O Homem Que Viu O Mundo
2 Os campos brancos
O sol nascia forte e vermelho. A luz se espalhou por toda a planície, iluminando a vegetação rasteira, fazendo a branquidão de o solo parecer vermelha como o fogo. Liknell olhou para fora de sua cabana de palha verde, voltou para dentro e vestiu suas calças de couro cru, como fazia todos os dias, mas desta vez não pretendia pescar no riacho. Por força do hábito, buscara sua lança no chão atapetado por peles amarelas de ursos, mas logo se lembrou do que pretendia fazer, e a largou.
Ele costumava pescar com o pai, que lhe ensinara o ofício. Sua mãe lhe costurava calças de couro de sandálias. Seu pai também era pai de sua mãe, e era Shellra’na do bando. Mas estes eram tempos passados. As luas vieram e lhe tomaram os pais. Agora era ele um homem adulto, contando com duzentas luas. Pescava para si próprio e tomava suas próprias decisões.
Lell saiu da cabana, sempre olhando para baixo. Era um hábito que todos tinham, e que os pais ensinavam aos filhos. Todo o solo era recoberto pela gramínea branca, a terrível e venenosa. Ela protegia os homens contra as manticoras, que morriam se tocassem a vegetação venenosa, e os homens usavam sandálias feitas com couro de rato-boi para se proteger dessa erva. Se alguém a tocasse com os pés nus, seu corpo se queimava de dentro para fora, e a morte era lenta e dolorosa. Apesar do perigo que apresentava a grama branca não era o maior inimigo da vida. Acima das montanhas, em pontos idolados, cresciam grandes extensões de caule branco, ainda maior e mais venenoso que a grama. Este exalava uma fumaça sufocante, que, apesar de cheirar bem, levava à morte. Liknell se perguntava como alguém soube o cheiro de tais caules.
Fazia frio naquela manhã, tanto que não fazia há muitas luas. Liknell calçou suas sandálias de madeira negra e vestiu o corpo em uma grossa pele de um leão-gigante. Fazia tempo que ele não vestia essa pele, e o suave toque nos pelos de leão o fizeram lembrar-se do dia em que o mataram. O animal era um filhote, segundo deduzira pela aparência, já que não possuía juba e suas garras eram proporcionalmente curtas, mas, mesmo assim, era três vezes maior que qualquer urso que habitasse a região.
Suas passadas dilaceravam a gramínea branca, que não lhe faziam mal algum ao toque. O leão não rugiu nenhuma vez, mas o som que fez ao mostrar os dentes foi bem mais amedrontador que qualquer rugido, como os demônios que surgem da terra e destroem as cabanas dos homens como terríveis jatos de fumaça sem fogo. A saliva verde escorreu por entre os pelos vermelhos da face do felino gigante, seus olhos eram estreitos e brilhantes como a lua. Todos os homens do bando amarram cordas de palha em lanças com pontas em pedra de fogo e as arremessaram contra o leão. As pedras se incendiaram no momento em que se chocaram contra os espessos pelos, e o incendiaram as patas e a barriga. Ele veio ao chão, fazendo o fogo apagar com o impacto, mas ainda levou três dias para morrer. O bando precisou encher a boca do leão com grama branca, para que não berrasse e chamasse animais maiores. No fim, dividiram a pele entre os homens, e era esse pedaço de pele que Lell usaria hoje.
O vento batia forte e cortante contra o seu rosto, e a gramínea branca parecia silvar a cada passo que dava. Lell se lembrou da primeira vez que vira aquela mulher. Era bela, pesar de um pouco velha. Certamente já passara das trezentas luas, e nunca serviria para procriar, mas seus cabelos eram pesados e sua pele era mais limpa que da maioria das mulheres. Lell a vira perto de uma fogueira, Em plena noite, vestida de uma manta de caules brancos. A princípio não acreditara, afinal, esses caules eram venenosos, mas lá estava ela, fazendo movimentos estranhos e falando uma língua estranha. Da fogueira saíam fagulhas com formas humanas, mas com o tamanho de bebês recém-nascidos, que dançavam a com ela e produziam sons estridentes. Depois de alguns momentos, o fogo se apagou completamente, e a mulher foi ao chão, como se a toga branca finalmente fizesse efeito. Esta começou a brilhar no escuro, e a mulher se ergueu, à vista de Lell. Caminhou na sua direção, como um fantasma na escuridão. Incapaz de fugir, ele ficou imóvel, e recebeu um toque em sua face, que o apagou.
Devia ter passado mais de uma lua desmaiado, porque, quando acordou, sua barba já estava significativamente maior. Estava na cabana de palha verde habitual, deitado sobre a felpuda pele de urso amarelo que atapetava o solo de gramíneas brancas. Atordoado, Lell saíra da cabana e fora em direção ao riacho, e lá estava ela. Nua e brilhante, se banhando a plena luz do dia. Ele sentiu seus desejos despertarem, mas logo se arrefeceu quando ela se virou, fazendo-o lembrar do encontro. Quis perguntar muitas coisas, mas ela foi a primeira a falar.
–Homem de lua, na morada dos deuses, em cada topo de monte, ao canto dos pássaros e ao toque do sol vermelho. O fogo sagrado brota do solo e desce dos céus, e a magia consome os homens.
–O que isso tudo quer dizer, mulher¿ o que você fez comigo¿
–Saia de sua morada e venha a mim, homem de lua, no lar dos leões rubros, no próximo quarto de lua. Venha a mim, se quiser ter respostas e se quiser algo dos deuses.
Ela cantava cada palavra com uma doce voz, e entrava nas águas pouco profundas do riacho a passos curtos. Quando terminou de falar, afundou sem fazer bolhas ou qualquer movimento na água. Lell nadara por muito tempo à procura da mulher, sem sucesso.
Mas agora era o momento. Um quarto de lua se passara, e o sol nascia. Ele saiu em direção às altas montanhas, para as perigosas tocas de leões-gigantes, em busca daquilo que poderia ser sua resposta, ou simplesmente sua morte. Não demorou muito até que chegasse ao pé da montanha. Lell tinha experiência, pois já escalava desde as cinquenta luas, e agora contava com quase duzentas. Escalou silenciosamente, e rolou sobre sua capa quando chegou ao topo.
Hoje não havia leões. Raramente havia, na verdade. Lell estivera nas montanhas próximas milhares de vezes, caçando ursos e ratos-boi, mas só via os leões vermelhos à distância, nas montanhas altas do norte. Tampouco, no entanto, conseguia ver a mulher. Procurou por uma cabana de palha verde, como aquela em que vivia, sem sucesso. Andou e correu por toda a extensão do pico, e, quando estava prestes a desistir, ela surgiu atrás de si. Estava a certa distância, cantando uma doce e incompreensível canção à beira de uma fogueira.
–Vejo que o homem de lua veio. O que procura, afinal¿ — cantou.
–Por que me chama assim¿
–Ora, o homem de lua brilha como ela. Ele veio até a mulher de fogo em busca de algo, e os deuses sabem o que é. – “Mulher de fogo” pareceu um nome adequado àquela. Os cabelos daquela figura enigmática eram alaranjados com mechas vermelhas, como se fossem chamas de uma fogueira. Seu olhar era penetrante e seus olhos brilhavam no escuro como estrelas. A simples proximidade dela fez Lell sentir tanto calor que precisou abandonar a pele de leão-gigante.
–A magia o escolheu homem de lua. Você nasceu na Lua Alta, o dia em que esta esteve no céu mais brilhante que o próprio sol. Em breve virá a nova Lua Alta, e os deuses me escolheram para lhe ensinar a magia.
–Do que está falando, mulher¿ Não sou mago algum, sou apenas pescador. –Lell indagou. Ele já conhecera a magia. Os magos do bando se diziam os conhecedores, aqueles que falam com os deuses. Eram homens velhos e franzinos, do tipo que nunca foi guerreiro, nem caçador, nem pescador. Invocavam espíritos de rochas e conversavam com o fogo das fogueiras. Diziam ter noção do passado e do futuro, e tinham o poder de vencer o demônio da dor, mas não o demônio da morte. Mas ele não. Ele nunca ouvira deuses nem espíritos, nem vira nada em fogueiras que não fosse fogo.
–Ora, jovem inocente. É aos mais simples que os deuses escolhem para dominar a magia. Afinal, quem melhor para dominar os assers que aqueles que já dominam ovelhas¿ quem melhor para ter controle sobre o fogo que aquela que viveu as chamas¿ Não se deve questionar tais fatos, Liknell. Você é o Homem de lua, e seu destino é servir aos deuses, e, se aprender comigo, se servirá de toda a magia do mundo.
A proposta parecia ser tentadora. Toda a magia do mundo. Os magos do bando costumavam falar sobre Hass-Akken, o primeiro mago. Ele fora o primeiro homem que tivera coragem de falar com os deuses, e estes lhe responderam, dando-lhe o domínio sobre a magia do mundo dos homens. Lell estava tão concentrado na fala da mulher que não percebeu que escurecia. Por um instante pareceu conformado, mas, logo depois, achou muito estranho o fato de já ser noite. Em poças palavras o dia tornou-se noite, e aquela fogueira ardia alta e imponente.
–Vê¿ — cantou a mulher de fogo, fitando o homem com seus olhos estrelados- os deuses o chamam, Homem de lua. É tempo de se entregar à magia e aprender com ela.
Repentinamente, tudo parecia estranho. Os cabelos de Lell de arrepiaram, seus dentes começaram a ranger involuntariamente. Aos poucos seus pés saíram do chão, e logo ele estava sobre a fogueira. O fogo exalava frio, um frio insuportável, maior que qualquer que Lell tivesse presenciado. As chamas mudavam sua coloração a cada instante, e lhe subiam até a cabeça, imobilizando cada centímetro de seu corpo. Então vem a mulher de fogo, trazendo nas mãos nada mais que um caule branco. Essas plantas costumavam queimar à simples proximidade, e a fumaça exalada... Mas a fumaça deste não lhe era sufocante. E as mãos da mulher não se queimavam, nem seu corpo, ao toque da palha branca. Ela elevou o caule até próximo do rosto de Lell, e cantou, em uma voz tão doce quanto o cheiro da planta mortal:
–Ora, homem de lua. Esta é sua chance. Os homens comuns não valem nada, são poeira nas sandálias dos deuses. Os magos se dizem superiores, mas tudo o que sabem é brincar com fogo. Venha ser como eu, um servo escolhido. Tudo passa, os homens, os mundos e até mesmo os deuses. Mas a magia é eterna. – A última palavra foi praticamente inaudível. O som se perdia em meio as chamas e a fumaça, e o frio era ensurdecedor. – A escolha é sua. Prefere viver e morrer como Liknell, ou ser um senhor da magia, homem de lua¿
Sim, me parece bom, pensou Lell. Serei senhor da magia, serei o homem de lua. Eu posso, sei que posso. Sim. Mas os pensamentos não lhe saíam Pela boca. Repentinamente o frio cessou, e o fogo se apagou sob ele, mas ele não caiu. A mulher desaparecera, e o mundo que restava estava coberto de breu. E tudo o que restava era ele, e, agora, nem mais ele.
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