Notas iniciais
Muito obrigado a todos que leram o prólogo :}

O céu estava azul e límpido, como em um dia de colheita. Lell se levantou da cama de palha branca Ainda ardia um pouco a sua pele, mas em breve se acostumaria, afinal, já não se incomodava tanto quanto no início. Andou um pouco, para sentir o beijo frio do vento da montanha, e foi em direção ao pequeno lago. Ainda era capaz de sentir o medo do dia em que acordara. Após respirar a fumaça, seus sentidos se perderam, e ele levou três quartos de lua para voltar a si. O reflexo na água ainda era estranho, mas já não assustava tanto. Cabelos e barba totalmente brancos, e sua pele era mais branca ainda. Assemelhava-se a um velho há muito morto, completamente engelhado e frio, com mil furos na face e mil manchas nos braços. Apesar de tudo, todo o corpo brilhava, mesmo há luz do dia. Brilhava como a lua cheia

A vegetação mortal já não lhe era mais mortal, mas sua vida ainda podia ser perdida. A mulher de fogo o informou:

–A imortalidade é um dom exclusivo de Hass-Akken, Homem de Lua, algo que só se alcança na Morada dos Deuses, a Grande Fogueira, onde os espíritos brotam do solo e dançam por séculos.

Todos os dias Lell tinha lições magia com a mulher. Ela cantava nomes em línguas distantes, e o deixava em um estado de leveza e fluidez mental, quase como um transe. Após um tempo ele voltava a si completamente, com as habilidades firmadas em sua alma, como se tivesse nascido sabendo. Em uma lua e meia, aprendeu a dominar os movimentos da água e dos ventos. Com algum esforço conseguia invocar a chuva e o sol mais escaldante. Andava totalmente nu por entre os campos brancos, e o doce cheiro de fumaça o fazia se sentir mais forte. Mas o que realmente o fortalecia era o luar. O brilho da lua fazia seu corpo se agitar, e ele dançava e cantava em línguas perdidas junto com a mulher de fogo.

A enigmática mulher vivia com ele noite e dia. Dormiam próximos um ao outro, envolvidos pelo solo venenoso, acordavam com o sol vermelho e se alimentavam de palha branca, a mesma que fazia suas roupas.

–As plantas brancas são a fonte do poder dos deuses- cantava aquela boca flamejante- é comendo delas que adquirimos o domínio sobre a magia.

Em uma noite específica em cada ciclo da lua era-lhe permitido matar a saudade do sabor de carne assada. Lell usava feitiços de água para afogar leões gigantes em plena montanha, e se alimentava de sua carne por uma noite, e o restante da carne ele enviava para o riacho onde o bando vivia, transformando leão em milhares de peixes. O domínio dos animais era outra habilidade que desenvolvia. Após seis luas, não mais precisava afogar leões para experimentar de sua carne. Eles vinham até Lell, hipnotizados por uma canção rudimentar emitida dos lábios brancos do Homem de lua. Enormes manchas vermelhas, com mais de cem cabeças de altura e quinhentas de comprimento caíam aos pés da montanha totalmente mortos, como uma chuva dos deuses.

Mas sobre o fogo, somente a Mulher tinha poder. Todas as noites Lell podia ver uma muralha de caniços brancos se erguerem em volta dela e da fogueira, impedindo a visão de sua dança com os deuses. Ele só pudera vê-los uma vez, ela explicara, para conhecer de perto a magia. Agora, eram seres de fogo e não podiam ser vistos ou tocados por ele. Algo muito além dos poderes conhecidos pelo simples Homem de lua ocorria lá, algo mágico.

A cada dia que se passava, Lell se sentia mais forte e mais sábio. Após nove luas, a mulher de fogo começou a ensiná-lo como alterar o próprio corpo. Ela mergulhava o rosto em uma tigela de barro que emanava chamas azuis, e se erguia com uma face totalmente diferente. Seus cabelos mudavam de cor, uma vez para azul, outra vez para preto. Aqueles olhos brilhantes como estrelas podiam se apagar e sua voz melodia e encantadora se transformava em uma voz simples de mulher, que lembra a Lell sua mãe. Ele aprendeu, treinou arduamente as contrações faciais que se deveria fazer mergulhado no fogo. Alimentou-se exclusivamente de ervas brancas puríssimas, um tipo raro que só podia ser encontrado nos confins das cavernas escuras. Foram doze luas de exercícios para conseguir voltar seu rosto ao que era antes, ou, pelo menos, fazê-lo parecer como era.

Vinte e seis luas, esse foi o tempo necessário. Dormira vinte e seis luas ao lado da bela mulher sem nunca tocá-la. Ingeriu campos inteiros de erva branca, matou dezenas de leões gigantes. Todos os dias Lell olhava para baixo, e do alto das montanhas podia ver seu bando, em suas cabanas de palha verde sobre os campos brancos. Acendiam fogueiras, buscavam os deuses. Comiam leões e nadavam no riacho. Plantavam e colhiam onde o solo não era branco. Viviam sua vida simplória e mortal, enquanto Lell se preparava para ser maior que qualquer homem. E agora estava pronto, ou pelo menos era o que a mulher de fogo declarava.

Desceu as montanhas como o homem comum que as subira muito tempo antes. Não saiu flutuando nem convocou as aves para ajudá-lo. Sentiu as pedras ferirem suas mãos, e viu as feridas se fecharem imediatamente após abertas. Mais forte, porém não imortal, lembrava a si mesmo todos os dias. Era difícil manter-se humano quando se estava alcançando os deuses. Mas estava lá, caminhando sobre os campos verdes que antecediam os brancos do bando. Ass-hen-ayy, era como chamavam a si mesmos. Eram os homens de cabelos e barbas negras, e as mulheres de cabelos negros e pesados. Do outro lado as montanhas, viviam os Ass-hai, homens de cabelo vermelho e sem barbas, e mulheres de cabelos rubros e suaves. Os vermelhos somavam mais de quarenta mil, enquanto os negros eram menos de dez mil. Hoje estavam todos realizando suas atividades comuns. Um grupo de cinco homens voltava das matas densas com um rato-boi de vinte cabeças de comprimento. Algumas mulheres aravam a terra negra sob a pastagem verde, e os pescadores alçavam suas redes e lanças sobre o riacho. A velha cabana de Lell desaparecera, mas já não importava. Ele vivia no alto, ele era mais.

Lell passou duas luas vivendo como um Ass-hen-ayy, uns dias caçando, outros pescando, outros cultivando. Durante a noite, ele ia para o interior da mata densa e acendia fogueiras com caules brancos, buscando os deuses de fogo que falavam com a mulher de fogo. Ela dizia que o homem de lua não deveria fazê-lo, mas o desejo do poder era mais forte que qualquer ordem de mestres. Cantava todos os encantos que conhecia, executava todas as danças e se concentrava o máximo que podia, mas nenhum fogo o respondia.

Em um dia qualquer, Liknell avistou ao longe um homem alto e mago, com rosto fino e uma barba rala e negra. Quase não tinha cabelos, as vestia uma pele de tigre que lhe cobria todo o corpo. Seu coração acelerou ao vê-lo, e logo correu ao seu encontro.

– Kellokk!-gritou, sorrindo- como é bom vê-lo! Há quanto tempo que não vem!

–Estive viajando, irmão. -respondeu Kellokk.- Vi as terras além do Grande Mar e além das montanhas.

–Esteve nas terras dos Ass-hai¿

–Sim, estive. Mas não foi lá me fixei. Nas últimas luas eu estive com os Peludos, em algum lugar depois do mar.

Kellokk fora encontrado pela mãe de Lell após um dia de colheita. O menino estava perdido, e não devia passar das quarenta luas. Ela o levou para a sua cabana e o criou junto com o filho. Kell e Lell viveram como irmãos por toda a vida, até que seus pais morreram, e eles se separaram como homens adultos. Kellokk nunca disse para onde iria, mas prometeu que voltaria. E hoje, após oitenta luas, estava de volta.

–O que tem você com estes homens, Kell¿-Lell quis saber.

–Eles vivem em um mundo de pedras, Liknell. Depois do mar, o chão é feito de pequenas pedras até onde a vista alcança. Existem árvores gigantes e homens pequenos que vivem nestas árvores. Os dias e as noites são igualmente quentes, mas o vento não cessa por nem um momento. Você tinha que ver Lell. Os deuses deles são pedras e árvores. Eles dançam e cantam para os deuses, e estes respondem suas preces.

–Parece-me que alguns deuses respondem, afinal- disse Lell, como se nada soubesse sobre deuses.

–Sim, parece que sim.

–Mas o que o traz de volta¿

–Eu conversei com os líderes dos peludos. Eles migram para todo lugar, e, de onde vêm, não há mais lugar seguro. Pensei em trazê-los para cá, mas... –a expressão no rosto do irmão passava uma preocupação real, como se tivesse realmente se envolvido com os peludos. – Aqui não há espaço nem recursos. Terei de migrar com eles por todo o mundo¿ São mais de cinco mil!

–Eles vêm com você¿ estão aqui, por perto?

–Sim, a esta altura devem ter atravessado o grande mar em suas jangadas. Provavelmente chegarão em duas ou três luas, e eu prometi um lugar seguro para aquele povo.

–Um grande compromisso, sem dúvida. — Respondeu Lell, preocupado com o irmão. Por enquanto, fique aqui. Construa uma cabana e eu lhe visitarei às vezes. Farei o que estiver ao meu alcance para te ajudar. Mas agora preciso ir, a noite se aproxima.

–Agradeço irmão. -respondeu Kell, com ar resignado.

Nesta mesma noite, Lell esteve na floresta, acendeu uma fogueira e foi tentar falar com os deuses. Iniciou uma canção com palavras perdidas, depois racionalizou a prece e invocou os espíritos:

–Suplico, oh temerosos deuses, que venham a mim e me revelem o poder supremo.

Repetiu a frase mais de dez vezes como fazia todas as noites, sempre sem sucesso. Mas hoje lhe veio à memória a fala do irmão. Os deuses dos homens peludos eram pedras e árvores. Nenhuma fogueira. Somente a natureza. Por um feitiço, Lell fez soprar um vento frio e apagou o fogo. Olhou em volta, mas nada se iluminava, mesmo pelo brilho de seu corpo. As árvores o observavam de todos os lados. Poderiam os deuses habitá-las¿ Talvez o segredo não fosse o fogo, mas sim, a fonte. Assim, ele iniciou a mesma canção para a natureza, sem olhar para nenhum lugar em especial.

–Suplico, oh temerosos deuses, que venham a mim e me revelem o poder supremo.

O vento rugiu, uma brisa de magia soprou, mas os deuses não vieram.

–Suplico, oh grandiosos deuses, que venham a mim e me revelem o poder supremo.

A magia vinha com mais força, mas de nenhum lugar em especial. Lell reacendeu a fogueira, mas desta vez, na base de uma árvore, fazendo-a incendiar.

–Suplico, oh grandiosos deuses, que venham a mim e me revelem o poder supremo.

As chamas cintilavam e a magia se fortificava. A canção se tornou mais alta, e as palavras foram perdendo o sentido, mas Lell não deixava de repetir a prece.

–Suplico, oh grandiosos deuses, que venham a mim e me revelem o poder supremo.

Repentinamente, o fogo se apagou. A árvore parecia intacta, como se nunca houvesse sido queimada, mas, quando Lell a tocou, toda a madeira virou pó, e, no seu centro, residia uma pequena chama. Da fagulha se levantou um pequeno homem de fogo.

–Homem de lua, aquele que invoca os deuses. Que favor buscas de nós¿

Liknell ficou paralisado. Não pensara no que dizer.

–Que favor buscas de nós¿- repetiu uma segunda voz. Esta vinha de trás. Era uma mulher de fogo vermelho, que flutuava por detrás de sua cabeça.

–Somente diga Homem de lua, que favor buscas de nós¿- a terceira voz era de uma criança, mas Lell não via ninguém.

A lenda era antiga, passada de geração em geração pelos Shellra’na’s, e Lell ouvira de seu pai. Da fogueira surgiram os deuses, e eles perguntaram a um homem “que favor buscas de nós¿”, e Hass-Akken respondeu “desejo toda a magia do mundo” E assim se tornou o maior feiticeiro de todos os tempos. Mas não era toda a magia que Lell desejava. Magia já existia no mundo, e era feita por muitas pessoas. Ele não era um mago, e nunca o seria. Seu desejo era simples, mas era maior que qualquer possibilidade humana.

–Grandiosos deuses de fogo- ele disse, com um tico de tremor na voz – Eu desejo o dom da imortalidade.

–Não é nosso. – responderam em coro. – Hass-Akken o tomou de nós, e a mulher de fogo o tomou dele.

Lell ficou consternado. Então a mulher de fogo tinha o dom. Seria tudo o que ela disse mentira¿ A lenda contava que Hass-Akken vivera há milhares de milhares de luas. Seria a mulher assim tão velha¿ e como teria tomado o dom da imortalidade¿ Liknell estava tão perdido em seus pensamentos que não percebeu que os deuses tinham se apagado. Sentiu um enorme ataque de fúria, e um grito veio aos seus lábios. Abaixou a cabeça, e, quando se ergueu, estava novamente no alto da montanha. A mulher o observava, com seus olhos estrelados e seus cabelos em chamas. Começou a andar em sua direção, como alguém que nada teme.

–Quem diria Homem de Lua. Parece que descobriu o que não precisava. — desta vez sua voz não cantava. Era fria e dura como pedra de gelo. – Não é bom que os homens saibam dos dons da mulher. Eles sentem inveja e raiva.

–Você me enganou!- gritou Liknell. – Disse que me ensinaria toda a magia, mas só me ensinou a ser seu escravo, com poderes menores que os seus!

A fúria lhe enchia os olhos, e tudo o que ele desejava era causar dor àquela mulher. De repente, das árvores, Lell ouviu um canto suave, mas que cheirava a magia e poder. Soltou palavras desconexas e entoou a prece do encantamento.

– Asherr Abbi Fernn hasboo’n.

As palavras eram gritos rudimentares, na língua perdida dos homens negros. Um poço de espírito se abriu entre os dois, e a água jorrava quente e poderosa para cima. Depois, sobrou somente o fogo, brotando do solo e dançando ao som da voz de Lell. A mulher parecia atingida, mas não fora paralisada pelas palavras. Lell sabia que, se mudasse uma palavra, poderia dominá-la, mas a força do feitiço também poderia matá-lo. Não precisava pensar duas vezes.

–Asherr Abbi Fernn Yabo’gu.

Sentiu seu peito abrir e vazar luz prateada. A mulher foi ao chão, completamente inconsciente, e o fogo se apagou. Por alguma razão estranha, Lell ainda estava vivo. Com seu rasgado e sangrando prata, rastejou até a mulher de fogo. Vinte e seis luas te vi dormindo ao meu lado, pensou, mas nunca te toquei. Também foi assim com Hass-Akken¿ em um único movimento, Liknell rasgou as vestes de palha branca e encontrou a femilinidade da mulher de fogo. Penetrou com toda a energia que lhe restava, uma, duas, três vezes, até derramar sua vida dentro dela. E o mundo se fechou ao seu redor.

Notas finais
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