Notas iniciais
Precisei dividir os capítulos posteriores, pois estavam grandes demais, e crescendo vertiginosamente. O capítulo 4 já passava das 9 páginas, e eu considerei que não era o tamanho ideal para o modelo de fanfic. O conteúdo é o mesmo que fora publicado até o capítulo 4, mas, penso eu, mais bem organizado. Do mais, muito obrigado a quem lê e acompanha essa história.

– Eu sei para onde podemos ir. – A expressão no rosto de Lell devia estar estranha, mas queria passar certa confiança ao irmão. – Não é bem um local, mas uma série de opções para seu bando de peludos. As terras de Essos são muito extensas, e podemos viver em qualquer lugar além dos matagais brancos.

– Ora, Lell, sabe que não dá para atravessar o mundo assim tão facilmente. Nós vivemos aqui há cinco mil anos, e ouvi dizer que os Ass-hai habitam as terras além das montanhas há mais de dez mil. Somos povos d’Além-mar, viemos das mesmas terras que os peludos, e de lá não nos distanciamos. È sabido por todos aqui.

Era sabido. Os povos próximos ao mar eram estrangeiros em Essos, aquele continente vasto e inexplorado. Lell ouvira migrantes falarem sobre homens que viviam com cavalos e falavam com eles, homens que viviam e dormiam com ovelhas, e uma terra de pedras vermelhas onde leões com asas povoavam os céus, mas nada passava de simples histórias. Ele queria ver tudo o que ocorria no mundo, não por meio de uma fogueira, ou pela voz dos deuses. Queria ver com os próprios olhos. Fitou cuidadosamente a expressão desconfiada no rosto do irmão e respondeu:

–Ora, alguém tem de ser o primeiro. Se os homens rubros foram os primeiros a desafiar o mar, seremos os primeiros a desafiar a terra.

–A ideia me parece um tanto arriscada. Eu viajei sozinho durante luas, e foi somente pelas regiões dos Ass-hai e dos Peludos. Levaria um longo tempo para ver toda a extensão do continente, e talvez uma geração morresse de velha. E não é só o tempo, Lell, bem sabe. Há desertos por aí, animais e plantas venenosos, homens gigantes com lanças gigantes, guerreiros fortes e indestrutíveis. È bem possível que nem eu nem você sobrevivamos.

Sim, é possível que você não sobreviva. A lembrança do dia era clara como o brilho dos cristais. Havia sangue por todos os lados. Cheirava a sangue, tocava como tal, mas era branco como a prata do luar. Lell pôde ver seu reflexo sobre o próprio sangue, e já não era o Homem de lua. Seu corpo voltara a ser como antes, mas seus poderes ainda estavam lá. Ele tentara mudar de forma, fez-se como a mulher de fogo, depois como seu pai, e depois como um urso negro da mata densa. Ainda era capaz de dominar a natureza e encantar com sua voz. No momento em que teve a ideia, encheu-se de medo, mas a curiosidade fora maior. Correu com o vento e se jogou do alto das montanhas, indo em direção ao chão. O choque foi macio como um sonho, e os deuses seguraram suas mãos.

–Não deves pôr à prova a magia divina, Liknell. – dissera a voz feminina. – Sua vida é eterna, conforme diz a lei.

–E o que diz a lei¿ — Perguntou o homem, quase incrédulo. Foi o deus masculino que respondeu.

–A imortalidade de um Escolhido é exclusiva dele, e jamais será perdida, a menos que tenha relações no campo dos espíritos.

Campo dos espíritos. Lell estivera naquele lugar mágico, com espíritos saindo da terra e a fogueira dos deuses acesa como o sol. Agora a mulher de fogo estava morta, certamente transformada em pó e levada pelo vento, pelas vinte mil luas que estivera viva além de seu direito. Lell se perguntava onde poderiam estar ela e Hass-Akken neste momento.

–Seus homens precisam de um lugar para viver. –Disse Liknell ao irmão, voltando à realidade. – Mesmo que não seja um só lugar, precisamos migrar. Bem sabes, eles não plantam. Vamos juntos e eu lhe mostrarei o caminho.

Kell tinha uma expressão carregada, que misturava derrota e alívio. Aquele homem alto era algumas luas mais velho que Lell, mas nunca tivera segurança em suas decisões. Era comum vê-lo conversar com adultos, convencer amigos a fazer coisas e liderar pequenos grupos, mas, em situações realmente críticas, ele sempre pedia ajuda ao irmão mais novo.

–Confio em você, Lell. Iremos juntos. Avistei Ib, um dos líderes dos Peludos vindo com o primeiro bando ontem, e os demais devem chegar em poucos dias. Partiremos em direção ao horizonte, se este for o limite. Vamos sempre perto do mar, pois é de lá que os Peludos vêm, e tudo o que sabem é pescar.

–Tal como nós, Kell. –Respondeu Lell, com um sorriso nos lábios. – Tudo correrá bem. Nada nos prende a estas planícies brancas, e eu realmente preciso visitar novos ares, e sem dúvida não me atrai a ideia de atravessar as montanhas a leste. Iremos a Sul, na direção das Duas Estrelas, Por onde dizem que se chega ao reino das ovelhas.

O irmão assentiu, se virou e seguiu andando na direção das montanhas leste. Sua barba negra e pesada quase não se debatia ao vento, como se estivesse sempre ensopada, mas sem pingar uma única gota. Ao longe, Lell pôde ver por sobre as montanhas uma grande mancha escura. Os Peludos, pensou, Meu novo bando, que me levará ao meu novo mundo.

Seis dias após a chegada de Ib, Lell foi falar com os líderes dos Peludos. Eram cinco, se contasse com Kell, todos chefiando de grandes bandos com mais de trezentos homens cada. Vestiam peles finas, e não pareciam sentir frio. Os pelos no corpo tinham a espessura de três mãos chatas, e seus cabelos eram escuros, e seus olhos, cinzentos. Falavam entre si uma língua parecida com a dos Ass-hai, que, por sua vez, era um pouco parecida com a dos Ass-hen-ayy, mas era bruta e ríspida, assemelhando qualquer conversa simples a uma briga.

Andor era o mais velho. Sua idade, segundo contavam do outro lado do mar, era de quarenta anos. Um “ano” somava doze luas, como lhe explicara Kell. Era o único dentre os peludos que vivera em Asshai, e, com alguma dificuldade, era capaz de compreender o que Lell falava, e ajudava a traduzir as conversas. Apesar dessa habilidade, Andor não era o maior de todos.

Ib não era o mais forte, ou o mais alto, nem de longe o mais belo dentre os peludos. Mas possuía uma voz potente, e uma enorme habilidade de articular discursos. Por vezes era visto falando com a multidão, hora em bloco, hora com cada indivíduo. Sabia o nome de cada homem e mulher, dos das pequenas crianças e até mesmo das que estavam por nascer. Talvez o único mais habilidoso que Ib fosse o próprio Kell, o que explicaria o ar de rivalidade que os rodeava. Era bem visível que este não tinha quase nenhuma influência sobre o bando de Ib, como se estivessem apenas andando juntos, mas não com as mesmas intenções.

Um único bando era chefiado por uma mulher. Allara tinha ombros largos e uma voz poderosa, mas não se deixava de perceber seu sexo. As mulheres peludas não eram muito diferentes das Ass-hen-ayy, tinham menos pelos que os homens, e nenhuma tinha barba ou bigode. Allara deixava seus longos cabelos cinzentos presos em uma longa trança, que fazia lembrar a cauda de um rato-boi.

–As mulheres não têm grande voz nesse povo, – explicara Kell – mas Allara vem de uma linhagem de poderosas guerreiras, é tão forte quanto Hummer e tão inteligente quanto Ib. – Seus olhos se desviaram para a esquerda quando falou de Ib, como se sentisse receio de sua presença.

Hummer era forte e estúpido como um búfalo. Rugia poucas palavras, e sorria grosseiramente quando tinha um bom argumento – algo muito raro, já que quase nunca argumentava – e, quando era vencido, fazia sua face virar uma carranca por dias. Possuía cabelos, bigode e barba negros, que, juntamente com seus lábios finos e os olhos pequenos, faziam seu rosto quase invisível. Certamente era o mais peludo dos homens peludos, o que ia de acordo com a crença deles de que, quanto mais peludo for o homem, mais forte e corajoso seria. Este carregava sete pontas de osso de rato-boi na cintura, capazes de provocar cortes profundos ao menor toque. Seu bando era sem dúvida o mais feroz, mas não deixavam de ser solidários com os outros bandos.

Foram seis luas até que todo o povo peludo se reunisse nas planícies negras, uma região de solo fértil e poucos campos abertos, que ficava algumas dezenas de quilômetros ao sul de Asshenayy. Longas conversas, debates e até mesmo alguns conflitos. Ib se mantinha calado a maior parte do tempo, enquanto Kell jorrava palavras inteligentes, mas aquele possuía algum veneno de manticora na língua, que era capaz de desandar qualquer conversa, muitas vezes virando os outros três contra Kellokk.

Decidiram seguir a ideia de Lell, afinal, após intermináveis discussões. Ele se sentiu tentado a usar magia para convencê-los diversas vezes, mas estava decidido a ter um povo que agisse por vontade própria, afinal, precisava de uma razão para atravessar o mundo. A imortalidade muitas vezes o fazia confuso. Via as pessoas preocupadas com o amanhã, com seus filhos e a comida que dariam a eles. Lell já quase não comia, exceto quando convidado para banquetes de carne de ursos negros da floresta. Por muito tempo as gramíneas brancas fizeram sua alimentação, mas agora nem elas mais comia. Por três luas terás de comer o veneno dos homens, para que te tornes maior que eles, dissera-lhe a voz infantil do deus invisível. As ervas brancas lhe serão como o leite materno que faz crescer o bebê, e depois não mais precisarás de nada.

Já também não usava as noites para dormir. Por mais que corresse, falasse e trabalhasse um dia inteiro, à noite, seu cansaço se esvaía e dava lugar a uma força e energia ainda maiores que tivera no início do dia. Seu poder já se expandira o suficiente, já podia ver seus deuses em fogueiras comuns, sem precisar de árvores ou caules brancos. Dançava à luz da lua e das estrelas, em um transe que se desfazia ao nascer do sol vermelho.

Partiram ao amanhecer do ducentésimo dia, em que, segundo a contagem dos peludos, Lell completava dezessete anos de vida. A princípio, cada dia de marcha parecia igual, sempre um solo negro e argiloso, entrecortado por matagais tão densos que, enquanto os atravessavam, eram necessárias tochas dia e noite. Acampavam a cada dois dias no início da marcha, talvez querendo logo escapar daquele cenário, com seus perigos das florestas, mas logo os búfalos em que montavam começaram a cansar, os as mulheres grávidas, as crianças e os velhos eram incapazes de prosseguir caminho. Sempre que alguém morria, faziam um dia de jejum, como era o costume daquele povo, mas logo não podiam mais ficar sem comer, ou todos morreriam.

Após a quarta lua, o solo negro desapareceu sob seus pés, dando lugar a um solo de pedras, e depois, à vermelha areia do deserto. Agora a falta de comida deu lugar à falta de água. Os búfalos desapareciam aos montes, certamente roubados de outros bandos. Conflitos armados, brigas violentas entre os homens de Kell e os de Ib. Nas tendas dos líderes, nuca deixou de faltar nada, o que incomodava muito o povo, mas muito mais a Hummer.

–Cinquenta homens meus já morreram ao longo deste inferno vermelho. – dizia. Desta vez, seus olhos brilhavam como lágrimas e sua voz era mansa e melancólica. – Doze foram mortos por cavaleiros do deserto, aqueles que carregam armas frias e pontudas.

Dothraki, lembrou Lell. Estes homens viviam em pequenos bandos ao longo do continente, aterrorizando qualquer povo que passasse. Eram poucos e atacavam como moscas atacam um animal semimorto. Lell estivera entre eles, se disfarçara de um deles. Possuíam pele acobreada e adoravam os cavalos como deuses. Suas armas eram feitas com pedras derretidas e batidas, que brilhavam e refletiam a luz solar com uma intensidade cegante. Um homem chamado Khal falou com ele, e Lell usou sua magia para entender aquelas palavras. O menor daqueles cavaleiros era mais forte que Hummer, apesar de não ter pelo algum no corpo, exceto pelos longos cabelos e bigodes.

–E o pior de tudo neste lugar – continuou Hummer, com o olhar baixo e a voz baixa como nunca estivera – é o calor. Sinto-me como um porco em uma fogueira, morrendo aos poucos e vendo meus irmãos morrerem. – Virou o rosto e fez um som estranho, como se pretendesse cuspir no chão em sinal de desprezo, mas nada saiu de sua boca. – Que ideia teve, Liknell, irmão de Kellok¿ Por que quer nos matar¿ Partiremos esta noite, Voltaremos para o mar e para as nossas casas de pedra.