O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
7 CAPÍTULO 07
Notas iniciais
O escuro
Maíra parou de respirar por um segundo. Porque a mão de Caio ainda tava na cintura dela. Quente. Firme. Grande demais. E perto. Muito perto. O escuro da oficina parecia pior sem o barulho do ventilador velho. Só restava: a chuva começando outra vez lá fora, o som distante dos carros, e a respiração dela próxima demais da dele.
— Tu tá me segurando. — ela falou baixo demais.
— Você ia cair.
— Talvez eu quisesse cair.
Mentira. Os dedos dele apertaram minimamente a cintura dela antes de soltarem devagar. Como se tivesse percebido só agora o quanto estavam perto. E pela primeira vez desde que conheceu Caio… ele pareceu afetado. De verdade. Ela ouviu ele puxando o ar lentamente no escuro.
— Diguinho. — Maíra falou sem desviar do lugar — verifica o quadro de energia.
— Tô tentando achar a lanterna!
— Usa o celular, animal.
— Ah.
Silêncio outra vez. Caio continuava perto. Muito. Ela conseguia sentir o cheiro dele outra vez. Chuva. Café. Perfume caro. Aquilo devia ser ilegal.
— Tu tá olhando pra mim ainda? — ela perguntou.
— Sim.
Droga. Resposta rápida demais. Honesta demais. Ela odiou o jeito que o próprio coração reagiu.
— Isso é assustador.
— Você também é.
Ela soltou um riso nervoso.
— Ah claro. Eu sou aterrorizante.
— Você ameaça bater em todo mundo.
— Porque funciona.
O canto da boca dele quase apareceu na voz. Quase. Então uma luz fraca surgiu no fundo da oficina. Diguinho finalmente tinha achado a lanterna. E o feixe iluminou os dois rápido demais. Perto demais. Caio ainda tava inclinado na direção dela. A mão dele ainda próxima da cintura dela. Os rostos perto o suficiente pra deixar qualquer pessoa desconfortável. Diguinho congelou.
— …eu volto depois.
— DIGUINHO.
Ele virou imediatamente de costas. Covarde do inferno. Maíra se afastou rápido demais. Arrumou o cabelo sem necessidade. A camisa. A postura. Qualquer coisa. Porque o corpo dela ainda tava reagindo igual idiota. Caio observou tudo em silêncio. Aquela calma dele começava a irritar profundamente.
— Para de me olhar assim.
— Assim como?
— Como se tu tivesse acabado de ganhar alguma discussão.
— Mas eu ganhei.
Ela arregalou os olhos.
— Tu é INSUPORTÁVEL.
O gerador velho da oficina finalmente voltou com um tranco alto. As luzes piscaram. Depois acenderam de novo. O ventilador voltou à vida: nhéc. nhéc. nhéc. Tudo parecia normal outra vez. Mas não tava. Porque agora Maíra sabia exatamente como era sentir a mão dele na cintura dela. E isso era um problema colossal. Ela pegou um pano qualquer do balcão só pra fazer alguma coisa com as mãos.
— Então… — limpou uma mancha inexistente — essa história do teu avô.
Caio apoiou o quadril no balcão. Mais sério agora.
— O que tem?
— Tu realmente acha que tua família matou ele?
Silêncio curto. Depois:
— Eu acho que esconderam alguma coisa sobre a morte dele.
— Isso continua MUITO criminoso.
— Eu sei.
Ela encarou ele por alguns segundos. Tentando entender até onde aquilo era paranoia de milionário traumatizado… ou coisa real. O problema? Caio não parecia mentiroso. Ela odiava isso.
— E por que tu confia isso pra mim?
— Porque você não sabe fingir interesse.
— O quê?
— Todo mundo perto de mim quer alguma coisa.
Aquilo saiu rápido. Automático quase. Mas pesado. Ele desviou os olhos pela primeira vez. Só por um segundo. E foi estranho perceber: Caio Valença parecia mais confortável sendo desejado do que sendo cuidado. Aquilo apertou alguma coisa dentro dela.
— Tu fala umas coisas muito tristes casualmente.
O canto da boca dele subiu minimamente.
— Você fala coisas violentas casualmente.
— Justo.
O celular dela vibrou no balcão. “Mãe”. Ela atendeu ainda olhando pra ele.
— Oi.
— Filha… teu tio passou mal.
O corpo inteiro dela gelou.
— O quê?
— Pressão caiu. Ele quase desmaiou agora há pouco.
Ela já tava pegando a bolsa.
— Eu tô indo.
— Maíra? — a voz da mãe saiu nervosa — A gente talvez precise fechar a oficina uns dias…
Aquilo bateu nela igual soco. Porque pela primeira vez… a ideia da oficina realmente acabar pareceu real. Muito real. Ela desligou rápido demais. Respiração curta. Coração acelerado. Caio percebeu na hora. Claro que percebeu.
— O que aconteceu?
— Meu tio passou mal.
Ela passou a mão no rosto nervosamente.
— E se ele parar agora… eu não sei como vou segurar tudo sozinha.
Silêncio. Longo. Então Caio aproximou-se devagar. Mais cuidadoso dessa vez. Como se ela pudesse quebrar.
— Maíra.
Ela fechou os olhos por um segundo. Cansada. Assustada. Sobrecarregada. E ouviu ele falar baixo:
— Aceita a proposta.
Aquilo doeu. Porque pela primeira vez… ela quis aceitar.
A pior parte do desespero
O hospital público cheirava a álcool, café velho e cansaço. Maíra odiava hospital. Porque todo mundo ali parecia esperando notícia ruim. Ela andava rápido pelo corredor segurando o celular tão forte que a mão já tava doendo. Caio vinha atrás dela desde a oficina. Em silêncio. Sem fazer pergunta. Sem tentar controlar nada. E aquilo, estranhamente, ajudava. A mãe dela apareceu perto da recepção assim que viu os dois. Olhos vermelhos. Cabelo preso torto. Nervosa.
— Filha…
— Cadê ele?
— Tomando soro. O médico disse que foi pressão alta e estresse.
Estresse. Claro. Porque aparentemente a vida deles tinha decidido esmagar todo mundo ao mesmo tempo. Maíra passou a mão no rosto devagar. Cansada. Muito cansada.
— Ele tá acordado?
— Tá. Mas ficou perguntando da oficina.
Aquilo apertou o peito dela imediatamente. Porque era exatamente o tipo de coisa que o tio faria. Quase desmaiando… e ainda preocupado com trabalho. Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu… percebeu a mãe olhando discretamente pra Caio. Aí pra ela. Depois pra Caio outra vez. Meu Deus. Nem no hospital.
— Mãe. — ela falou já cansada — não começa.
— Eu não falei nada.
Falou com o olhar. Pior ainda. Caio permaneceu quieto ao lado dela. Mãos nos bolsos. Postura calma. Cara cansada outra vez. Mas diferente do normal. Mais atento agora. Como se estivesse esperando ela quebrar. Ela odiava isso. Porque uma parte dela realmente queria quebrar.
— Eu vou ver meu tio.
A mãe assentiu. Então finalmente olhou pra Caio direito.
— Obrigada por trazer ela.
— Mãe—
— O quê? Educação morreu?
Caio abaixou levemente a cabeça.
— Não precisa agradecer.
A mãe dela lançou um daqueles olhares de mãe que analisam a alma inteira da pessoa em cinco segundos. E pelo jeito que ela suavizou minimamente depois… Maíra percebeu o pior: A mãe dela tava gostando dele. Perigo absoluto. O tio dela parecia menor naquela cama. Isso foi o que mais assustou Maíra. Porque ele sempre ocupava espaço. Sempre fazia barulho. Sempre parecia forte. Agora tava ali… quieto. Pálido. Cansado. Ela sentou na cadeira ao lado devagar.
— Oi.
— Tu tá com cara horrível.
Ela soltou uma risada pelo nariz imediatamente.
— Tu quase desmaiou e ainda tá implicando comigo?
— Tradição da família.
Aquilo quase fez ela chorar. Quase. O tio observou ela em silêncio por alguns segundos. Depois perguntou:
— Tu encontrou o homem rico de novo?
Ela desviou os olhos na mesma hora. Droga. Todo mundo percebia tudo nela.
— Encontrei.
— Hm.
Silêncio. Então:
— E?
— E o quê?
— Tu tá pensando na proposta.
Aquilo irritou ela instantaneamente.
— Por que todo mundo fala como se me conhecesse melhor do que eu mesma?
— Porque tua cara entrega tudo.
Ela bufou baixo. O tio soltou um pequeno sorriso cansado. Depois fechou os olhos por um instante longo demais. Quando abriu de novo… parecia mais velho.
— Maíra…
Ela imediatamente ficou séria.
— O quê?
— Se a oficina acabar… não deixa isso acabar contigo também.
Aquilo bateu forte. Forte demais. Porque ela percebeu naquele instante que o tio tava desistindo. Não da vida. Mas da luta. E isso assustou ela mais do que dívida. Mais do que despejo. Mais do que Caio. Ela apertou a mão dele rapidamente.
— Não fala assim.
— Só tô cansado.
A voz saiu baixa. Honesta. E pela primeira vez desde criança… Maíra sentiu medo de verdade. Quando saiu do quarto, encontrou Caio sentado sozinho no corredor. Os cotovelos apoiados nos joelhos. O celular desligado na mão. Olhar perdido no chão. Ele levantou os olhos assim que ouviu os passos dela. E imediatamente percebeu. Ela tava no limite.
— Como ele tá?
— Cansado.
A voz dela saiu falhando um pouco. Ótimo. Perfeito. Agora ela tava chorando em hospital igual protagonista de novela. Caio levantou devagar.
— Ei.
Ela passou a mão no rosto imediatamente.
— Não olha pra mim assim.
— Assim como?
— Como se tivesse pena.
— Eu não tenho pena de você.
Aquilo fez ela erguer os olhos. Confusa. Caio aproximou-se devagar.
— Eu acho você forte pra caralho.
Silêncio. O corredor inteiro pareceu distante por um segundo. As pessoas passando. Os médicos. As vozes. Tudo longe. Porque ele falou aquilo sério demais. Sem charme. Sem manipulação. Sem jogo. Só verdade. E isso destruiu completamente a pouca resistência emocional que ela ainda tinha. Os olhos arderam imediatamente. Droga. Ela desviou o rosto rápido.
— Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Falar comigo desse jeito.
Caio franziu minimamente a testa.
— Que jeito?
Ela riu sem humor. Pequeno. Fraco.
— Como se eu fosse importante.
Aquilo mudou alguma coisa no olhar dele. Na hora. E antes que Maíra percebesse… Caio ergueu a mão devagar e ajeitou uma mecha do cabelo dela que tinha grudado no rosto. O toque foi leve. Cuidadoso. Gentil demais. E isso foi pior do que qualquer beijo teria sido. Porque ninguém tocava nela daquele jeito fazia muito tempo.
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