O Herdeiro que Queria Destruir Minha Vida
8 CAPÍTULO 08
Notas iniciais
O tipo de toque que fica
Maíra parou de respirar por um segundo ridículo. Porque a mão de Caio ainda tava perto do rosto dela. Os dedos tinham acabado de afastar a mecha de cabelo devagar… como se ela fosse alguma coisa frágil. Aquilo era tão estranho que o cérebro dela simplesmente não soube reagir. Ela só ficou olhando pra ele. O corredor do hospital parecia silencioso demais agora. As luzes brancas. O cheiro de remédio. Os passos distantes. Tudo longe. Caio percebeu antes dela. Percebeu que tinha ultrapassado alguma linha invisível. Porque a mão dele hesitou minimamente no ar antes de descer devagar. Mas tarde demais. O corpo inteiro dela já tinha sentido.
— Tu faz isso sem perceber? — ela perguntou baixo.
Os olhos verdes permaneceram nela. Atentos.
— Isso o quê?
— Age como se eu importasse.
Silêncio. Longo. Perigoso. Então Caio respondeu:
— Talvez porque você importa.
Aquilo bateu direto no peito dela. Forte demais. Ela desviou os olhos imediatamente. Porque ficar olhando pra ele naquele momento parecia arriscado. Muito arriscado.
— Tu fala umas coisas muito perigosas.
— Você já falou isso antes.
— Porque continua sendo verdade.
O canto da boca dele subiu minimamente. Pequeno. Cansado. Bonito demais. Droga. Maíra passou a mão no rosto rápido. Precisava respirar. Precisava pensar. Precisava urgentemente parar de sentir coisas.
— Isso é manipulação emocional de rico, sabia?
— Acho que você gostaria mais se eu fosse babaca.
Ela soltou uma risada curta pelo nariz.
— Facilitaria minha vida.
Caio aproximou-se um pouco mais. Só um passo. Mas suficiente.
— E agora?
O coração dela bateu errado outra vez.
— Agora o quê?
— Tá facilitando?
Silêncio. Porque não tava. Muito pelo contrário. Ela conseguia sentir o calor vindo dele mesmo naquele corredor gelado do hospital. Isso devia ser proibido por lei.
— Tu faz isso de propósito. — ela murmurou.
— Isso o quê?
— Fica perto assim.
Caio inclinou levemente a cabeça. E ela odiou perceber que ele parecia genuinamente curioso.
— Você fica nervosa quando eu chego perto?
Ela abriu a boca imediatamente:
— Não.
Mentira horrorosa. Os olhos dele desceram rapidamente até a boca dela outra vez. Droga. Droga. Droga. Ela percebeu. Ele percebeu que ela percebeu. E o ar inteiro do corredor mudou.
— Caio.
A voz dela saiu mais baixa agora. Mais fraca. Errado. Muito errado. Ele não respondeu. Só continuou olhando pra ela daquele jeito atento demais. Como se estivesse esperando permissão pra alguma coisa. E a pior parte? Uma parte dela queria dar. Aquilo assustou ela profundamente. Porque fazia muito tempo que ninguém fazia ela se sentir assim. Vista. Desejada. Importante. Não só útil. O silêncio ficou longo demais. Os dois perto demais. Então Caio falou baixo:
— Me diz pra parar.
Ela devia ter dito. Devia mesmo. Era o momento perfeito pra recuperar o controle. Pra voltar ao normal. Pra lembrar que aquilo era ideia horrível atrás de ideia horrível. Mas Maíra tava cansada. Cansada da oficina. Da dívida. Do medo. Da responsabilidade. De ser forte o tempo inteiro. E talvez exatamente por isso… ela não conseguiu afastar ele. Os olhos dele desceram outra vez pra boca dela. Lentos. Como se ainda estivesse dando chance pra ela fugir. Ela devia fugir. Muito. Mas em vez disso… ficou. E foi isso que acabou com os dois. Porque no segundo seguinte Caio segurou o rosto dela devagar. Com cuidado demais. Como se realmente tivesse medo de machucar ela. E beijou. O mundo inteiro pareceu parar de funcionar. Maíra sentiu primeiro o calor. Depois o choque. Depois o coração entrando em colapso completo. O beijo começou lento. Quase cuidadoso. Mas durou exatamente três segundos até ela perceber uma coisa horrível: ela queria aquilo fazia mais tempo do que imaginava. A mão dela segurou a camisa dele sem perceber. E Caio puxou ela minimamente mais pra perto. Aquilo destruiu o pouco juízo que restava. Porque ele beijava como alguém morrendo de fome. Mas tentando desesperadamente manter controle. E isso era perigosíssimo. Muito. Quando finalmente se afastaram… os dois demoraram alguns segundos pra voltar a respirar normal. Maíra ainda segurava a camisa dele. Droga. Ela soltou imediatamente. Os olhos verdes continuavam nela. Mais escuros agora. Mais intensos. E pela primeira vez desde que conheceu Caio… ela percebeu que ele tava tão perdido quanto ela.
— Isso foi uma ideia horrível. — ela sussurrou.
Caio ainda perto demais respondeu baixo:
— Provavelmente.
O pior? Nenhum dos dois parecia arrependido.
O erro
Os dois ainda estavam perto demais. Perto o suficiente pra Maíra sentir a respiração dele batendo no rosto dela. Perto o suficiente pra perceber que a mão de Caio ainda segurava a cintura dela instintivamente. Aquilo era um desastre. Completo. Absoluto. E o pior? Ela ainda queria beijar ele de novo. O cérebro dela tava literalmente gritando:
ISSO É UMA PÉSSIMA IDEIA
Enquanto o resto do corpo respondia:
eu sei.
Caio foi o primeiro a se afastar um pouco. Não muito. Só o suficiente pra olhar direito pra ela. Os olhos verdes estavam diferentes agora. Menos controlados. Mais honestos. Isso assustou Maíra imediatamente. Porque até então Caio sempre parecia alguém segurando tudo. Agora não. Agora parecia um homem que tinha acabado de fazer alguma coisa impulsiva pela primeira vez em muito tempo.
— A gente definitivamente não devia ter feito isso. — ela falou tentando recuperar a própria dignidade.
— Concordo.
Mentiroso. O jeito que ele ainda olhava pra boca dela entregava tudo. Ela passou a mão no rosto rapidamente. Precisava respirar. Pensar. Voltar pro planeta Terra.
— Meu Deus.
Caio soltou um pequeno riso nasalado. Baixo. Rouco.
— Você tá surtando.
— Porque EU TENHO BOM SENSO.
— Tem?
Ela lançou um olhar mortal imediatamente.
— Não testa minha paciência agora.
O canto da boca dele subiu outra vez. E isso irritou ela profundamente. Porque Caio parecia mais leve. Mais vivo. Como se o beijo tivesse bagunçado ele também. O problema era: isso deixava ele ainda mais bonito. Desgraça. A porta do corredor abriu de repente. Os dois se afastaram rápido demais. Uma enfermeira passou olhando documentos sem prestar atenção neles. Mesmo assim Maíra sentiu o coração quase saindo pela boca.
— Ótimo. Agora além de pobre eu quase fui pega beijando homem rico em hospital.
Caio encostou na parede atrás dele. Braços cruzados. Observando ela em silêncio.
— Tu para de me olhar assim.
— Assim como?
— Como se tivesse gostando disso tudo.
Silêncio curto. Então:
— E se eu estiver?
Aquilo bateu errado nela outra vez. Forte. Porque ele não falou brincando. Ela desviou os olhos imediatamente. Perigoso. Muito perigoso.
— Isso era pra ser só um contrato idiota.
— Ainda pode ser.
Ela riu sem humor.
— Depois daquilo ali?
Os olhos dele desceram pra boca dela de novo. Droga.
— Aquilo complicou um pouco.
— “Um pouco” ele diz.
Maíra começou a andar pelo corredor nervosamente. As mãos inquietas. O cérebro pior ainda.
— Isso é horrível.
— Foi tão ruim assim?
Ela virou na hora.
— NÃO FOI ESSE O PROBLEMA.
O silêncio seguinte fez os dois entenderem exatamente o que ela quis dizer. E isso piorou tudo. Muito. Caio observou ela por alguns segundos longos. Depois perguntou baixo:
— Você tá com medo de quê exatamente?
Aquilo pegou ela desprevenida. Porque existiam muitas respostas. Medo de gostar dele. Medo de confiar. Medo de perder a oficina mesmo assim. Medo dele desaparecer depois. Medo daquilo tudo ser temporário. Mas principalmente… medo de finalmente abaixar a guarda com alguém. Ela cruzou os braços tentando se proteger de alguma coisa invisível.
— Tu complica minha cabeça.
Caio aproximou-se devagar outra vez. Mais cuidadoso agora. Como se entendesse que ela tava perto de fugir.
— Você complica a minha também.
A voz saiu baixa. Sincera. E aquilo destruiu mais um pedaço da resistência dela. Droga. O celular dele vibrou de repente. Os dois olharam automaticamente. O nome na tela fez o rosto de Caio mudar na hora. Frio outra vez. Fechado.
PAI
Maíra percebeu imediatamente.
— Atende.
— Não quero.
— Parece importante.
O telefone vibrou de novo. E de novo. E outra vez. Caio fechou os olhos rapidamente. Irritado agora. Depois atendeu seco:
— O quê?
Silêncio. Maíra observava enquanto a expressão dele piorava aos poucos. Maxilar travado. Olhar endurecendo. Mão apertando o celular forte demais. Até que ele falou baixo:
— Eu não vou fazer isso.
Outra pausa. Longa. Então:
— Não encosta nela.
O ar inteiro pareceu congelar. Maíra ficou imóvel imediatamente. Porque a voz dele tinha mudado completamente. Perigosa. De verdade.
— Eu tô avisando pela última vez. — Caio falou entre os dentes — Não envolve ela nisso.
Silêncio. Depois ele desligou na cara da pessoa. O corredor ficou quieto outra vez. Pesado agora. Muito. Maíra observou ele por alguns segundos.
— O que aconteceu?
Caio passou a mão no rosto lentamente. Cansado. Irritado. Preocupado. E aquilo assustou ela mais do que devia.
— Minha família descobriu que eu vim pro hospital com você.
Silêncio. O coração dela afundou devagar.
— E?
Os olhos verdes encontraram os dela. Sérios demais agora.
— E eles querem saber por que eu tô protegendo você.
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