O Herói do Olimpo

45 Cuidado com buracos na areia!


Notas iniciais
Oi.

Por instinto, joguei jatos d’água na cara de Crios. Ele se atordoou por alguns segundos, e fiz água circular toda a extensão de Contracorrente.

A minha ideia era simples: eu atacaria as algemas com Contracorrente. É, da primeira vez não havia dado certo, mas dessa vez eu colocaria água ao entorno da lâmina, e talvez, só talvez, isso fosse funcionar. Senão funcionasse, não via motivo pelo qual Crios não fosse perfurar a minha cabeça com sua espada.

E então, enquanto Crios cambaleava para trás atordoado pelos jatos d’água em seus olhos, eu consegui enrolar Contracorrente em água e quebrar as correntes.

Mas agora havia outro problema: eu não estava em condição de lutar. Eu ainda podia sentir a adaga no meu abdômen. Logo a tontura me atingiu, e Crios já estava se recuperando.

Aos poucos a consciência ia me abandonado. Eu não tinha muito tempo e também não tinha muita força. Crios provavelmente iria notar o meu estado e não iria me matar de cara. Iria aproveitar para me dar longas sessões de tortura em uma masmorra que o único som seria gotas d’águas respingando no chão.

Não, eu não iria ser torturado. Se fosse para morrer, eu iria morre aqui, agora. Lutando.

Joguei toda a água que ainda restava do copo em cima do meu ferimento. Isso fez com que a tontura parasse, mas eu sabia que não teria muito tempo até ela voltar, então segurei Contracorrente com todas as minhas forças e olhei para Crios.

Meus olhos lutavam para se manterem abertos. Eu estava quase desmaiando, e Crios não demorou para perceber isso.

— O que é, Jackson? — ele riu como se fosse fazer uma piada. — Não teve o seu sono de beleza? Ah, não se preocupe, o lugar para onde vou te mandar vai te deixar ter quantos sonos você quiser.

Balancei a cabeça em busca de ficar mais acordado e acabei recebendo uma forte dor de cabeça. Eu não estava em condições de nem se quer levantar a minha espada.

E então um pensamento me ocorreu. Talvez isso me matasse com o esforço que seria necessário, talvez só me deixasse desacordado por um longo tempo. Eu realmente não sei qual seria as consequências, só sabia que era o único jeito de sair vivo dessa.

Passei Contracorrente para a minha mão esquerda e apontei a minha direita para Crios. Ele riu do meu gesto.

— Ah, o que é isso? Está me dizendo que agora você virou um homem de ferro que consegue soltar jatos de água pela mão? — ele indagou no meio de uma risada.

Soltei um sorriso frio para ele. Eu havia tido essa ideia há tempos. O que eu iria fazer? Eu iria simplesmente juntar água com raios e fazer uma espécie de jatos em direção a Crios. Mortal para humanos, e atordoante para titãs.

Pensei em raios juntamente de água. Uma esfera de água ia se formando sobre minha mão, e junto dela havia eletricidade.

O olhar de Crios vacilou. Ele parecia estar entendendo o que eu faria. Lentamente ele foi avançando em minha direção, e logo ele começou a correr empunhando sua espada.

Fechei os olhos e joguei a esfera d’água em cima dele. Mas isso também me atingiu, me fazendo cair direto na inconsciência.

~.~

Acordei subitamente no acampamento Meio-Sangue. Eu estava no chalé de Poseidon, com Annabeth ao meu lado. A vi abrir um olho lentamente e sorrir de lado para mim.

— Quantas horas são? — ela indagou, acenando com a cabeça para um relógio ao lado da cama.

Não me lembrava que o chalé 3 fosse assim. Para mim, ele era lotado de beliches com a exceção da fonte que ficava no meio dele. Mas esse aqui...

Uma cama de casal ficava encostada na parede à esquerda da porta. Havia um quadro bem grande na outra extremidade do quarto – um quadro que me mostrava sorrindo ao lado de Annabeth, que também tinha um sorriso radiante no rosto.

Ao lado da cama ficava um criado mudo, que em cima tinha um despertador e um porta retrato com uma foto de todos os campistas do acampamento. Na parede oposta à da porta, entre as janelas, havia estantes cheias de livros. Ao lado da porta havia duas estátuas, uma de cada lado. Uma era de um deus e a outra era de uma deusa.

E no meio do chalé se encontrava a minha amada fonte, a fonte que eu sempre usei para mandar minhas mensagens de Íris. Fiquei grato ao vê-la ali, pelo menos alguma coisa ainda estava nesse chalé.

E em cada lado do quadro tinha um armário, e ao lado de cada armário havia uma porta.

— O que foi, Percy? — Annabeth perguntou arqueando as sobrancelhas.

— Não... não é nada.

Afinal de contas, o que era isso? Eu me lembro muito bem de ter me explodido junto a Crios. Eu não poderia sobreviver depois de ter usado tanto esforço em algo tão mortal como uma esfera d’água com eletricidade dentro.

— Vamos, Percy, pode falar, o que há de errado? — Annabeth voltou a perguntar. Ela apoiou o cotovelo na cama e enfim pude ver que estava seminua.

Ambos estávamos seminus, devo dizer.

— Não tem nada, sério — afirmei, dando um beijo em sua testa. — Vamos, daqui a pouco a concha vai soar.

E como se eu fosse um oráculo de delfos, a concha soou, anunciando o café da manhã. Minha barriga roncou e Annabeth riu.

Ela se levantou e pude ver o seu corpo esbelto caminhar em direção à fonte. Ela se agachou e puxou algo de lá, a sua roupa pelo visto. O que ela estava fazendo ali? Eu não tinha ideia. Mas parece que não tinha caído exatamente na fonte, já que quando ela a puxou para cima, pude ver que a blusa estava completamente seca. E não, não havia um short ou calça ali.

Annabeth foi até o armário à esquerda do quadro. Tirou uma blusa do acampamento de lá e uma calça jeans, depois entrou na porta ao lado.

Toquei meu abdômen em procura de ferimentos, mas não achei nada. Aliás, achei marcas de batom, mas eu não tinha tempo de parar para pensar no o que aquilo significava. Me levantei e fui ao lado direito do quadro e abri o armário que ali havia. Me surpreendi quando vi diversas camisas e calças do meu número ali. No meu armário do antigo chalé 3 havia somente poucas camisas do acampamento e algumas calças.

Peguei uma calça nike e a camisa do acampamento e fui até a porta ao meu lado. Me surpreendi ao ver que ali era o banheiro, já que no antigo chalé 3 havia somente um banheiro para meninos e meninas, e esse banheiro era só para meninos.

Coloquei a camisa do acampamento e depois vesti a calça. Escovei os dentes e dei uma boa olhada em mim mesmo no espelho.

Aquele rosto... Eu me via assim quando tinha 16 anos. A última vez que me vi assim foi depois de derrotarmos Cronos...

Saí correndo do banheiro e fui até o criado mudo onde havia um despertador. Nele dizia claramente 30 de agosto de 2009. Fazia doze dias que eu completara 16 anos.

Bufei desesperado. O que diabos eu fazia no passado? Não, isso não era o passado. Nessa data eu estava me encontrando com Lupa, a deusa loba. Eu havia fugido do acampamento, e não estado com Annabeth em um chalé 3 totalmente personalizado para um casal.

— Hey, Percy, vamos? — Annabeth me chamou já na porta de saída.

Saí de meus devaneios e dei um fim à minha confusão mental. Eu não poderia aproveitar da companhia de Annabeth se voltasse ao mundo real. Se isso não fosse o mundo real.

Fui até a porta e sorri para Annabeth, que retribuiu. Estiquei o meu braço sobre os ombros dela e começamos a andar até o refeitório.

Cumprimentávamos todos que passavam por nós. Parecia que nós éramos o casal do acampamento, porque todas as vezes que passávamos pelas filhas de Afrodite elas soltavam gritinhos e nos davam parabéns. Quando passávamos pelos filhos de Ares e Hermes, ao invés de receber gritinhos e vivas, recebíamos agradecimento pelo o que fizemos contra Cronos.

Chegamos ao refeitório e eu já ia retirando o braço dos ombros de Annabeth, mas ela não me deixou fazer isso. Ela me acompanhou até a mesa do chalé 3 e se sentou ao meu lado, olhando para mim e fazendo comentários.

O café da manhã se passou como todas as vezes que estive nele. Teve as oferendas, as filas dos chalés... Me senti um tanto bem de ver aquilo tudo de novo.

Saímos do refeitório e fomos até a Arena. A aula de arco e flecha já começara, e isso me fez sorrir. Eu treinei com Atena durante um ano. Isso me faz lembrar de que ela não me queria perto de Annabeth e cá estou eu.

Ri da lembrança e Annabeth me olhou com o canto do olho. Ainda estávamos no caminho do centro da Arena quando ela me parou e fixou os seus olhos nos meu, fazendo um contato visual que faria até os cães de Hades recuarem.

— Por que é que você está rindo? Você não era o pior aluno da aula de arco e flecha? Não odiava tanto essa aula? — ela indagou com a testa franzida, aumentando o meu sorriso.

Pisquei para ela e a coloquei gentilmente ao meu lado de novo. Chegamos no meio da Arena e o professor de arco e flecha – um filho de Apolo que não tirava os olhos de Annabeth – se virou para mim.

— Percy! Que bom vê-lo aqui — os seus olhos diziam claramente que ele não gostava de me ver por ali. — Eu estava mesmo precisando de um bom aluno!

Estava estampada no rosto de Annabeth de que ela iria contestar, dizendo que eu não sabia direito usar o arco e flecha, mas coloque um dedo na frente da boca dela, em sinal para que ela não dissesse nada. Ela arqueou a sobrancelha e foi sentar nas arquibancadas, junto aos outros alunos.

O garoto sorriu amarelo para mim e sussurrou quando Annabeth já estava longe.

— Está pronto para passar vergonha na frente da namorada? — ele cuspiu a última palavra e me passou o arco e sinalizou para um alvo que deveria estar a uns cinquenta metros. — Boa sorte!

Peguei a aljava que ele deixara comigo. Pensei em algo que realmente surpreenderia os alunos – algo que eu treinara tanto que poderia fazer de olhos fechados. Peguei três flechas da aljava e as posicionei no arco.

Dei uma olhada para trás e pude ver o olhar de espanto e duvida do garoto que me intimidara a poucos minutos. Depois de sorrir para a cara dele, me virei para Annabeth, que tinha os lábios franzidos e as sobrancelhas arqueadas. Um espanto também era visível em seu rosto.

Havia mais dois alvos além do que fora especificado para eu acertar. Mirei nos três e atirei.

Os gritos de espantos somente se cessaram minutos depois. A boca do professor que me intimidara estava completamente aberta, e seus olhos arregalados. Annabeth mantinha a mesma expressão que o professor – totalmente perplexa.

Fui até as arquibancadas e entreguei o arco para o professor.

— Obrigado pela oportunidade de impressionar a minha namorada, cara!

Depois de dizer essas palavras, me sentei ao lado de Annabeth, ainda rindo da expressão do “professor”.

Ele ainda por cima tentou fazer o mesmo que eu, mas mal conseguiu posicionar duas flechas simultaneamente. Ri a cada tentativa dele.

Annabeth estava tentando há minutos formular uma pergunta para mim. Quando enfim estava em condições de perguntar, a nossa aula terminou, e ela teve de perguntar no caminho da aula de canoagem.

— Co... como foi que... que você fez... aquilo? — ela perguntou gaguejando.

— Sorte? — respondi sorrindo de lado. Se eu dissesse a verdade, ou ela perguntaria um monte de coisas a mais ou então diria que sou maluco.

Chegamos à aula de canoagem e descobri que a aula havia sido cancelada devido ao sumiço de canoas. Estando tão próximo da água eu tive uma ideia.

Quando Annabeth iria dar meia volta e sair de perto da água, a puxei e a coloquei sobre os meus ombros.

— Ei, Percy, o que é que você...? — ela não terminou a pergunta.

Eu me jogara na água com ela ainda nos ombros. Quando atingimos as águas, Annabeth se desvencilhou de mim e me deu um soco, porém não senti nada, e sim ela.

Eu ainda estava com “pelo de ferro” graças à maldição de Aquiles. Um dos truques que eu aprendera a fazer no mundo real, ou seja, no meu tempo, foi curar os outros com águas vindas do mar. Como estávamos no acampamento, a água era sem dúvida do mar, então...

A água curou Annabeth, que exclamou surpresa.

— Como fez isso? — ela perguntou jogando os braços sobre o meu pescoço.

— Ah, eu aprendi uns truques... — e antes que ela pudesse voltar a fazer perguntas, a puxei para baixo e fiz uma bolha entre nós.

Seu rosto saltou sobre o meu e nos beijamos. Um beijo tão intenso que não posso dizer quanto tempo se passou até precisarmos de ar. Quando enfim recuperamos o tal do maldito ar, voltamos a nos beijar. Eu sentia o meu corpo colado ao dela...

Foi quando senti a água tremer. Annabeth não pareceu perceber, e ela se irritou quando interrompi o nosso beijo. Mas segundos depois a água voltou a tremer e dessa vez ela sentiu. Voltamos para a superfície e saímos do lago.

— Percy... Eu estou toda molhada... — ela dizia, quando um tremor fez o acampamento inteiro tremer. — Eu vou no chalé trocar de roupa!

Antes que ela pudesse correr em direção à área dos chalés, puxei seu braço e a trouxesse colada ao meu corpo. De início ela não entendeu, mas quando estalei os dedos e ficamos secos ela entendeu. Senti outro tremor e pude ver a boca de Annabeth se abrir para perguntar algo, mas quando ela também sentiu o tremor parou.

Corremos para onde havia uma concentração de campistas, na praia mais exatamente. Eles faziam uma roda ao redor de algo. Antes que eu pudesse me aproximar, galopes fizeram todos nós nos virarmos. Quíron vinha armado com o seu arco e flecha, e pediu licença aos campistas para que pudesse ver com clareza o que acontecia.

Me aproximei também. O que acontecei ali no meio era um tanto quanto estranho. Um buraco se formava, e se aumentava a cada batida na terra. Ninguém estava entendendo nada até que um tremor fez todos caírem no chão.

Do buraco que havia na areia surgiu um gigante. Um gigante que eu conheci no Tártaro. Polibotes vinha trazendo uma rede e um tridente enfestado de um líquido verde.

— Quíron! — gritei para que ele pudesse me ouvir. Um tornado estava se formando no lugar de onde Polibotes havia saído. O gigante ainda estava um pouco tonto, mas não demoraria muito para que estraçalhasse os semideuses. — Tire esses semideuses daqui e mande uma mensagem de Íris para os deuses! Diga que Polibotes invadiu o acampamento!

Os olhos de Quíron se arregalaram. De cara ele reconhecera o nome do gigante.

— Mas e você? — ele gritou de volta.

— Vou enrolá-lo até que você tire todos daqui!

Ele não contestou, agora eu só precisaria garantir a segurança de Annabeth.

— Annie, ajude Quíron a tirar todos daqui. Ele não vai conseguir sozinho. — disse um pouco mais baixo, agora sem a necessidade de gritar, já que ela estava ao meu lado.

— Mas, Percy, podemos lutar! Somos muitos semideuses contra um monstro! — ela retrucou retirando a adaga da cintura.

— Annie, não é só um monstro! — a cada palavra que eu dizia, mais perto Polibotes estava de ficar totalmente lúcido. — Tire-os daqui, AGORA!

Ela se assustou com o meu tom de voz mas fez o que eu pedi. Aos poucos os semideuses foram saindo, mas ainda faltavam muitos quando Polibotes enfim alcançou a lucidez.

Tirei Contracorrente do bolso e corri até o gigante. Contracorrente ainda estava diferente graças à minha ida ao Tártaro, quando a foice de Cronos se fundiu à minha lâmina. Mas eu não iria reclamar, ela era mais mortífera desse jeito.

Fiz um corte na perna do gigante que ainda mal notara a minha presença. Provavelmente só vira um anão correndo com algo nas mãos na direção de sua perna.

Mas ele não deixou o corte ser em vão. Aproveitou o fato deu estar perto de sua perna e me deu um chute bem no rosto que me fez voar em direção ao mar.

Quando aterrissei nas águas comecei a fazer um redemoinho d’água, em que eu estava em cima. Quando atingi a altura de cerca de três Polibotes, desfiz o redemoinho e apoie as duas mãos no cabo da espada. Eu ia caindo em direção ao rosto de Polibotes, que não esboçava reação. Parecia um tanto admirado com o redemoinho e um tanto com medo de minha lâmina.

Quando minha lâmina se chocou com Polibotes, um brilho intenso passou por todo o acampamento. Eu mal notei que uma onda maior do que todas as outras normais da do acampamento vinha em nossa direção.

Caí no chão de areia e olhei para os lados. Pó dourado, os restos de Polibotes, estavam espalhados por toda a praia.

Obrigado, Pai. Agradeci mentalmente pela onda que fizera Polibotes morrer, já que um gigante só pode ser morto por um deus e um semideus trabalhando juntos.

Coloquei a tampa da caneta em Contracorrente, fazendo-a voltar a ser caneta. Mal vi quando os campistas vieram correndo em direção a mim, dando vivas e me levantando em seus ombros.

Annabeth me puxou de cima dos ombros de todos e me deu um beijo longo, digno de vivas de todos os campistas.

Quíron se aproximou de mim e me deu tapinhas nas costas, me parabenizando pela luta com o gigante. Em seu olhar estava claro que depois teríamos de conversar.

Travis e Connor levaram todos os campistas ao chalé de Dionísio e lá fizeram uma festa, com a autorização de Pollux. A festa durou até altas horas da noite. Quando enfim ela terminou, Annabeth me acompanhou até o chalé de Poseidon.

Ela me parou na porta do meu chalé e sussurrou rouca no meu ouvido:

— Espera alguns minutos para entrar... Tenho uma surpresa para você.

E aquela noite foi, sem dúvida, a melhor da minha vida.