O Homem Que Viu O Mundo
20 Tormenta
O mar era violento como uma mulher em seu sangue de lua. Por três belas semanas após a saída das ilhas, o navio valiriano desfrutara de uma viagem tranquila e com ventos favoráveis, mas as ondas começaram a ficar mais altas que os mastros, e a chuva caía torrencialmente sobre o convés encharcado. Lell estava ajudando seus homens a tirar a água do barco, com uma meia dúzia de baldes de barro que haviam encontrado nos porões da galé. Vestia farrapos tão rasgados quanto os dos marujos, e assim como eles, raramente estava seco. Hoje era um dia particularmente belo, pois, apesar do céu cinzento e dos ventos uivantes, não estava chovendo.
As nuvens se movimentavam rapidamente com o vento, trazendo consigo raios e trovões. Parecia a Lell que quanto mais perto estivesse das Terras do Poente, mais difícil seria avançar. O horizonte esfumaçava fortemente a norte, como água em uma panela quente. Era a única forma de Lell saber se estava indo na direção correta. Ele olhou em volta, e viu os rostos pálidos e exaustos daqueles valirianos. Eles não queriam estar ali. Ninguém queria estar ali. Queriam estar em suas casas, bebendo cerveja com os amigos ou comendo um assado de cordeiro com sua família. Mas estavam todos trabalhando para seu soberano, o único nobre a bordo. Os homens têm um respeito cego por aqueles que se dizem superiores, pensou Lell, ao olhar seu anel de diamante transparente. Um relâmpago riscou a pedra lapidada e o fez olhar par o céu. Mais tempestade viria, e viria sempre violenta.
Três ondas consecutivas derrubaram o último mastro que restava na galé. Dois terços dos remos estavam quebrados, e também dois terços dos remadores estavam mortos, alguns por afogamento outros por inanição, outros ainda por serem esmagados pelos mastros, que caíam como árvores ao choque de um machado. As velas de Liknell haviam sido lançadas ao mar ainda nas primeiras tempestades, quando ainda havia coisas a jogar fora. Remos extras, botes, roupas, móveis, divisórias de cabines. Tudo fora dispensado nas primeiras duas semanas de tormenta. Depois disto, porém tudo passou a piorar, então tiveram que se livrar do ouro, e depois da comida. Três homens brigaram e um fora jogado ao mar, e Lell punira os outros dois com a mesma medida. Menos de oitenta homens restavam hoje, e provavelmente esse número diminuiria.
As horas de chuva se arrastaram noite a dentro, apesar de a noite não ser muito mais escura que o dia. Lell ouvia gritos e gemidos de dor, homens morrendo e jogando os baldes de barro o mar. Palavrões em valiriano, amaldiçoando os deuses, os mares de os nobres. Por duas vezes tentaram matar Lell, mas ele retornara e arrancara as cabeças dos responsáveis, lançando seus corpos ao mar. Agora, porém aquelas cabeças também precisavam desocupar o barco, que mais se assemelhava a um esqueleto de baleia.
Depois de dois dias, o céu se tornou permanentemente escuro, deixando todos completamente desnorteados. Os remadores trabalhavam às pressas, encharcados e famintos, mas cientes de que tinham mais chances de morrer se não remasse. Quando estava cansado de ouvir gritos no convés, Lell se dirigia aos fundos, para ouvir gritos de remadores. Ele não saberia dizer onde estava, pois desta vez nem a fumaça do Poente era visível. No entanto, ele sabia que estava próximo. As tempestades piorariam, mas finalmente chegariam ao fim. O cheiro que chegava às suas narinas não era de nada queimando, como pensara que seria, mas o doce aroma de floresta que tanto conhecia. Poderia muito bem ser uma ilusão, resultada do intenso desejo de estar em terra, mas Lell não poderia desistir agora.
Um tempo infinito de passou, em um breu interminável, até que todos a bordo começassem a tossir. Lell ouviu o barulho da tosse de algumas dezenas de homens e subiu do que restava dos remos para o que restava do convés. O ar era quase palpável, e a fumaça era asfixiante, mas o deixou feliz. A turbulência parou e as chuvas cessaram em alguns instantes, apesar de o mundo permanecer escuro como o breu. Lell ouviu o som de corpos tombando contra a madeixa encharcada do navio, assim como parou de ouvir o movimento dos remos na água. Uma suave brisa soprou sobre seu rosto, com aquele aroma que sentira antes, mas agora mais forte, como se estivesse entre árvores altas e próximas. Um forte impacto o fez cair ao chão, ouvindo um murmúrio que poderia ser o som de algo se quebrando, mas não saberia dizer. Seus olhos pesaram e ele não conseguiu se levantar.
O chão era úmido e revestido por uma manta de gramínea verde e espessa. Lell sentia os olhos pesados, mas precisava s levantar. Precisava sair dali. O cheiro de terra úmida lhe entupia as narinas, e, quando contraiu os dedos, suas mãos se encheram de lama. Tentou erguer o pescoço, mas lhe faltaram forças. Gritaria se o ar chegasse às suas cordas vocais, mas estava sufocando naquele lugar. Arrastou a testa no chão, enchendo seus olhos de lama, mas sem conseguir levantar. Mexeu o pescoço, os braços. os pés. Durante o que pareceu ser três horas, Liknell tentou inutilmente lutar contra o solo. Finalmente os deuses foram misericordiosos e lhe permitiram dobrar os joelhos. Lell apoiou primeiro o joelho direito no chão, depois o direito. Sentiu seus pés descalços arrastarem na grama selvagem, cheia de espinhos que lhe rasgaram a pele.
Um lampejo de dor o fez fechar os olhos, mas ele não se permitiu gritar. Estava determinado a concentrar todas as energias em sair do chão. Fazendo um esforço enorme, Lell conseguiu pôr seus braços em posição de apoio, mas sem conseguir tirar o peito do chão. Fez força uma vez, duas, três vezes, mas cada impulso que dava só fazia aumentar a dor em seu peito. Lell cedeu à dor e voltou a chão. Era a primeira vez em muitos anos que não se sentia tão fraco. Enquanto descia, percebeu que algo lhe tocava na barriga e nas costas. Sentindo muita dor no pescoço, conseguiu observar por baixo de sua barriga. Uma lança negra, provavelmente queimada, lhe prendia ao solo. Lell juntou as duas mãos naquela lança e se pôs novamente de joelhos. Em um impulso forte, conseguiu arrancá-la do solo, caindo para trás logo em seguida. A dor piorara, mas a visão do mundo era, de certa forma, reconfortante.
Um mundo de árvores altas e coloridas cercavam o lugar de grama e terra onde Lell estava. Mil pássaros pequenos faziam ninhos e voavam de galho em galho, produzindo sons suaves e quase inaudíveis. Atrás de si, não muito distante, Lell conseguia ouvir o som das ondas do mar. Estaria perto da praia? Não sabia, mas a dor provocada pela lança era mais urgente que qualquer dúvida. Puxou a lança negra com as duas mãos, liberando um rio de sangue, por alguns segundos, mas que secou, dando lugar a uma ferida aberta no abdômen. Estava sufocando, provavelmente com os pulmões perfurados. Com certa dificuldade, Lell se apoiou no chão e se pôs em pé. O sangue lhe veio todo à cabeça, o que o fez cair novamente, mas desta vez caiu sentado.
Conseguiu se estabilizar na segunda tentativa, rodando os braços no ar e depois parando. Lell olhou para baixo, para onde estava a lança. Estava queimada, com a ponta metálica deformada e boa parte do cabo transformado em carvão ou cinzas. Um vento frio tocou a ferida que já estava se fechando, e só então Lell percebeu que estava nu. Uma maça de algo queimado jazia ao lado de onde ele despertara, provavelmente aquilo que outrora foram suas roupas. Um som de um galho seco se quebrando fez Lell olhar para o lado. Um valiriano estava escondido na floresta, atrás de uma árvore larga. Mesmo de longe Lell conseguiu perceber. Rodhainos, lembrou. Um dos poucos remadores que sobreviveram. Ao perceber que estava sendo observado, o homem prateado desapareceu por entre as árvores, correndo tão barulhento quanto um rinoceronte. Lell correria atrás dele, mas estava com dificuldade para dar o primeiro paço.
A floresta naquele lugar era densa, mas não tanto quanto nas Ilhas do Verão. Lell ouviu, não muito distante, o som de algum palavrão gritado em Valiriano. Várias sombras se deslocaram na mata, vindo em sua direção. As primeiras flechas acertaram o chão, mas uma se fincou no braço esquerdo de Lell, que a arrancou imediatamente. Os poucos segundos que teve para olhar foram suficientes para fazer sua ferida no braço se fechar. A flecha era de prata, exatamente como as armas deveriam ser na galé de lorde Liknell. Ele lançara pessoalmente ao mar todas as armas de aço valiriano que existiam naquele barco no dia em que Maegor matara Jaemon Lyyr. Enquanto o aço mágico bloqueava os poderes de Lell, a prata os intensificava. Um leve sorriso lhe atingiu os lábios quando viu que a ferida no abdômen se fechara completamente, mas uma flecha lhe atingiu o rosto enquanto ele estava distraído.
Lell já contava nove flechas no chão. Toda vez que alguma o atingia, ele a arrancava e descartava, sentindo sua ferida se fechar e a dor cessar quase que instantaneamente. Em pouco tempo já conseguia arremessar com seu braço direito, e matou quatro homens com as nove flechas que tinha em mãos. Rapidamente os demais homens desapareceram, recuando na floresta. Completamente nu, Lell correu na direção daqueles que lhe haviam tentado matar. Correu por três minutos na mata, incomodado pelo balanço irregular de seu pênis, e encontrou uma clareira diante de si, próxima a um fino córrego que brotava de uma pedra coberta de musgo. Os valirianos já estavam lá, perto de suas cabanas improvisadas com folhas e troncos. Por quanto tempo teriam ficado lá? Teriam queimado o corpo e Lell enquanto ele dormia? Tinha de ser. A última coisa de que se lembrava era uma forte tempestade, ainda a bordo da galé.
Os homens do acampamento pegaram dezenas de tochas, e, antes de Lell pudesse se dar conta, fizeram uma parede de fogo. Jogavam galhos e folhas secas, tentando atingir o oponente com as chamas, mas o esforço foi inútil. Lell avançou por entre as chamas, sentindo a mucosa de sua genitália arder, e atacou o primeiro homem que viu. Um valiriano de cabelos cinzas, mas não muito velho. Era Chargerion, chefe dos marinheiros. Lell sentou sobre seu peito arrancou sua cabeça, com a facilidade que se arranca uma pena de uma ave. Sangue jorrou para todos os lados e sujou os olhos de Liknell, deixando-o cego por tempo suficiente para que três punhais lhe penetrassem as costas. Prata, pensou. O cheiro era inconfundível. Lell arrancou os punhais e lançou os três em um só homem, que tentava escalar uma árvore com um arco e uma flecha em mãos.
Olhou em volta. Aproximadamente vinte homens ainda restavam vivos. Um se virou e correu para a floresta, mas Lell correu atrás dele aos saltos e o puxou por sua longa cabeleira loura. Com os dedos indicador e mínimo da mão esquerda perfurou seus olhos, e com a mão direita arrancou sua mandíbula. Uma lança o atingiu u na coxa esquerda, mas esta não era de prata. Madeira, com a extremidade de pedra lascada, certamente igual àquela que usaram para queimar seu corpo a alguns metros dali. Lell sentiu uma dor terrível ao arrancar a arma de seu corpo, mas continuou mancando na direção do acampamento. Viu no canto do olho direito um clarão, e de repente estava caído no chão, com um homem flamejante sobre si.
– Maldito! Maldito! — o valiriano gritava, meio de dor, meio de raiva. — Nos trouxe pra este inferno! Tem que morrer!
Lell sentiu as facadas que o homem em chamas lhe dava, e agradeceu aos deuses por ser em uma faca de prata. Lançou para longe o valiriano, que a esta altura já gritava e agonizava de dor, e rolou no chão úmido para se livrar do fogo. Três outros homens correram na sua direção enquanto se levantava, mas Lell conseguiu alcançar a faca de prata no chão antes que eles chegassem. Com um golpe rápido, rasgou o pescoço do primeiro que o alcançou, e em seguida derrubou o segundo com um chute nos joelhos, lançando-o sobre o que restava da parede de fogo. O terceiro homem vacilou por um instante, o suficiente para que Lell lhe fincasse a faca de prata sob o maxilar.
Um som de berros nada humanos fez Liknell olhar para trás. A parede de fogo que os valirianos haviam construído ainda queimava, e sobre ela três homens agonizavam de dor. Lell não se lembrava de ter lançado mais ninguém ao fogo, então provavelmente esses outros dois haviam se queimado por tentar ajudar o que já estava lá. Mas por que não conseguiram escapar? E por que uma simples parede de fogo sobre um solo úmido permaneceu quente? Foi então que veio a compreensão. Fogo selvagem, pensou Lell. Os valirianos, mesmo antes de conhecerem dragões, já manipulavam as rochas que saíam dos vulcões e faziam um pó mágico, que supostamente poderia produzir um fogo eterno. O pó era guardado em um frasco de barro selado com resina, e muitos marinheiros o tinham como uma espécie de amuleto, pendurado em um cordão no pescoço. Os homens estavam se incendiando de maneira horrenda, e o cheiro que saía daquelas chamas era sufocante como um vulcão. Eles estavam dizendo alguma coisa, algumas palavras, talvez. Gritavam por misericórdia. Lell então se lembrou da lança carbonizada em que acordara, das nove flechas que tivera de arrancar de seu próprio corpo e dos vinte homens que tentaram matá-lo. Com um olhar de desprezo, chacoalhou seu membro na direção do fogo.
Liknell olhou em volta e viu oito homens vivos. Três deles estavam agonizantes sobre os resquícios de suas barracas, mas os outros ainda pareciam estar sãos. Dois homens correram na direção de Lell e o atingiram com uma faca no pé direito e um punhal no ombro esquerdo. Estupidamente, eles continuaram correndo na direção do oponente, que lhes devolveu as armas pontiagudas diretamente nos pescoços. Antes que um terceiro valiriano pudesse alcançá-lo, Lell correu na direção da árvore onde matara um arqueiro, abduzindo o arco com sua única flecha de prata antes de subir. O perseguidor conseguiu arranhar seu calcanhar, mas não o puxou. Lell mirou a flecha o mais rápido que pôde e atingiu o outro homem na cabeça, fazendo-o cair em um estrondo e um grito desesperado de dor.
O quarto homem veio gritando na direção da árvore, com duas facas nas mãos. Antes que ele pudesse atingir o galho onde Lell estava, este pulou sobre ele, fazendo-o cair sobre o corpo agonizante do homem que fora flechado. Um crac pôde ser ouvido, e o valiriano abaixo dos pés de Lell silvou em um som estridentemente agudo. Antes que pudesse sair de cima dos corpos, uma dor cegante o atingiu na lateral do corpo e o derrubou. No chão, Lell consegiu ver uma lança de madeira fincada na árvore e ensopada de sangue e vísceras, e seu abdômen seu completamente dilacerado na lateral. Um valiriano veio em sua direção, e, rápido como uma águia, arrancou a lança da árvore e a atirou na direção da cabeça de Lell.
Por alguma bondade dos deuses, ele conseguiu virar a cabeça, sendo atingido somente no pescoço. O oponente jogou os dois corpos por cima de Lell, imobilizando-o quase que por completo. O último valiriano parecia fatigado, e Lell aproveitou um momento de distração para recuperar a flecha de prata que estava bem diante de si. O barulho do crânio quebrado fez o homem se virar, etão Lell arremessou a flecha em sua garganta, fazendo-cair no chão e rolar em rios de sangue. Com um esforço descomunal, Lell conseguiu arrancar a lança de seu pescoço, mas não conseguiu erguer a cabeça. Impotente, pousou a peça de prata sobre o ferimento e fechou os olhos.
Depois de alguns minutos, Lell conseguiu se levantar. Ainda não estava totalmente são, mas sua visão já estava nítida e seus braços estavam suficientemente fortes para empurrar os dois corpos que estavam sobre si. Olhou em volta. O fogo selvagem já fora extinto, e sore ele jaziam os restos de três valirianos. Lell foi à procura dos três homens que ainda não matara, cambaleando pelo acampamento. Encontrou os dois primeiros em uma barraca, com um rastro de rastejo no chão atrás de si. Malditos covardes, pensou Lell, tentando se esconderem. Por uma hora Lell procurou o terceiro homem, sem sucesso. Suas feridas gora estavam quase completamente sãs, e ele fez pouco esforço para empilhar os corpos no centro da clareira. Usando o que sobrara das barracas de folhas secas, Lell preparou uma enorme pira e queimou aqueles vinte e quatro homens.
O fogo crepitava atrás de Liknell, produzindo uma fumaça com cheiro de churrasco. Lell se vestiu com alguns farrapos que arrancara dos corpos de seus oponentes e agora caminhava na floresta, em parte procurando o valiriano fugitivo, em parte sem saber o que fazia. O som da pira de corpos ia se esvaindo a cada passo, dando lugar aos suaves sons da floresta. No alto das árvores, folhas farfalhavam e esbarravam em milhares de frutas gordas e vistosas. Após horas de caminhada, nem o cheiro da fumaça era perceptível. Lell não sabia mais o que fazer naquele matagal interminável, então resolveu se recostar a uma árvore de caule branco. Abaixou a cabeça, passou as mãos sobre o rosto e se endireitou, sentindo um leve incômodo nas costas. Quando Lell se virou, viu um enorme rosto humano esculpido no tronco, assustadoramente verossímil. Os olhos vermelhos olhavam para o homem, como se pudessem vê-lo. Foi só então que se lembrou do rosto de madeira que vira na casa de Kahyr Lamminen.
Lell se pôs de pé e saltou para trás, assutado. Nunca imaginou que uma árvore pudesse ter esse poder de observá-lo. Deu três passos para trás, trêmulo, mas incapaz de parar de fitar aqueles olhos. Um som de pés correndo na mata chamou sua atenção para o lado. Seria o último valiriano? Ou haveriam mais à sua espera? Lell olhou rapidamente em torno de si, uma, duas vezes, sem ver ninguém. Olhou novamente para a árvore, sentindo que estava sendo observado por alguma coisa, mas o rosto em madeira permanecia impassível. Os sons de passos se repetiram, e várias aves começaram a bater as asas e crocitar ao mesmo tempo. Olhando para cima, Lell viu um corvo negro voando sobre si, e depois desaparecendo entre os galhos. Por uma última vez ele ouviu passos, certamente de mais de uma pessoa.
Olhou para a parte mais baixa das árvores e pôde ver uma silhueta de relance. Avançou naquela direção, sem fazer muito barulho, procurando o que quer que fosse aquilo. A criatura estava armada com arco e flecha, aparentemente feita de um vidro negro. Tinha a fisionomia de um adulto, mas a altura de uma criança, Roupas de folhas cobriam sua pele manchada , deixando somente um pequeno rosto assutado à mostra. Lell sentiu a flecha penetrar seu abdômen, rasgando a carne e se fincando em alguma costela.
A criança correu para longe, soltando gritos que mais pareciam música. Lell caiu de joelhos, mas conseguiu levantar e arrancar a flecha de dentro do corpo. Cambaleou na direção que achava que a criança teria seguido por um longo tempo, até que a encontrou novamente em uma clareira. Um riacho descia de uma pedra, exatamente igual àquele em que Lell queimara os valirianos. Centenas de crianças estranhas vagavam por aquele lugar, se armando com flechas, punhais e pequenas espadas daquele vidro negro. Elas cantavam algo umas para as outras em uma língua estranha e corriam até formar algo que parecia ser uma formação de batalha. Um homem velho com não mais de um metro gritava ordens e portava uma lança em uma das mãos, e na outra, uma adaga.
Fale com o autor