Notas iniciais
“porque você não tem medo de mim” pronto. foi aqui que começou a dar errado pros dois inclusive queria deixar registrado que o Caio sorrindo um pouquinho já me irrita igual irrita a Maíra KKKKK

O tipo de proposta que destrói uma pessoa devagar

Maíra não dormiu direito. Na verdade, ela nem sabia se tinha dormido. Ficou virando de um lado pro outro na cama enquanto o ventilador do quarto fazia um barulho irritante no teto. Toda vez que fechava os olhos… via Caio encostado no balcão da oficina dizendo:

“Eu preciso casar.”

Ridículo. Absurdo. Completamente maluco. Então por que ela continuava pensando nisso? Virou o rosto no travesseiro com raiva.

O celular marcava:

03:17.

Ótimo.

Perfeito.

Agora além de pobre ela tava insonе. A chuva tinha parado fazia horas, mas o cheiro de terra molhada ainda entrava pela janela aberta do quarto. Ela levantou. Foi até a cozinha. Abriu a geladeira. Ficou olhando pra dentro sem vontade nenhuma de comer. Depois fechou. Abriu de novo. Fechou outra vez.

— Isso é doença mental já.

Pegou água. Sentou na mesa. E tentou não pensar. Falhou miseravelmente. Porque o cérebro dela resolveu lembrar do momento em que Caio falou:

“Liberdade.”

A voz dele tinha mudado. Pouco. Mas mudou. Como se tivesse cansado de verdade. Ela apoiou a cabeça na mesa.

— Não. Nem fudendo.

Na manhã seguinte, a oficina parecia mais silenciosa. Mesmo com barulho de ferramenta. Mesmo com cliente entrando. Mesmo com Diguinho discutindo preço de amortecedor. Tinha alguma coisa estranha no ar. Todo mundo sabia do despejo agora. E isso mudava o ambiente. Os mecânicos falavam mais baixo.


Seu tio parecia mais velho. Até o cachorro que aparecia às vezes pra dormir perto do elevador parecia triste. Maíra tava fazendo orçamento quando o celular vibrou. Número desconhecido.

De novo. Ela encarou a tela. Depois atendeu irritada:

— Tu não desiste?

— Bom dia pra você também.

A voz calma atravessou o telefone igual provocação. Ela revirou os olhos automaticamente.

— O que tu quer agora?

— Você almoçou ontem?

Silêncio. Maíra franziu a testa.

— Quê?

— Ontem. Você almoçou?

— Isso é da tua conta desde quando?

— Você ficou na chuva até tarde.

— Tu tá me monitorando?

— Não.

— Então como sabe?

— Porque você espirrou duas vezes enquanto falava comigo.

Ela abriu a boca. Fechou. Depois abriu outra vez.

— Tu é psicopata?

Diguinho olhou curioso do outro lado do balcão. Ela virou de costas imediatamente.

— Eu só presto atenção nas coisas. — Caio respondeu simples.

Aquilo irritou ela num nível pessoal.

— O que tu quer?

— Conversar sem você tentar me matar dessa vez.

— Sem promessas.

Do outro lado da linha, silêncio curto. Depois:

— Me encontra hoje.

— Não.

— Você nem sabe onde.

— Não interessa.

— Maíra.

Ela odiava quando ele falava o nome dela daquele jeito calmo. Parecia que ele sempre tava tentando não perder a paciência.

— O quê?

— Você vai acabar aceitando.

Aquilo fez ela levantar da cadeira na hora.

— Tu tá muito confiante pra um homem que levou dois foras em dois dias.

— Não é confiança.

— Ah não?

— É desespero.

Silêncio. Dessa vez ela ficou quieta. Porque a resposta saiu rápida demais.

Honesta demais. Sem pose. Ela apertou mais forte o telefone contra o ouvido.

— Tu realmente tá tão ferrado assim?

Caio demorou alguns segundos pra responder. E quando respondeu… a voz veio baixa. Mais baixa do que ela já tinha ouvido.

— Você não faz ideia.

Aquilo bateu estranho nela. Porque pela primeira vez… ele parecia um homem normal. Não um milionário. Não um sobrenome importante. Não alguém que controla tudo. Só alguém cansado. Muito cansado. Ela fechou os olhos rapidamente. Grande erro. Porque sentir pena dele era perigosíssimo.

— Onde?

— Quê?

— O lugar.

Ela ouviu ele puxar o ar do outro lado. Como se não esperasse que ela cedesse tão rápido.

— Café Ribeiro. Sete horas.

— Isso é encontro?

— Não.

— Porque se for eu vou embora.

— Não é.

— E eu não vou usar vestido.

Pela primeira vez… ela ouviu claramente Caio rindo. Baixo. Curto. Rouco. E alguma coisa muito idiota aconteceu no peito dela naquele momento. Muito idiota mesmo.

— Certo. Sem vestido.

Ela desligou na cara dele imediatamente. Diguinho apareceu no balcão na mesma hora.

— Era ele, né?

— Não.

— Tu tá vermelha.

— Calor.

— Tu marcou encontro.

— NÃO MARQUEI.

Diguinho começou a rir sozinho.

— Meu Deus. A Maíra vai virar madame.

Ela pegou um pano de limpeza e jogou na cara dele.

— Vai trabalhar, desgraça.

Mas mesmo irritada… mesmo tentando ignorar… mesmo sabendo que aquilo era uma péssima ideia… o cérebro dela continuava preso numa única coisa: Ela tinha aceitado encontrar Caio Valença.


Sete horas

Maíra se arrependeu às seis e vinte. Se arrependeu às seis e quarenta. Às seis e cinquenta e cinco também. Na verdade, ela tava se arrependendo desde o momento em que desligou o telefone na cara de Caio. Porque agora tava parada na frente do espelho do banheiro encarando a própria cara como se fosse uma traidora.

— Tu enlouqueceu.

A própria imagem não discordou. Ela puxou o cabelo preso outra vez. Soltou. Prendeu. Soltou de novo. Nada parecia certo. E o pior: ela nem sabia por que tava nervosa. Não era encontro. Ele literalmente disse que não era. Então por que parecia? O celular vibrou na pia.

Diguinho:

“boa sorte no date”

Ela respondeu imediatamente:

“vai te fuder”

Depois bloqueou ele por cinco minutos só por satisfação emocional.


O Café Ribeiro ficava numa rua mais tranquila do centro. Luz amarelada. Música baixa.

Cheiro forte de café e chuva. Maíra odiou o fato de gostar do lugar. Parecia caro. Tudo em volta de Caio parecia caro. Ela entrou tentando parecer normal. Falhou no segundo em que viu ele sentado perto da janela. Camisa escura outra vez. Relógio bonito outra vez. Cara cansada outra vez.

Ele levantou os olhos assim que ela entrou. E por algum motivo idiota… o olhar dele mudou. Suavizou. Só um pouco. Mas ela percebeu.

— Tu chegou cedo? — perguntou antes de sentar.

— Dez minutos.

— Tu sempre chega cedo assim?

— Sim.

— Psicopata.

O canto da boca dele mexeu outra vez. Aquele quase sorriso irritante. Maíra puxou a cadeira. Sentou. O garçom apareceu rápido demais.

— O de sempre, senhor Valença?

Ela quase revirou os olhos. Claro. Homem rico até em cafeteria tinha “o de sempre”. Caio apenas assentiu. Depois olhou pra ela.

— E pra você?

— O café mais barato que tiver.

O garçom claramente tentou esconder a surpresa. Caio não.

— Dois iguais. — ele falou.

— Ei. Eu falei o mais barato.

— Eu ouvi.

— Então por que pediu igual ao meu?

— Porque o também é bom.

Ela cruzou os braços imediatamente.

— Tá tentando me impressionar?

— Não.

— Porque tá falhando.

— Você veio mesmo assim.

Aquilo pegou ela desprevenida. O suficiente pra ficar quieta por dois segundos. O garçom trouxe os cafés logo depois. E infelizmente Caio tava certo. Era muito bom. Ela odiou isso também. Ficou um tempo mexendo a colher sem olhar muito pra ele. Porque toda vez que olhava… sentia aquela sensação estranha de novo. Como se ele fosse perigoso por motivos que ela ainda não entendia.

— Então? — ela perguntou finalmente — Qual é a parte da proposta que eu ainda não ouvi?

Caio apoiou os braços na mesa. Pela primeira vez parecia um pouco menos controlado. Menos empresário. Mais homem.

— Minha família não pode descobrir que é um acordo.

— Óbvio.

— E eles vão investigar você.

— O quê?

— Tudo.

Ela soltou uma risada desacreditada.

— Ah, perfeito. Era exatamente isso que faltava na minha vida.

— Eles fazem isso com qualquer pessoa perto de mim.

— Tua família é mafiosa?

— Quase isso.

Ela observou ele por alguns segundos. Tentando entender onde exatamente tava se metendo.

— E por que eu deveria aceitar essa loucura?

Caio ficou quieto. Depois respondeu:

— Porque eu posso salvar tua oficina.

Ela apertou a xícara com mais força.

— Para de falar como se tivesse me comprando.

— Eu não tô.

— Parece.

Ele respirou fundo. Longo. Cansado.

— Tá. Então vamos tentar de outro jeito.

Aquilo chamou atenção dela imediatamente. Porque até então Caio falava como contrato.

Como negócio. Como planilha. Mas agora não. Agora parecia… mais sincero.

— Minha família quer controlar tudo que eu faço.

Os olhos verdes encontraram os dela. Fixos.

— Inclusive com quem eu caso.

Ela ficou quieta.

— E tu quer me usar pra irritar eles?

— Também.

Ela soltou um riso nasalado.

— Pelo menos agora tu tá sendo honesto.

— Você prefere honestidade agressiva.

— Prefiro.

Caio apoiou o polegar na xícara quente. Pensativo.

— Meu pai já escolheu com quem eu deveria casar.

— Credo.

— Eu não quero.

Ela ergueu levemente a sobrancelha.

— E por que eu?

Silêncio curto. Depois:

— Porque você não tem medo de mim.

Aquilo saiu rápido demais pra ser planejado. E os dois perceberam. O silêncio ficou estranho imediatamente depois. Maíra desviou os olhos primeiro. Porque o jeito que ele tava olhando agora era diferente. Mais atento. Mais próximo. Perigoso. Ela tomou café rápido demais e queimou a língua.

— Porra—

Caio segurou a risada dessa vez. Ela viu claramente.

— Não ri.

— Eu não ri.

— Mas quis.

— Talvez.

Ela apontou o dedo pra ele.

— Tu é muito irritante.

— Você me chamou de playboy cinco vezes.

— Merecido.

O silêncio voltou. Só que agora menos pesado. Mais estranho. Mais íntimo. E isso era um problema enorme. Porque Maíra percebeu uma coisa horrível naquele instante: Conversar com Caio era fácil.

Notas finais
acho muito engraçado que a Maíra tava pronta pra cometer um crime no começo do capítulo e terminou tomando café com ele 😭 ela é forte mas claramente tem um ponto fraco: curiosidade