O Herói do Olimpo
44 Algemas não combinam com mesas
Notas iniciais
Luzes vinham de cima da minha cabeça, ofuscando minha visão. Minha cabeça em si estava péssima – destroçada. Doía tanto que eu preferi desmaiar novamente, mas não consegui. A minha sorte é que aos poucos a dor foi diminuindo, permitindo que eu abrisse os olhos por alguns segundos.
Eu estava no quarto de uma casa velha. Meus olhos foram se acostumando com a luz que vinha de cima. A tontura que eu sentira a momentos atrás também ia se dissipando, devagar.
Eu estava deitado em uma cama de casal. À medida que minha tontura passava, eu notava mais e mais sinais de destruição ao meu redor. Pintura saindo das paredes, buracos no chão, porta mal colocada, e por aí vai...
Tentei me levantar, mas eu senti uma dor intensa demais aonde eu levara a facada. Voltei a me deitar, tomando cuidado para não sentir mais dor. Estava cansado disso. Estava cansado de tudo.
Fechei os olhos quando ouvi passos se aproximando da porta. Minha concentração se voltou totalmente às vozes que se aproximavam. Notei quando entraram, então fingi estar dormindo.
— ... não acho isso, não acho mesmo. — A voz de Thalia negava. — Annabeth não faria isso com Percy. Não mesmo.
— Eu sei disso, Thalia. Eu sei que ela não faria por mal. Mas você já viu como Percy gosta da Annabeth? Ele já passou por muito. Não aguentaria ver a garota que ama namorando outro, amando outro — a voz de Nico penetraram meus ouvidos como lâminas.
A dor que eu senti minutos atrás poderia ser considerada boa perto da que eu sentia agora. Annabeth amando outro? Como era possível? Eu... eu não sei mais o que fazer.
Senti uma pequena gota d’água escorrendo de meus olhos, mas tratei de secá-la rapidamente. Thalia e Nico perceberam meu movimento e viraram-se para mim, atônitos. Pareciam crer que eu nem acordaria.
— O quê que foi? Por que essas caras de surpresa? — indaguei.
— Nós... nós achávamos que você demoraria para acordar! Você perdeu sangue o suficiente para morrer, Percy! — Thalia exclamou confusa.
— Isso... Isso não é possível! Você não tem força vital para ficar acordado! — agora quem exclamou foi Nico, meio incomodado.
— Tá, mas isso não é bom? — voltei a perguntar enquanto me sentava na cabeceira da cama. — Sei lá, para mim acordar é algo bom. — Suspirei e pisquei lentamente, me relembrando das palavras de Nico há poucos minutos. — Enfim, quanto tempo estive apagado?
Eles se entreolharam, quase tendo uma conversa silenciosa. Quase não, tendo uma conversa silenciosa, que por sinal Thalia ganhara.
— 4 semanas... — Nico sussurrou baixo o suficiente para que eu não entendesse.
— Quanto?
— 4 semanas... — ele sussurrou um pouco mais alto, o suficiente para que agora eu ouvisse.
A tontura que momentos atrás havia se dissipado voltou com tudo. Levei a mão a cabeça e pisquei os olhos diversas vezes. Agora eu via Annabeth e o garoto que eu ainda não sabia o nome na sala. Pisquei os olhos tentando apagar a imagem do garoto, mas logo notei que ele era real.
Droga, meus sentidos estavam falhando drasticamente.
Fechei os olhos e os mantive fechados por alguns segundos, o suficiente para que a tontura fosse embora. Quando os abri, vi o garoto sussurrando algo no ouvido de Annabeth, o que a fez rir. Thalia olhou para Annabeth e depois para mim, e logo entendeu o que estava acontecendo. Nico se levantou, também notando o clima pesado que ia começando e pediu para que Annabeth e o garoto nos deixassem em paz, e assim os dois fizeram, me fazendo soltar um suspiro de alívio.
— Posso matá-lo agora? — perguntei à Thalia enquanto Nico ia fechando a porta do quarto.
— Sentimos muito, Percy. — Thalia disse simplesmente. Não tentou me enrolar dizendo que ia ficar tudo bem ou algo do tipo. Me senti um pouco melhor por isso.
— Olha, Percy, precisamos que você vá até lá embaixo, se você estiver bem, é claro. — Nico pediu tentando aliviar o clima que se instalara no quarto.
— Tudo bem, mas vou precisar de ajuda para andar — respondi.
— Tá, vamos lá.
Nico se posicionou de um lado e Thalia de outro. Coloquei a mão no local da minha ferida e com um pouco de dor consegui me colocar de pé tempo suficiente para que os dois apoiassem os braços sobre meus ombros.
Aos poucos fomos descendo e pude examinar melhor o local aonde estávamos. Era realmente uma casa velha, como pude constatar antes. Ela estava caindo aos pedaços, mas era grande. Talvez em tempos antigos ela hospedasse alguém importante, uma família importante.
Meus devaneios foram interrompidos depois de descermos uma escada e paramos em uma sala de estar. Emma estava lá, e fixou seus olhos em mim enquanto Thalia e Nico me colocavam cuidadosamente no sofá. Quando eu já estava confortável, olhei ao redor.
A parede em frente a que eu estava era repleta de papéis de jornais e mapas, todas as informações bem pregadas à parede. Ainda nessa parede havia uma TV de 40 polegadas no alto e uma mesa com diversos computadores. Nela estava sentada Emma, que agora se levantava e vinha em minha direção.
— Vejo que você é forte mesmo, em, Jackson? Nico nos disse que você só tinha previsão para acordar daqui a um mês. — Olhei de relance para Nico, que somente deu de ombros.
Voltei minha concentração ao cômodo em que estávamos. Na parede em que eu estava, a da esquerda, tínhamos um sofá extenso, que preenchia a parede da esquerda à direita, e em cima dele havia uma janela que acompanhava o sofá por toda sua extensão.
Na outra parede do lugar havia uma mesa que também se estendia até o máximo que dava. Nela continha estátuas gregas, de deuses que eu dificilmente saberia quais são. As estátuas em sua maioria nunca representavam os deuses como eles realmente são.
E no meio havia uma mesa de vidro, daquelas que nos sentamos nos sofás e colocamos os pés. Não havia nada demais nela, somente algumas revistas e livros, além dos controles da televisão e de alguns dvds.
Ouvi passos descendo a escada, e quando me virei para o corredor para ver que estava vindo, me arrependi no mesmo segundo. Somente pela visão de duas mãos juntas já poderiam ter feito eu vomitar bem ali, no sofá. Mas me segurei até que eu me virasse novamente para Emma, que agora tinha seus olhos fixos na escada.
— E então, quais são as novidades? — o garoto do qual eu ainda não sabia o nome perguntou.
— Temos notícias de Crios. Ele está em uma fábrica abandonada em São Francisco. O caminho até lá não é demorado, conseguimos chegar lá antes do anoitecer — Emma lhe respondeu, pegando o controle da Tv e a desligando.
— Ótimo, partimos em cinco minutos — Annabeth se apressou em dizer, já correndo de volta ao andar de cima da casa, acompanhada do garoto.
Tentei me levantar mas Thalia e Nico me barraram.
— Você vai ficar aqui, não tem condições de lutar — Emma disse pegando uma algema de sei lá onde e prendendo o meu pulso à mesa de vidro.
— Ah, qual é! Eu consigo lutar! — exclamei enquanto via o garoto e Annabeth saírem pela porta da frente, a qual ficava em frente à escada.
— Sinto muito, Percy. — Nico se lamentou enquanto pegava uma mochila debaixo da mesa de vidro e ia saindo pela porta, seguido de Thalia.
Emma atravessou um corredor ao lado da porta de saída e de lá trouxe dois copos d’água e um saco de doritos. Ela me passou os controles da Tv.
— Não se preocupe, Percy, vamos voltar rápido. Daqui algumas semanas você também vai poder vir lutar com a gente. Não tem muito mais, estamos próximos de pegar Crios e Gaia, mas ainda tem um pouco pra você.
E depois de dizer essas palavras animadoras ela saiu pela mesma porta que todos os outros saíram.
Droga, eu estava sozinho naquela casa que eu mal conhecia. Tentei tirar Contracorrente do meu bolso e atacar as algemas mas parecia que a minha lâmina não era forte o suficiente.
A única coisa que eu tinha para fazer era deitar no sofá e assistir o que estivesse passando na Tv. Alguns minutos depois – ou horas, sabe-se lá quanto tempo passei algemado ali – ouvi a porta ser aberta. Não me dei o trabalho de virar a minha cabeça.
— Me digam que vocês trouxeram um X-Burguer para mim, estou morrendo de vontade de comer um — falei virando a minha cabeça para a porta.
O que vi entrando na casa não era os meus amigos ou um semideus. Era um adolescente com os olhos azuis. Azuis demais. E eu só havia visto aqueles olhos uma vez na vida. Eram os olhos de um titã.
— Não me reconhece, Percy? — uma voz grossa ressoou do corpo adolescente. Não uma voz que realmente pertencesse àquele corpo. Era grossa demais.
— Crios — cuspi o nome.
A única questão era: como ele estava no corpo de um adolescente? Mas me lembrei que Cronos também esteve no corpo de um adolescente. Parece que Crios estava usando o mesmo método.
Foi quando me lembrei que estava algemado a uma mesa de vidro. Eu teria de pensar bem rápido, ou seria picadinho de titã.
Crios olhou para as minhas mãos e riu. Uma espada apareceu de repente em sua mão e ele começou a rir mais. Era óbvio para ele que ele iria acabar comigo.
Eu teria de pensar bem mais rápido do que em qualquer momento de minha vida.
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