O fogo destruía tudo o que havia pela frente. Fihaja viu seu pai e seus irmãos sendo queimados, os rostos transfigurados e a pele se tornando líquida como água pura. As cabanas de palha foram as primeiras a queimar, desaparecendo no ar ao simples toque do fogo. Depois dela vieram as casas de madeira dos homens ricos, e não demorou até que as chamas se espalhassem pelo porto e incendiassem todos os barcos. Os demônios voavam pelos céus naquela noite, com suas asas aterradoramente grandes, que produziam sombras até mesmo à noite.

As hstórias dos velhos contavam do que acontecera. Duas luas no céu, até que uma se partiu e dela saíram mil dragões. Dragões, fogo em forma de carne e osso. Demônios destruidores. Dizia-se que os primeiros haviam surgido nas Terras das Sombras, muito a leste de Asshai, mas já haviam queimado toda a floresta sombria, e agora atacavam sua pequena vila com sua sede interminável de sangue.

Em seu corpo pequeno e esquálido, Fihaja observava tudo paralisada, acocorada atrás de uma grande pedra, de costas para os dragões, mas ainda assim era capaz de ouvir os gritos desesperados dos homens. Era como se pudesse ver seus olhos despencando de seus rostos, seus ossos virando pedra negra e depois pó. Os demônios dos céus carregavam homens, mulheres e crianças para o alto e os queimavam, devorando sua carne logo em seguida. Mil ovelhas queimadas jaziam no solo carbonizado, completamente ignoradas pelos dragões. Eles queriam carne humana, e somente esta. As chamas avançavam para perto de si, e a menina não tinha mais para onde escapar. O calor era sufocante, e o som estridente que os dragões produziam lhe davam uma fortíssima dor de cabeça. Em pleno desespero, Fihaja pressionou seus ouvidos e fechou os olhos o máximo que pôde, mas ainda era capaz de ver a imagem de seu pai, plenamente fumegante vindo em sua direção. Ele cambaleava como um velho manco, mas sua imagem era mil vezes mais assustadora. Ele gritava, ou produzia uma versão demoníaca do que seria um grito. Em sua cabeça, duas cavidades vazias jorravam fogo e sangue esfumaçado, quente como o sol, mas sombrio como a mais escura noite.

Ela acordou de sobressalto naquela pedra que agora era sua cama. Fihaja tocou os braços e percebeu que estava suada. O sonho dos dragões, aquela lembrança antiga que há muito tempo não tinha, a estava atormentando constantemente nas últimas luas. Como em todas as manhãs naquele lugar, ela andou até o pequeno lago formado pela chuva em um declive barrento nas montanhas. A água não era pura, mas era suficientemente fresca para acalmar seus pensamentos e a trazer de volta à realidade. Olhou para trás e viu a pilha de cinzas que fora sua fogueira na noite anterior, e reparou que suas roupas de peles também estavam lá, e só então passou a sentir frio. Molhada pelo pequeno lago e completamente nua, Fihaja voltou à sua instalação e se vestiu.

Ela desceu o monte com a mesma facilidade que subira. Os deuses construíram as montanhas com encaixes para mãos e pés, pensou. Os campos eram mais brancos aqui que em Asshai, talvez por ter menos pessoas acendendo fogueiras, ou por simples coincidência. Andou com os pés nus por sobre aquelas plantas, sem sentir nad além de um massagear de gramíneas molhadas pelo orvalho. Também poderia vestir as roupas feitas de planta branca, mas não pretendia chocar nenhum camponês que a visse. Era para cá que as visões indicavam ao menos era o que ela era capaz de entender daquelas fogueiras, já que os deuses insistiam em não aparecer desde que tivera o primeiro sonho com dragões.

Assenhayy era menor que a mais pobre vila de Asshai. Um punhado de criadores de ovelha, plantadores e caçadores, era tudo. Homens barbudos e selvagens, sem noções de comércio ou navegação. Após algumas conversas em seu idioma simples, Fihaja percebera que eles não possuíam um líder fixo e nem sequer sabiam converter o período de doze luas em um ano, contando idades com números absurdamente grandes. Os habitantes dessa terra possuíam certa semelhança com os de Asshai, mas se diferenciavam certeiramente em seus cabelos marrom-escuros ou negros. Nenhum Assenhayy possuía cabelos vermelhos como os homens da terra natal de Fihaja, nem mesmo cor de fogo como os cabelos dela própria. Ela finalmente encontrara quem estava procurando há uma lua. Saíra de Asshai desesperada pelos tormento das lembranças, mas agora achara a paz, ou ao menos uma trégua. Talvez os deuses re-aparecessem logo, talvez falassem com ela, lhe explicassem a razão de tudo aquilo. Talvez lhe explicassem por que ainda sentia medo de dragões mesmo milhares de anos após o fim deles.

O rapaz pescava no riacho com uma destreza acima do comum. Uma vara longa com uma pedra afiada na extremidade, era tudo o que tinha, mas pegava um peixe a cada lançamento. Atrás de si havia uma cesta de junco cheia, com comida suficiente para um banquete. O rapaz se concentrava em sua tarefa a ponto de não reparar nada ao redor. Constantemente coçava sua rala barba jovem, um chumaço de cabelos marrom-escuros que pendiam de um rosto magro da cor de leite coalhado. O rapaz vestia couro de rato-boi, assim como ela, mas suas vestes conseguiam ser ainda mais grosseiras. Sandálias de madeira negra estavam sob seus pés, assim como nos pés de todos em Assenhayy. Fihaja se perguntava como um povo poderia viver tão perto de algo tão venenoso quanto a grama branca. O jovem coçou o peito e arremessou a lança, capturando o último peixe, e depois saiu andando na direção oposta ao riacho. Fihaja observou atentamente o andar do rapaz, rápido, mas não apressado. Seu corpo magro parecia adaptado para correr, mas ele nunca corria. Algo nas formas daquele garoto estranhamente fazia Fihaja se lembrar de Ydee.

Ele também era de Assenhayy, com seus cabelos escuros e barba grosseira, e sempre correndo sobre aquelas sandálias negras. Ela o vira pela primeira vez em meio ao fogo de Asshai, mais de mil anos antes. Ele viera de lugar nenhum, e de todos os lugares ao mesmo tempo. A segurara nos braços, aquela menina mirrada de dez anos de idade, completamente desesperada escondida atrás de uma pedra grande. Como ele me achou lá?, perguntara a si mesma diversas vezes, mas nunca perguntara a ele. Ydee de Assenhayy, no tempo em que apenas era um estranho, salvara Fihaja das chamas de um dragão e a levara às pressas até um poço próximo, onde se apertavam outras cinco pessoas, todas encharcadas pela água do poço. Era alto e forte, mas mesmo assim era magro. Seus cabelos selvagens desapareceram no contato com o fogo, e Fihaja já começara a se desesperar, apenas aguardando os gritos de dor e a pele se derreter, mas nada acontecera.

Ele se virara contra o dragão e lhe arrancara os olhos, provocando um som mais que estridente e rajadas de fogo descoordenadas pelos ares. Seis dragões atacaram Asshai naquela noite, e seis dragões morreram nas mãos de Ydee. Pela manhã, já não havia mais aquelas bestas no mundo, e um homem estrangeiro calçando sandálias de carvão acordara a menina dentro do poço. Ele a salvara, e ela não tinha ninguém, então fora com ele. Viajaram por seis dias e seis noites sem dizer uma palavra sequer. O homem que viria a ser Ydee observava a criança com um olhar frio, porém zeloso. Se sentia segura perto dele.

Fihaja não vivia exatamente em Assenhayy, mas nas montanhas que ficavam a norte do povoado. Ydee era um homem cauteloso e recluso, sempre recusando qualquer companhia que não fosse a dela. Nem nos mais rigorosos invernos ela passava necessidades, sempre aquecida pelas fogueiras com fogo infinito que ele acendia, e, quando a comida era escassa, o homem passava uma estação em jejum, sem sequer ficar mais fraco. Com o tempo, foram se conhecendo um ao outro. Ele fora um caçador, segundo dizia, mas um dia os deuses o haviam escolhido para serví-los. Quando Fihaja estava com seus dezesseis anos, voltava da colheita de lenha para a cabana de Ydee nas montanhas. Ele estava lá, carregando uma caça recente. A noite cairia em breve, então ela começou a preparar a fogueira.

– Fihaja. — chamou Ydee.

– Sim.

– Preciso lhe contar algo. Você sabe que eu sirvo aos deuses, certo?

– Claro, é o que diz quase todos os dias.

– Pois bem. O que não lhe contei é que os sirvo há trinta e nome mil luas.

Fihaja pesou um pouco no enorme número, e então reagiu:

– Acho que isso é impossível.

– Eu também, mas o fato é que não é. Eu era jovem, talvez um pouco mais velho que você. Os deuses me chamaram do fundo de um lago enquanto eu me afogava, salvaram minha vida e me deram uma missão.

– E que missão era essa? — Fihaja tinha uma ponta de confiança naquelas palavras. Ydee não era homem de mentir, mas também não era homem de falar coisa alguma.

– Salvar você. Bem, salvar o mundo inteiro. Os dragões que destruíram sua vila em Asshai há algumas luas. Eu deveria matá-los, mas por milhares de luas eles estiveram nos céus, inalcançáveis. Agora que os matei, minha missão acabou.

– E o que quer dizer com isso? — Fihaja estava levemente assustada com aquilo.

– Quer dizer que o dom que os deuses me deram não mais tem serventia. Veja, querida. Eu a encontrei atrás daquela pedra completamente perdida e amedrontada. A trouxe comigo e a alimentei, cuidei de você como pude, como um home velho pode.

– Você não é velho. — Ydee parecia ter, no máximo, trinta anos de idade.

– Sim, sou sim. Já vivi tempo demais, vi meus pais e meus filhos morrerem. Vi minha segunda mulher morrer também, então decidi que nunca mais teria família, mas ainda precisei perder amigos para a morte antes de me isolar nestas montanhas. Todas as noites eu olhava para o céu e observava os dragões inalcançáveis, voando por entre as estrelas e bloqueando sua luz de quando em quando. Eu corri por trinta vilrejos queimados em Asshai antes de encontrar o seu, mas lá estavam as bestas. As matei, cumpri minha missão.

– Ainda não entendo.

– O dom que os deuses me deram, esse de viver para sempre. — Ydee abaixou a cabeça e passou a mão sobre o rosto, como se estivesse cansado e com sono — Não preciso mais dele. Não quero mais ele. Preciso me livrar disso, Fihaja. Preciso de você.

– Eu? — a voz da garota soou mais esganiçada e assustada do que deveria.

– Sim, você. É única pessoa que conheço, e provavelmente será uma boa herdeira.

– Herdeira, mas quê... Do que você está falando?

– Da magia dos deuses, Fihaja. Do dom da vida eterna. Do fardo de servir aos deuses para sempre.

– Não. Não posso aceitar isso.

– Claro que não pode. Ninguém pode. Eu não poderia aceitar, pois estava morto. Meu fardo vem de uma dívida com quem salvou minha vida. Você tem alguma dívida?

– Sim. — disse Fihaja, com a voz baixa — Você salvou minha vida.

– Pois bem, agora pode me salvar também. Paguei minha dívida com os deuses, e agora é sua vez de carregar esse dom.

A conversa que os dois tiveram naquela noite ecoava até hoje nos ouvidos de Fihaja, mil anos depois. Em alguns sonhos, o rosto de Ydee desaparecia e dava lugar ao rosto de seu pai derretendo perante as chamas dos dragões. Até hoje ela acordava aos gritos, lembrando-se de Ydee e tudo o que tivera de fazer para pagar sua dívida com ele.

Apesar do tempo que se passou, Fihaja não sentia o desejo de morrer que Ydee relatara. As habilidades mágicas que aprendera, a comunicação direta com os deuses. o dom de controlar o mundo ao seu redor e de ser imortal. Tudo isso parecia bom. maravilhoso, tornando sua vida muito mais fácil e prazerosa. Ela passara trezentos anos vagando pela floresta enegracida das Terras da Sombra, muito a leste de Asshai, vivendo em templos de magia profunda e aprendendo com os magos negros. Depois ela matara todos eles e bebera seu sangue, mas isso não tinha importância para ela.

Os sonhos de dragão que lhe atormentavam as noites faziam-na andar distraída e perdida durante o dia inteiro. As chamas nas fogueiras mostravam algumas imagens turvas, fagulhas dançantes e clarões temporários. Nelas Fijaha encontrara o povoado de Assenhayy, assim como pudera ver aquela imagem, aquela que ela não tinha certeza até ver acontecer. O jovem carregava uma cesta cheia de peixes em sua mão direita, e uma lança simples na mão esquerda. Fijaha ficou observando detrás daquelas árvores durante dias, até ter certeza de que era ele.

Os dragões voltaria, isso era certo. Ela vira nos sonhos e nas chamas. Seria mesmo isso? Tinha de ser, apesar de os deuses não terem se pronunciado a respeito. A missão estava lá, mas ela não estaria disposta a cumprir. Ydee cumprira uma missão e morrera por ela, mas Fihaja gostava demais de sua vida para desperdiçar em um tolo serviço aos deuses. O rapaz precisava ser treinado, sem dúvida. Precisava ser fortalecido, mas nunca imortalizado. Os dragões poderiam morrer em suas mãos caso teimassem em ressurgir.

Ela se virou e andou na direção do interior do matagal, onde o local sagrado a esperava. Ydee falava com os deuses por meio das águas, mas Fihaja fora salva do fogo, então era assim que eles apareciam para ela. As cinzas da fogueira voltaram a queimar ao simples toque da mulher. As chamas cintilaram perante seu olhar, gerando um calor mágico que somente os deuses poderiam ter. Fihaja sentiu seus poderes ficarem mais fortes, e um prazer intendo tomou conta de seu corpo e sua mente.

Sentiu seus olhos revirarem involuntariamente, e depois sua visão se extinguiu por completo. O suava ruído da floresta se transformou em um silêncio quase perturbador. Avise-me se doer, então eu paro. A voz ecoava na sua mente, tão clara quanto mil anos antes.A imagem de Ydee, alto, forte e imponente com sua imensa barba marrom vindo em sua direção. Se doer, então eu paro. Ela viria a rir disso mais tarde, diversas vezes. Ria de sua ingenuidade e dor, ria dos gritos de Ydee depois de tudo o que fizera a ela.

Eu paro. Sentiu seu corpo ficar mais leve, e suavemente seus pés deixaram de tocar o chão. Seus membros se libertaram se deu controle e criaram vida própria, livres ao vento. As chamas lambiam suas pernas quase que com o carinho de um cão, e um calor orgástico tomava conta de seu corpo. Fihaja estava flutuando sobre a fogueira, tão leve quanto uma folha seca que é levada por uma brisa. Avise-me. Eu paro. A cena lhe voltava à mente quase todos os dias, tão frequente quanto as cenas de dragões queimando pessoas, embora não tão aterrorizantes.

- Não! — gritara ela, com todas as suas forças. Seus olhos estavam cobertos de lágrimas e ela mal podia enxergar o rosto do homem que estava diante de si — Por favor, pare! Eu não quero mais! Não quero mais!

Mas o homem a ignorara completamente, ou já estava em um transe tão profundo com os deuses que não podia mais perceber o mundo ao seu redor. De qualquer forma, está vingado. Mil vezes vingado, pensava Fihaja, tentando convencer a si mesma. Palavras estranhas em um língua estranha saíram de seus lábios. Ela não podia ouvi-las, mas sabia que os deuses vinham diante daquele ritual. Avise-me se doer, dizia o homem, enquanto a afogava.

Os deuses haviam escolhido o fogo para ela, mas para Ydee, o lago era o lugar sagrado. Ele fora salvo lá, e lá sentia a presença dos deuses. Fihaja sentira uma energia fortíssima naquele lago, algo que não conseguia explicar, seguido pela cegante dor de Ydee dentro de si. Ainda era capaz de ver as bolhas saindo de sua boca naquele lago, ao qual ela estivera quase totalmente submergida. Os olhos do homem barbudo fechados e sua boca cerrada, invisível. Ela não conseguira fechar os olhos, estava com muito medo de morrer de dor ou afogada. Fora obrigada a assistir a tudo aquilo através de uma cortina de lágrimas. Vingado, pensou, como se a repetição da palavra pudesse mudar a história.

Lentamente, seus pés voltaram ao solo. Ela podia novamente controlar seu corpo e conseguiu ver as chamas tomando forma. Sentiu uma alegria forte como não sentia há muito tempo. Já fazia cinquenta dias que os deuses não respondiam ao seu chamado, mas agora lá estavam eles, dançando em uma aura perfeitamente mágica. Fihaja se lembrava perfeitamente da primeira vez que vira os deuses. Seus cabelos ainda pesavam de água do lago, e suas pernas ardiam em carne viva. Estava tão fraca que mal podia se pôr em pé, mas fora, de alguma forma inexplicável, capaz de arrastar o corpo do lago até o alto das montanhas.

As chamas tamborilavam diante de si, dançando com ela sobre o corpo de Ydee. Ela sentia a chamas sobre si, eternas línguas de fogo que lhe aliviavam a dor e a enchiam de prazer. Os deuses hoje estavam lá, e, tal como sempre haviam feito no último milênio, dançavam com ela em um sintonia mágica. Fihaja jogara as cinzas do morto naquele lago que fora sagado para ele. O homem famoso por seus atos, o herói de três mil anos. Destruído por uma menina com cabelos cor de fogo. A dança continuou frenética ao som de nada e de tudo ao mesmo tempo. Quando estava com os deuses, Fihaja sentia como se todo o mundo conspirasse a seu favor.

O farfalhar das folhas das árvores cantava em sintonia com os pássaros, os arbustos se moviam como podiam. Avise-me se doer, disser ela enquanto pisava sobre o corpo em combustão no alto das montanhas. Então eu pararei. Tem uma dívida comigo, Ydee. Vingado. Mil vezes vingado. Fihaja se sentia satisfeita pelo destino que dera a si mesma depois daquela noite. Mil anos servindo-se da mesa dos deuses como uma hóspede de honra, mas agora essas visões a atormentavam. Os deuses a ouviam durante aquelas danças, então se preparou para falar. Era difícil decidir o que perguntar, mas pretendia dizer alguma coisa. Um som de passos atrás de si a fez parar e olhar.