O Homem Invisível
4 Solidão Do Homem Em Seu Barco
O interfone tocava ininterruptamente desde às dez da manhã. Não queria me levantar do chão frio em que estava deitado desde a noite anterior.
O som da televisão me fazia companhia: um programa chato de uma mulher com um sotaque interiorano que ensinava uma receita de risólis de camarão para as amigas de casa.
Bobagem!
Hoje em dia não existem mulheres em casa nesse horário. Procurei o controle remoto, que estava em cima do sofá. Levantei-me do chão, me vi no espelho que ficava na sala de jantar.
Estava barbudo, com o cabelo oleoso. Estava com fome. Desisti da televisão e me dirigi à cozinha.
Um pedaço de pizza era a única coisa que tinha na mesa. Abri a geladeira, uma caixa de leite vazia fazia companhia para a garrafa d’água. O interfone tocou novamente. Atendi prontamente:
– Alô? Estou bem, provavelmente tem um problema no meu telefone. Aproveita que você me acordou e mande já um técnico para consertá-lo.
Não apareceu ninguém. Não aparecia ninguém há pelo menos dez dias. Ainda sentia fome.
Fui pro meu quarto e coloquei uma calça jeans surrada e uma camiseta, fiz a barba. Saí do meu apartamento sem trancar a porta,
– Volto logo, não se preocupe.
Cruzei, no elevador com uma mãe e seus dois filhos que aparentavam oito e cinco anos.
– Você viu a receita de risólis de camarão? — indaguei-a, que olhou assustada pra mim. Talvez fosse o meu rosto pálido.
Parei na recepção do prédio, cobrei o porteiro do técnico que ele deveria ter mandado ao meu apartamento.
Caminhei pela calçada até a lanchonete mais próxima.
– Quero o lanche mais rápido que você faz, pra viagem, e uma Coca-Cola.
Comecei a sentir frio, a temperatura tinha caído naqueles dias e eu não tinha percebido, enfiei meus braços pra dentro da camiseta como um mendigo. Voltei ao meu apartamento e ninguém havia me procurado.
– Este telefone só pode estar com algum problema, não é possível que ninguém esteja atrás de mim. Não é possível que ela não tenha me procurado.
Ligava pra portaria irritado, e o porteiro me garantia que não havia nenhum problema com a minha linha telefônica. Decidi que eu mesmo consertaria aquele maldito telefone.
Não queria precisar de mais ninguém. Consertaria o telefone logo. Devorei o lanche que já estava frio. Guardei o resto da Coca-Cola ao lado da caixa de leite vazia na geladeira.
Os dias passavam e nada novo acontecia. Peguei o telefone. Estava funcionando.
– Finalmente consertaram, esses incompetentes.
Decidi que ligaria pra ela para explicar que o meu telefone estava quebrado, “por isso não consegui atender. Você me ligou, não?”
Desisti da idéia. Pus-me a tomar um banho e trocar a minha roupa.
Voltei pra frente da televisão, mudava de canal sem parar.
Fui deixando o sono tomar conta do meu corpo, fechava os olhos e imaginava ela nua sobre meu corpo, sentindo seu cheiro, enquanto eu a acariciava. Acordava, ela sumia.
Sentia ódio quando ela simplesmente ia, voltando à estrada dela. Queria que ela se afastasse dessas coisas superficiais, que um dia iriam deixá-la para trás. “O tempo passa pra todos e você ficará sozinha”, pensava eu.
Fechei novamente meus olhos. Ela não estava lá. Não sabia mais onde eu poderia encontrá-la. Estava sozinho.
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