em volta estupidamente, como uma criança olha para os animais que não conhecia. Apesar de sua aparência ser diferente daquele homem que vinha, nada ali era igual a nada, e ninguém os olhou com hostilidade, muito menos com amizade.
-Saudações! Sejam bem vindos ao porto de Astapor! – Ele falava a língua dos Assenhayy, mas com um sotaque forte de Asshai. – Este que vos fala tem a honra de ser Hazzen Murtz Gradeenz. Desejariam comprar ou vender algo¿
O homem era gordo, maior que qualquer rato-boi que Lell já tinha visto. Seus olhos estavam escondidos sob dois círculos vermelhos, que cintilavam à luz do sol, e possuía uma barba grande e verde, mas seu bigode era branco e brilhante como a lua. O sorriso do homem era amarelo amigável, e brilhava como o sol, mas, apesar de tudo, convidativo, mas o arco-íris que vestia deixava os peludos desconfiados. Lell estava se preparando para fazer qual quer pergunta a ele, quando, para o espanto de todos, Allara levantou o olhar:
-Gostaríamos de entrar em seu grande barco, homem de cores. – Ela respondeu na língua dos peludos. Allara costumava entender bem o que Lell e Kell falavam, mas sua pronúncia era errada e quase inteligível. Kell traduziu a frase para o homem colorido, que já se preparava para franzir a testa e fechar o sorriso, mas seu rosto se iluminou novamente.
-Entrar no meu barco¿, Sim, claro. – sua voz titubeou em sinal de desconfiança, mas seu rosto permaneceu intocado, como de quem tinha experiência em convencer sem encantos. Ele continuou, agora falando com muito mais fluidez a língua de Asshai. – E o que pretendem comprar deste¿ Ovelhas de Lhazar, escravos de carga, harpas de Valíria¿ ou será que preferem substituir seus arahks pelas mais belas espadas de Ghis¿
O entendimento era pouco, mas veio, à medida que Lell via os produtos. As espadas eram as mais brilhantes, feitas de algo bem mais duro que os arahks, e todos que a carregavam também tinham seus escudos, feitos de ferro, ouro e prata, como o homem colorido chamou os materiais que mais pareciam pedras frias. O olhar de Allara era impassível, mas seu tom de voz mudou, e desta vez era como se conversasse com alguém normalmente.
- Quero entrar em seu barco e navegar até o outro lado do mar, essa Ghis de que todos falam aqui. — Seu rosto continuava sem expressão, e seu olhar, frio como o gelo, mas Lell pôde sentir a mais leve das fagulhas de calor na sua voz.
- Uma travessia, sim, vocês podem fazer isto. – O enorme sorriso de ouro se esvaía aos poucos, dando lugar a um tipo brando de decepção. – mas não sou eu faço estes serviços. Vá até aquele home ali. — apontou seu dedo gordo para um homem calvo de pele rosada, e uma gravura azul no rosto que lembrava a forma de uma águia. – Dê-lhe um cavalo por cada pessoa, e ele lhes levará à Ghis. Com sua licença. – ele se curvou e sacudiu um pano branco, que tirara de algum lugar que Lell não vira, e depois de virou e partiu.
O homem tatuado certamente era um escravo, que funcionava como um cavalo qualquer. Ele lhe pertence, e faz o que você ordena. Lell gostou da ideia, e se perguntou por que em Ass-hen-ayy não tinham escravos. A princípio ele teve dificuldade para entender o que diziam, e provavelmente nada entendeu, mesmo depois de Kell dizer-lhe que queria uma travessia três vezes em bom Asshai’i. Puseram os dezenove homens e a mulher no barco, que era do tamanho do maior navio pesqueiro do bando de Lell, e, em menos de uma hora, avistavam com clareza o outro porto.
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