O tempo não passava mais da mesma maneira no mundo imortal de Liknell. Os dias ainda duravam vinte e quatro horas, e cada segundo demorava um segundo, mas ele já não sentia o peso do tempo perdido. Fazia tudo o que precisava fazer, e depois, tudo o que queria fazer. Não ocupava seus dias com as preocupações inúteis dos mortais, como o que vestiria ou comeria no dia seguinte, em parte porque não comia, em parte porque era sustentado por seu soberano.

O povo de Ulthos jamais soubera do dom secreto, a pedido do próprio Lell. Karkzan divulgara a história de que o prisioneiro queimado era outro; e que o machado que se quebrara era feito de barro. O líder chamado Liknell teria sido mantido preso nas masmorras durante cinquenta dias, para pagar por seus crimes, e depois decidira se redimir prestando juramento eterno de lealdade ao Grande Mestre. A versão contada pareceu ser bem aceita pela maioria dos peludos, exceto por Kell, que se mostrou incrédulo em relação ao fato de Lell ter-se submetido pacificamente. Certa vez, após muitas semanas com cara de dúvida, o irmão do senhor da magia o interpelara:

– Lell, eu te conheço há vinte e seis anos. Crescemos juntos, aprendemos a caçar e pescar, a ver as estrelas e a falar com os deuses. Eu lembro que você gostava de correr com os animais e tentava pegar pássaros enquanto voavam. Também gostava de inventar histórias e de dizer que um dia teria um leão vermelho algum dia. Mas nunca, nunca mesmo gostou de estar errado. Sempre vencia qualquer discussão que fosse, e, se me lembro bem, era por isso que vivia só. Agora vem com essa história de submissão ao mestre, e escravidão¿ Não é suficiente para mim. Por favor, irmão, me conte o que aconteceu naquelas masmorras.

Lell estudara o semblante do interlocutor. Estava triste, visivelmente preocupado. Era doloroso para um homem provocar esses sentimentos no irmão, mas ele estava decidido a manter o segredo. Se um souber, todos sabem, repetia para si mesmo, como se pudesse aplacar a culpa. Se souberem, virão tirar de mim. Lell amava ao irmão, assim como amara a mãe a admirara o pai, mas, acima de tudo, Lell aprendera a amar a si mesmo, e se odiava por ser assim.

– Existem coisas que acontecem sem uma razão. – Respondera, com as lágrimas ameaçando subir aos olhos. – Ainda sou seu irmão, Kell, e a situação que criei não é de todo ruim. Peço somente que compreenda e aceite, mas não tenho uma resposta para lhe dar.

Kell apenas abaixara a cabeça e se retirara. Depois dessa conversa, os dois se afastaram, e só se falavam uma vez a cada semana, depois, uma vez a cada lua, a cada três luas, e depois não se falavam mais. Lell via o irmão ao longe quando ia visitar a Colônia, sempre sério, como um governante em tempos de guerra.

A Colônia fora aceita de bom grado pelos ulthi. Lell soubera, somente três dias depois de se instalar em seus aposentos, que eles haviam ficado “presos de escravidão”, não uma prisão de masmorras como a que Lell estivera, mas vivendo em casas de barro e recebendo tudo o que precisavam para viver, somente sem sair dali. Quando foram libertos, passaram a construir casas nas colônias, onde plantavam e criavam gado. Lell os visitara duas luas depois. Enormes rebanhos de ovelhas, Pastagens repletas de vacas, porcos e até mesmo coelhos. Os bandos vivam cada um em um lote, onde aplicavam o pouco, porém suficiente conhecimento que tinham.

O bando de Kellok era o menor, uns reminiscentes do bando de Fellas que quiseram abandonar o Mar Dothraki. Estes eram realmente os melhores no cultivo, provavelmente graças ao líder que tinham. Eles eram pacíficos, e nunca entravam em conflito com ninguém. Os homens de Mormont eram os mais numerosos, e também os mais raivosos. Eram conhecidos como “os ursos” pelos demais ulthi, e, ao passar um dia com eles, não era necessário perguntar por quê.

Mas o tempo não passara apenas para os ulthi. Karkzan Yozz Argazz sentia seus dias chegando ao fim. Já se haviam passado doze anos desde o dia em que Lell se tornara escravo daquele homem. Ainda era capaz de se lembrar da boa mente que tinha o governante, sempre dando ordens e tomando decisões. Depois de certo tempo de convivência, Lell passara a respeitá-lo, e até mesmo admirá-lo. O Grande Mestre arquitetara o plano de roubar os dragões, tendo Lell somente aconselhado um ponto ou outro da obra daquela mente ativa.

Haviam planejado tudo uma lua depois do início do trabalho de Lell, e logo puseram o plano em ação. Liknell se disfarçara de mercador e seguira em uma rica galera na direção de Valíria. Lá, estivera com o dono dos dragões, um homem muito rico, de trinta e poucos anos e uma grande cabeleira prateada chamado Balerion. A missão não era comprar dragão algum, apenas consegui-los de volta. Lell a cumprira com maestria, ao matar o dono dos dragões e seus guardas, saindo de Valíria com sua galera abarrotada dos bens e do ouro de Balerion, além de três dragões enjaulados.

O plano fracassara, no entanto, quando os dragões foram soltos da jaula. Eram extremamente violentos e indomáveis, e queimaram três palácios inteiros, além de cinquenta domadores valirianos contratados pelo mestre. A decisão de matá-los fora do próprio Karkzan. Mil flechas de aço valiriano, foi o que precisaram para matar os dois primeiros. O terceiro fugira, deixando um temor constante pairando no ar. Oito luas depois, uma terrível chuva de harpias encheu Ghis de aves carbonizadas. O dragão voltara, e era tão grande quanto dez harpias juntas, e tão barulhento quanto mil delas. Foram necessárias cem mil flechas por dia durante cinco dias até que o animal morresse por completo. Lell se lembrara do leão da montanha que matara há oito anos quando ouvira o guinchar amedrontador do dragão.

Mas os tempos eram outros, e as ruas estavam limpas. Novos dragões voavam no céu vermelho de Valíria, e o Grande Mestre Karkzan morria de uma doença chamada tempo. Ele já estava com quarenta anos quando conhecera Lell, apesar de sua barba fortemente ruiva. Agora já era metade grisalho, e seus dentes caíram em metade. Sua voz era mais rouca, e seu raciocínio, mais lento. Já não tomava decisões com a mesma rapidez e frequentemente deixava os assuntos do governo de Ghis nas mãos de Lell e dos Mestres.

Lell estava em seus aposentos de escravo, mais confortáveis que os de qualquer homem livre. Recostou-se em sua poltrona de couro de leão-ferrugem – nome que dera aos leões vermelhos e Asshai – e observou as mil vezes vistas cenas de batalha pintadas nos tapetes que revestiam as pareces. Cavaleiros Dothraki, homes vermelhos de Asshai e homens prateados de Valíria, todos se curvando perante a soberania ghiscari. Ameaças de Valíria, bem-estar do povo, geração de dinheiro. O ouro nos cofres e o ouro a ser investido. Os Imaculados de Astapor e os colonos de Ulthos. Ele estava cansado de tudo aquilo. Pôs-se a beber uma taça de vinho tinto, para se esvaziar a mente das preocupações diárias. O sono dos homens não lhe vinha, mas, mesmo assim, procuro fechar os olhos, mas o breve momento de paz foi interrompido por uma mão nervosa batendo à porta.

– Entre! – disse Lell, com uma forte carga de má-vontade na voz.

Adentrou ao quarto um homem de mais de um metro e oitenta. Era forte e tinha um andar suave. Seus cabelos e barba eram prateados como a lua cheia, e cintilavam ao menor sopro de ar. Seus olhos púrpura eram penetrantes, e seu rosto era incrivelmente belo.

– Clerion! – chamou Lell, com certo calor na voz. – Vejo que continua rápido como sempre! — Tentou esboçar um sorriso receptivo, mas o valiriano não o correspondeu.

– Senhor. – O olhar era pesado e baixo, muito mais que o normal. A tatuagem negra em seu rosto aumentava o pesar de sua voz. – Trago notícias trágicas. Nossa amiga Allara se foi. Mormont solicita sua presença no Conselho imediatamente. — De repente todos os problemas de Estado e as preocupações mundanas pareceram nem sequer existir. Lell foi tomado por uma dor avassaladora, e sentiu ódio dos deuses quando não conseguiu chorar.

Allara estivera cada vez pior. Seu bando vivia em paz com os outros, apesar de haver algumas brigas entre eles e os homens de Mormont. A velha mulher caíra em uma doença pesada desde a morte do irmão, doença que parecia surgir na mente e destruir o corpo. Há muito perdera sua capacidade de lutar, e seus movimentos eram cada vez mais morosos e raros. Passava a maior parte dos dias enfurnada em sua casa de barro, mas raramente fazia algo lá dentro. Seus cabelos ficavam cada vez mais brancos e quebradiços, e seu rosto, cada vez mais magro e pálido. A expressão que carregava no rosto era aterradora para todos que a olhassem, e as poucas palavras que dizia eram de pessimismo e maldição.

Há muito quem liderava seu bando, na prática, era Krasha, companheira de Mormont. Os Ulthi não acreditavam em acordos matrimoniais, como faziam em Asshenayy. Naquele povo as uniões eram feitas pela captura. Um homem deveria capturar uma mulher pela qual se interessara e levá-la para a sua caverna. Durante várias luas eles viviam juntos, mas no final era a mulher que decidia se ficaria ou não, e Krasha decidira ficar. Ambos contavam com quinze anos de vida quando se uniram, e até hoje permaneciam inseparáveis. Ela tinha olhos escuros e sem graça, e seu riso era estridente, mas seus cabelos eram brilhantes e sedosos, e seu corpo despertava desejos cruéis. Não era a mulher mais bela que Lell já vira, mas sem dúvida, era a mais inteligente.

Tinha uma capacidade de liderança ainda maior que a de Allara, apesar de não ter a mesma disposição. Tudo o que falava tinha um sentido e se encaixava perfeitamente no contexto. Muitas vezes fazia todos rirem, refletirem e chegava a convencer todos a concordar com a sua opinião, chegando muitas vezes a despertar inveja em Kell. Todas as noites ela e Mormont estavam juntos em sua tenda, e todos os dias partilhavam das refeições e conversavam por horas a fio. Muitas vezes Krasha era vista nas reuniões com Allara, Kellokk e Mormont, sendo sempre este quem mais dava valor à sua opinião. Apesar dos fortes laços que uniam o casal, seus deveres para com o povo os mantinham separados por diversos momentos.

Seis luas depois de o bando chegar a Ghis, Krasha anunciara que esperava um bebê, e o tivera na Colônia, em sua pequena casa de barro. O menino era forte, e se desenvolvera bem desde muito novo. Seus pais lhe deram o nome de Angor, em homenagem a Andor, e era a este que o rapaz se assemelhava. Seu temperamento sempre fora calmo, mas decidido. Muitas vezes chorava a noite inteira aos ouvidos da mãe para conseguir o que queria. Desde os três anos já era plenamente capaz de falar e se comunicar na língua dos ulthi, dos ghiscari e dos valirianos, e Kell agora tentava lhe ensinar a língua de Asshenayy.

Lell partiu para a Colônia em sua liteira, carregado por oito escravos. Vestia sedas finas, por causa do calor, mas cuidara para escolher as vestes mais brancas, pois esta era a cor do luto ulthi. Os homens peludos acreditavam que os deuses viriam levar o morto consigo depois que ele fosse queimado, por isso o vestiam em peles negras e se vestiam de branco, assim os deuses poderiam ver claramente quem deveria ser levado. Chegou na casa de barro de Mormont. Decidira que seria melhor falar com ele antes de qualquer outro. Ao entrar pela pequena porta, retirou os olhos de rubi que o protegiam do sol e foi na direção do filho. Ele vestia roupas brancas também, mas estas eram feitas de couro grosseiro de rato-boi e tingidas com pó de calcário. Estava ajoelhado ao lado do corpo da mãe, que jazia em uma caixa de madeira. Lell ajoelhou-se perto de Mormont e tocou a mão no seu ombro coberto de peles brancas.

– Acredita se eu disser que Allara foi a maior mulher que alguma vez já conheci¿

– Acredito. – Sua voz era calma e fria como sempre. Lell quase desconfiara que ele pretendesse esconder as emoções, mas as palavras foram logo substituídas por soluços. – Acredito que minha mãe era tão boa que os deuses a querem para si. Nosso povo veste branco hoje, Liknell, mas eu visto somente sofrimento. – Seus olhos pequenos estavam vermelhos, e seu espesso bigode se encharcava pelas lágrimas. Era a segunda vez que ele via um homem chorar. A primeira vez fora o menino Liknell, que chorara escondido na mata quando o pai morrera. Olhou o urso nos olhos e disse:

– Sinto como a morte de uma irmã. È como se os deuses me levassem o braço e atirassem sal na minha ferida. Sinto ódio deles por não conseguir chorar, mas uma parte de mim morre junto com Allara. — Os homens se abraçaram e se levantaram. – Mas agora precisamos ir, Mormont. O povo nos espera, e os deuses esperam Allara.

Ele acenou positivamente. Seu rosto estava encharcado e vermelho, mas não pareceu ter medo que os outros o vissem assim. Levantou a caixa por uma alça de um lado, e Lell levantou pelo outro. Saíram pela porta muito vagarosamente, e seis mil homens, mulheres e crianças estavam à porta, vestidos com seus couros brancos pés descalços. Uma pilha de toras secas estava no centro da multidão, que abriu alas para o corpo da tão querida mulher. Mormont molhou um chumaço de lã de ovelha em piche e ateou fogo, jogando-o na madeira logo em seguida. A fogueira ardeu em pouco tempo, mas, talvez por bondade dos deuses, não houve cheiro de carne queimada, apenas da madeira e do piche que a recobria. O povo de pedra não proibia os homens de demonstrar sua tristeza. Para onde quer que Lell olhasse, via homens, mulheres, velhos e crianças chorando. Krasha soluçava, abraçada ao companheiro e ao filho. O único que não chorava era Andor. Este fixou seus olhos nas chamas e não piscou uma só vez. Lell jamais teria certeza, mas talvez vira os deuses saindo da madeira queimada na forma de fogo e entrando na caixa do corpo de Allara.

O fogo durou do fim da manhã ao fim da tarde, até que as últimas fagulhas se apagaram perante as primeiras estrelas do céu. A maioria saíra de perto da pira enquanto esta ainda ardia, e os últimos saíram depois que ela se apagou. Krasha e Angor saíram ao cair da noite, mas Mormont e Lell permaneceram lá, ajoelhados diante das chamas. Lell não saberia dizer se o urso dormira ou estava mergulhado em pensamentos, mas, nos primeiros raios de sol da manhã seguinte, sua mão peluda tocara o braço do senhor da magia e o chamara para se levantar.

– Obrigado por ficar conosco, Lell. Você agiu como um verdadeiro irmão. – A voz soava ainda triste, mas um pouco consolada. Allara permanecera ao lado da pira de Andor durante uma noite inteira, e só se levantara um dia depois de as chamas se apagarem. – Eu gostaria de ficar e prestar homenagens à minha mãe, mas os deuses devem fazê-lo no interior de suas árvores. Mas o povo precisa de mim.

– Sim, creio que o farão. Mas nós precisamos trabalhar. O dever chama a todos nós. Virei visitá-lo sempre que possível, Mormont.

Os dois se levantaram e carregaram a caixa com as cinzas de Allara até a praia. A caminhada levara duas horas, muito mais que Lell estava acostumado a andar, mas estava disposto a fazer este esforço em homenagem àquela que tanto admirara. Lançaram as cinzas em uma área isolada, próxima aos rochedos e tão longe quanto possível dos portos.

Os escravos haviam dormido na casa de Mormont, e agora estavam prontos para levar seu senhor de volta à sua vida. Os dias passaram mais lentos que o normal, e os problemas de Estado pareciam ficar cada vez mais difíceis de resolver, apesar de serem os mesmos de sempre. Lell já não buscava os deuses todas as noites há anos, mas agora a frequência ficara ainda menor. Perdia seus dias em ocupações desgastantes e suas noites em vinhos caros vindos de lugares distantes. O Grande Mestre Karkzan já não governava, e, pelo que Lell ouvira, tinha delírios em seu leito.

Sete luas já haviam se passado desde a morte de Allara, e nenhuma vez o conselheiro do Mestre fora visitar Mormont ou seu irmão. Lell comia sua refeição matinal sentado a uma mesa de madeira vermelha naquele quarto decorado com cenas de batalha. Os talheres de ouro roçavam contra a porcelana, produzindo um som irritante. Às vezes Lell se sentia como um velho que se irrita com qualquer coisa, apesar de ainda ter trinta e dois anos. As batidas à porta encheram sua mente de preocupação e terror. Não batiam com tanta frequência quanto na última vez. Agora a batida era forte e pausada. Lell se levantou devagar, como se quisesse adiar ao máximo receber qualquer notícia que fosse. Abriu a porta, e o sentimento que lhe veio quando viu Clerion foi um misto de raiva e medo. O homem tinha um olhar baixo e sombrio, e sua voz era diferente de como já fora. Pendia do rosto que fora tão belo um horrendo pedaço de pele, onde antes houvera uma tatuagem negra. O sangue jorrava e manchava as roupas límpidas de escravo do Mestre. Ele levantou a cabeça, e seus olhos cor de violeta se encontraram com os olhos em pânico de Lell. Abriu os lábios ensanguentados e disse, com um tom mais sombrio que a noite:

– O Grande Mestre Karkzan Yozz Argazz está morto.