Os cabelos de Liknell já estavam grandes novamente. Ele os cortava uma vez a cada lua, e raspava a barba todos os dias. Seria bom se os deuses me tivessem dado o dom de controlar meu corpo, pensou, enquanto subia ao barco para aparar o cabelo. A floresta das ilhas era muito densa e úmida, então Lell via-se obrigado a queimar fogueiras na praia. Ele não via os deuses há quase duas décadas; apenas podia ouvir uma voz, grave e firme que falava das chamas sempre que ele precisava de ajuda.

Maegor estava já estava lá em cima, fazendo o mesmo que Lell pretendia fazer. Os dois se olharam e sorriram, como duas crianças bobas fariam. Foi em uma ocasião como aquela que eles tiveram sua primeira noite. Um banho no mar para lavar o corpo, um beijo, dois... Tudo estava consumado. Lell se sentia pela primeira vez envolvido por alguém. Já fodera centenas de moças e rapazes em sua vida, mas nunca sentira nada por eles, apenas por Maegor. Seu sorriso era claro e cintilantes como seus cabelos valirianos, e suas palavras o encantavam a cada dia. Lell não era capaz de se lembrar quando começara a gostar de Maegor, mas sabia que ele sentia o mesmo, apesar de não conseguir se expressar.

Após terminar o serviço, os dois desceram juntos do barco encalhado e andaram na direção da floresta. No caminho eles ainda puderam ver ao longe a construção do porto. Somente trezentos homens haviam decidido partir com Liknell, e eram estes que estavam trabalhando na obra. Lell trabalharia com eles se pudesse, mas a rainha o proibira. Nobres são criaturas dos deuses, dissera ela, não podem trabalhar com os homens comuns. Os demais valirianos agora viviam como os ilhéus do verão, todos vestindo suas plumas coloridas. Alguns caçavam, outros plantavam, alguns até mesmo se tornaram sacerdotes dos deuses da floresta.

Os dois nobres foram alojados na Vila Nobre, um conjunto de casas de barro maiores e mais bonitas que as dos homens comuns. Viviam próximo aos outros lordes das ilhas e de sua rainha. Tudo o que os nobres faziam era adular sua soberana ou rezar aos deuses em seus rituais na floresta. O povo das Ilhas do Verão tinha uma forma um tanto especial de adorar aos seus criadores, e era desta forma que Liknell e Maegor adoravam seus deuses agora.

Chegaram em frente à casa que haviam escolhido para viver juntos. A fachada da casa era relativamente simples, com umas poucas plumas enfeitando os cantos e os estandartes de Lyyr e Liknell rodeando a porta, pendurados em cordas de cipó ao teto de madeira que cobria toda a vila. Dois guardas pretos guardavam a porta da casa, vergando uma armadura de penas brancas de madeira, e segurando lanças de três metros nas mãos. Eles descruzaram suas lanças para que os nobres passassem, e Lell sentiu aliviado o frescor de dentro de sua casa.

A casa não tinha cômodos, mas apenas um enorme espaço preenchido por objetos. À direita havia uma cama, no centro, algumas poltronas em torno de uma mesa de madeira muito baixa em forma de olho, e à esquerda, uma enorme banheira de pedra branca, além de chafarizes espalhados por toda a casa. Maegor arrancou suas roupas de penas e correu na direção da banheira, seguido por Lell, ambos rindo como duas crianças que brincam.

A água estava fria como o gelo, mas, diante do calor que fazia, foi como um presente dos deuses. Os corpos de Maegor e Liknell se entrelaçaram na água, causando gemidos e gritos de prazer que ecoaram por toda a casa. Lell imaginou a reação dos dois guardas àqueles sons, se se preocupavam, se se mantinham neutros ou ficavam excitados. Depois de fazer o ritual de adoração aos deuses das ilhas durante o banho, os dois saíram da banheira e vestiram levíssimos roupões de seda asshai'i, que haviam trazido em sua galé valiriana. Nenhum dos dois se adaptara a usar plumas no lugar de roupas.

A cama era baixa, como a maioria dos móveis, mas era coberta por um colchão alto e largo, além de extremamente confortável. Deitaram-se exaustos e ainda molhados, e Lell sorriu para seu amado, mas o sorriso não foi correspondido. Maegor ergueu a cabeça e se sentou, ainda ofegante, de costas para Liknell.

– O que foi, Maegor? — perguntou Lell — Há algo errado?

– Você sabe que sim. — Maegor respondeu, virando-se e revelando uma expressão carregada de pesar.

– Não, não sei. — Lell estava preocupado — Porque está assim?

– Ora, isso é simples, não é? Me diga, Lell. Há quanto tempo não visita a construção do porto?

– Seis ou sete luas.

– Pois bem. Eu vi aquela construção hoje. Como você bem sabe, já faz mais de um ano que eles trabalham naquele projeto, e está quase pronto. Sabe o que isso quer dizer.

– Não quer dizer nada. — Lell tentou tocar o ombro de Maegor, mas este desviou sua mão.

– Quer dizer que você não quer estar comigo. Que você vai me deixar em breve e nunca fez nada para evitar isso.

– Maegor, você sabe que eu quero estar com você. Estamos juntos agora, e podemos continuar.

– Não, não podemos! — gritou Maegor, como se estivesse prestes a chorar — Eu não posso sair daqui.

– Claro que pode, podemos viver juntos. Podemos voltar para Valíria.

– Você pode, sem dúvida. Vai ressuscitar logo depois que a espada dourada de Kahyr Lamminen cortar sua cabeça. Mas eu não posso. Cometi crimes de assassinato e alta traição contra as duas maiores nações do mundo. Roubei ouro dos cheves de Estado de Asshai a Valíria. Não, Liknell. Não tenho vida alguma fora daqui. E gosto daqui. Gosto de você aqui comigo. — Maegor se quebrantou em lágrimas, fazendo Liknell sentir-se morto.

– Nada posso fazer, Maegor. — disse Lell, com a cabeça baixa — Tenho o compromisso de levar estes trezentos homens para casa. Eles têm pais e mães para abraçar, mulheres para beijar e filhos para gerar. Seus amigos estão lá, suas vidas estão lá. Nem todos são capazes de fazer nova vida aqui.

– E você, Lell, é capaz?

– Não tenho vida. Morri aos dezessete anos, em Asshenayy. Depois dali tudo foi preocupação e trabalho, até conhecer você. Você me deu uma razão para viver, algo por que eu pudesse me alegar e ser feliz. Mas você vai morrer, e eu não. Eu não posso suportar perdê-lo assim. Não posso ver sua morte. Preciso ir.

Maegor se levantou e saiu da casa, sem fazer som algum. Lell estava completamente desolado em sua cama, morto como nunca estivera, sentindo mais dor do que quando Karkzan Yozz Argrazz o queimara vivo em Ghis. Likenll deitou e fechou os olhos, talvez em busca do alento do sono, mas os deuses não o permitiram desta vez, assim como não permitiam há duas décadas. Tentou esperar as horas passarem, mas a anciedade tomou conta de si e ele se levantou. Vestiu um roupão simples de plumas azuis por cima de seu roupão de seda e saiu para a floresta. Liknell não o procurou, mas os olhares de relance que deu não encontraram Maegor em lugar algum.

A Vila nobre acabou em alguns segundos enquanto Lell corria, dando lugar à floresta densa. O ambiente era escuro e quente, e a umidade fazia Liknell se sentir mais pesado e fraco, mas ele precisava continuar. Correu o mais rápido que pôde até aquele lugar isolado, onde nada crescia além de uma árvore negra como o carvão e as folhas perfeitamente brancas. Lell se ajoelhou ao chão e abaixou a cabeça, pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo. O vento soprava sombrio e gelado em seus ouvidos, e o som da floresta era simples como um silvo naquele descampado. Liknell juntou todas as suas forças e gritou, o mais alto que pôde:

– DEUS!

Ninguém respondeu além do vento, então ele continuou:

– DEUS! DEUS! PODE ME OUVIR? DEUS!

A solidão falava por si só, e as folhas farfalhavam no alto daquela árvore, brancas como a neve. Lell não ouviu o som de passos na areia, mas uma mão o tocou no ombro direito.

– A que deus se refere, Liknell? — a voz era grave e rouca, como a de um velho, e ele falava a língua de Assenhayy. Lell virou a cabeça lentamente, como que temeroso de quem pudesse ser.

– Deus? — perguntou Lell, com uma voz vacilante. Um homem alto e magro estava diante de si. Tinha olhos pequenos e escuros, um nariz longo e afilado e uma boca quase invisível. Ostentava uma longa cabeleira marrom-avermelhada, que se prolongava em uma barba de mesma cor que tocava-lhe os joelhos.

– Não, não sou deus algum. Por favor, fique de pé, Liknell.

Lell se levantou ainda confuso.

– Quem é você? — Lell perguntou ao homem — Como conhece a língua de Assenhayy?

– Eu falo a língua do local onde nasci. — respondeu um homem enquanto abria um leve sorriso sem dentes.

– Nunca o vi aqui. Como chegou às ilhas?

– Isso eu também não sei. Os deuses me despertaram de meu sono, disseram que seu escolhido precisava de mim. Quando pude perceber, já estava aqui. Por que chamava por um único deus?

– Pelos últimos dezessete anos eu só pude ouvir uma voz. — Lell estava impressionado. Seria realmente ele? — A voz de Deus vem de dentro de árvores e fogueiras.

– Interessante, nunca os vi assim. Sempre conversei com os deuses nas águas, mas quem sou eu para julgar seus métodos, hã?

– Mas afinal, quem é você?

– Minha mãe me deu o nome de Ydee quando eu nasci, mas provavelmente você me conhece pelo nome que criaram para mim. Hass-Akken.

– Hass-Akken? O lendário Senhor da Magia?

– Se é assim que quiser me chamar, que seja. Fui escolhido pelos deuses quando estava morrendo, ainda muito jovem. Quase fui afogado, mas eles me salvaram das águas e me tornaram imortal. Bem, ao menos eu pensei que fosse.

– A mulher de fogo.

– Sim, sim, eu me lembro. Era assim que ela falava com os deuses. Seus cabelos nem sempre foram daquela cor, sabia? Eram negros como essa árvore que você chama de Deus.

– Não, não. A árvore não é Deus.

– O que é, então?

– Na verdade eu não sei. Deus aparece de qualquer maneira. Já esteve em forma de três, em fogo, invisível ou em árvores. Foram os da árvore que me revelaram o dom que tenho hoje.

– Tomou de Fihaja, então?

– Sim, se esse era o nome dela. Da pior forma possível, creio eu, mas me parecia interessante na época.

– Diga-me, Liknell. Quanto tempo tem de vida?

– Trinta e nove anos, ou quatrocentos e setenta ciclos lunares, da forma que contamos em Asshenayy.

– No meu tempo, um homem não chegava nem perto desta idade.

– Mas afinal, por que os deuses o enviaram?

– Me disseram que você está com problemas em administrar esta imortalidade.

– Sim, estou, mas não creio que você possa me ajudar.

– Então para quê os deuses me tiraram do mundo dos mortos?

– Bem, eu preciso de um conselho. Estou fortemente envolvido com uma pessoa, e não serei capaz de suportar ver a sua morte.

– Pretende fugir disto, então.

– Sim, não vejo alternativa.

– Ora, isso simplesmente é impossível. — Hass-Akken riu — Os deuses nos fizeram imortais, mas não deixamos de ser homens, e o coração do homem é fraco. Estamos sujeitos aos sentimentos que levam as pessoas mortais à loucura tanto quanto elas. Existe uma palavra na língua se Asshai...

– Yullimeta.

– Yullimeta. Aquele sentimento que prende um homem a uma mulher.

– Ou um homem a outro homem.

– Nunca vi acontecer, mas não duvido. De qualquer forma, acredito que você deve fugir sim deste tal homem que lhe provoca yullimeta, mas não lhe garanto que não sentirá dor, ou que nunca mais sentirá isso na vida. Nossa vida é longa, e estamos mais vulneráveis do que parece. Acredite, vivi tinta e nove mil luas, até que Fihaj me tomou em yullimeta, e tirou meus poderes em uma aura de espíritos.

– Agradeço seu conselho, Shellra'na Hass-Akken.

– Eu agradeço por ter-me dado a oportunidade de voltar do mundo dos mortos, nem que seja por alguns instantes. Mas agora preciso partir. Poderia se afastar desta árvore?

Lell se afastou, sem entender por quê, e o Senhor da Magia correu na direção dela, fundindo seu corpo à madeira negra e fazendo-a incandescer-se. Liknell ficou observando aquela sena, completamente perplexo, mas não mais ansioso. Agora tudo estava resolvido, pelo menos para ele.

A tarde passou rápido como uma lebre faminta em busca de caça, e logo veio a escuridão da noite. Esta noite tinha um valor especial para os habitantes das ilhas, pois marcava o cumprimento de mais um ano de governo de sua rainha. Todos os nobres, na posição de súditos de sua majestade, eram obrigados a comparecer. Uma enorme área no interior da floresta fora desmatada para o evento festivo. Lell vestira um grande roupão de longas plumas azuis e calçara sandálias de couro que trouxera de Valíria, pois não se habituara a pisar com os pés nus, como faziam os ilhéus. Não encontrara Maegor em casa, mas a visão do valiriano na fila de entrada para o festejo o deixou mais calmo.

Os nobres passavam por uma cerca de madeira e palha um a um, cada um deles sendo anunciado pelo escravo que se posicionava na entrada. A rainha já estava lá, sentada sobre um pomposo trono de madeira completamente adornado por cores. Ao longo da cerca haviam cem fogueiras que iluminavam aquilo que poderia ser um salão ao ar livre, além de uma grande fogueira central, na frente da qual todos os nobre se ajoelhavam à rainha, que se punha atrás das chamas. Um senhor de pele levemente enrugada e olhos baixos estava apoiado no braço de um escravo. Tinha uma fina camada de cabelos, totalmente branca, e estia uma longa toga de penas douradas. Ele entrou cambaleando do salão da rainha, como se fosse cair a qualquer momento.

– Anuncio Lorde Ahbaxho Dhaelmai, senhor das praias do sul e eterno adorador da rainha! — bradou o arauto, enquanto de afastava para o velho passar.

Ahbaxho não pôde ajoelhar, mas a rainha aparentemente compreendeu. Uma salva de gritos de exaltação foi dirigida ao velho, como se fazia a todos os nobres daquele local. Likell era o próximo da fila, e o arauto o olhou da mesma forma que um cão olharia um boi.

– Anuncio Lorde Liknell Karkzan Yozz Argazz, senhor do sol nascente e eterno adorador da rainha!

Lell entrou, reverenciou sua soberana e saiu na direção dos demais nobres, sendo saudado pelos gritos dos outros nobres e dos plebeus. Senhor do sol nascente, pensou, bom, apesar de não ser nada como Shellra'na de Asshenhayy, Conselheiro do Grande Mestre, líder do povo de Ulthos e Escolhido dos deuses. A aglomeração era tão grande do lado de fora que Lell não pôde verificar se Maegor estava perto ou longe. Um bando de ilhéus nobres carregados de adornos entrava, se ajoelhava para a rainha e se punha no perímetro da cerca, conversando e comendo frutas ou insetos assados. A carne assada seria servida mais tarde, no momento do grande banquete.

Maegor entrou somente no final da fila. Ele vestia um roupão de seda valiriana por baixo de sua toga de penas negras e brilhantes, e calçava sapatos fechados à moda ghiscari. O arauto o olhou da mesma forma que ilhara para Lell. Provavelmente pensava que todos os estrangeiros eram iguais, assim como estes pensavam que todos os ilhéus eram iguais.

– Anuncio Lorde Maegor Garten Lyyr, senhor do reino do fogo!

Maegor entrou andando graciosamente, se ajoelhou para a rainha e se dirigiu para seu lugar dentre os nobres. Em nenhum momento olhou para Lell, mas estava visivelmente ansioso por um contato, assim como Liknell também estava.

A meia hora seguinte se arrastou por longas apresentações e reverências, enquanto os nobres para a periferia das cercas. Cinco ou seis eram velhos demais para andar sozinhos, e, dentre os restantes, alguns eram fortes e altos, enquanto outros eram gordos como ratos-boi. Uma criança foi anunciada como "Senhora das matas rasas" e chorou com os gritos de saudação, ao contrário ainda mais novo "Senhor dos bosques do sul", que dormiu nos braços de sua ama a noite toda. Liknell observou Maegor durante todo o tempo, embora nem sempre com seus próprios olhos.

Depois de todos os nobres entrarem e reverenciarem sua soberana, o arauto correu até o centro do campo, onde estavam a rainha e a fogueira, e de lá berrou:

– Anuncio Sua Majestade Johayna Xhenn Blur, Rainha e suprema soberana das Ilhas, filha de Jhallabar, o Grande, descendente direta dos deuses, a inviolável e perfeita, eternamente adorada por todos os homens, mulheres, velhos e crianças!

A rainha emergiu de seu trono de madeira ornamentado em um mar de gritos e assobios de saudação. Respirou profundamente e bradou, em uma voz potente porém suave:

– Nobres das Ilhas! Há trinta e sete anos eu recebia esta coroa de meu augusto pai. Eu era jovem e inexperiente, mas esta nobreza me ajudou a me tornar a governante que sou hoje. Meu pai morreu em uma guerra, mas hoje estamos em paz, pois a guerra só traz sangue e lágrimas. Com a bênção dos nobres e dos deuses, nossa paz por mais mil anos! Senhores, hoje é um dia de celebração, portando, comamos e bebamos em minha honra, e depois dançaremos em honra aos deuses!

Uma tempestade de gritos se seguiu ao pronunciamento , mais alta que qualquer saudação a qualquer outro nobre. A rainha sorria e girava lentamente com os braços abertos, como se abraçasse todos os seus súditos com o carinho de uma mãe. Ela sabe como ser amada, pensou Lell.

A música começou a tocar; uma mistura de mil sons de tambores, flautas e alguns aros de madeira com cordas que se assemelhavam às liras valirianas. Uma porção de escravos corria pelo descampado para servir os nobres com os doces sucos de frutas e leite de cacau, que só existia naquelas ilhas. A carne de algum animal selvagem estava sendo servida. Lell provou um pedaço; estava deliciosamente salgada e brilhavam com a gordura derretida, que lhe escorreu pelos dedos. Ele limpou as mãos em sua toga e bebeu um pouco da água de um coco, para aliviar a sede provocada pelo sabor da carne.

Mesmo com seus cabelo s brilhantes e pele de leite, Maegor foi difícil de ser encontrado em meio àquela multidão. Lell o viu recostado às cercas, muito próximo a uma fogueira, tão próximo quanto só um valiriano poderia se pôr. Liknell olhou para ele, e este respondeu com um relance veloz de seus frenéticos olhos vermelhos. Lell andou em sua direção, e como ele não fugiu, andou mais rápido. Maegor estava com o rosto virado, e assim permaneceu até que Lell lhe tocasse o braço.

– Precisamos conversar, Maegor.

Ele não respondeu. Apenas fitou Lell com um olhar vermelho vivo que mesclava tristeza e desprezo. Lell continuou.

– Falei com Deus hoje. Bem, na verdade Deus me enviou Hass-Akken e eu conversei com ele.

– Não acredito cegamente nas suas palavras, Liknell. E você bem sabe que eu não acredito em deuses.

– Bem, isso não importa. Eu o vi e ouvi sua voz. Ele conhecia minhas preocupações e me aconselhou. Ass-Akken era como eu em sua época. Viveu milhares de anos por ordem dos deuses e conheceu a realidade de ser um homem com vida eterna. Ele me disse, não escapamos de Yullimeta...

– Já sei, Liknell. Vai deizer que me ama, que não quer me perder, mas...

– Sim, isso é verdade! — Liknell estava quase desesperado -Mas você não entende, Maegor. Nem eu entendo. Pode acreditar em mim, eu sentirei muita dor quando tiver que deixá-lo, mas será muito pior se tiver de perdê-lo.

– Vai sentir dor? — Maegor estava com a voz trêmula — Eu? Acha que me sentirei bem te vendo partir com sua eternidade?

– Acho que seu sofrimento vai acabar. A vida dos homens é curta, e o coração se esquece de suas dores mais rápido.Veja, há quanto tempo não sofre pela morte de seus pais?

– Há décadas. — admitiu — mas ainda sinto falta deles.

– E será ainda mais simples com a minha lembrança. Por alguma razão os deuses foram cruéis comigo e eu não durmo à noite, e nessas noites eu sofro por tudo o que já fiz na vida. Não posso ficar aqui e te ver morrer, Maegor. Entende isso?

– Não entendo. — os olhos vermelhos brilhavam com lágrimas prestes a cair — mas posso aceitar.

Maegor segurou as mãos de Lell e este deslizou pelos braços acima, envolvendo o pescoço do valiriano com um carinhoso abraço. Os dois seguraram um ao outro como se quisessem tornar eterno aquele momento. Lell não saberia quanto tempo durou aquele abraço, mas em um momento a música sessou e todos ouviram a voz da rainha.

– Senhores, já é tempo! — ela falava sempre sorrindo — A homenagem para a sua soberana já está feita, e agora vamos homenagear aos deuses. Esta noite geraremos vida!

A música voltou imediatamente, mas desta vez sem gritos. Geraremos vida, pensou Lell. Os ilhéus do verão tinham uma forma um tanto interessante de adorar aos seus deuses. Em dias de nascimentos, agradeciam pela vida da criança gerando mais vida. Fodendo. Após funerais, celebravam a vida do morto da mesma maneira erótica e envolvente. Hoje era um dia de grande glória, e a homenagem seria feita à maneira tradicional das ilhas. Lell foi despertado de seus pensamentos por um grito. Olhou para o lado, e lá estava, estirada no chão, uma mulher jovem e bela. Um homem muito maior que ela penetrava seu sexo em posição comum de reprodução, mas era evidente que nem todos gerariam vida naquela noite.

Não foi necessária muita observação para ver que aquele campo de festejo se transformara em uma orgia, tal qual as que ocorriam periodicamente em Ghis nas mansões de ricos sedentos por prazer carnal. Lell pôde ver perto dele mais um casal em pleno ato, mas desta vez a mulher parecia ter o mesmo tamanho que o homem, e cavalgava sobre seu corpo deitado. Um pouco mais longe, dois homens um pouco velhos rolavam no chão trocando profundos beijos e carícias. Além deles, uma mulher de jolheos ocupava sua boca no membro de um homem, que se punha na ponta dos pés enquanto contorcia sua face se prazer. A rainha também recebia prazer, com três escravos tocando seu corpo. Duas mulheres se acariciavam mutuamente, uma sugando o seio de outra, que lhe tocava o sexo com a delicadeza que se toca uma flor.

Lell sentiu-se puxado para baixo, tombando com as costas no chão com os braços de Maegor à sua volta. A dor que sentiu foi tão logo substituída pelo intenso prazer dos lábios do valiriano, que rapidamente levantou-se e começou a despir-se. Maegor se despiu de suas plumas negras que lhe caíam tão bem quanto a um pássaro, revelando um belíssimo roupão valiriano de seda fina, branca com pérola e quase transparente. Maegor era quase velho, com seus quarenta e três anos, mas seu corpo era tão belo quanto de qualquer homem de vinte. Ele desatou a fita que prendia o roupão à cintura, revelando um belo tronco, definido como uma escultura. Liknell retirou suas vestes das ilhas, encontrando-se completamente nu e vulnerável perante Maegor.

O valiriano se ajoelhou perante o corpo deitado de Lell e forçou suas pernas a se dobrarem por sobre o tronco. Foi uma quastão de segundos até que a dor inicial desse lugar a um intenso prazer. Os dois trocavam incessantes e quentes beijos enquanto tudo acontecia, embalados pelo calor entorpecente de seus corpos. Lell não mais percebia o mundo ao seu redor. A música alta, as pessoas fodendo e gemendo em todos os lugares, as fogueiras queimando e suas chamas tremeluzindo no vento que vinha da praia. Agora tudo o que importava era Maegor, com seus olhos vermelhos brilhando à luz da lua e das fogueiras. O prazer crescia dentro de Liknell, enquanto os dois liberavam baixos gemidos de prazer. Lell sentiu que o momento chegaria, então agarrou fortemente as costas de Maegor, ao passo em que este também agarrou as suas. Ele fechou seus olhos vermelhos e virou o rosto para o alto, e quando o prazer chegou, gritou o nome de Liknell. Este viu sua vida sendo derramada em sobre si e seu amado, em um momento divinamente simultâneo ao prazer deste, e depois viu os dois rostos se aproximando.

O rosto de Maegor brilhava pelo suor, prateado como a lua. Pressionaram os lábios um sobre o outro, trocando um beijo cansado e ofegante. O valiriano rolou para o chão, deitando-se ao lado de Lell. Os dois estavam satisfeitos, mas Lell estava triste, e percbeu que os olhos de Maegor se enchiam de lágrimas. Naquele momento, no entanto, nada havia para dizer, e os dois adormeceram no descampado, juntamente com mil outros casais que haviam desfrutado do prazer dos deuses naquela noite.

O dia amanheceu mais frio e mais triste. As fogueiras estavam reduzidas a cinzas e o vento que vinha do mar fazia as árvores sussurrarem umas às outras. Liknell visitou com Maegor sua casa pela última vez, e vestiram-se com os trajes finos que estavam em um baú, dignos da nobreza valiriana, e se dirigiram ao recém-construído porto, onde trezentos marujos estavam plenamente prontos para partir. O vento estava favorável e as velas negras de Jaemon Lyyr haviam sido substituídas por velas de Liknell, compratas em Ghis e pintadas nas Ilhas.

Os valirianos subiram a âncora e abriram as comportas do cais, como uma forma silenciosa de apressar Liknell a embarcar. Maegor estava ao seu lado, tão perto do barco que parecia que também estava de partida. Os dois se entreolharam fixamente, segurando um às mãos do outro, mas continuavam sem saber o que dizer. Liknell fitou aqueles profundos olhos vermelhos, se aproximou e beijou suavemente os lábios de Maegor, dizendo somente:

– Adeus.