O Herói do Olimpo
43 As Parcas gostam de justiça!
Notas iniciais
Os olhos do garoto eram tão penetrantes quanto os de Thalia. Sua espada de ouro imperial já estava em suas mãos.
— Sabe, Percy... Essa espada é um tanto curiosa. Eu meio que sinto que ela não é minha, entende? — o garoto comentou com os olhos fixos em sua lâmina.
— Não.
— Tudo bem, mas você pelo menos sabe a quem ela pertenceu? — neguei com a cabeça. — Eu soube que você ocupou o cargo de Jason Grace, na pretoria de Roma. Então, é aí que estamos. Essa espada é a espada dele. Essa é a espada que seu querido amigo Luke estava usando.
Meu sangue começou a ferver. Essa cara era um assassino, sem dúvida. A maneira que ele fala comigo... A frieza em suas palavras. Ele era um psicopata.
Eu conseguia ver em sua expressão que ele ansiava pela luta que teríamos daqui a poucos minutos, talvez segundos.
— Quem é você, afinal? — finalmente perguntei.
O garoto abriu os braços e sorriu. Parecia estar esperando essa pergunta há tempos.
— Eu sou o filho de Cronos, meu caro! — ele exclamou, totalmente feliz com o fato.
Minha boca se abriu, mas nada coerente saiu dela. Somente coisas como “hã...”. Meus olhos agora fixos nos do garoto. Não era possível... Cronos ter um filho? Aonde é que estava os deuses nessa hora?
— Sim, sim, você não deve saber como eu estou aqui. A história é um tanto quanto estranha, mas acho que você deve entendê-la. Afinal, não foi você quem caiu no Tártaro?
“Cronos estava no Tártaro, quando ouviu algo se chocar com o chão. Uma queda brusca, devo dizer. Ele foi até o local olhar o que havia acontecido e se surpreendeu com o que encontrou. Uma garota! Ele mal conseguia acreditar no que via.”
Soltei um barulho estranho com a garganta que o interrompeu.
— Quer dizer algo, Jackson?
— Você não tem nojo da sua existência? — provoquei, agora ansiando pela luta só para não ter que ouvir o resto da história.
— Você é filho de um deus. Me diga você. Enfim, me deixe continuar com a história.
“A garota olhou em volta, atordoada. Parecia não estar se lembrando de nada. Começou a respirar com força e levou as mãos à garganta. Foi quando viu meu pai, andando em sua direção. A garota começou a se sentir melhor no mesmo instante.”
— Cara, eu até não interromperia você, é sério, eu até tenho educação. Mas eu não tenho tempo para ouvir você falando de como o seu pai fez sexo com a sua mãe. Vamos logo com isso!
Ele pareceu irritado com a minha intervenção na história.
— Tudo bem então, Jackson. Você já deve ter uma ideia do que aconteceu depois. Afinal de contas, você sonha com isso toda vez que pensa na filha de Atena, não é mesmo? — ele provocou, e eu mordi a isca.
Levantei Contracorrente e o tentei atacar pelo peito, mas ele se esquivou e me deu uma rasteira. Ele levantou sua espada e iria cravá-la diretamente em meu peito, mas rolei para o lado e fiz um corte em sua perna. Ele cambaleou e olhou para mim, com a raiva estampada em seu rosto.
— E sabe o que mais, Jackson? Ele matou a garota logo após que ela me pariu. Eu cresci no maldito Tártaro com características de seres humanos. Meu pai vivia me falando que eu teria uma tarefa importante caso eu falhasse! — ele se acalmou um pouco e olhou para o corte na perna, que instantaneamente se curou, como mágica. — E sabe qual é a minha tarefa agora? Matar você.
E nisso ele veio correndo até mim, mas eu ainda estava atônito demais para poder me defender. Eu havia feito um corte feio na perna dele e agora ali não havia mais nada, a não ser a calça rasgada.
Como eu iria matar esse cara?
Ele ia atacando e eu ia defendendo. Eu estava me cansando aos poucos, enquanto o garoto mal diminuía a velocidade de seus ataques. A luta já estava perdida a esse ponto.
Ele cortava, pulava e me chutava. Eu não fazia nada mais do que tentar, em vão, me defender. A cada golpe que ele dava um corte se crescia no meu corpo. Eu não iria aguentar mais muito tempo.
Foi quando aconteceu. Não estávamos mais no vagão de trem. Estávamos numa espécie de coliseu, vazio por sinal. O silêncio chegava a ser incômodo.
O garoto recuou e olhou para os lados, intrigado. Assim como eu ele não sabia o que estava acontecendo.
Não percebi quando as minhas feridas sumiram do meu corpo. Só notei quando a minha perna que mal me segurava segundos atrás estava sustentando o meu corpo como nunca antes. Eu nunca estive tão bem.
Palmas invadiram os meus ouvidos, me fazendo sair de meus devaneios. No coliseu havia uma espécie de camarote, aonde três pessoas estavam sentadas, e a do meio batia palmas.
As mulheres estavam com uma espécie de fio sobre o colo. Um fio que se estendia por todo o coliseu, rodeando-o.
— Percy Jackson. É uma honra revê-lo! — a do meio exclamou, voltando a prestar atenção no fio que as duas mulheres teciam ao seu lado.
— Nos conhecemos? — indaguei confuso. Não me lembrava das mulheres.
— Upf, eles nunca nos reconhecem. Somos as parcas, meu caro — os pelos de minha nuca se arrepiaram. — Ah, não se preocupe, não pretendemos matá-lo, bem, pelo menos não ainda.
— O que é que eu estou fazendo aqui? — O filho de Cronos indagou preocupado. Não parecia se sentir tão seguro como minutos atrás estava.
— O filho de Cronos. Você não tem nome, não é? Enfim, isso não importa. — A parca do meio olhou para as irmãs antes de continuar a falar. — Vocês dois estão lutando de maneira... Como posso dizer isso? Incorreta. O filho de Cronos está quase matando o de Poseidon, mas não era para ser assim. Parece que o banho no Estige não está funcionando mais com o Percy, e isso está nos dado problemas. — A mulher suspirou. — Olha, tecer o fio da vida não é fácil. As coisas precisam seguir uma lógica. O certo seria o filho de Poseidon e o filho de Cronos terem uma batalha de igual para igual, mas não é o que está acontecendo. Então, para solucionarmos o caso, trouxemos vocês aqui.
— E o que fazemos agora, exatamente? — perguntei.
— Vocês vão lutar, mas o caçula de Cronos ali não vai ter regeneração. Ou seja, se ele se machucar, o machucado vai ficar. A luta vai ser de igual para igual — a mulher se apressou a responder, quase como se quisesse logo terminar com isso.
Mal percebi quando o garoto de Cronos veio para cima de mim. Meus reflexos conseguiram me fazer desviar segundos antes da espada dele cortar o ar aonde antes estava a minha cabeça. Peguei Contracorrente do chão e tentei fazer um corte no pé do garoto, que pulou e rolou para o lado.
Estávamos em um sistema de ataque e contra-ataque. Ele atacava e depois era a minha vez. Íamos conseguindo desviar de ataques e se defender, mas isso estava cansando ambos. Os ataques do garoto iam perdendo a força e velocidade, assim como os meus. Em questão de segundos o mais forte permaneceria de pé e acabaria com o que estivesse tão cansado que mal conseguiria levantar uma espada do chão.
Foi quando uma adaga se materializou na mão do garoto. Uma adaga de prata. Estávamos a poucos centímetros um do outro quando ele enfiou a lâmina bem no meu abdômen. Caí no chão no mesmo segundo, com sangue nas mãos. O garoto puxou a adaga de dentro de mim, mas não sem antes virá-la ainda dentro de meu corpo. A dor que senti não hora é indescritível. Eu torcia para morrer logo, para parar de sentir aquela dor, mas eu sabia que não morreria até que perdesse muito sangue.
Olhei para as parcas e pude ver um olhar solidário delas. Parecia que não queriam que eu morresse. Como se estivessem torcendo para mim.
Foi quando me lembrei de algo. Algo não fazia sentido naquilo tudo. As parcas haviam dito que teria de ser uma luta justa. Se era justa, teria de ter uma adaga para mim também.
Eu estava fraco demais para tentar usar os poderes da minha mão, então soltei Contracorrente. O garoto tirou a adaga de dentro de mim e se levantou, olhou uma última vez para o sangue que jorrava de mim e se virou para pegar a sua espada no chão. Pensei em adagas. Eu precisava ser rápido. Instantaneamente uma adaga negra se materializou em minhas mãos. Me levantei, tonto pela perda de sangue.
O garoto se virou bem no momento que cravei a adaga em seu coração. Pude ver nos seus olhos a dor. A dor que eu sofrera a poucos momentos. Me senti mal no mesmo instante. Ele ainda era um ser humano.
Um ser humano que tentara te matar. Pensei.
Eu não podia parar para me remoer agora. Caí no chão junto ao garoto, agora com a dor de volta ao meu corpo, enquanto a adrenalina ia se dissipando. Vi o garoto fechar os olhos um pouco antes de morrer.
Quando dei por mim, estava novamente no trem, bem aonde eu estava lutando com o filho de Cronos. Mais sangue jorrava de mim, e mal percebi quando mergulhei na inconsciência.
Fale com o autor