Notas iniciais
“você parece honesta” pronto. acabou aqui. porque a Maíra tá acostumada com gente olhando pra ela e vendo: graxa problema dívida não alguém olhando como se ela fosse… confiável 🫠 e AGORA ELE SEGURANDO A CINTURA DELA NO ESCURO????? eu odeio esses dois

O tipo de mulher que sorri enquanto ataca

O silêncio na oficina ficou insuportável. Helena continuava sorrindo. Maíra continuava irritada. E Caio parecia um homem a três segundos de desenvolver uma dor de cabeça eterna.

— Então… — Helena apoiou delicadamente uma das mãos no balcão — você realmente está considerando a proposta?

Maíra cruzou os braços.

— E isso é da tua conta?

— Pode acabar sendo.

Aquilo veio suave. Educado. Mas tinha veneno. Muito. Caio fechou a pasta que carregava com mais força do que o normal.

— Helena.

— O quê? — ela olhou pra ele inocentemente demais — Sua família inteira tá tentando entender o que tá acontecendo.

Maíra soltou um riso curto.

— Boa sorte explicando então.

Helena voltou os olhos pra ela lentamente.

— Ah, então existe alguma coisa acontecendo?

Silêncio. Droga. Maíra percebeu a armadilha tarde demais. Porque Helena claramente era o tipo de mulher que fazia perguntas parecendo conversa casual enquanto arrancava informação. Ela odiou imediatamente.

— Não é da tua conta. — respondeu seca.

Helena sustentou o olhar dela por alguns segundos. Depois sorriu de novo.

— Entendi.

Mentira. Ela claramente não tinha entendido nada. Mas tava analisando tudo. Caio passou a mão no rosto devagar. Cansado. Muito cansado.

— Helena, você veio aqui pra quê exatamente?

— Te buscar.

— Eu disse que tinha reunião depois.

— E eu disse que sua mãe tá surtando.

Aquilo fez Maíra prestar atenção imediatamente.

— Tua mãe?

Helena soltou um suspiro teatral.

— A família inteira acha que ele enlouqueceu.

Caio encostou a língua na parte interna da bochecha. Claramente segurando a paciência.

— Ótimo.

— E sinceramente? — Helena inclinou levemente a cabeça olhando pra Maíra outra vez — eu também achei.

O sangue de Maíra subiu quente de novo. Ela abriu um sorriso pequeno. Perigoso.

— Engraçado. Eu pensei exatamente a mesma coisa quando vi vocês dois juntos.

Diguinho soltou um:

— ihhhhh…

e imediatamente fingiu mexer numa caixa de ferramentas quando as duas olharam pra ele. Covarde. Helena riu baixo. Mas os olhos dela endureceram minimamente. Primeira rachadura. Finalmente.

— Você é mais afiada do que parece.

— E tu é mais falsa do que parece.

Caio fechou os olhos.

— Meu Deus.

Helena virou o rosto pra ele.

— Ela sempre fala assim?

— Quase sempre.

— Deve ser cansativo.

— Às vezes.

Maíra encarou ele indignada.

— Ah pronto. Agora vocês viraram melhores amigos?

O canto da boca dele subiu minimamente. Traidor. Helena percebeu. Claro que percebeu. E foi aí que alguma coisa mudou nela. Pequena. Sutil. Mas mudou. Porque ela viu. Viu que Caio tava diferente perto de Maíra. Mais leve. Mais humano. E isso incomodou. Muito.

— Interessante… — ela murmurou quase pra si mesma.

Maíra estreitou os olhos.

— O quê?

— Nada.

Mentira de mulher. Das perigosas. Helena pegou os óculos escuros outra vez. Elegante até fazendo ameaça silenciosa.

— Bem. — ela olhou pra Caio — teu pai quer você em casa hoje.

— Não vou.

— Imaginei.

Ela colocou os óculos lentamente. Depois voltou os olhos pra Maíra pela última vez.

— Só toma cuidado.

Silêncio.

Maíra franziu levemente a testa.

— Isso foi ameaça?

— Conselho.

— Qual a diferença?

Helena sorriu. Daquele jeito bonito e frio ao mesmo tempo.

— Ameaças eu normalmente faço olhando direto nos olhos.

E foi embora. Saltos batendo no chão da oficina. Tac. Tac. Tac. A SUV preta ainda tava estacionada na frente. Mas agora o ambiente parecia outro. Mais pesado. Mais estranho. Maíra soltou o ar lentamente quando Helena sumiu de vista.

— Eu odiei ela.

Diguinho apareceu do absoluto nada:

— Eu também.

Caio lançou um olhar cansado pros dois.

— Vocês decidiram isso em cinco minutos?

— Quatro. — Maíra corrigiu.

Ele finalmente deixou escapar uma risada baixa. Pequena. E aquilo irritou ela instantaneamente.

— Não ri.

— Você ficou com ciúme.

Silêncio.

O.

Quê.

Maíra sentiu o cérebro inteiro parar por dois segundos. Diguinho imediatamente virou de costas pra esconder a reação. Covarde filho da puta.

— Eu NÃO fiquei com ciúme.

Caio inclinou levemente a cabeça. Observando ela daquele jeito atento outra vez.

— Ficou.

— Não fiquei.

— Ficou sim. — Diguinho ajudou.

— DIGUINHO.

— Desculpa.

Não tava nem um pouco arrependido. Maíra passou a mão no rosto. Queria morrer. Evaporar. Virar fumaça. Entrar dentro de um motor e nunca mais sair. Caio aproximou-se devagar do balcão. Mais perto. Muito perto.

— Você realmente não percebe quando demonstra as coisas, né?

A voz saiu baixa. Calma. Perigosa. E o pior de tudo? Ela percebeu. Percebeu que ele tava olhando pra boca dela de novo.

O problema dos quase

O silêncio depois daquela frase ficou perigoso. Muito. Porque Caio realmente tava olhando pra boca dela. E Maíra percebeu. Percebeu no mesmo segundo em que o olhar dele desceu minimamente antes de voltar pros olhos dela outra vez. Droga. O coração dela bateu forte demais por um motivo completamente idiota.

— Tu tá muito perto. — ela falou rápido.

Caio não se afastou.

— Você também.

— Porque isso é MINHA oficina.

O canto da boca dele subiu outra vez. Pequeno. Insuportável.

— Claro.

Diguinho fez um barulho estranho lá no fundo. Algo entre tosse e:

“meu Deus eles vão se beijar”

Maíra pegou uma chave de roda do balcão e jogou na direção dele sem olhar.

— AI, CARALHO—

— SOME DAQUI.

— Eu tava trabalhando!

Mentira absurda. Ninguém acreditou. Caio finalmente desviou os olhos dela. Só por um segundo. Mas foi suficiente pra Maíra voltar a respirar direito. Porque aquilo tava começando a ficar ridiculamente perigoso. Helena tinha ido embora fazia menos de dez minutos e ela já tava quase esquecendo da existência da mulher. Isso definitivamente era problema psicológico.

— Tua família inteira é daquele jeito? — ela perguntou tentando mudar de assunto.

Caio apoiou uma das mãos no balcão.

— Pior.

— Meu Deus.

— Helena ainda tenta ser educada.

— Então ela me odiou educadamente?

— Sim.

— Que querida.

Ele soltou um riso baixo pelo nariz. E outra vez… aquilo mexeu com ela mais do que devia. Porque Caio sorrindo parecia raro. Especial quase. Como encontrar alguma coisa escondida que ninguém mais vê. Ela odiou pensar isso imediatamente.

— Para de me olhar assim.

— Assim como?

— Como se tu tivesse lendo minha mente.

— E eu tô?

— Infelizmente.

Os olhos verdes prenderam nos dela outra vez. Firmes. Atentos. E pela primeira vez Maíra percebeu outra coisa: Caio olhava como alguém com fome. Não fome literal. Mas fome de atenção verdadeira. De descanso. De alguma coisa real. Aquilo apertou o peito dela sem permissão.

— Tu realmente odeia tua família, né?

A pergunta saiu mais baixa. Mais séria. O sorriso dele morreu devagar. Silêncio. A oficina parecia distante agora. O barulho das ferramentas longe demais.

— Eu não odeio.

Ele respondeu calmamente.

— Só cansei.

Aquilo doeu nela por motivos que ela não entendeu direito. Porque o jeito que ele falou parecia… velho. Cansado de um jeito que não combinava com a idade dele. Ela desviou os olhos primeiro. Perigoso continuar olhando.

— E tu acha que casar comigo resolve isso?

Caio observou ela por alguns segundos antes de responder.

— Não.

Aquilo pegou ela desprevenida.

— Não?

— Não resolve.

Ele puxou o ar devagar.

— Mas talvez me dê tempo.

Silêncio. Maíra franziu levemente a testa.

— Tempo pra quê?

Caio demorou. Longo demais. E ela percebeu. Ele tava escolhendo o quanto mostrar. O quanto confiar.

— Meu avô morreu achando que minha família ainda era decente.

A voz saiu baixa.

Controlada. Mas tinha alguma coisa ali. Raiva talvez.

— E eu descobri depois que não era.

Ela ficou quieta. Porque aquilo não parecia mais conversa sobre casamento falso. Parecia outra coisa. Mais pesada.

— Tu acha que fizeram alguma coisa?

Os olhos dele encontraram os dela imediatamente. Silêncio. Longo. Perigoso. Então:

— Eu acho que meu avô não morreu por acaso.

O ar pareceu mudar. Até o ventilador velho parecia mais alto agora. Nhéc. Nhéc. Nhéc. Maíra ficou imóvel.

— Caio…

— Eu sei como parece.

— Parece MUITO criminoso.

— Porque é.

Ela abriu a boca. Fechou. Depois abriu outra vez.

— E TU QUER ME ENFIAR NO MEIO DISSO?!

— Eu tô tentando evitar justamente isso.

— Ah, tá funcionando super bem.

Caio passou a mão no rosto cansado.

— Minha família tá escondendo alguma coisa faz anos.

— E onde eu entro nisso?

Silêncio curto.

Depois:

— Eles nunca suspeitariam de você.

Aquilo irritou ela imediatamente outra vez.

— Porque eu sou pobre e tenho cara de quem não entende nada?

— Porque você parece honesta.

Silêncio. Droga. Ele falou aquilo sério demais. Sem ironia. Sem provocação. Só…

sério. E isso foi pior do que qualquer flerte. Maíra sentiu o peito apertar de um jeito estranho. Idiota. Muito idiota.

— Tu fala umas coisas muito perigosas às vezes.

Caio inclinou levemente a cabeça.

— Perigosas como?

Ela abriu a boca pra responder. Mas antes que conseguisse… a luz da oficina apagou inteira. Tudo ficou escuro. Silêncio. Depois o ventilador morreu com um: nhééé—

— PUTA MERDA. — Diguinho gritou lá do fundo.

Maíra soltou um suspiro cansado imediatamente.

— Não acredito nisso.

Mas antes que pudesse andar… sentiu uma mão segurando a cintura dela no escuro. Firme. Quente. Instintiva. O corpo inteiro dela travou na hora. Porque Caio tinha segurado ela antes mesmo dela tropeçar numa caixa no chão. E agora ele tava perto demais outra vez. Muito perto. A voz dele saiu baixa no escuro:

— Cuidado.


Notas finais
eu honestamente amo escrever cena onde os personagens começam a perceber coisas um sobre o outro sem querer 😭 e sim o Caio percebe detalhe DEMAIS nela isso vai virar problema? muito