O Homem Que Viu O Mundo
13 Águas estranhas
Os antigos poderes do Homem de lua voltavam aos poucos. Lell passara aqueles treze anos em Ghis sem buscar os deuses, e, como não precisava usar a magia na situação em que vivia, estes quase não lhe faziam falta. Nem mesmo o dom eterno da imortalidade se fazia necessário na corte ghiscari: a primeira vez que alguém tentou matar Lell depois da caixa de fogo foi quando ele foi transpassado pelo aço valiriano de Arkrazz. Ele demorara mais tempo para voltar à vida desta vez. Acordara fraco e prisioneiro, mas vivo. As condições impostas aos ulthi foram severas, mas Lell agora via a situação como uma oportunidade de reunião. Estava novamente na presença de seu povo e seus deuses, e, apesar da situação de fuga, Mormont e Kellokk estavam mais calorosos com seu amigo, na medida do possível.
Dos trinta e oito mil ulthi que deixaram a Colônia, dezenove mil eram do bando de Mormont, oito mil eram de Kellokk e treze mil eram de Allara, passando agora para o comando de Liknell. O Urso costumava levar seu filho Angor para as reuniões dos líderes, ensiná-lo sobre liderança e ouvir suas opiniões. O garoto estava perto de completar treze anos, mas já falava e pensava como adulto, participando das principais decisões de governo. Pouco antes de partirem dos domínios de Ghis, os quatro líderes dos ulthi se reuniram co Arkrazz e expuseram a situação.
- A melhor saída –dissera Lell, que era quem tinha a segunda melhor pronúncia ghiscari – seria se o povo Ulthi saísse pela fronteira norte, próximo às colinas e invadisse o domínio valiriano. – Arkrazz respondeu:
- Não seria bom para mim. Imagine uma enorme horda de selvagens invadindo o território dos senhores de dragões sob minhas ordens! Não, não posso permitir isso. Posso permitir que vocês saiam de barco, pelo mar ghiscari, e passem por baixo as Península Valiriana. Daí podem seguir seu caminho por mar.
- E aonde espera que esse caminho nos leve¿ — perguntara Kellokk.
- Sothoryos, o Rhoine ou aquelas terras nebulosas de quem os valirianos falam.
- As Terras do Poente¿ — indagara Lell, com incredulidade na voz – Espero que não esteja nos mandando para aquele inferno nebuloso que nem os valirianos conseguem penetrar.
- Não pretendo nada que não seja me livrar desse povo peludo, escravo. Posso dar todos os barcos que precisarem. O preço está incluso nos cem milhões de pesos de ouro, que, a propósito, ainda estou esperando.
- O ouro vem de longe – mentiu Lell – mas pagarei o que lhe devo antes de partirmos. Por hora, preciso de alguns dos seus galeões.
Os navios que transportavam os ulthi eram maiores que Lell poderia imaginar. Certamente haviam cortado milhares de árvores para conseguir tamanha quantidade de madeira. Foram necessários nove galeões para comportar todos os ulthi, e mais dois com suprimentos extras. A enorme frota levantava âncoras em um dia ensolarado e sem nuvens. O vento quase não existia, mas os quinhentos remos de cada galeão deveriam ser de bom uso agora. Arkrazz foi Assistir à partida deles, como se quisesse se despedir dos barcos, ou dos próprios ulthi. Vestia um enorme tokar roxo com detalhes em ouro vermelho, e estava usando olhos de vidro igualmente roxos, em uma armação em diamante incolor. Lell já não mais usaria esse tipo de roupa. Ele estava novamente em suas calças de couro cru e sandálias de Assenhayy.
Fora fácil para Lell conseguir o ouro de indenização. Retirara das profundezas do solo de Ulthos e criara moedas de tamanho parecido com os pesos ghiscaris, mas com uma cunhagem diferente. Arkrazz achara estranho receber moedas com duas faces estampadas com chamas, mas não era capaz de reclamar diante de tanto ouro. Os navios partiram duas horas após a alvorada, e tomaram o rumo sul antes do cair da tarde.
Já passara há muito do crepúsculo quando Lell decidiu agir. Estava agora sentado em sua cadeira de madeira, no ponto mais alto do mastro mais alto de seu galeão. Olhou para os remadores que dormiam, e para as velas do barco que se esvoaçavam contra o vento. Sentiu-se um pouco culpado por destruir as tão belas harpias, mas precisava se vingar de Arkrazz. Como são tolos estes amantes do ouro, pensou. Pôde ver ao longe apenas uma fagulha sobre a distante Ghis. Todas as cem milhões de moedas subiram rapidamente em direção às harpias, e as incendiaram. Até mesmo aquelas que viajavam sobre os mastros dos galeões voaram de volta à Ghis somente para morrer.
O fogo tomou todo o céu, mas Lell cuidou para que não incendiasse a cidade e não matasse ninguém desnecessário. Em alguns segundos, Ghis estava coberta de corpos carbonizados de harpias, e o imponente e enorme animal que dava vida à cidade não existia mais. Uma moeda foi usada para incendiar cada harpia, e sobraram apenas duas mil. Estas, Lell direcionou à torre da Grande Harpia, onde dormia o Grande Mestre Arkrazz. Ao contrário do que foi feito com as aves, Arkrazz viu ouro derretido cair sobre sua cabeça. Lell pôde ver tudo por meio das chamas reveladoras que cintilavam em volta de si.
Já era dia e Lell já trabalhava no convés de seu galeão, mas ainda era possível sentir o cheiro de fumaça que vinha de longe. Já viajavam há três semanas com tempo bom e um vento razoável, mas o dia de hoje não parecia promissor. As nuvens estavam mais negras do que nunca, e os ventos que sopravam eram desordenados e faziam os barcos balançar. Um pouco depois da hora do almoço veio uma terrível trovoada, juntamente com uma tempestade de raios. Uma tempestade fortíssima se seguiu. Lell avistou os dois galeões de suprimentos virarem, levando consigo vários homens de confiança. Lell permaneceu sobre o mastro mais alto, e pôde ver, em todos os galeões, que homens em desespero se lançavam ao mar e começavam a nadar inutilmente, sendo levados para baixo junto com os grandes barcos logo depois. Por mais que se esforçasse, Lell não conseguia parar a tempestade. Não sabia se era porque seus poderes ainda não eram suficientemente fortes, ou se algo maior que ele provocava aquilo.
Em meio a todo o caos, uma vela do galeão de Lell pegou fogo, e centenas de homens correram para apagá-lo. Começou a descer do mastro, correndo para ajudar, mas em meio a toda a fumaça, tudo o que conseguiu fazer foi cair. Dores terríveis tomara cota de si quando chegou ao chão num baque surdo. Lell se levantou com certa dificuldade alguns segundos após a queda, já sentindo seus ossos se regenerarem. Em meio ao balanço do barco, caiu três vezes ante que pudesse se pôr de pé. Lell poderia jurar que viu, formado pela fumaça vinda da vela, um rosto comprido com um nariz pontudo. Da boca saía um sorriso zombeteiro e sarcástico, e uma língua bifurcada de cobra. Ib, pensou Lell, em fúria.
O grito que deu apagou o fogo como um grande sopro, e, em um salto, já estava no mar, correndo sem rumo sobre as águas. Não foi necessário mais de um minuto para que os dois se encontrassem. Ib estava flutuando de pernas cruzadas sobre a água. Em volta de si havia uma forte massa de ar que o isolava da tempestade. Certamente estava concentrado demais para perceber a presença de Lell, ou não. Virou-se mais rápido que este julgaria ser possível, e golpeou o senhor da magia com a força de mil raios. Lell sentiu dor, mas nem sequer chegou a morrer. Disparou socos e pontapés da direção de Ib, se multiplicou em mil peixes e o golpeou de dentro das águas. Agarrou um raio com as próprias mãos e se preparava para atingir o feiticeiro cego, mas este o impediu, segurando firmemente seu punho.
Ib estava ferido, e visivelmente cansado. A tempestade se esvaiu à volta deles, e o sol voltou tão rápido quanto se fora. O raio se dissipou e Ib baixou a cabeça. Por um instante Lell chegou a pensar que havia vencido, mas logo foi puxado para as profundezas do oceano. Era frio e escuro lá embaixo. A pressão das águas causava uma dor aterradora em Lell, e o fato de ele não conseguir enxergar o outro homem só piorava as coisas. Mesmo por cima da dor, Lell pôde sentir um breve movimento nas águas. Poderia ser Ib ou qualquer outra coisa, mas era melhor arriscar. Apalpou o cinturão e percebeu que ainda tinha a faca de aço valiriano com a qual costumava andar.
Lell pegou a arma e deu golpes incessantes em todas as direções, até que sentiu o sabor se sangue na água. O corpo de Ib caiu sobre seus braços, mas logo se desfez diante da enorme pressão que existia lá em baixo. Lell gostaria de ter falado com o feiticeiro, perguntado por quê, mas era melhor que estivesse morto. Em um salto, o senhor da magia retornou à superfície e nadou em direção ao um galeão, como um sobrevivente faria. Foi recebido por quatro de seus homens, mais Kellokk e Mormont.
- Pelos deuses, Lell. Como é bom ver que está vivo! – exclamou Kell, abraçando o irmão.
- Estávamos muito preocupados com você – continuou Mormont – como conseguiu¿
- Certamente desmaiei após bater a cabeça. Acordei há pouco tempo, e estava boiando sobre uma porta de madeira. Assim que vi este barco, nadei em sua direção. – A mentira pareceu convincente até pare seu autor – Quantas perdas temos¿
- Dois navios de suprimento, com setecentos homens cada, e mais o seu galeão, com cinco mil ulthi, incluindo mulheres e crianças. – respondeu Mormont — O povo pretende fazer seus funerais assim que chegarmos à terra firme, mas nenhum de nós sabe ao certo quando e se chegaremos. Para falar a verdade, nem sequer sabemos onde estamos. Você sabe¿
Lell olhou em volta. As águas verdes beijavam o céu azul por todos os lados. Nem sequer os destroços dos outros barcos eram visíveis, muito menos havia embarcações além dos galeões por perto. Nenhuma ave ou insetos indicava a proximidade de terras, mas Lell sabia que vinham de cima, e para lá haviam terras. Quando seu olhar se chocou novamente com os líderes, já sabia o que fazer.
- Devemos rumar para norte, da mesma direção que viemos. O sol está bem visível, e continuará assim por muito tempo, eu sei que sim. Há escassez de alimentos¿
- Não por enquanto – respondeu Kell.
- Então não há muito com que nos preocuparmos por enquanto. – concluiu Lell – Por hora, consertemos o que está quebrado e sigamos viajem.
As duas semanas que se seguiram a esse dia foram de navegação tranquila e rápida. Choveu somente uma, a chuva foi calma e mais ajudou que atrapalhou. Fora descoberto, um dia depois de rumarem para norte, que um galeão estava irremediavelmente danificado pela tempestade, e precisaram remanejar a quantidade de pessoas por barco. Não era nada absurdo, apenas um pouco desconfortável e mais lento, mas agora cada galeão estava mais cheio que antes. O Outro fora abandonado no mar sem nada que não fosse a carcaça de madeira.
O dia estava tão claro que era difícil acreditar que alguém seria capaz de aparecer sem ser notado, mas eles apareceram. O primeiro ulthi que avistou o barco foi Angor, que coversava com alguns remadores na proa de seu galeão. Os barcos que vinham eram verdes da cor da água, não possuíam mastro nem vela, e os remos deslizavam suave e silenciosamente nas águas. Eles lançaram arpões, que se fincaram no enorme galeão de Mormont. Em alguns minutos já estavam com Angor preso e acorrentado em seus próprios navios, e um mensageiro daqueles corsários apresentava os termos do resgate aos demais líderes. Estavam todos de pé ao sol escaldante da proa do galeão de Kellokk. Dois guardas protegiam o mensageiro, apesar de os ulthi não apresentarem nenhuma resistência violenta.
- Saudações, senhores. – o mensageiro falava uma língua muito próxima do ulthi, mas numa velocidade diferente. Era perfeitamente possível entender o que ele dizia. – Percebo que o galeão abandonado a alguns dias daqui é vosso. O Comandante Geew exige que vocês entreguem todos galeões a ele, com trabalhadores e suprimentos dentro. Caso contrário, o garoto nobre será morto, e seus barcos serão atacados. – O homem era baixo e horrendamente feito. Mais peludo que qualquer ulthi, até mesmo que Mormont, tinha o nariz quebrado e só um ou dois dentes na boca. Vestia roupas de pano grosseiro e uma armadura de couro queimado. Na cabeça, trazia um capacete enorme ornamentado com chifres de touro.
- Gostaríamos de falar com seu comandante pessoalmente, para tentar convencê-lo a desistir desta loucura – Lell respondeu.
- Ora, este que vos fala é o próprio. – O mensageiro exibiu um anel de ouro com uma enorme pedra vermelha – Geew Armundssemm, comandante desta horda de Ibben. Que argumentos pretende me apresentar para me fazer desistir de navios e escravos para vender¿
Maldito Ib, até em morte me traz tormentos, pensou Lell, e depois disse:
- Estamos em maior número, corsário, e estes navios nos foram vendidos pelo próprio Grande Mestre de Ghis.
- Maior número¿ — riu o corsário – Tudo o que vejo são alguns milhares de selvagens famintos e sem armas. Além de que posso vendê-los em qualquer lugar, de Asshai às Ilhas do Verão, e, quem sabe, talvez jogue vocês nobres nas águas nebulosas do poente. – deu mais uma gargalhada.
- Se não devolver meu filho, arranco seu coração e o como cru, maldito! – berrou Mormont.
- Se levantar um dedo contra mim – respondeu o ibbenês, se escondendo atrás dos guardas – eu como o coração de seu filho.
Foi necessária a força de cinco homens para que Mormont não matasse Geew naquele momento. Depois que o urso foi contido, o corsário de Ibben terminou:
- Espero uma resposta até o cair da noite. Nós não temos muito tempo, afinal, certamente deve haver mais viajantes pedindo para ser roubados. Um barco pequeno chegará a este galeão uma hora depois do crepúsculo. Dependendo da sua resposta, ele poderá trazer a minha pessoa com um saco de moedas de ouro, que darei em agradecimento pelos galeões, ou a cabeça do rapaz falador que está no meu barco.
As horas que se seguiram foram de apreensão e debates. O povo nos galeões olhava para os corsários de longe, alguns tentaram atacar, mas foram impedidos por Lell. Outros estavam com medo de ser sequestrados permaneceram em suas cabines ou postos de remo. Nenhum dos barcos estava ancorado, mas a ausência de ventos os fez permanecer quase que completamente estáticos. A primeira galeota de Ibben era apenas um exemplo do que viria. Doze galeras de tamanho significativo agora rodeavam os seis galeões reminiscentes dos ulthi, como abutres que rodeiam hienas mortas. Lell calculou que deveria haver mais de cinco mil homens dentre os corsários, todos ariscos e fortemente armados. Era facilmente visível o fato de que eles eram plenamente capazes de atacar os galeões, prender os ulthi mais ameaçadores e arrastar os barcos consigo até o entreposto comercial mais próximo.
Angor não era o único refém da situação. Cerca de dois mil ulthi não haviam conseguido fugir do galeão quando este fora preso por mil arpões de aço barato. Lell não garantira que a ilha de Ib fosse rica em metais, apenas que tivesse espaço e muito gelo. O povo se agitava em seus lugares ao longo do dia, e os debates entre os líderes continuavam. Mormont estava alvoroçado demais para conversar, por isso, para representar o bando em seu lugar, fora mandado Yell.
Yell era um bravo guerreiro, habilidoso com uma espada e mais ainda com as palavras. Ele era bravo e feroz, e um dos mais peludos de todo o povo ulthi. Era um dos poucos reminiscentes do bando de Hummer, e, em certos momentos, fazia Lell se lembrar deste. Vez ou outra aparecia nas reuniões do conselho, e era o terceiro de maior importância em seu bando, depois de Mormont e Angor.
- O que vocês não entendem – disse Yell – é que quem está preso é povo de Mormont. É evidente que não podemos nos render àquela proposta. Ora, pelo que entendi, nenhum de nós, nobres será vendido como escravo, mas o povo será. Teria toda essa jornada sido em vão¿ Não. Não seremos escravos, e ninguém do nosso povo perderá a cabeça. Precisamos lutar!
- Nosso número de guerreiros é inferior, e eles têm tantas armas quanto nós temos gente. – Protestou Kellokk. – Não há como lutar contra eles. Certamente seríamos escravizados de qualquer maneira. Precisamos de uma atitude diferente. Talvez Liknell tenha alguma solução para dar. – Olhou de relance para Lell, como duas pessoas que compartilham um segredo se olham.
Ele sabe, pensou Lell, com uma pitada de desespero. Pode não saber de tudo, mas certamente conhece... talvez tenha visto ou ouvido algo. Por mais que tivesse tentado interferir com magia, não fora possível. Com seguira matar um ou dois homens, mas certamente aqueles não eram ibeneses. São filhos de um feiticeiro cego, minha magia não pega neles. Lell nunca conseguira atingir Ib com magia, nem este conseguira fazê-lo contra Lell. Fora na pura força bruta, com a ajuda das forças da natureza, que um fora capaz de tirar a vida do outro.
- Infelizmente, não consigo pensar em nenhuma solução possível – era triste para Lell saber que estava falando a verdade. – continuemos pensando, talvez o tempo nos diga algo.
Os pensamentos tomaram o lugar do debate pouco após começarem. Conforme a tarde passava, o desespero tomou o lugar da inquietação do povo, e até mesmo Lell se sentia sem saída, mas, em dado momento, aparece na cabine do conselho o enorme Mormont, abraçado com o filho Angor ao seu lado, completamente encharcado e com uma expressão de enfado.
- Ora, vejo que conseguimos uma solução! – exclamou Lell com entusiasmo. – diga-nos, Angor, como saiu da galeota ibenesa¿
- Com alguma dificuldade. – respondeu o rapaz, sentando-se no chão da cabine. – Precisei da distração de um guarda e do sono de outro.
- Conte-nos, talvez seja possível salvar os demais ulthi dessa maneira. – Disse Mormont.
- Bem, eu estava sentado dentro de uma cela tão pequena quanto uma jaula de rato. Dois guardas com capacetes de chifres guardavam a porta, Mas um dormiu sentado logo após o almoço. OS homens costumam subestimar as crianças, e eu tirei proveito disso. Puxei da cintura do sonolento um enorme punhal, e usei-o para cortar a garganta do guarda distraído. Logo que ele morreu, finquei os chifres do capacete nos olhos do dorminhoco, e logo em seguida o matei. As chaves da gaiola estavam no cinto, e eu pude sair dali sem maiores problemas.
- E não havia guardas no caminho até a água¿ — Perguntou apressadamente Mormont.
- Sim, havia, e eu precisei distraí-los. Eu observei aquelas galeotas. São feitas de madeira extremamente ressecada, e milhares de pedras de fogo ocupam os galpões de armas delas. A menor chama dentro de uma embarcação dessas pode causar uma enorme perda, e foi assim que eu resolvi chamar sua atenção. Esfreguei um graveto na parede e logo se formou uma chama. O pequeno incêndio logo foi percebido pelos guardas, que correram para apagar o fogo. A partir daí, o caminho ficou livre para a minha fuga. Nadei o máximo possível escondido embaixo d’água, mas é certo que aquele Geew está agora irado com todos nós. Agora precisamos partir, o mais rápido possível.
- É muito bom tê-lo de volta, filho, mas ainda não podemos ir. Ainda há dois mil homens de meu bando presos, cercados pelos navios destes corsários.
- O que, pelo que vejo, — continuou Angor – Pode ser uma vantagem para a nossa fuga.
- O que quer dizer¿ — Perguntou Lell, interessado.
- Fogo. Somente o fogo pode nos adiantar. – o menino falava olhando fixamente para o chão como que para uma fogueira. Lell respondeu:
- Então sugere que ponhamos fogo no galeão para matar os corsários.
- Sim, precisamos disso. Enquanto as pedras de fogo estiverem incendiando a frota de Ibben, nós poderemos fugir. Ora, o que é a vida de dois mil diante de outros trinta mil¿
As concordâncias vieram mais rápido que Lell esperava, e, afinal, ele concordou também. Yell concordou, mas disse que não suportaria a ideia de matar seu próprio povo, então decidiu que ele levaria a chama para o galeão, e morreria lá com os demais ulthi. Ao cair da noite, veio um pequeno barco na direção do enorme em que os homens se preparavam para a execução do plano. Dentro dele, vinham Geew e dois guardas, que provavelmente pretendiam conversar mais, mas Lell estava farto de conversas. Com uma única lança, atravessou os três homens e lançou os corpos no mar. Quem voltou com o barco foi Yell, levando consigo uma lamparina acesa, dentro da qual havia óleo de queimar e uma vívida chama acesa. Os remadores deram tudo de si para escapar do fogo, mas mesmo assim este ainda lambeu os cascos traseiros de dois dos galeões.
Em cerca de uma hora de viajem, o tormento se acabou. Os gritos dos ulthi queimados eram aterrorizantes, e soavam mais demoníacos que humanos. Agora o céu estava negro e repleto de estrelas, os gritos já não mais podiam ser ouvidos, e o fogo agora não passava de uma fagulha distante. Só restava sobre eles a sombra do pesar.
Passaram-se mais dois dias de viagem, e o céu permanecia vermelho como o fogo. Ninguém nos navios era capaz de entender aquilo. O ar era quente como sempre, e os ventos, escassos. Nenhum sinal de terra podia ser visto, mas esse céu vermelho certamente tinha algo a avisar. Liknell refletia sobre a estranheza do ambiente, quando viu uma fagulha cintilar no céu. Quase não era visível aquele vermelho em vermelho, mas o fogo continuou jorrando, e era acompanhado por um silvo muito agudo. Quando Lell viu que as escamas desciam e subiam, já sabia onde estava.
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