O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
4 CAPÍTULO 04
Notas iniciais
O problema do silêncio confortável
Maíra percebeu o erro no momento em que começou a rir. Porque ela não ria fácil perto de gente desconhecida. Muito menos perto de homem rico estranho oferecendo casamento falso. Mas Caio tinha aquele jeito seco que, às vezes, ficava engraçado sem querer. E isso era perigosíssimo. O café esfriava devagar entre os dois. Lá fora, a chuva tinha voltado fraca, escorrendo pela janela do Café Ribeiro em fios tortos.
— Então tua família realmente investiga todo mundo? — ela perguntou, apoiando o rosto na mão.
— Sim.
— Isso é doentio.
— Também acho.
— E eles vão investigar minha oficina?
— Já devem estar investigando.
Ela arregalou os olhos.
— Meu Deus.
— O quê?
— Vão descobrir que eu já bati num cliente com uma mangueira.
Pela primeira vez desde que conheceu Caio… ele riu de verdade. Baixo. Curto. Mas real. E aquilo pegou ela completamente desprevenida. Porque mudou o rosto dele inteiro. Os olhos pareceram menos frios. O peso nos ombros diminuiu um pouco. Até a cicatriz perto do punho chamou atenção dela outra vez. Ela desviou os olhos rápido demais. Perigoso. Muito perigoso.
— O cliente mereceu? — ele perguntou.
— Mereceu muito.
— Então tá tudo bem.
Ela soltou uma risada nasal.
— Tu concorda rápido demais com violência.
— Você parece criteriosa.
— Obrigada.
— Não foi elogio.
— Eu aceitei como um.
O silêncio veio outra vez. Mas agora era diferente. Estranhamente leve. Como se eles tivessem se conhecido há mais tempo do que realmente aconteceu. E isso deixava Maíra nervosa. Porque não fazia sentido. Ela mexeu na colher de novo só pra ocupar as mãos.
— Qual é o problema da mulher que teu pai escolheu?
Caio apoiou o olhar nela.
— Nenhum.
— Então por que não casa com ela?
Silêncio curto. Depois:
— Porque ela concorda com tudo que meu pai diz.
— Ah.
Aquilo ela entendeu. Entendeu até demais.
— E eu claramente não concordo com nada que tu fala.
— Exatamente.
Ela estreitou os olhos.
— Então eu sou tua rebeldia particular?
O canto da boca dele quase subiu.
— Algo assim.
Ela abriu a boca pra responder alguma coisa atravessada… mas o celular dele vibrou em cima da mesa. Caio olhou a tela. E alguma coisa mudou imediatamente. O corpo inteiro endureceu. O olhar esfriou. A mão apertou o telefone com força demais. Maíra percebeu na hora.
— Problema?
Ele desligou a tela sem responder.
— Era tua família, né?
— Sim.
— Tu faz essa cara toda vez que falam com eles?
— Quase sempre.
Ela observou ele por alguns segundos. Longos. E pela primeira vez sentiu uma coisa estranha: não pena. Mas compreensão. Porque ela conhecia aquele tipo de cansaço. O de viver preso numa coisa que controla tua vida inteira. Ela viveu isso com dívida. Com responsabilidade. Com a oficina. Talvez Caio vivesse isso com dinheiro. Que ironia.
— Então deixa eu ver se entendi.
Ela cruzou os braços na mesa.
— Tu quer casar comigo porque tua família vai odiar.
— Bastante.
— E porque eu não abaixo a cabeça.
— Sim.
— E porque precisa da herança.
— Também.
Ela inclinou o rosto.
— E o que tu acha que eu ganho nisso além da oficina?
Caio ficou quieto. Pensando de verdade dessa vez. Não respondendo automático igual empresário.
— Segurança.
Ela riu na hora.
— Meu Deus. Tu realmente fala igual contrato.
— Estou tentando ser sincero.
— Tenta mais humano da próxima vez.
Aquilo fez ele respirar pelo nariz como quem segura um sorriso.
— Certo.
Ele apoiou os braços na mesa. Mais perto agora.
— Você ganha a oficina.
Dinheiro suficiente pra tirar ela das dívidas. E ninguém da minha família vai encostar aqui enquanto estivermos casados. Ela ficou imóvel. Porque aquela parte era nova.
— O quê?
— Eu posso proteger esse lugar.
O jeito que ele falou… calmo. Seguro. Definitivo. …mexeu com ela mais do que devia. Porque fazia meses que Maíra não sentia segurança vindo de ninguém. Nem dela mesma. Ela desviou os olhos pra chuva na janela. Grande erro. Porque pensar demais naquele homem começava a ficar perigoso.
— Isso ainda é uma ideia horrível.
— Eu sei.
— E tu continua insistindo.
— Porque você ainda não disse não de verdade.
Ela virou o rosto imediatamente.
— Eu já disse várias vezes.
— Você tá pensando.
Silêncio. Droga. Ele percebeu. Claro que percebeu. Homem insuportável.
— Tu acha que sabe tudo, né?
— Não.
— Parece.
Caio inclinou levemente a cabeça. Observando ela daquele jeito atento outra vez.
— Você morde a parte interna da bochecha quando tá nervosa.
Ela congelou. Só por um segundo. Mas congelou. Porque tava fazendo exatamente isso. E odiou o fato dele ter percebido.
— Para de me analisar igual psicólogo.
— Eu falei que presto atenção.
— Isso continua assustador.
O celular dela vibrou dessa vez. “Mãe”. Maíra fechou os olhos rapidamente antes de atender.
— Oi.
— Filha… a energia daqui foi cortada.
Aquilo fez o peito dela afundar imediatamente. Ela sentiu. Na hora. Mais uma conta. Mais um problema. Mais uma coisa quebrando.
— Tá. Eu vejo isso quando chegar.
— Desculpa incomodar no teu encontro.
Maíra arregalou os olhos.
— NÃO É ENCONTRO.
Caio abaixou o rosto imediatamente. Claramente escondendo um sorriso. Traidor.
A mãe dela continuou:
— Tá bom, tá bom. Depois me conta se ele é bonito.
— MÃE.
Ela desligou na mesma hora. Silêncio. Caio ainda olhava pra xícara de café. Os ombros tremendo minimamente. Ele tava rindo.
— Se tu rir eu vou embora.
— Eu não tô rindo.
Mentiroso do inferno. Ela pegou a bolsa rapidamente.
— Já deu pra hoje.
Mas quando levantou… Caio segurou o pulso dela. Não forte. Nem tentando impedir. Só… segurou. E aquilo fez o corpo inteiro dela travar por um segundo ridículo. Os dedos dele eram quentes. A mão grande envolvia o pulso dela fácil demais. Os olhos verdes subiram devagar até encontrar os dela. Sérios agora. Sem provocação.
— Pensa na proposta.
A voz saiu baixa. Muito perto. Muito calma. Muito perigosa. E o pior de tudo? Maíra percebeu que já estava pensando.
O pior tipo de pensamento
Maíra passou o caminho inteiro pra casa com raiva. Raiva do Caio. Raiva da proposta. Raiva da própria mãe. Raiva dela mesma. Principalmente dela mesma. Porque o problema não era mais o casamento falso. O problema era que ela começava a entender Caio. E entender alguém era sempre o começo da desgraça. Ela estacionou a moto em frente de casa já sem paciência nenhuma. A luz realmente tinha sido cortada. Perfeito. Maravilhoso. Exatamente o que faltava.
— Filha? — a mãe apareceu na porta segurando vela — Como foi o encontro?
— NÃO ERA ENCONTRO.
— Tá bom, tá bom. Mas ele era bonito pelo menos?
Maíra passou direto.
— Vocês tão conspirando contra mim.
A mãe tentou esconder o sorriso. Falhou. Ela não contou sobre a proposta naquela noite. Não conseguiu. Porque falar em voz alta fazia parecer ainda mais real. Então apenas tomou banho frio — porque agora não tinha energia — e ficou sentada no chão do quarto olhando o ventilador desligado no teto. Calor infernal. Mosquito infernal. Vida infernal. O celular vibrou perto da cama. Número desconhecido. De novo. Ela encarou a tela por alguns segundos. Depois atendeu:
— O quê?
— Você sempre atende minhas ligações como se quisesse cometer um crime?
A voz calma atravessou o telefone outra vez. E ela odiou perceber que reconheceu imediatamente.
— Tu não dorme?
— Às vezes.
— Isso explica tua cara de cansado.
Silêncio curto. Depois:
— Você também parece cansada.
Aquilo pegou ela desprevenida. Porque não foi flerte. Nem provocação. Só observação. Muito sincera. Ela ficou quieta por alguns segundos olhando a janela aberta do quarto.
— A energia de casa foi cortada.
Não sabia por que falou aquilo. Talvez porque tava cansada demais pra fingir força. Do outro lado, silêncio. Depois:
— Quanto é?
Ela soltou uma risada sem humor.
— Tu acha que resolve tudo pagando?
— Não.
— Parece.
Caio demorou um pouco pra responder.
— É a única coisa que minha família sempre usou pra resolver problemas.
Aquilo bateu estranho nela. Porque pela primeira vez… ele parecia sozinho. Não fisicamente. Mas daquele jeito pior. Gente cercada de pessoas que ainda assim parece carregar tudo sozinha. Ela passou a mão no rosto devagar.
— Eu não vou aceitar teu dinheiro.
— Eu não ofereci.
— Mas pensou.
— Pensei.
Ela bufou baixo.
— Tu é irritante num nível impressionante.
— Você já falou isso.
— Porque continua sendo verdade.
Do outro lado da linha, ela ouviu um barulho baixo. Porta fechando. Motor ligando. Ela franziu levemente a testa.
— Onde tu tá?
— Dirigindo.
— Essa hora?
— Sim.
— Pra onde?
Caio ficou quieto. Longo demais. E foi aí que ela percebeu.
— Não.
— Maíra—
— NÃO.
Ela levantou da cama imediatamente.
— Tu não vem pra cá.
— Já tô perto.
— CAIO.
— Sua rua é horrível de achar.
— COMO TU SABE MINHA RUA?!
— Diguinho fala demais.
Ela fechou os olhos. Respirou fundo. Muito fundo. Depois pegou o chinelo e saiu de casa antes que a mãe começasse a fazer perguntas. A SUV preta tava parada perto da esquina. Ridiculamente incompatível com a rua simples dela. Caio saiu do carro assim que viu ela. Camisa escura outra vez. Mangas dobradas outra vez. Cara cansada outra vez. Mas dessa vez… sem pose nenhuma. Só segurando uma pequena caixa branca. Ela cruzou os braços imediatamente.
— Tu tá maluco.
— Provavelmente.
— O que é isso?
Ele ergueu levemente a caixa.
— Gerador portátil.
Silêncio. Maíra piscou.
— Um quê?
— Pra energia da sua casa até resolverem amanhã.
Ela ficou olhando pra ele sem acreditar. Depois começou a rir. Não porque era engraçado. Mas porque a situação inteira parecia absurda.
— Tu realmente apareceu aqui com um gerador?
— Sim.
— Quem faz isso?!
— Eu.
Ela passou a mão no rosto.
— Meu Deus.
Caio aproximou-se devagar. Sem pressão. Sem insistir. Só… perto.
— Você tava preocupada.
— Todo pobre vive preocupado.
— Eu sei.
Ela ergueu os olhos rápido.
— Não. Tu não sabe.
Silêncio.
O vento da madrugada balançava as árvores da rua devagar. Ao longe, alguém ouvia música alta. Uma televisão ligada. Cachorro latindo. Vida normal. E Caio parado no meio dela parecia completamente deslocado. Mas estranhamente sincero.
— Minha mãe acha que isso é encontro. — ela falou de repente.
O canto da boca dele subiu minimamente.
— E você?
Ela abriu a boca. Fechou. Porque o problema era exatamente esse. Ela não sabia mais. E isso era perigoso pra caralho.
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