O porto de Ghis era ainda maior que o de Astapor. Aqui, as estruturas de madeira que seguravam os barcos deram feitas de pedra, articuladas com peças de aço. Os barcos eram muito mais variados, e eram mil vezes maiores. Sobre cada topo de torre ou prédio havia uma enorme harpia de pedra, que ficava ao lado de uma chaminé que exalava um fogo tão alto quanto à própria torre. As ruas eram feitas de pedras vermelhas e brilhantes, como se fossem sangue fresco, e por elas andavam freneticamente todos os tipos de animais, carroças e pessoas.

Os forasteiros avistaram ao longe, e ficava mais claro a cada segundo. As carroças e barcos iam e vinham cada uma depositando suas cargas na outra. Traziam seres humanos e seres quase humanos. Em oposição aos escravos amarrados, alguns vinham enjaulados, enquanto agonizavam perante as chicotadas que recebiam. Apesar de desconhecidos, pareciam a Lell extremamente famintos. Homens com estatura pequena, com manchas na pele que lembravam ursos malhados, homens com um olho só, homens com seis braços e outros sem braço algum. Homens que eram mulheres e crianças velhas com olhos estreitos.

Enquanto avançavam na direção dos barcos, viram cavalos listrados e cavalos de pescoços alongados, leões tão pequenos como ratos-boi, que pareciam menores que qualquer filhote de leão da montanha. Peixes que andavam foram das águas, manticoras enormes e pequenos ursos voadores. Acima de cada barco estava uma harpia, se equilibrando sobre os mastros como um pássaro se equilibra em um galho. Moviam seus pescoços nervosamente, ao balançar das ondas do mar. Crocitavam e berravam contra a confusão que se formava na terra, aquelas criaturas imponentes, olhando com desprezo para o pobre mundo abaixo.

Um homem de pele branca como o leite, vestido com tecidos leves e belos discutia algo com um homem de pele negra que vestia penas de pássaros coloridos. O leitoso era abando e coberto por dois escravos, ambos tatuados, mas um preto como o carvão e um branco como o próprio dono, tal como o negro vestido de penas, que tinha um par de escravos igualmente diversos. Um homem velho e gordo vinha em uma enorme casa dourada sobre rodas, que era puxada por enormes búfalos e ratos-boi. Em volta dele, mulheres das mais variadas cores vestiam-se exclusivamente de branco, ostentando nos braços e no pescoço tantas joias que pareciam ser deusas feitas de ouro. Tendas negras de feiticeiros, tendas vermelhas de sacerdotes do Fogo, os mais variados tipos de deuses. Os deuses de Ass-hen-ayy eram pequenos e feitos de fogo; dos de Ulthos, enormes árvores e rochedos flamejantes. Os dos Vaes Dothrak eram cavalos, e todos eles estavam lá. Ghis era como o encontro de tudo o que Lell já ouvira em histórias, e previra nas chamas divinas, além de muito mais do que poderia imaginar. Até mesmo seu irmão, o tão conhecedor e falante Kellokk, perdia as palavras diante do esplendor. E aquele era somente o porto.

As imagens se formavam e se iam a cada instante, a cada cintilar de luz do ouro e das pedras, a cada bater de asas de uma harpia, a cada fogo que exalava das casas mais altas. Os ghiscaris falavam um idioma diferente de qualquer um que Lell já vira, mas lhe parecia que não falava uma língua só. Na confluência dos rios do mundo, cada qual falava como lhe conviesse, e todos se entendiam por meio do ouro. Em algum momento da vida, Lell viria a sentir um pingo de orgulho disso, mas no momento não sentiu nada. Retirou daquele gordo velho e de suas belas mulheres os anéis de ouro e os transformou em moedas, como os medalhões de um khal. O brilho e o cheiro daquele material recém conhecido pelos homens do mar já era velho conhecido dos ghiscaris. Logo vieram quatro diferentes comerciantes, cada qual com seus produtos, falando em línguas diversas e apontando para o ouro.

Roupas de seda fina, diziam, e o material vestia como um manto de ar sobre a pele, perfeito para o calor insuportável que lá fazia. Os homens peludos trocaram suas vestes de couro por armaduras de couro duro e novo, muito mais resistentes e confortáveis, enquanto Kellokk se vestiu de mantos pesados e escuros. Para Lell não importava. Vestia as ervas brancas desde que se tornada Senhor da magia, e nenhuma roupa lhe era mais confortável que o poder. Uma casa sobre rodas do tamanho de um leão da montanha foi trazido até eles, e, em troca de muito ouro, foram apresentados àquele novo mundo.

À medida que avançaram pela cidade, os Prédios altos ficaram pequenos diante do que se seguia. Casas redondas, tão altas quanto mil milhares de navios, faziam sombra sobre os altos fogos de torres de pedra, mas nenhuma dessas casas se comparava aos templos vermelhos, cujos picos tocavam as nuvens, ou à Grande Harpia, uma colossal estrutura de pedra e ferro, da qual não se podia ver além da parte inferior das asas, e se dizia que podia ultrapassar o limite do céu.

Uma criança com uma gravura de urso no rosto explicava aos visitantes como funcionava a cidade. Os Grandes Mestres, um conselho de homens nobres, governavam a cidade, mas o maior dentre eles era Karkzan, herdeiro de Gradzan. Eles vestiam uma capa de seda, como aquele que Lell comprara, chamada tokar, que simbolizava a riqueza e a nobreza. Cada membro do conselho dos Grandes Mestres vivia em uma torre de pedra vermelha, e o maior deles vivia em uma das casas redondas que Lell avistara. Ao ouvir sobre o Grande Mestre Supremo, também chamado O Iluminado, os irmãos se entreolharam, recordando o pai, que também fora um líder. Em Ass-hen-ayy, o Shellra’na utilizava uma calça simples de couro, com as sandálias que qualquer homem usava, mas se cobriam com peles de ursos, negros, os animais mais rápidos e esquivos da mata densa. Um homem que conseguisse caçar um e extrair sua pele era tido como forte, ágil e inteligente, capacitado para governar. Saleouk caçara um urso negro na idade de trezentas luas, como se contava naquelas terras, e se tornara Shellra’na no lugar do pai. Antes que Lell ou Kell pudessem adquirir a pele, Saleouk morreu da moléstia da velhice, com seiscentas luas. Outro homem, tal Reneor, conseguira a caça e o cargo de líder. Uma parada brusca da casa sobre rodas pôs fim às recordações de Liknell.

– Aqui, senhores – disse a menina com um urso negro no rosto, em bom asshai’i – Esta é a Grande Arena, onde ocorrerá hoje um espetáculo magnífico. Todos os dias acontecem mil lutas em Ghis, mas esta de hoje é somente uma vez ao ano. Traremos um leão vermelho de Asshai para a arena, e ele lutará contra cem homens!

– Um leão vermelho de Ass-hen-ayy, você quis dizer – Lell a corrigiu, em um tom que mais perdoava que repreendia – eu já vi uma fera dessas, menina. Acha mesmo que podem cem homens, mil que sejam, lutar contra esses seres¿ Precisamos de muito fogo e veneno para matá-lo, e, não fosse isso, teria levado bem mais de três dias. – a menina olhava incrédula, sem saber o que dizer. Provavelmente memorizara a fala sobre a luta, como se a tivessem ordenado espalhar a notícia, mas não a haviam ensinado a responder perguntas. – Em todo caso, verei a luta.

Lell olhou em volta, e seus acompanhantes aceitaram a proposta. A arena era um conjunto de duas escadas em forma redonda, como um enorme anel de pedras e um chão de barro abaixo, cheirando a sangue fresco de gente e animais. Tinha mais gente dentro da arena que fora dela em toda a cidade, e o barulho que faziam seria capaz de derrubar uma montanha de gelo. Lell e os outros foram levados à uma área coberta, reservada somente aos homens de tokar, os nobres e cheios de ouro, ou nem tão cheios, já que Lell lhes tirara alguns anéis dos dedos.

As lutas começaram, a princípio, algo simples, como dois homens gordos e calvos com arahks se chocando, enquanto um fazia feridas na pança do outro, o público berrava e lançava moedas ao alto. Dava para ver daquele ponto nobre como o povo bebia um líquido negro e espesso, que mais se assemelhava a piche, mas cheirava bem como rosas de outono, e provocava uma alegria nos homens que se assemelhava ao efeito do leite de fêmea de rato-boi. Enquanto a agitação tomava conta da grande massa, os nobres conversavam alto, raramente gritavam e muito comiam. Foi oferecido a Lell e seus peludos uma porção de carne de cachorro, carne de cavalo e escorpiões fritos. Frutos nunca antes vistos, frutos conhecidos. Nenhum peixe ou urso, somente cachorros, cavalos e ratos-boi à mesa, assados, fritos ou cozidos, sempre suculentos e untados com mel. Bebericavam aquela bebida negra de suas taças transparentes ornamentadas com cristais vermelhos, através dos quais era possível ver o suor dos lutadores se transformar em sangue, e o sangue verdadeiro fluir como água. Homens de cabelos dourados e montados a cavalo lutavam com espadas prateadas até a morte, e depois um home do tamanho de cinco homens grandes lutou e esmagou um búfalo com os próprios braços. Ao fim, arrancou o coração do animal e o comeu ali, diante de todos, enquanto o exaltavam e faziam chover moedas.

O espetáculo final foi calorosamente recebido pela plateia, e fora o único capaz de calar por completo seus ruídos. O leão que entrou na arena veio de baixo, surgindo da terra e sacudindo a areia e o sangue como uma manticora surge do solo. Ele não era, nem de longe, tão grande quanto o filhote com que Lell cobrira as costas, mas parecia ser suficiente para os ghiscaris. Sua saliva era marrom e cheirava a carne podre, como de um leão comum, e nada havia nela de ácido. Até mesmo o vermelho estava errado. Tinha o tom de um arahk velho, não de sangue vivo. Foi então que Lell entendera. Um leão vermelho de Asshai.

Os cem homens que vieram com ele lutar tiveram dificuldade na dança, mas era visível que já haviam treinado. Dez homens se aglutinavam como moscas sobre detritos , agarrados à cauda do felino, enquanto vinte em cada pata bloqueavam seus movimentos. Cinco homens foram necessários para perfurar os olhos do animal a socos e pontapés, pois os outros quatro que estavam na cabeça despencaram e morreram pisoteados. Um último home estava perdido no espetáculo, como se não soubesse o que fazer. Este saiu correndo quando o leão se debateu, e acabou abatido pelas enormes presas do animal fincadas em seu pescoço.

Dentre os nobres que se encontravam naquele local coberto, Lell podia observar que eram todos gordos e glutões, exceto por um homem, que se localizava no fundo daquele salão de madeira. Permanecera calado durante todo o espetáculo, com uma expressão enfadada no rosto. Suas vestes eram verdes, e não tinham tanto brilho quanto as dos outros nobres, mas combinavam com seus olhos, que brilhavam como verdadeiras esmeraldas, apesar de seu rosto não demonstrar o mesmo brilho. As rugas nos cantos da face eram evidentes, mas a falta de cabelos brancos denunciava que o homem não era tão velho. Chegou perto dele com calma e curiosidade, e pronunciou em algum ghiscari mágico:

– Leões falsos e lutas fracas. Nada de interessante por aqui, não acham mestre¿

O homem virou os olhos para Lell devagar, como se não tivesse pressa para nada, e respondeu:

– Não tem a ver com o espetáculo. Meu interesse é o ouro que isso gera, e o que ele pode comprar, mas, no momento, estou enfurecido porque me roubaram o anel de meu pai, Gradzan o Grande.

Quando deu por si, Lell tinha duas lanças de ferro pressionadas contra seu novo tokar, e o dedo indicado de Seu Iluminado pousava suavemente sobre o anel roubado, no dedo médio de Liknell.