Os pretos se banhavam todos os dias naquele mar verde. O calor era fortíssimo, mesmo abrandado pela brisa do mar. Maegor já estivera em lugares quentes antes. A própria Valíria tinha o hábito de ser escaldante durante os dias e gélida durante as noites, com um ar sempre estático e seco, mas aqui era totalmente diferente. O nome do local foi criado pelos marujos que vinham na viagem. “Ilhas do Verão”, e não poderia ser mais apropriado. As noites também eram quentes por aqui, e dificilmente poder-se-ia ver uma estrela no céu, devido às nuvens que o povoavam. Todos os dias chovia na mesma hora, e os nativos corriam para dentro da mata densa, onde os pingos não lhes podiam atingir.

Os habitantes daquelas ilhas tinham a pele preta como o céu da meia-noite, e, diante do calor, suas vestimentas eram quase inexistentes. Maegor conhecera homens de pele negra uma vez. Tinha vinte e três anos e viajava o mundo em um navio de mercador de escravos. Havia uma ilha na costa oeste de Sothoryos, algumas milhas a sul do ponto em que Jaemon tomara o comando da expedição. Era um povo simples, com um rei e alguns nobres, que se vestiam em togas de linho e se enfeitavam com joias de ouro e prata trazidas pelos comerciantes. Devido à frequência com que vinham estrangeiros para o comércio de escravos, todos falavam ghiscari, e alguns tinham o domínio da escrita, além de usar como moeda corrente o peso de ouro. Neste pequeno reino havia exércitos de imaculados de Astapor e escravos de todos os tipos, alguns até mesmo valirianos ou ghiscaris.

Mas o povo das Ilhas do Verão era diferente. Os homens se enfeitavam com grandes mantos de plumas coloridas, enquanto as mulheres usavam vestidos longos, deixando ou não os seios à mostra. Nem todos se vestiam da mesma forma, no entanto. Ao que fora percebido até agora, quanto mais nobres, mais longas as roupas. O primeiro contato com aqueles homens negros fora, no mínimo, assustador. Os valirianos estavam na ilha há doze dias, sem nenhum sinal de vida humana. Haviam visto alguns maccheis, nome que os ilhéus davam àqueles humanozinhos que vivam nas árvores, mas descobriram que eles não eram gente quando não reagiram ao brilho do ouro. Os primeiros pretos que chegaram a vê-los vieram tímidos, envoltos em plumas amarelas como canários. Falavam algum dialeto corrido, com poucas palavras e muitos grunhidos. Logo que chegaram, Liknell tomara a iniciativa e falara na língua deles:

– Boho’qua labuu veenind. – Maegor não entendia esses dons mágiocos de Liknell, e achava melhor nem tentar, mas era simplesmente incrível quando ele os punha em prática. Todos os valirianos olharam estupefatos para o homem barbudo de Asshenayy, que falava com naturalidade e rosto brando.

– Vennea nurqappo. – respondeu um dos pretos. Até hoje Maegor não era capaz de diferenciar um do outro, exceto pelos rostos mais conhecidos.

– Adabuk bolneo, gharise despoott.- Liknell respondeu, fazendo alguns gestos com as mãos. Aparentemente ele se transformava em um daqueles homens quando falava a língua deles.

Os dois pretos de entreolharam e olharam para Lell, se viraram e saíram. Maegor se apressou em perguntar ao homem mágico:

– E então, o que disse a eles?

– Disse que viemos em paz.

– Ora, não foi só isso. Eu vi, foi uma conversa completa.

– Certo, certo. Disse também que estamos somente de passagem e que gostaríamos de conhecer seu líder.

– Eles trarão o líder até nós, então.

– Não garanto isso. Viu quem veio até nos? Foram os homens com lanças.

– Ora, isso não quer dizer nada.

– Pode ser, mas precisamos ter cautela. Não conhecemos esse povo e ele não nos conhece. Talvez resolvam que não nos querem aqui em um dia quer e matem todos nós.

– Não vejo razão para temê-los. As armaduras deles são feitas de penas de pássaro e suas armas mais poderosas são lanças com pontas de pedra.

– Suas armas mais poderosas são os números. Quando eu tinha quatorze anos, matei um leão de sete metros de altura. Ele tinha um couro espesso, dentes enormes e uma saliva ácida, enquanto os homens do meu bando tinham somente lanças e roupas de pele. Mas éramos seiscentos contra um, e assim pudemos destruir a ameaça. Não queremos ser um leão vermelho nestas ilhas, meu amigo.

Maegor não soube o que responder, então somente saiu, resignado e admirado pela sabedoria de Liknell. A semana que se seguiu quase não foi percebida. Todos os dias os ilhéus pareciam entre os valirianos, observando-os ou tocando neles. Os antigos remadores passaram a cortar árvores para construir um porto. onde ancorariam o navio, que estava sendo constantemente explorado por curiosas crianças pretas como carvão. Sete dias após o primeiro contato com os soldados, estes retornaram à presença de Maegor. Liknell vinha com eles, e lhe tocou o ombro enquanto ele observava os homens se banhando no mar.

– Estes soldados nos levarão até seu líder. — disse Lell — Deveremos nos ajoelhar em sua presença, e eu traduzirei nossas conversas.

A praia terminava em uma floresta densa e penumbrosa. As árvores eram altas, tinham enormes folhas e caules grossos, com insetos estranhíssimos rastejando sobre estes. O som do canto dos pássaros entrava em sintonia com o cintilar das folhas ao vento, tornando aquele lugar realmente fantástico. As árvores minguaram após meia hora, dando espaço às cabanas de madeira e barro em que os nativos viviam.

As primeiras que viram eram pequenas e simples, mas, conforme avançavam da periferia para o centro, apareceram verdadeiras casas nobres, com grandes dimensões e muitas cores. O caminho pelo qual os quatro homens andavam era sobreposto por um teto de folhas secas apoiadas sobre uma estrutura de madeira que ligava os topos das casas, mas algumas frestas permitiam a luz do sol entrar, mas sem o insuportável calor que fazia do lado de fora. Maegor olhava para tudo e todos completamente encantado, sem sentir o tempo passar. Liknell, porém, olhava para frente todo o tempo, como se já conhecesse tudo o que via.

A casa do líder daquele povo era cinco vezes maior que as casas do nobres. Vinte e cinco guardas vestidos de penas amarelas com lanças de três metros de altura. As paredes externas eram pintadas de mil cores diferentes, e plumas de mil cores a ornamentavam em todos os cantos. Um dos guardas que escoltara Lell e Maegor ergueu sua lança, e um dos que guardavam a casa bateu na porta com sua lança, e logo em seguida gritou:

– Fehaan burlheo adbic Gharer!

– Ele disse para todos se ajoelharem na presença do rei. — explicou Liknell.

Os soldados se ajoelharam próximo a porta, formando um corredor. Lell e Maegor seguiram a ação em seus lugares, assim como todos os nobres que estavam na frente de suas casas. O guarda que anunciara sua majestade abriu a porta de dentro para fora, ajoelhando-se logo em seguida. Uma mulher de pele negra e cabelos grisalhos trançados saiu da casa, andando elegantemente em sua toga de penas brancas e vermelhas. Sobre sua cabeça havia uma coroa de flores e plumas armadas sobre um aro de madeira, e seus punhos e tornozelos também tinham plumas coloridas. Ela ergueu uma mão e disse, com uma voz serena como o correr de um riacho:

– Deburlheo.

Todos se levantaram e seguiram com suas vidas, e um soldado disso algo ao ouvido da surpreendente rainha. Ela olhou para os dois estrangeiros e seguiu em sua direção, escoltada por cinco soldados. Liknell olhou para Maegor e segurou sua mão, fazendo-o sentir uma forte dor de cabeça que o segou, mas que durou somente cinco segundos. Quando abriu os olhos, a rainha estava olhando para Liknell.

– Vejo que vocês são os homens que vieram do outro lado do mar. — Foi então que Maegor percebeu. Entendia o idioma das ilhas enquanto segurava a mão de Liknell.

– Sim, vossa majestade. — Lell respondeu.

– Por favor, venham à minha casa. Os receberei em minha refeição hoje. — A rainha falava quase sem mexer os músculos da face, que, por sinal, era muito bonita. Apesar dos cabelos grisalhos, ela não parecia ter mais de trinta anos. Enquanto ela saía em direção à casa, um sodado empurrou os homens para segui-la.

O interior do palácio era ainda mais belo que o exterior. Os dois soldados que os escoltavam se ajoelharam na porta, mas não entraram. Aparentemente o espaço era exclusivo para nobres. As paredes eram feitas em alto relevo e pintadas de branco, e sobre ela repousavam as mais belas pedras preciosas, flores e plumas. Pássaros se empoleiravam nos cantos da casa, fazendo o som de seu canto se misturar ao som dos chafarizes que refrescavam o interior. A rainha guiou os dois até o centro do átrio, onde havia uma enorme cadeira de palha verde decorada com mil cores. Ela se sentou, mas os dois permaneceram de pé.

– Como chegaram até aqui? -perguntou ela, um segundo após Maegor reatar as mãos com Liknell.

– Vínhamos por mar buscando as Terras do Poente, majestade. — Maegor se impressionou consigo mesmo ao dizer estas palavras com o perfeito idioma das ilhas.

– Não sei de que terras fala. — a rainha respondeu — Não há nada depois do poente. Alguns aventureiros já se lançaram ao mar na direção do nascente, e os poucos que voltaram juram que viram algo, mas nenhum que parte na direção oposta encontra terras.

– Nós viemos destas terras do nascente. — interviu Liknell, com uma fala tão serena quanto a da rainha — Olhando para o pôr do sol, vimos terras nebulosas e sombrias. Conseguimos vê-la aqui claramente no horizonte.

– As terras malditas. — a voz da rainha se alterou minimamente, mas seu rosto permaneceu calmo — É um lugar horrendo, posso dizer. Há mil anos os ilhéus tentam alcançar aquele lugar, mas todos morrem ou enlouquecem. Acreditem, não há nada que queiram lá.

– Se vossa majestade diz, então é verdade. — Liknell falava olhando nos olhos da rainha, como que estivessem em sintonia de pensamento — Mas ainda creio que a curiosidade do homem é maior que sua sabedoria.

– Ora, se é realmente o que quer, homem do nascente, não posso impedi-lo. Mas eu tenho observado seus homens, e eles não manifestam intenção de viajar para o norte nebuloso. Até mesmo seu amigo nobre. — Lell e a rainha voltaram os olhares para Maegor — Ele parece gostar de onde está.

– Majestade, isso não é verdade. — mentiu Maegor — Todos os tripulantes da missão desejam chegar às Terras do Poente.

– Minta em minha presença novamente, e sua cabeça será dada aos deuses. — a voz da rainha era a raiva por si só — Todos sabem que este sonho é somente desse Liknell.

– Sim, Maegor, eu sei. — disse Liknell, olhando para o valiriano — Não há problema nisso. Sei que gostaram destas ilhas, e por isso pedi para encontrar a rainha.

Maegor estava espantado. Liknell estava pondo seus objetivos de lado em nome da vontade de meros tripulantes, e de um intendente valiriano que conecia há menos de um ano, se bem que eram amigos, bons amigos, mas a viagem estava programada, e aquela reação foi completamente imprevista. Liknell virou-se para a rainha e continuou falando:

– Quais são as condições para que todos fiquem aqui, majestade?

– E por que eu permitiria que estrangeiros fiquem nas minhas ilhas?

– Valirianos são bons trabalhadores e têm sangue forte. — Liknell respondeu — Se vossa majestade permitir, eles poderiam ter filhos com suas mulheres e gerar muitos descendentes.

– São muito diferentes de nós. — contestou a rainha — Eu já vi o que acontece se cruzarmos animais diferentes. Seus descendentes serão aberrações e serão estéreis.

– Mas não somos tão diferentes, majestade. — interviu Maegor — Eu já vajei por todo o mundo, e vi pessoas de todos os tipos. Alguns eram vermelhos, outros eram marrons e outros eram amarelos, mas todos geravam descendentes. Sabes que estou falando a verdade.

– Sim, eu sei ver a verdade em uma face. — a rainha respondeu — Ainda não estou totalmente segura, mas se desejam ficar, que seja em paz. Nunca houve uma batalha sequer nos últimos trinta anos que tenho reinado, e quero que permaneça desta forma. As guerras só servem para nos encher de amargura e transformar o mar em sangue.

– Ficaremos e viveremos em harmonia — respondeu Maegor.

- Então que assim seja. Eis minhas condições. Todos os que se chamam valirianos deverão trabalhar para os nobres de minhas ilhas. Alguns serão soldados, outros serão agricultores e outros serão construtores, mas nenhum será superior a um nativo. Vocês têm algo que me incomoda, essa cabeleira no rosto. Terão de raspá-la, assim como passarão a usar as roupas de plumas que nós usamos. Liknell, você ficará?

- Não, vossa majestade. — respondeu Lell — Eu irei só para as terras malditas se for necessário.

- Então estamos acordados. Podem sair de minha presença.

Os dois homens ajoelharam e se retiraram, sendo recebidos pelos soldados da rainha na porta. Liknell soltou a mão de Maegor e limpou o suor em sua calça de peles. Se dirigiu a um soldado e balbuciou qualquer coisa na língua das ilhas, e ele os liberou. Agora seriam tão ilhéus quanto eles.

Os valirianos terminaram seu trabalho daquele dia na construção do que viria a ser um porto na praia e se reuniram próximo à construção, conforme a mensagem que Maegor espalhara. Estavam todos sentados ou deitados, sem dúvida exaustos de seu trabalho. Este já se preparava para gritar em um tom que os cinco mil ouvissem, mas Liknell se interpôs e começou o discurso, falando em bom valiriano:

- Povo de Valíria! — sua voz soava como a de mil homens, e todos pareciam ouvi-lo perfeitamente, mesmo sob o barulho das ondas do mar — Há mais de dois anos deixamos nossos lares, amigos e famílias, tudo em nome de um pagamento em ouro ou de obrigações escravocratas. Vocês certamente me conhecem, sou Liknell Karkzan Yozz Argrazz, Capitão desta missão que nos levaria às Terras do Poente. Mas tenho visto que entre nós já não há amizade, se é que já houve. Desde que Therion e Jaemon morreram, ninguém confia em ninguém, e as viagens têm sido um inferno. Pois bem senhores. Propus à rainha das Ilhas do Verão que pudéssemos ficar aqui e viver com eles. Sei que muitos dentre vocês têm fodido essas mulheres, mas agora escolherão algumas para se casar. Deveremos raspar nossas barbas e passaremos a vestir penas, para ficarmos parecidos com estes pretos. Com o tempo aprenderão essa língua, viverão seus costumes e comerão sua comida. Este lugar é isolado e não tem mais volta, a menos que queiram ir comigo. Daqui partirei para as Terras do Poente, e depois para Valíria, e para isso preciso que terminem o porto. Quem quiser vir comigo poderá, mas nunca mais voltará para essas ilhas.

Os homens trocavam olhares confusos entre si e conversavam, uns baixo, outros alto. Um grito ou outro surgia, e um homem chegou a se levantar esbravejando qualquer coisa. Liknell olhou para eles friamente durante todo o tempo, e, depois de quase uma hora de discussões, gritou tão alto quanto uma multidão:

- Quem estiver decidido a partir comigo, por favor fique à esquerda, e o restante à direita.

Menos de trezentos homens se juntaram a Liknell, que disse por fim:

- Até amanhã devemos estar todos de barbas raspadas.

A multidão se dispersou e cada um foi cuidar de sua vida. Liknell se dirigiu ao barco encalhado na margem, seguido por Maegor. Lell estava calado e pensativo, e Maegor não gostaria de interromper, mas algo dentro de si queria estar com aquele homem, conversar com ele e se deliciar de sua sabedoria, mas, quando o ar lhe veio aos pulmões, nenhuma palavra veio à sua mente.

Os dois subiram no barco, que estava sendo iluminado por tochas naquele crepúsculo nebuloso. Lell pegou uma adaga em um baú e pediu a um tripulante que trouxesse uma bacia d'água. Deu também uma adaga na mão de Maegor, e, quando a água chegou, começou a se barbear.

- Não ouviu as palavras da rainha, maegor? — disse Liknell, com um tom levemente zombeteiro — Use sua adaga, vamos.

A barba loura de Maegor crescera ao longa da interminável viagem que fizera desde Valíria, quase três anos antes. Estava perto de completar o quadragésimo segundo ano de vida, mas os fios brancos se confundiam os louros em sua cabeleira. Seu rosto se revelava aos poucos, e vez ou outra ele provocou um corte em si mesmo. Liknell, porém, não se cortava. Sua barba negra e cacheada caía sobre o colo, revelando um rosto surpreendentemente jovem.

- Quantos anos tem, Liknell?

- Trinta e seis. — ele sorriou quando disso, como se estivesse sendo irônico — Mas com essa aparência não terei nenhuma credibilidade, não acha?

- Temo que esteja certo. — concordou Maegor — Mas por que seu rosto é tão jovem?

- Parei de envelhecer aos dezessete anos, antes mesmo de conhecer os Ulthi. Desde então, mantenho minha barba longa. Você, no entanto, parece ter seus quarenta anos.

- Quarenta e dois. É bem verdade o que dizem sobre a dificuldade dos Lyyr para morrer, mas não temos nenhum problema para envelhecer.

Os dois riram, e era a primeira vez que Maegor via o sorriso do amigo. Liknell tinha um rosto belo, ao seu modelo oriental. A pele era mais escura que a de qualquer valiriano, mas mais clara que a de um ghiscari. Seus olhos eram estreitos, e as pálpebras se uniam quando ele sorria, escondendo por completo as bolas de sílex polido que eram suas íris negras. O nariz era algo entre médio e grande, mas fino e elegante, e sua boca era igualmente fina e curta. O rosto jovial de Liknell fez Maegor se lembrar dos amores vividos em sua juventude. Que amores foram aqueles, pensou. Cansei-me de foder com rapazes de todo o mundo, e agora ele vem, agora que eu já estou velho e ele ainda é jovem.