O Herói do Olimpo
46 O garoto voltou
Notas iniciais
Estávamos almoçando no refeitório quando um campista do chalé de Hermes veio me dizer que Quíron estava me chamando. Suspirei pesado, eu já estava esperando por esse momento, mas isso não quer dizer que eu queria tê-lo.
Me levantei e dei um beijo na testa de Annabeth antes de me encaminhar para a Casa Grande. A cada passo que eu dava mais eu sentia a brisa refrescante que somente o acampamento tinha. Fechei os olhos e aspirei o ar lentamente, sentindo o ar calmo bater em meu rosto e levantar meu cabelo.
Mal notei quando eu cheguei na Casa Grande. A varanda estava da mesma maneira de quando eu cheguei; as duas cadeiras e uma mesa para jogarem os jogos. Quíron já estava na varanda para me receber, e assim que me viu, sinalizou para que eu o seguisse até dentro da casa.
Quando já estávamos bem acomodados, ele me ofereceu chá. Recusei e enfim, ele começou a falar.
— O que tem a me dizer, Percy? — ele perguntou arqueando a sobrancelha e se inclinando para a frente. — Há boatos de que você deu três tiros incríveis com o arco e flecha... E a luta contra aquele gigante, como foi que você fez aquilo? — ele se inclinou novamente para trás, dessa vez coçando o queixo. — Eu não me lembro de sua mão ter uma tatuagem.
Levantei a minha mão. Eu estava usando luvas que achei no meu armário ontem, para esconder essa mancha que fazia voltas por todo o meu braço direito. Eu não havia reparado quando ela se expandiu por todo o meu braço, mas eu sabia que ela estava em uma posição de cobra; rodeava o meu braço como se fosse apertá-lo a qualquer momento. Eu também só usei camisas de manga comprida, e dei sorte na manhã que acordei nessa “dimensão” eu ter usado a camisa de manga comprida. Só não sei como não havia reparado naquela manhã que a mancha se estendia até o meu braço.
Olhei bem nos olhos de Quíron. O centauro não iria me liberar para sair daqui até obter respostas. Então decidi contar a verdade até certa parte.
— Isso aqui é só um poderzinho que ganhei. Parece que tenho certa parte de poder igual ao dos três grandes — levantei o meu braço e fiz um pequeno raio aparecer na palma de minha mão. Depois fiz uma esfera d’água, e em seguida deixei a minha mão completamente coberta por sombras. — Não me pergunte como ganhei esses poderes, não vou responder isso agora.
Ele levantou os braços em sinal de rendição. Seu rosto estava estampado de dúvida, mas ele não insistiu, tratou de mudar de assunto logo.
— Tudo bem. Preciso que você vá a uma missão com Annabeth. Parece que temos dois semideuses em um colégio em Los Angeles. Preciso que vocês vão lá e traga-os até o acampamento.
Arquei as sobrancelhas para o pedido dele. Por que ele não mandava sátiros?
— Há algo a mais nessa história que eu preciso saber, Quíron? — indaguei curioso.
Ele se esforçou para dizer:
— Não.
Dei de ombros e me levantei, quando Quíron queria esconder algo, ele realmente escondia, escondia tão fundo que talvez nem com poderes divinos eu seria capaz de saber o que é.
Fui até a porta e já ia abrindo a maçaneta, quando o centauro se dirigiu a mim novamente.
— Vocês partem essa noite.
E aí sim pude abrir a porta e em seguida fechá-la.
Comecei a andar lentamente até a praia, aonde alguns campistas examinavam o local aonde Polibotes havia aparecido. Annabeth estava agachada ali, examinando o grande tridente que caíra das mãos do gigante na hora da luta. Me aproximei tomando cuidado, já que de acordo com alguns dos filhos de Atena, não poderíamos “contaminar” a cena do crime.
Quando Annabeth se abaixou para examinar uma certa parte do tridente, alguns campistas que passavam pela praia assoviaram. Virei o meu olhar para eles. Eram três filhos de Apolo.
Abri a minha mão e imaginei três mãos de sombras indo até os pés dos garotos e os derrubando. Quando abri os olhos eles estavam no chão, gemendo de dor. Agora com os olhos abertos, consegui fazer as três mãos darem um soco no estômago de cada.
Eles se levantaram – ainda tossindo pelo soco, devo dizer – e correram para a área de chalés. Tropeçaram algumas vezes no caminho, e isso me gerou risadas. Quando me virei para olhar novamente para Annabeth, a mesma estava parada bem atrás de mim, irritada.
Ela me fez dar um salto para trás devido ao susto. A segundos ela estava ao lado do tridente de Polibotes e agora estava bem atrás de mim. Irritada, ainda por cima!
— O que foi que aconteceu ali? — ela perguntou, a raiva visível em sua voz. Depois de alguns segundos recebendo o meu silêncio em resposta, ela disse: — Me dê seu braço!
O tom dela era tão zangado que não ousei desafiá-la. Mas, ao invés de passar o meu braço direito para ela – o meu braço que havia a marca, para ser mais exato – passei o meu braço esquerdo à ela. Porém, não era só o meu braço direito que havia uma “tatuagem” ou mancha. No meu braço esquerdo havia a tatuagem do acampamento Júpiter, a tatuagem que ganhávamos quando chegávamos ao acampamento.
— O que é isso? — ela indagou curiosa.
Na tatuagem havia a escrita “S.P.Q.R” e um tridente acima de um traço, que indicava que eu havia completado um ano de serviço, quase um ano, pelo menos.
Puxei o meu braço de volta e estiquei a manga da camisa até a minha mão. Annabeth agora tinha os olhos fixos em mim, curiosa e ao mesmo tempo em dúvida. Ela não sabia o que pensar – cheguei a essa conclusão depois de estarmos a minutos ali e ela mudar a sua expressão de segundo em segundo.
— Hã... Annabeth — comecei, para quebrar o gelo. — Nós temos uma missão hoje. Vamos até Los Angeles pegar dois semideuses.
Isso pareceu tirá-la do choque e esquecer de minha tatuagem.
— Los Angeles? — ela indagou, e eu somente assenti com a cabeça. — Isso pode ser divertido, sabe, eu estava mesmo precisando dar uma saída daqui. — Ela olhou em volta e pareceu se lembrar de algo. — Ei, Cabeça de Alga, temos uma palestra agora, o acampamento inteiro vai.
— Quem é o palestrante?
— Ele é um semideus... muito gato — ela direcionou os olhos ao céu, admirando o nada com um longo sorriso no rosto. Depois de alguns segundos lembrou-se de que morava no planeta Terra. — Tudo bem, vamos!
Ela saiu correndo em direção a Arena, comigo em seu encalço. Eu já havia me esquecido de como era bom correr com Annabeth pelo acampamento, me esqueci de como era sentir os cheiros de morangos, a brisa batendo em seu rosto, o som das ondas se chocando na areia...
Quando vi quem era o palestrante, quase caí para trás. O garoto com quem eu lutei na frente das parcas estava ali, totalmente vivo e fazendo papel de palestrante...
O que aconteceu a seguir foi tão rápido que mal parei para tentar entender. De repente, catorze vultos apareceram e apontaram suas armas para o garoto, mas ele tinha reflexos rápidos, e com um agito de sua mão, todos os vultos ficaram parados, assim como os semideuses, menos a mim.
— A exterminação dos deuses e dos semideuses! Quanto tempo esperei por esse dia! — ele exclamou com um sorriso frio no rosto.
Olhei para os vultos e pude identificar os catorze deuses olimpianos, incluindo Héstia e Hades. Todos eles pasmos e congelados. Não, não estavam necessariamente congelados, ainda podiam ver e ouvir tudo o que acontecia ao redor.
Eu não estava congelado. Os poderes de Cronos não funcionam contra a minha maldição de Aquiles.
Tirei Contracorrente do bolso e olhei fixamente no rosto do garoto. Ele ainda estava olhando para a cara de cada deus, sorrindo friamente.
— Saí de perto dele! — exclamei ao garoto quando ele se aproximou do rosto de Poseidon.
Ele não entendeu de cara o que acontecia, até que virou o seu rosto para mim e olhou para os meus olhos e depois para os de Poseidon.
— Ah, sim, claro, o filho de Poseidon. Aquele que detonou o meu pai. Que bom que você está aqui! — ele estendeu os braços. — Eu precisava mesmo de uma festa! Vou mostrar ao seu pai como é ver o filho dele estraçalhado na sua frente, e ele não poderá fazer nada!
O garoto gargalhou; sua risada ecoou por todo o acampamento, que jazia silencioso, sem os ruídos de conversa dos semideuses.
— Sinto muito, mas acabar com você vai ser mais fácil do que acabar com o seu pai — provoquei enquanto descia as escadas da Arena e ia até o centro, aonde os deuses estavam congelados e aonde o garoto me aguardava. — Cronos não é lá daqueles titãs bons, sabe? Ele não me deu uma luta prazerosa.
O sorriso do garoto se desmanchou na hora. Agora seus olhos faiscavam de raiva.
— Se prazerosa você considera morrer, Jackson, saiba que você terá uma luta assim agora.
Quando atingi o último degrau, olhei fixamente para o garoto.
— Como acha que vai me matar? Cravando em minha aquela adaga? Acha mesmo que vai conseguir?
— Como sabe de tudo isso? — ele indagou curioso, mas também preocupado.
— Não importa, se quer me matar, tente logo, não tenho o dia todo.
Eu não estava preocupado com essa luta, eu estava até um tanto relaxado. Eu já sabia como eram os movimentos dele, sabia que ele usava uma espada de ouro imperial. Já ele não sabia nada de mim; não havia lutado comigo ainda.
E então ele partiu para cima.
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