O funeral ghiscari não era muito diferente do ulthi. O grande mestre fora envolvido em suas melhores vestes no dia de sua morte, e seu corpo fora queimado em uma caixa de ouro repleta de penas de harpia, e o cheiro que subira não era de defunto, mas sim dos óleos caros que untavam as penas e alimentavam o fogo. A fumaça que se formara tinha uma coloração estranhamente branca, mas não tão estranhas quanto às chamas azuis. As cinzas foram levadas a um frasco de porcelana branca, no qual havia uma gravura do mestre, em cores fortes, e guardaram o pote em uma estante de madeira negra, ao lado do frasco de Gradzan, o Grande. Ele não era o único governante que antecedera Karkzan, mas, desde a fundação de Ghis, quinhentos anos antes, nunca houvera um governante supremo dentre os Mestres até Flortzan, que Karkzan matou e de quem conquistou o cargo.

As quatro semanas que se seguiram à morte do soberano foram de luto permanente, quando todas as atividades no interior de Ghis foram suspensas. No entanto, o ouro ghiscari nunca deixou de ser gerado, pois os portos de Astapor estiveram movimentados como nunca. Os ghiscari nunca perdiam a oportunidade de ver ouro, nem que fosse entre lágrimas.

O Conselho se reuniu na Sala Oval, um antro na Grande Torre Branca que mais parecia uma casa inteira, onde os cada passo ecoava e o ar era permanentemente frio. As pelúcias que decoravam as paredes possuíam cenas de atalhas muito semelhantes àquelas dos aposentos de Lell, mas aqui, sempre quem aparecia era Karkzan, aquela figura imponente, cinco vezes maior que os soldados com sua barba ruiva esvoaçante. Havia no centro uma mesa de madeira vermelha igualmente oval, onde se reuniam os membros do Conselho e o Grande Mestre, cada qual em sua cadeira em forma de harpia.

O Grande Mestre sentava na cadeira mais alta, uma harpia de madeira vermelha com olhos de diamante incolor, um tipo límpido e quase invisível. À sua direita sentava-se o Conselheiro, e, à esquerda, o Mestre das Finanças. Seguiam-se da esquerda para a direita o Mestre da Justiça, o Mestre das Leis, e o Mestre do Povo. Uma série de cadeiras mais baixas de seguiam, com o Capitão-mor, chefe de toda a marinha, cargo vazio desde que o anterior cometera suicídio, e o Senhor da Guerra, que comandava os exércitos de Imaculados de Ghis.

– Há muito temos esta preocupação. – Iniciou Horxan Crazz, Mestre das Leis. – O nosso Grande Mestre nunca concordou em se casar ou em ter filhos, e sua doença levou sua capacidade de decisão antes de escolher um herdeiro.

– Não documentou, mas sempre deixou clara as suas intenções – interpelou o Senhor da Guerra, um homem baixo e quadrado como um caixote chamado Coz. – E, além do que dizia, é comum entre os Bons Mestres de Astapor que o Conselheiro governe no lugar do mestre morto.

– Em Astapor todos os mestres são iguais. – argumentou Horxan, lançando um olhar de desprezo para Lell tão rápido quanto o voo de uma harpia. – Não é permitido nas leis que regem Ghis que alguém sem nascimento nobre esteja acima de nobres.

Entre rosas e heras, Lell refletiu. Gostava de ouvir bem o que os outros falavam e pensar sobre eles antes de abrir a boca. Era comum que, durante várias reuniões se mantivesse calado, até que apresentasse uma solução. Coz viera para o Conselho há sete anos, com a ajuda de Lell. O antigo Senhor da Guerra morrera. Era um homem forte e alto, mesmo muito velho grande comandante e fruto de um casamento nobre entre Ghis e Valíria. Rhaegar Poagazz, um nome que soava estranho mesmo depois de anos de convivência. Coz, no entanto, era um soldado que subira ao poder misturando bravura e astúcia, mais desta que daquela. Lell vira capacidade no pequeno cubo, e induzira Karkzan a chamá-lo. Desde então, o Senhor da Guerra sempre prestava apoio e a tão irritante bajulação a seu benfeitor. Certamente via mil e uma vantagens em vê-lo no governo.

Fora ele, nenhum outro membro do Conselho tinha grande simpatia por Lell. Não que fosse pela pessoa que era, nem pela forma de trabalhar. Nisso, até tinha certa sintonia com os mestres. Mas não era de sangue nobre, e sim, um escravo do Grande Mestre. Nos momentos livres, Lell refletia sobre isso e achava graça. Escravos carregavam as mercadorias nos portos, ou eram as mercadorias. Alguns ainda punham sua vida em risco, no exército dos Imaculados ou nas arenas. Uns recolhiam as fezes dos donos, vestiam suas roupas e construíam suas casas, e outros governavam, mas todos com a marca do dono no rosto, exceto Lell. Este não tinha um grande nome, como os mestres que muitas vezes olhavam com desprezo, mas tinha mais poder que a maioria deles. Pelo menos até Karkzan morrer.

– Mas Liknell é nobre. – disse Coz, apontando um dedo gordo. – Não vê aquele anel em sua mão¿

– Um anel dado pelo Grande Mestre. – desta vez o olhar foi descarado, e acompanhado de um sopro de impaciência. – Liknell, reconhece sua posição e sua impossibilidade de assumir a Harpia¿

Lell olhou rapidamente todos em volta, ainda mais rápido que aquele olhar de desprezo do Mestre das Leis. Retirou o anel do dedo, segurou-o contra a luz e o admirou. Tinha a forma de uma cabeça humana, com olhos minúsculos de diamante negro e um bico de harpia feito de ouro vermelho. Nenhum outro nobre possuía um anel assim; esta era a marca de rosto de Karkzan, aquela que Clerion usava em negro e as criadas usavam em azul. Como Lell se recusara a ser tatuado, o mestre lhe dera um título e um anel, e poder sobre toda a Ghis.

– É verdade que não posso assumir o trono. – Lell disse finalmente, fitando brandamente os olhos dos nobres. – Mas não é pelas suas leis, mas sim por minha vontade. É verdade que este anel eu recebi do Grande Mestre Karkzan, mas sou nobre de nascimento em Asshenayy, assim como o Mestre das Finanças é nobre de nascimento em Valíria. — Jaemon Lyyr voltou seu olhar distraído para Lell, enquanto Horxan fez uma expressão consternada, como a de um homem que é ameaçado por uma mula. – Mas é claro que não precisamos nos preocupar com pretensões estrangeiras – disse Lell, com um sorriso político nos lábios. – Ou, pelo menos, não com a minha. Juro pela Harpia que não desejo nem assumirei o cargo de Grande Mestre.

“Aceitamos pela Harpia”, todos bradaram em conjunto. Este era o juramento mais solene da cultura ghiscari, previsto em todas as leis com pena de morte e maldição eterna para quem o violasse. O Mestre das Leis parecia agora resignado, e o Senhor da Guerra, revoltado. Levantou-se disse, num tom alto demais para um soldado:

– Então quem será o governante, se não há nobre indicado¿

– Em Valíria, tivemos um rei que morreu sem deixar descendentes. – interrompeu Jaemon Lyyr. – Desde então, há mais de cinquenta anos, a Cidade Franca é governada pelo Senado, um grupo de homens de igual poder.

O velho enrugado de Valíria falava ainda menos que Lell, em grande parte das vezes porque estava dormindo. Seus cabelos e barbas prateados há muito haviam se tornado totalmente brancos, e eram mais brancos que a mais pura pérola, mas seus olhos ainda mantinham o tom vermelho vivo como o céu da alvorada, o que sempre fazia parecer um pouco mais novo do que realmente era. . Jaemon, apesar de velho e debilitado, ainda tinha um raciocínio aguçado para o dinheiro. Manobrava o ouro como um capitão manobra um navio, e, desde o início de sua administração, a fortuna de Ghis nunca deixara de subir. Em geral, suas opiniões eram valorizadas, em parte por ter mais de sessenta anos de experiência como intendente, em parte por ser o home mais rico de todos os tempos. Mas o rubor que subiu ao rosto do Mestre do Povo não cheirava a valorização.

– Em Valíria os homens fodem com ovelhas, velho! – Yozzgrat Chaleeen pareceu sentir dor no olhar de reprovação que os demais membros do Conselho lhe lançaram, quando se recostou à sua harpia e recolheu o dedo indicador. Sua voz, por fim, era quase branda. – Não estamos em sua cidade. Aqui não é Valíria, e nenhuma lei estrangeira será imposta sobre nós.

– Ora, acalme-se Yozzgrat. – Lell decidira defender o velho valiriano – Em Astapor também é assim, segundo disse nosso Mestre das Leis. E, se me lembro da História, Ghis passou muito tempo sendo governada por mestres de igual poder. Creio que seja uma proposta a ser considerada.

– È uma mudança brusca, precisaríamos de alterações nas leis – observou o Mestre das Finanças. Horxan argumentou:

– As leis não podem ser alteradas, a menos que pelo próprio Grande Mestre em consenso com o Conselho. Foi assim que Gradzan passou o poder para o Conselho há quinhentos anos, e foi este que aceitou a volta do Grande Mestre, há cinquenta anos. Para retornarmos ao antigo regime, precisaríamos de um sucessor para Karkzan, e este teria que renunciar.

– Ora, sejamos francos com nós mesmos. – Xilecc Zagazz era o Mestre da Justiça há mais de vinte anos, e sempre fora conhecido pela franqueza e justiça. Não gostava dos jogos políticos dos Mestres, e nunca se interessara em aprendê-lo. Sempre que uma questão se demorava demais, ele era o primeiro a expor os fatos com total clareza, de forma que as falsidades não mais podiam ser prolongadas, e os problemas precisavam ser resolvidos. – Qualquer um dos mestres deseja o cargo, exceto por mim, não, estou velho demais para isso. Sabemos que quem assumir não vai querer ser destronado, porque poder é delicioso como mel na ponta dos dedos – esboçou um sorriso amarelo-escuro – Mas algo precisa ser feito. Creio que somos capazes de governar como os Astapori, mas, se tiver uma minoria ambiciosa demais, a lei e a ordem podem dar um jeito nelas. Afinal, precisamos de um mestre que garanta a renúncia, ou seja, um fantoche.

Após tantos anos, a expressão de falso constrangimento perante as palavras de Xilecc fora substituída por uma face neutra de alguns, e um suspiro de alívio acompanhado por um olhar de agradecimento de outros.

– Sim, é um caminho, embora seja um tanto difícil encontrar um fantoche dentre as Famílias de Ghis. – disse o Mestre das Leis.

– O que seus pergaminhos dizem sobre a sucessão do Grande Mestre¿ — perguntou Lell.

O homem puxou de algum lugar debaixo da mesa um grosso rolo de couro de rato-boi, no qual estavam escritos os hieróglifos da língua ghiscari. Até onde Lell sabia, somente os ghiscari e os valirianos eram capazes de ler e escrever, e era realmente uma técnica impressionante. Lell se sentira tão boquiaberto com a escrita quanto com as harpias, no primeiro contato. Horxan começou a ler o pergaminho empoeirado:

– Aqui, sucessão do Grande Mestre. “Um Grande Mestre sai de seu cargo por morte ou renúncia. Seu sucessor deve ser o nobre previamente escolhido por ele em consenso com o Conselho. Se não houver consenso, o herdeiro será o filho mais velho do Grande Mestre, seu irmão ou seu pai. O Conselho pode suceder o Grande Mestre, caso este o tenha permitido antes de morrer. Fora todas estas especificações, o sucessor deverá ser o nobre de maior pretensão.” É tudo o que a Lei diz.

– Então precisamos encontrar um fantoche de alta pretensão. – afirmou o Senhor da Guerra, com um olhar frio para Liknell.

– A maior pretensão. – adicionou o Mestre da Justiça – afinal, talvez esta seja tão manipulável quanto o próprio nobre. Não se esqueçam mestres, de que os nobres são ariscos e mesquinhos, e é a Lei que os mantém em seus lugares. Precisamos cumpri-la à risca, ou mudar a realidade para encaixá-la na Lei.

– E de quem seria a maior pretensão¿ — indagou Yozzgrat Chaleeen. Foi Lell quem respondeu.

– Tenho comigo o Pergaminho das Famílias de Ghis. É um rolo antigo, me dado de presente por Karkzan Yozz Argazz. Aqui diz que as Famílias Yozz e Argazz vieram de Astapor há trezentos anos, portanto, nunca foram a maior pretensão. Afinal, Horxan, o que a Lei diz sobre pretensão¿

– Leis da pretensão. “As Famílias com maior pretensão ao cargo de mestre e Grande Mestre são, na ordem de importância, as mais próximas da Família vigente por sangue, por casamento ou por indicação; as Famílias nascidas em Ghis e as mais antigas têm prioridade. Mais velhos têm maior pretensão. Dentre homens e mulheres de mesma idade, homens têm maior pretensão” – Lell continuou:

– Então temos as casas Yozz e Argazz para analisar. A maior parte de sua linhagem ghiscari já está morta, restando apenas os nobres de Astapor. Nascidos em Ghis há Leyyn Yozz, esposa de um nobre astapori chamado Utterix Frenaxx, vivem em Astapor.

– Não serve. – afirmou friamente o Mestre do Povo. Lell prosseguiu.

– Sim, claro. Das proximidades das Famílias de Karkzan, vivendo em Ghis, tenho conhecimento apenas de Salouke Argazz Hitzz. É filho de uma prima de Karkzan chamada Lella ou Hella, não me recordo. O pai é um home de Família pequena, mas tradicional de Ghis. O pergaminho diz que a Família Hitzz nasceu há duzentos anos.

– Este pode servir. – disse Xilecc Zagazz. – O que mais sabe sobre ele¿

– Nasceu em Ghis, em uma mansão qualquer. Tem vinte e dois anos e mexe com comércio desde os dezesseis. Tem um excelente faro para negócios e vive viajando, de Valíria a Asshai. Não possui esposa nem filhos, e, pelo que se sabe, prefere rapazes a moças.

– Tal como eu – riu-se o Senhor da Guerra. — E, assim como eu, não deixará descendentes, o que eu penso, seria uma vantagem para o nosso plano, não¿

– Na verdade não. – respondeu Jaemon – Antes de ser intendente de Grandes Mestres e, antes deles do Conselho, fui intendente de navios mercantes. Viajei com vários capitães, e, pelo que conheci desse tipo, não gosta de voltar para casa. Certamente aceitaria o cargo de fantoche perante certo pagamento, mas os nobres não o veriam na Corte, e nós não o veríamos no Conselho. Precisamos de alguém presente, porém controlável.

– Então partimos para outra Família, já que nem Yozz nem Argazz agradam. – prosseguiu Lell. – há uma Família mais antiga que os Hitzz, ligados a eles por um casamento com uma irmã desse Salouke. Arren Accrett é casado com Raeen Hitzz, tem trinta e seis anos e quatro filhos, três meninos e uma menina. Todos vivem em Ghis e sempre tiveram boas relações com Karkzan. Não têm inimigos acima do normal.

– Há quanto tempo a Família existe¿ — indagou Jaemon.

– Aqui diz que os Accrett surgiram em Ghis há quinhentos anos, e lutaram na Unificação ao lado de Gradzan, o Grande, assim como apoiaram sua eleição como o maior dos nobres.

– Este parece ser útil. – Disse Horxan. – Acha que poderíamos controlá-lo¿

Lell respondeu:

– O homem é gordo e lerdo, nunca teve nenhuma responsabilidade séria e vive servido por escravos. Aposto que não negaria um grande cargo, e certamente aceitaria abandoná-lo se sofresse as pressões do poder.

– Neste caso, concordo com o plano. – suspirou Jaemon. – Que o Conselheiro dê a palavra final.

Na posição de mais poderoso e representante oficial do Grande Mestre, Lell concluiu:

– O plano está exposto, se alguém discorda, que se expresse imediatamente. – o silêncio fez a reunião terminar. – Declaro o consenso do Conselho, em nome da Harpia. – terminou ele, como já fizera um milhar de vezes antes.

Os dias que se seguiram foram um misto de apreensão e esperança na política. O novo Grande Mestre fora chamado, e o Mestre das Leis lhe ensinara o que precisava fazer. O homem era um rato-boi na forma humana, mas se movia ainda mais devagar. Pouco falava, e quase nunca ia às reuniões do Conselho, deixando sempre a grande harpia vazia. Haviam fabricado uma nova cadeira para aquele mestre, com o triplo do tamanho da anterior, mas mesmo assim era desconfortável naquele poço de gordura. Precisariam de pelo menos um ano de governo do novo mestre, e as três primeiras luas haviam passado tranquilamente, e a grandiosa Ghis já voltara a funcionar com todo o seu poder.

Por mais que quisesse, Lell já não mais encontrava tempo em meio a seus deveres políticos para visitas a Colônia dos Ulthi. Pensava e escrever cartas, mas eles não sabiam ler, e era um desperdício de energia exigir que aprendessem. O dia de hoje completaria o trigésimo terceiro ano de vida de Lell, e, na cultura Ghiscari, ele receberia um presente de seu amigo mais próximo, e enviaria um presente a ele simultaneamente. A princípio, Lell pensou em Mormont, mas logo lhe veio à memória Kellok. Não se falavam há mais de um ano, e, mesmo antes disso, trocavam palavras muito raramente. Decidiu enviar presentes aos dois, mas sem esperar nada em troca, já que há muito estava em débito com ambos. Para Kellok, enviara uma belíssima espada de aço valiriano. A lâmina tinha um brilho fosco, e uma luz estranhamente vermelha cintilava em sua extensão. Para Mormont, uma clava ghiscari, grande como uma cabeça e incrivelmente pesada, mas que certamente seria ideal para o enorme urso.

Passaram-se nove dias até que uma resposta viesse. Clerion abriu a porta sem bater, como Lell lhe instruíra a fazer. Batidas em portas agora lhe eram amaldiçoadamente assustadoras. Desta vez sua face não era triste nem pesada. Vinha com uma expressão quase neutra, mas algo em seus finos lábios rosados queria ser um sorriso. Ele vestia calças de seda fina em um tom de vermelho fogo, e um camisão leve cor de ferrugem. Os traços de seu corpo eram bem definidos através das roupas, e a ferida no rosto provocada quando a antiga tatuagem fora raspada já não existia. O homem montado numa harpia, em tom negro forte estava tatuado sobre a cicatriz, e o pouco que escapava era escondido por uma bela barba prateada. O homem era uma escultura de graça e perfeição, e iluminava o dia de quem o via como a lua ilumina os campos brancos.

– Tenho algo para o senhor. – Disse ele. – Vem da Colônia, e o carimbo é de Mormont. – Já que Mormont não sabia escrever, Lell lhe ensinara um desenho para marcar suas encomendas. Clerion puxou uma caixa de madeira negra com um carimbo branco e a entregou a Lell. – Acredito que seja seu presente, senhor.

– Sim, certamente. – Somente Mormont respondera. Talvez Kell nem sequer tivesse aceitado o presente, mas só um já era suficiente para fazer a alegria dele.

Lell pegou uma serra e abriu a parte superior da caixa. Quando viu pela primeira vez, não quis acreditar. Sua visão se enegreceu, mas logo voltou, e o medo junto. Lell preferiria estar novamente na fornalha de Karkzan a ver aquela encomenda. O sangue estava seco e incrustado nas paredes da caixa, e os cabelos estavam quase apodrecidos. Os olhos estavam horrendamente deformados, mas mesmo assim Lell a reconheceu. Krasha, pensou. Soltou a caixa em desespero, e a cabeça rolou pelo chão atapetado. Clerion caiu de joelhos e depois tombou como um tronco de árvore.