Notas iniciais
Olá. Me desculpem pela demora; eu tinha projetado essa cena,mas não consegui dar sentido à ela por mais de uma semana. A inspiração veio ontem e eu terminei o capítulo hoje. Muito obrigado a quem está lendo.

As masmorras eram absurdamente escuras, e, pelo que Lell era capaz de sentir tocar em sua pele, era realmente melhor assim. Estava amarrado dos pulsos aos ombros, e dos pés às virilhas. As cordas eram frias e cortantes como ferro, e estava presa a alguma superfície plana, provavelmente também de ferro.

Lell nada vira, mas as imagens se formavam claramente na sua imaginação quando recordava os sons, cheiros e sensações. Homens muito fortes com roupas longas o amordaçaram, vendaram e amarraram; enfiaram lanças em seus braços e o prenderam a uma tábua de ferro. Depois, fora lançado em uma masmorra mais escura que qualquer noite na Terra das Sombras.

O grande governante de Ghis não admitia crimes em sua cidade. Dizia-se que quem era pego em roubo perdia uma mão. Se roubasse algo de muito valor, poderia perder um ou dois braços, mas, se roubasse o anel de Gradzan, o Grande, a condenação era certa. Lell não saberia dizer em que momento o Grande Mestre se sentira mais assustado, quando as feridas provocadas por lanças se fecharam ou quando o machado se quebrara sobre seu pescoço.

Karkzan se levantara de seu trono de madeira negra repleto de ornamentos e olhara para o homem não morto com frieza, mas o desespero se mostrou no tom da sua voz, quando dissera:

– Guardas, queimem o demônio.

Lell sentira dor quando fora penetrado pelas lanças. Sentira dor quando fora espancado pelos guardas e quando lhe tentaram decapitar. Mas o que sentira entre as chamas era forte demais para ser chamado simplesmente de dor. As chamas de execução não vinham de uma fogueira simples, nem de fogueira nenhuma. Um cano grande como uma porta se colocava acima de sua cabeça, e, abaixo de seus pés, um chão plano do mais límpido cristal, como se já tivesse sido derretido e solidificado milhares de vezes. As chamas vieram de cima e queimaram os cabelos ao primeiro toque. O Homem de Lua apareceu ali, mas seu brilho nem poderia ser notado. As correntes de ferro que lhe prendiam as mãos e os pés se derreteram, e logo depois viraram vapor, mas Lell não pôde sentir seu cheiro. A pele branca se tornava pastosa e pegajosa, como se a qualquer momento fosse se desprender do corpo. O fogo caía rápido e forte como uma cachoeira, e quente como o mais vil dos infernos. Um a um seus sentidos se foram. O primeiro foi o olfato, seguido do paladar. Lell mordera a própria língua para aplacar a dor, mas não sentira gosto de sangue. Teria visto sua pele arder, se seu olhos não ardessem primeiro. Deuses, eu não era imortal¿ por que meu corpo de desfaz¿ Pensara Lell, afogado em dor e escuridão. Os dedos se iam aos poucos, e seus membros já não eram controláveis. Em um momento em que sua mão foi levada para cima e esbarrou na cabeça, Lell percebeu que tocava osso em osso, o que fez aumentar seu desespero.

Provavelmente passara algumas horas naquele banho de chamas, mas poderiam ser segundos ou dias, apesar de terem parecido mil anos. Quando acordou, Lell estava sendo amarrado pelos homens de Karkzan. Ouvia a voz do grande mestre, sentia o rude raspar de tecido de roupas em sua pele. Sentiu as cordas e a tábua de ferro em que lhe amarraram, e sentira o Frio da masmorra, mas seus olhos ainda não enxergavam nada.

Um fio de luz penetrou em seus olhos quando estes de regeneraram. A luz era forte e dolorosa, mas o confortaram como nada fizera antes. Mas logo depois, a iluminação se fora e ele entrara em um calabouço frio e escuro. O cheiro era de sangue, urina e fezes, e o que ouvia era o bater de mãos em paredes, o arrastarem de unhas e dentes em barras e o gemido e o choro de prisioneiros. Lell estava sendo carregado como um doente, mas o balanço o fez perceber que desciam uma escada em espiral. No andar inferior, o cheiro de sangue era o único presente, e o barulho era mortal. Podia ouvir o som de dentes rasgando carne, gemidos de morte, e não de dor; e gritos nada humanos. Também pôde ouvir o rangido de metais, mas já estavam perto demais da escada. O terceiro nível negativo era ainda mais frio, e quase não se ouvia som algum. Não havia nenhum cheiro, e, mesmo se houvesse, não seria percebido. Lell escutou somente um rugido, que nada tinha de humano, mas certamente vinha de alguém sendo torturado. O quarto andar abaixo estava menos frio, e o silêncio o fazia parecer menos torturante que os outros três. Pousaram Lell em um sobrenível que se poderia ser uma pedra, e prenderam ganchos em seus braços. A dor veio no início, mas ele não se permitiu expressar. Uma espada quente atravessou sua barriga, e uma corda puxava seu pescoço para trás. Sua pele não brilhou, provavelmente porque ainda estava queimada, mas Lell não morreu.

Os guardas se foram, e agora a agonia já não se fazia presente. Lell percebera que os deuses eram cruéis, pois o livraram da morte, mas não o livraram da dor da morte. Sentira seu corpo se reduzir a pó em uma fornalha; fora multilado e torturado. Agora já estava inteiro novamente, e sua pele brilhava na forma de Homem de Lua, já que este era quem não permitia que Lell morresse. A luz nada iluminava, mas, de certa forma, reconfortava o ânimo do senhor da magia. Lell deu por si pensando em seu irmão e nos Ulthi, se estariam mortos ou escravizados, e se entendiam o que acontecera. Talvez não tivesse sido a melhor das decisões mantê-los afastados da verdade sobre a imortalidade.

Lell não comia lá embaixo, tampouco sentia fome, mas sonhava com os sabores. A última coisa que comera fora um guisado de carne de cachorro com mel. O sabor era agradável no início, mas deixava um sabor amargo na boca. Agora também tinha um sabor amargo, que era do próprio sangue. As feridas provocadas pelos ganchos ainda estavam abertas, e o sangue não parava de correr, mas em nenhum momento Lell se sentira fraco ou semimorto.

Os deuses se mostravam cada vez mais cruéis. Foram misericordiosos em livrá-lo da morte, é verdade, mas a dor ainda incomodava. Não era mais como algo que rasga a carne, mas uma dor simples, como se puxassem seu corpo para lados opostos. Sua mente divagava a cada instante, buscando uma ocupação naquele negro ócio. Pensou em Asshenayy, no vale branco recoberto de gramíneas. O riacho em que pescava desde muito novo, as montanhas que escalava para caçar ratos-boi e observar ao longe os leões vermelhos.

Lembrou-se do momento em que recebera seus primeiros poderes, quando o Homem de Lua nascera, e de quando possuíra a mulher de fogo na aura de espíritos, roubando sua imortalidade. Os deuses o haviam revelado; não totalmente, mas ele compreendera. Durante o ato, não lhe viera nenhum prazer sexual, mas um prazer sádico de vitória, como o que um homem sente após uma vingança. Seus desejos agora eram iguais a antes, e ele continuara possuindo mulheres depois da imortalidade, apesar de se sentir inseguro nas primeiras vezes. Já haviam se passado três anos desde esse dia, e ainda podia se lembrar perfeitamente do frio das chamas e do rugir dos espíritos. Uma rajada de vento gelado levou seus devaneios, e ele voltou a si. Uma voz feminina falou, doce como gafanhotos no mel:

– Liknell, o homem de lua. O que desejas de nós¿

Lell se sentiu ao mesmo tempo assustado, aliviado e até um pouco irritado.

– Oh, poderosos deuses. Poderão me ouvir aqui na escuridão¿

– Os deuses podem ouvir em todo lugar – bradou a voz masculina – Vemos e ouvimos tudo.

O vento soprava mais devagar, e o frio se tornava mais morno a cada instante, mas Lell ainda não vira chama alguma.

– Poderão os deuses se revelar a mim¿ Eu não os vejo.

– Os deuses nem sempre podem ser vistos, jovem ingênuo. – Desta vez era a voz da criança que zombava dele – Não é só em suas fogueiras que nos manifestamos, e as formas em fogo que vês não são nossas únicas formas.

– Estamos em todos os lugares. – continuou a voz feminina, que parecia se aproximar. – Uma árvore, uma pedra, uma harpia, uma fagulha. O vento, as águas, tudo pode ser habitado pelos deuses.

Os mais variados pensamentos invadiram a mente do senhor da magia. Se os deuses estavam em todo lugar, se eram tudo, poderiam tê-lo visto em qualquer momento e o livrado daquela situação. Como sempre, estes souberam de seus pensamentos, e o deus que parecia ser homem continuou dizendo:

– Se te precipitas em julgar os deuses, talvez não seja merecedor de nosso favor, homem de lua. Mas a criança pede por ti e te daremos o auxílio necessário.

Então pela primeira vez em mil anos, Lell viu luz, e nela vieram as revelações. Eram, como sempre, imagens confusas e turvas, sem definições nem sons. As chamas cintilavam no ar, como se viessem de lugar nenhum, e nelas aparecia um conjunto de três harpias voando. Elas gritavam umas com as outras, e soltavam fogo pela boca. Abaixo dela estava o próprio Karkzan Yozz Argazz, Grande Mestre de Ghis, com um filhote de harpia no como, segurando-o como um bebê, e, diante dele, um pastor de ovelhas carregava um pote de ouro. Este olhava para cima e via as harpias com fogo, mas Karkzan só olhava para o ouro.

As chamas se apagaram e o mundo voltou a ser escuro, agora cem vezes mais do que era antes. O frio voltou, como se os deuses não estivessem mais lá. Lell se sentiu desesperadamente só, mas o deus que tinha uma voz de mulher terminou:

– Que lhe seja escravo um dos guardas desta masmorra. Ele dirá ao mestre o que você quiser. Faça bom proveito do favor dos deuses. – A voz se esvaiu e se foi agora se afastando.

Lell não conseguia contar o tempo naquele lugar. Nenhum sinal de dia ou noite lhe aparecia, nem mesmo o sono, mas poderia dizer que se passaram três dias desde a revelação dos deuses até que um som veio das escadas. Um homem sombrio e corpulento vinha, pesado a cada passo e fazendo ressoar metal, como se estivesse esbarrando em milhares de instrumentos de tortura. O homem se aproximou de onde estava Lell e tateou suas amarras, mas não as soltou. O senhor da magia não sabia o que fazer naquele momento, mas,em seu brilho fosco e olhar frio, fitou o escravo mandado pelos deuses e ordenou:

– Diga a Karkzan que não venda os ovos do oriente. – O homem deu meia volta e se retirou.

Muito tempo se passou até que viesse uma resposta. Lell apostaria em dois anos. A esta altura, quase não seria capaz de falar, por causa do longo silêncio. Seu povo estaria morto, ou distribuído entre os navios mercantes e vendidos como escravos por todo o mundo. Só pensava que seria difícil fazer tatuagens de escravos naqueles corpos peludos. Dois ou três guardas vieram, e estes certamente não eram seus escravos. Retiraram-lhe a espada e os ganchos enferrujados, o que interrompeu o fluxo de sangue. Seu brilho fosco foi se desfazendo, e ele voltava à forma de Liknell. Os três níveis acima do calabouço ainda exibiam sons aterrorizantes, mas, depois de todo aquele período de silenciosa solidão, os gemidos de dor e morte lhe soavam como suaves conversas.

A luz veio novamente, como um presente dos deuses, e ele pôde ver onde estava. Saindo das masmorras, se seguia um longo túnel de subida até uma porta no teto, que se abria e dava acesso ao mundo. O chão era de pedras vermelhas, e as harpias voavam e gritavam no céu. O cheiro era de comida, de pessoas, de perfumes e de merda, e era o melhor cheiro do mundo. Os guardas que o carregavam eram baixos e gordos, e, sem dúvida, muito fortes. Suas colunas eram tortas e eles andavam devagar como velhos, e sobre suas faces se envergavam panos negros como suas vestes longas.

Puseram o prisioneiro sobre uma grande mesa de pedra, onde um dos guardas usou um machado para cortar as cordas, mas não sem levar ambas as mãos de Lell, que ressurgiram tão rápido que os escravos do rei nem sequer perceberam. Libertado da chapa de ferro, prenderam seus pés e mãos em grilhões, e o levaram ao palácio da Grande Harpia. Uma casa alta como cem casas, repleta de escadas se erguia acima deles. Subiram as infinitas escadas até chegar a uma porta de madeira vermelha, que foi aberta por um dos escravos com um chute. As paredes do quarto eram recobertas pelo mesmo tapete de pele de urso que o chão e o teto. Móveis com formatos diversos ocupavam os cantos do salão. Lell foi lançado como um saco de grãos sobre um tapete limpo e ornamentado, repleto de gravuras de cenas de batalha, com as mais ricas cores e representações, tal beleza que Lell se sentiu culpado por sujar de sangue e ferrugem, mas o mestre nem sequer notou.

– Como meus escravos o trataram¿ — Quis saber o mestre.

– De onde eu venho, da mesma maneira que se trata um peixe morto. – Lell deu um sorriso zombeteiro, mas o governante não estava disposto a perceber.

– Recomendei para que fosse assim. Sabe por que ordenei que o trouxessem, demônio¿

– Pode me chamar de Liknell. E sim, tenho alguma ideia da razão pela qual estou aqui.

– Sua insolência me espanta quase tanto quanto sua imortalidade. Eu vi, tenho certeza de que vi. Recolhemos seus ossos da caixa de fogo, eram cinzentos e sem vida, e ainda os levamos às pisadas dos elefantes. Mas em pouco tempo lá estava você, vivo como alguém que sobrevive a um incêndio, já novamente com seu corpo feito e funcionando, exceto pelos olhos, que não estavam lá, mas agora temo que estejam.

– Sim, estão. Não sou como seus escravos das masmorras. Aliás, por que cegos¿

– Cegos enxergam melhor no escuro do que qualquer homem que possa ver. Foram eles que prenderam você à placa de ferro. Eram os únicos que não estavam com medo, pois não tinham visto os seus ossos queimados. Ordenei para que fosse colocado no nível mais profundo das masmorras, o hazqertuzz, sem água, comida ou luz, e mesmo assim está vivo. – As palavras demonstravam espanto, mas a voz e o rosto não transmitiam nada além de um quase desprezo.

– Por quanto tempo fiquei lá¿ — Lell quis saber

– Cinquenta dias, e início deste. Mandei buscá-lo assim que recebi esta carta. – Apontou para um rolo sobre uma mesa velha. – È capaz de lê-la¿

– Não. – Lell não via nenhuma razão para continuar mentindo.

– Liknell, vinte dias atrás um escravo entrou em meus aposentos. Ele estava morto. Andava, falava e até movimentou os olhos, mas era claro perceber que não tinha alma. Com um olhar vazio e nenhuma expressão no rosto, disse “o Homem de Lua diz para não vender os ovos do oriente”. Eu estava em posse de três ovos de dragão, vindos das Terras da Sombra, ainda mais extremo que o seu Assenhayy. Os dragões nasceram, viveram e morreram no Leste há milhares de anos, no tempo em que os homens não existiam e o fogo governava o mundo. Nenhum homem jamais vira um dragão vivo, mas seus ovos permaneceram no mundo. Os ovos que eu comprara era revestidos em ouro e pedras preciosas, mas já não me agradavam como ornamento. Uma troca simples, algo supérfluo com o qual eu me importei menos na vida. Um mercador de Valíria levou os três ovos, em troca de mil barras de ouro. Na noite deste dia eu recebi o recado do escravo morto. Depois de falar, ele tombou imóvel. Homem de lua.

– Mas como soube que era eu¿

– As harpias de fogo, o pastor de ovelhas, o pote de ouro. Tive um sonho em que você aparecia e me falava sobre esses dragões. Quando recebi a carta, tudo se esclareceu. – Sentou-se, com uma expressão carregada no rosto e coçou a barba cor de ferrugem – ou se obscureceu.

– Eu avisei por um mensageiro. Avisei por um sonho e até mesmo as harpias gritavam de suas janelas, mas você não me ouviu, grande iluminado. Seria orgulho demais ou simples ignorância¿

– Quem sabe um pouco dos dois. – A expressão de pedra fria retornara, e a voz era absurdamente neutra. – Mas afinal de contas, eu não tinha como saber. Os ovos chocaram em Valíria, é o que diz a carta. Nos vulcões do Quatorze Fogos, como aqueles pastores os chamam. Pequenos lagartos com pescoços alongados voam e soltam chamas pela boca na península de Valíria.

– Perdeste o maior tesouro dos últimos mil anos. Mas agora que já aconteceu, por que estou aqui¿

– Como roubou meu anel¿

– Não se responde uma pergunta com outra pergunta, mas posso ser conveniente com você. Usei magia, pura e simples. A mesma que me manteve vivo e me revelou o seu futuro.

– Magia é o material mais valioso do mundo. – A voz de Karkzan já não era tão gelada, mas era fria.

– Depois de dragões. – Agora um rápido olhar denunciou que o mestre reparara a zombaria do sorriso.

– Por fim, Liknell. – Disse Karkzan. – preciso de seu dom. Preciso da magia.

– É intransferível.

– Posso comprá-lo. Você sabe que eu tenho posses. – A frase soaria como um pedido, se não tivesse saído da boca de um rei.

– É inestimável.

– Então fique, e me dê mais conselhos de acordo com suas visões de futuro.

A proposta fez Lell refletir. A possibilidade de ser conselheiro do líder máximo de Ghis lhe pareceu um tanto interessante.

– E se eu recusar¿

– Volta para baixo. É perigoso demais à solta, Liknell.

– Vejo que me oferece em uma mão uma cesta de frutas e na outra um punhal afiado. É evidente que ficarei, senhor. Perdão, Vosso Iluminado.

– Então chegamos a um acordo. Viverá à minha custa, se isso lhe interessa saber. Sua tatuagem será...

– Se me tatuar, rasgo meu rosto. Você sabe que cresce de novo.

– É bom que lembre com quem fala. Está sob minha custódia agora – As palavras eram levemente ameaçadoras, mas a expressão facial e o tom de voz do mestre sugeriam mais satisfação que reprovação. – Pois bem, não terá tatuagem. Afinal, vejo que sua condição de imortal o impede de servir como escravo, mas não pense que não tenho garantias de que me será fiel. Sei que algum dia pode arranjar uma maneira de sair do calabouço, usando a mesma magia que usará para roubar os dragões. Terei a vida de seu povo, aqueles selvagens peludos do oriente, como reféns.

Lell só percebera agora que ainda não perguntara pelo irmão, por Allara, Mormont e os quase seis mil ulthi que trouxera por três longos anos.

– Onde eles estão agora¿

– Presos, até que minha ordem seja dada. Fique tranquilo, ao contrário de você, foram alimentados. Nunca os vejo reclamar de nada que não seja o calor e o constante fedor de peixe. Por muito pouco não vendi metade daqueles homens como escravos a um astapori que precisava de homens fortes para um novo exército, mas a carta de hoje me fez repensar.

– E o que vosso iluminado pretende fazer com eles¿ Peço que não os mande de volta para o leste; eles não suportariam atravessar o Deserto Vermelho mais uma vez.

– Tenho sob meu domínio desde as colinas internas, que fazem divisa com o Mar Dothraki, até metade do mar que leva Ghis a Valíria. Seu povo poderia viver em qualquer pedaço, desde que contribua de alguma maneira para o meu comércio.

– É um preço alto para um anel, mestre. Os ulthi têm algum conhecimento de agricultura. Poderiam ocupar as terras próximas às colinas e viver à própria custa nos seus domínios.

– Sim, o preço é alto, mas um ghiscari nunca perde uma oportunidade. Aqui, vejo três. Meus dragões; seus conselhos e os impostos a serem pagos pelos ulthi. Evidente que, se me trair, torturarei e matarei seus seis mil homens naquelas masmorras.

– Compreendo, vosso iluminado. Mas agora, gostaria de saber como pretende ter de volta os dragões que estão em poder dos valirianos.

–Em outro momento, em outro lugar. Por hora, basta saber que eu dou as ordens, e você somente obedece. Clerion! – Um jovem rapaz de olhos púrpuros e cabelos prateados trajando um roupão vermelho de seda fina e ornamentada surgiu nos aposentos, mais rápido que Lell julgaria ser possível. – Leve Liknell aos seus novos aposentos, e chame Gotzzan, chefe dos guardas.

O rapaz nada disse; apenas tocou um joelho no chão, sem desviar o olhar de seu soberano, e se retirou, indicando o caminho ao mais novo escravo de Karkzan Yozz Argazz.



Notas finais
Eu estive pensando em adicionar POV's de outros personagens, para explicar o que está acontecendo no mundo agora. O que acham?