O Homem Invisível
3 Ilhas São Topos De Montanhas
Três horas da manhã, meu corpo estava exausto, mas minha mente estava mais ativa do que nunca.
Não ouvia mais o som alto que me ensurdecia, apenas a doce voz de Angelina:
– David, vem! Dança comigo!
Sentia sua mão me puxando, como me levasse pra um lugar longe daqui. Era como se eu voasse através dela, invencível, conhecendo uma rota que eu nunca havia experimentado antes.
Estava caminhando na mesma estrada que ela agora. Era a estrada que ela conhecia e amava e que eu sempre evitara – mas me sentia seguro na presença dela.
Seguro.
Seguro pra me desfazer de todos os meus valores e viver os dela. Dormíamos no fim da madrugada e acordávamos no meio da tarde.
Enquanto ela me trazia coisas novas, eu buscava tirar proveito de toda aquela situação pra ser alguém que nunca tinha sido antes.
Tinha me afastado dos amigos, que ligavam perguntando onde eu havia me metido e eu dizia que a música estava ocupando muito o meu tempo.
Não importava.
Estava completamente apaixonado por Angelina e ela por mim. Passávamos todo o nosso tempo juntos, loucamente. Intensamente.
Vivia o mundo de Angelina e ela pouco vivia o meu.
– Somos tão diferentes, David — dizia ela antes de cheiar uma carreira de cocaína, que ela fazia de tudo pra aceitar. O grande mal – ou não – do amor é agir com o coração, nunca com a razão.
– Minha razão pede que eu te tire à minha estrada, Angelina.
– Somos diferentes, David. Minha estrada talvez um dia se encontre com a sua — retrucava ela. — Sou uma mulher que vive a noite. Passo dias em claro. Jogo-me de costas na rede, e você é a minha rede. Te amo por isso.
– Eu também te amo, anjo — respondi.
Caminhava só pela cidade, com a mente rodeada em pensamentos. O jornal musical estampava na capa a minha fotograifa. Entrei na banca, peguei um exemplar, paguei o jornaleiro. Li a matéria e sorri, logo eu que sempre me dediquei à minha música, fiquei por fora de tudo o que estava acontecendo!
Comecei a folhear revistas e jornais que estavam espalhados pela banca. Estava totalmente desatualizado da realidade. Livros, filmes, pessoas.
Estava vivendo Angelina. Mas Angelina não estava mais vivendo a mim.
Ela se foi tão de repente quanto veio. Perdi meu chão. A cidade me mostrava, na capa do jornal, a minha fotografia que eu não lembro quando tirei. Os livros que não li. Os filmes que não vi.
"Mas nós nos amamos”, eu pensava como se vivesse em um sonho ruim.
Mas o sonho tinha terminado. Olhava perdidamente para as pessoas, frias, que não me notavam.
Coloquei-me a andar pela rua, em direção à minha casa. Os carros pareciam não me notar ali, andando no meio deles, que iam e vinham, seus faróis apontando pra mim, completamente abandonado.
Sem Angelina.
Fale com o autor