O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
5 CAPÍTULO 05
Notas iniciais
O tipo de homem que aparece
Maíra não deixou Caio entrar. Isso precisava ficar registrado. Porque depois, olhando pra trás, ela queria pelo menos ter UM momento de lucidez nessa história inteira. Então ficou parada no portão de casa, braços cruzados, enquanto ele segurava o tal gerador portátil como se aquilo fosse completamente normal.
— Tu vai embora depois de deixar isso aí.
— Vou.
— E não entra.
— Certo.
— E para de aparecer na minha rua como se fosse personagem misterioso de novela.
O canto da boca dele mexeu outra vez.
— Vou tentar.
Ela odiava esse “vou tentar”. Parecia que ele sabia exatamente quando tava irritando ela. O vento quente da madrugada passou pela rua levantando o cheiro de chuva molhada e terra. Caio olhou rapidamente em volta. As casas simples. Os portões baixos. As motos estacionadas na frente. Uma vizinha claramente espiando atrás da cortina.
— Tua rua inteira tá olhando pra gente agora.
— Bem-vindo à fofoca de bairro.
— Você parece orgulhosa disso.
— E sou.
Ela finalmente abriu um pouco o portão.
— Tá. Coloca isso logo antes que minha mãe apareça e peça teu CPF.
Caio entrou carregando o gerador com facilidade irritante. Tudo nele parecia irritantemente eficiente. Entrou no quintal pequeno da casa dela e olhou discretamente em volta. Não de um jeito nojento. Nem julgando. Só… observando. A planta torta perto da janela. As ferramentas do tio dela empilhadas. As roupas no varal. Coisas normais. Mas Maíra percebeu o jeito que ele olhava. Atento. Como se realmente enxergasse os lugares.
— Pode parar de analisar minha casa.
— Não tô analisando.
— Tá sim.
— Só tô olhando.
— Isso ainda é estranho.
Ele apoiou o gerador perto da parede.
— Onde fica a tomada principal?
— Tu realmente sabe mexer nisso?
Caio olhou pra ela.
— Eu falei que cresci em oficina.
Ela ficou quieta. Porque aquela frase começava a parecer verdade. Vinte minutos depois a energia voltou. A luz da cozinha acendeu primeiro. Depois a televisão da sala começou a gritar propaganda automaticamente. E segundos depois… a mãe dela apareceu na porta.
— FUNCIONOU?!
Os olhos dela bateram diretamente em Caio. Silêncio. Longo. Perigoso. Maíra sentiu o corpo inteiro gelar. Porque conhecia aquela expressão da mãe. Conhecia muito bem. Era a expressão de:
“hm então ESSE é o homem”
— Mãe—
— Meu Deus, ele é bonito mesmo.
— MÃE.
Caio abaixou o rosto imediatamente. Claramente escondendo um sorriso. Traidor. A mãe dela abriu o portão mais ainda.
— Tu não vai entrar nem pra tomar água?
— Ele tava indo embora.
— Cala a boca, Maíra.
Ela arregalou os olhos. Traída pela própria família. Caio finalmente ergueu os olhos.
— Eu não quero incomodar.
— Incomoda sim. Entra.
Maíra passou a mão no rosto.
— Isso aqui virou inferno muito rápido.
Cinco minutos depois… Caio Valença tava sentado na cozinha dela tomando café numa xícara do Flamengo enquanto sua mãe fazia perguntas como uma entrevistadora profissional.
— Então tu trabalha com o quê?
— Construção civil.
— Rico?
— MÃE.
Ele segurou a xícara olhando pra Maíra. E pela primeira vez… pareceu genuinamente divertido.
— Um pouco.
— “Um pouco”. — a mãe dela repetiu desconfiada — Esse relógio aí paga minha casa inteira.
Maíra queria morrer. Queria evaporar. Virar fumaça. Nunca ter nascido.
— Mas que coisa em?
— Relaxa, filha. Eu só tô conhecendo teu namorado.
— NÃO É MEU NAMORADO.
Silêncio. A mãe dela olhou pra Caio. Depois pra ela. Depois pra Caio de novo.
— Ah. Então vocês tão naquela fase complicada.
— QUE FASE?!
Caio finalmente perdeu a luta contra o sorriso. Pequeno. Mas real. E aquilo fez alguma coisa muito idiota acontecer dentro do peito dela outra vez. Muito idiota mesmo. Ela desviou os olhos rápido. Perigoso. A mãe dela levantou pra pegar mais café. E foi aí que o silêncio caiu entre os dois pela primeira vez naquela noite. Mais íntimo agora. Mais próximo. Caio observava a cozinha pequena em silêncio. Os imãs tortos na geladeira. A toalha estampada. O rádio velho em cima do armário. Então falou baixo:
— Faz tempo que eu não entro numa casa assim.
Ela franziu levemente a testa.
— Assim como?
Ele demorou um pouco pra responder.
— Viva.
Aquilo pegou ela desprevenida. Porque saiu sincero demais. Sem pose. Sem dinheiro. Sem personagem. Só… sincero. Ela ficou olhando pra ele por alguns segundos. Longos demais. E percebeu uma coisa horrível: Caio parecia menos perigoso quando abaixava a guarda. O problema era que isso fazia ela querer chegar mais perto.
O começo do problema
Caio foi embora perto da meia-noite. Mas o problema ficou. Maíra percebeu isso no segundo em que deitou na cama e continuou pensando no jeito que ele tinha olhado pra cozinha dela.
“Faz tempo que eu não entro numa casa assim.”
“Assim como?”
“Viva.”
Aquilo não parecia frase de homem rico. Parecia frase de alguém sozinho. Ela virou o travesseiro pro lado frio com raiva. Porque não queria sentir pena dele. Pior: não queria gostar dele. E claramente tava começando alguma coisa ali. Alguma coisa idiota. Na manhã seguinte, Diguinho já tava esperando ela na oficina com um sorriso desgraçado no rosto.
— Bom dia, dona rica.
— Vai morrer.
— Soube que teu namorado conheceu a sogra.
— Ele não é meu namorado.
— Ainda.
Ela pegou um pano de limpeza e jogou nele outra vez. Diguinho desviou rindo.
— O bairro inteiro já sabe.
Maíra congelou.
— Quê?
— Tua vizinha postou no status.
Ela sentiu a alma sair do corpo.
— Não.
Diguinho puxou o celular. E lá estava. Uma foto HORRÍVEL da SUV preta parada na rua dela com a legenda:
“hm 👀”
Maíra fechou os olhos devagar.
— Eu vou me mudar pro Acre.
— Relaxa. Só tua rua viu.
— ISSO É PIOR.
Ela arrancou o celular da mão dele. E foi exatamente nesse momento que outro carro parou na frente da oficina. SUV preta. Claro. Porque aparentemente Caio Valença agora fazia parte da decoração do lugar.
— Falando no diabo… — Diguinho murmurou.
Maíra respirou fundo. Muito fundo.
— Se ele entrar aqui sorrindo eu atropelo ele com a moto.
Mas quando Caio saiu do carro… ele não tava sozinho. Uma mulher desceu logo depois. Alta. Elegante. Salto fino. Óculos escuros enormes. Daquelas mulheres que parecem caras até respirando. Ela olhou pra oficina inteira como quem entrou no lugar errado. Maíra sentiu o estômago apertar imediatamente. Não gostou dela. Nem um pouco.
— Ah. — Diguinho murmurou — Agora ficou interessante.
Caio percebeu Maíra na mesma hora. Os olhos verdes encontraram os dela rápido. Mas antes que ele falasse qualquer coisa… a mulher segurou o braço dele. Posse pura.
— Então essa é a oficina? — ela perguntou olhando em volta.
Maíra cruzou os braços na hora.
— E você é quem?
A mulher tirou os óculos lentamente. Bonita. Muito bonita. Infelizmente.
— Helena Albuquerque.
Ela estendeu a mão. Maíra nem se mexeu. Silêncio constrangedor. Helena baixou a mão devagar. Sem perder o sorriso. Profissional demais. Falsa demais.
— Certo… — ela murmurou.
Caio parecia cansado já. Como se tivesse previsto exatamente aquilo.
— Helena trabalha com minha família.
— Trabalho muito pela família dele. — ela corrigiu suavemente.
Maíra percebeu o detalhe. Muito pela família dele. Não com. Pela. E aquilo irritou ela instantaneamente.
— Tá. E o que vocês querem?
Helena finalmente voltou a olhar pra oficina.
— Honestamente?
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Entender o que exatamente você tem.
Silêncio.
O ar pareceu mudar na hora. Caio fechou os olhos rapidamente. Como alguém pensando:
“puta merda.”
E Maíra entendeu. Na hora. Aquela mulher. Era a escolhida da família. A mulher perfeita. Elegante. Rica. Controlada. A que deveria casar com Caio. Helena voltou a sorrir. Daquele jeito bonito e venenoso ao mesmo tempo.
— Porque sinceramente… — os olhos dela passaram lentamente por Maíra — eu ainda não consegui entender.
Aquilo bateu direto. Sem desviar. Sem pena. Diguinho imediatamente fingiu mexer num carro inexistente. Os mecânicos sumiram. Covardes. Maíra sentiu o sangue subir quente na mesma hora.
— Ah. Entendi.
Ela apoiou os braços no balcão. Sorrindo também agora. Perigoso.
— Tu é a noiva escolhida pela família.
Helena não respondeu. O que basicamente confirmou tudo. Caio finalmente falou:
— Helena—
— Não. — Maíra interrompeu sem tirar os olhos dela — Tá tudo bem. Eu já entendi.
O problema?
Ela realmente tinha entendido. E odiou o que sentiu em seguida. Porque era ciúme. Ciúme completamente idiota. Sem sentido. Sem direito nenhum. Mas ainda assim… ciúme. Helena cruzou as pernas elegantemente.
— Caio comentou sobre a proposta.
— Comentou?
— Sim.
Maíra olhou imediatamente pra ele. Traidor. Caio sustentou o olhar dela.
— Eu precisava avisar alguém antes que descobrissem por terceiros.
Helena soltou um riso baixo.
— A família inteira surtou, inclusive.
— Que pena. — Maíra respondeu seca.
Os olhos de Helena voltaram pra ela lentamente. Avaliando. Como se estivesse tentando descobrir que ameaça exatamente Maíra representava. E aquilo irritou ainda mais. Porque Maíra percebeu outra coisa horrível: Helena tava insegura. Mesmo sendo perfeita. Mesmo sendo rica. Mesmo sendo exatamente o tipo de mulher que combinava com Caio… ela tava insegura. Por causa dela. E isso mudou alguma coisa dentro da cabeça de Maíra. Uma pequena sensação perigosa. Muito perigosa. Porque pela primeira vez… ela começou a perceber que talvez realmente tivesse chance de entrar na vida de Caio.
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