Notas iniciais
eu gosto muito que a Maíra tenta parecer durona mas claramente já tá entrando em colapso interno KKKK e o pior: ela percebeu que a proposta faz sentido o que vocês fariam no lugar dela? 👀

A proposta

Maíra chegou atrasada no outro dia de propósito. Se o tal Caio Valença queria conversar às oito da manhã, problema dele. Ela apareceu às oito e quarenta e dois. Com café ruim numa garrafa térmica. Cabelo preso torto. E uma vontade sincera de mandar aquele homem pro inferno. O céu amanhecera pesado outra vez. Manaus tinha dessas: ou fazia um calor infernal, ou parecia que Deus tava prestes a despejar um oceano na cidade. Ela abriu o cadeado da oficina com força desnecessária. O metal bateu alto.

E encontrou Caio sentado na mureta em frente ao portão. Esperando. Camisa social preta outra vez. Mangas dobradas. Copo de café na mão. Como se fosse normal homem rico esperar em oficina fechada às oito da manhã. Ela odiou perceber que ele parecia cansado. Muito cansado. Daqueles homens que dormem pouco e fingem que não.

— Tu tá aqui faz tempo?

A pergunta escapou antes dela decidir não ser minimamente educada. Caio levantou os olhos pra ela.

— Vinte minutos.

— Problema teu.

Ele soltou um “hm” baixo. Sem ironia. Sem raiva. Isso irritava mais ainda. Maíra abriu o portão. O cheiro de óleo, metal e poeira escapou da oficina imediatamente. Casa. Aquele cheiro era casa. Ela entrou sem convidar ele. Mesmo assim Caio entrou atrás. Diguinho ainda não tinha chegado. Os mecânicos também não. A oficina vazia parecia maior. Mais silenciosa. Mais vulnerável. Maíra largou a bolsa no balcão.

— Fala logo essa proposta.

Caio não respondeu na hora. Olhou em volta primeiro. O elevador velho. As ferramentas. As paredes manchadas. O letreiro torto lá dentro. Como alguém lembrando de alguma coisa.

— O que foi? Nunca viu oficina de verdade?

— Vi mais do que você imagina.

Ela revirou os olhos.

— Lá vem essa história de novo.

Caio ignorou. Aproximou-se do balcão devagar e colocou outra pasta em cima dele. Ela queria muito rasgar aquelas pastas organizadas. Muito.

— Seu despejo pode ser cancelado.

Maíra cruzou os braços imediatamente.

— Em troca de quê?

— Um acordo.

— Isso já tá ficando com cara de golpe.

O canto da boca dele mexeu quase num sorriso outra vez. Quase.

— Eu preciso casar.

Silêncio. Longo. Maíra piscou. Depois olhou pra ele. Depois pra pasta. Depois pra ele outra vez.

— Desculpa… quê?

— Casar.

— Eu ouvi essa parte. Só achei que talvez tivesse escutado errado.

Caio puxou o ar lentamente. Como alguém repetindo uma conversa que já odiava.

— Meu avô deixou uma cláusula no testamento. Eu só recebo controle total da empresa se me casar antes dos trinta.

— Isso é a coisa mais novela das nove que eu já ouvi na vida.

— Também achei.

Ela soltou uma risada curta. Daquelas completamente desacreditadas.

— E por que tu tá me falando isso?

Os olhos verdes encontraram os dela direto. Firmes demais.

— Porque eu quero que você case comigo.

O silêncio seguinte foi tão grande que dava pra ouvir o ventilador girando lá nos fundos. Nhéc. Nhéc. Nhéc. Maíra ficou olhando pra cara dele tentando descobrir onde tava a câmera escondida.

— Tá de sacanagem.

— Não.

— Isso é algum fetiche de rico?

— Não.

— Tu bateu a cabeça?

— Também não.

Ela começou a rir. Rir de verdade agora. Passou a mão no rosto. Virou de costas. Depois voltou.

— Não. Não, peraí. Tu realmente entrou aqui… numa oficina caindo aos pedaços… e pediu uma desconhecida em casamento?

— Tecnicamente pedi um contrato.

— PIOROU.

Caio abriu a pasta calmamente. Tudo naquele homem era calmo demais.

— Casamento civil.

Seis meses. Sem obrigação além da aparência pública necessária. Ela arregalou os olhos.

— “Sem obrigação” foi uma frase MUITO suspeita.

— Eu estou tentando deixar claro que não quero um relacionamento real.

— Uau. Que romântico.

Ele ignorou a provocação. De novo.

— Em troca, a oficina continua funcionando.

O sorriso dela desapareceu aos poucos. Porque ali tava o problema. Ele sabia exatamente onde acertar.

— E se eu recusar?

— O despejo continua.

Ela ficou quieta. Odeio. Ódio puro. Era isso que subia pelo peito dela naquele momento. Porque ela queria mandar ele embora. Queria gritar. Queria jogar aquela pasta na cara dele. Mas atrás dela existia:aluguel atrasado, funcionários, dívida, família, clientes, contas. E Caio sabia disso. Ela aproximou-se devagar do balcão.

— Tu acha mesmo que eu venderia minha vida desse jeito?

— Não.

— Então por que tá aqui?

Caio demorou alguns segundos antes de responder. E pela primeira vez desde que entrou naquela oficina… pareceu sinceramente cansado.

— Porque eu acho que você faria qualquer coisa pra salvar isso aqui.

Aquilo bateu forte demais. Porque era verdade. Ela odiava quando as pessoas acertavam.

— E por que eu?

A pergunta saiu mais baixa. Mais séria. Caio apoiou uma das mãos no balcão.

— Porque minha família acreditaria.

— No quê?

— Que alguém como eu jamais escolheria alguém como você por interesse.

Silêncio. Dessa vez pesado. Muito pesado. Maíra sentiu alguma coisa estranha apertar dentro dela. Não tristeza. Não exatamente. Era pior. Porque ela entendeu o que ele quis dizer. Oficina. Graxa. Pouco dinheiro. Vida simples. Ela era o tipo de mulher que família rica nunca esperaria ver ao lado dele. E Caio percebeu na hora que tinha falado errado. Porque os olhos dela mudaram. Fecharam. Esfriaram.

— Sai da minha oficina.

Ele respirou fundo.

— Maíra—

— Sai.

— Você não terminou de ouvir.

— E tu não terminou de me insultar, aparentemente.

Ela pegou a pasta e empurrou com força contra o peito dele.

— Pega essa merda e vai embora.

Caio segurou a pasta antes de cair no chão. Os dois ficaram perto demais por um segundo. Ela percebeu o cheiro do perfume dele. Madeira. Chuva. Café. Idiota.

Até cheiro bonito ele tinha.

— Eu não quis ofender você.

— Mas ofendeu.

— Eu só—

— Não. Tu só tá acostumado a falar com as pessoas como se tudo fosse negócio.

Ela abriu o portão da oficina.

— Agora vai embora antes que eu perca a paciência de verdade.

Caio ficou imóvel por alguns segundos. Como se quisesse dizer alguma coisa. Mas no fim apenas pegou a chave do carro. E antes de sair, parou perto dela outra vez.

— A proposta continua de pé.

Maíra cruzou os braços.

— Vai pro inferno.

Ele assentiu lentamente. Como se já tivesse ouvido coisa pior. Então entrou na SUV preta e foi embora. A chuva começou no mesmo instante. Forte. Pesada. Maíra ficou parada olhando a rua vazia enquanto a água batia no telhado da oficina. E odiou perceber que uma parte dela… uma parte pequena, desesperada e cansada… tinha considerado aceitar.

A chuva caiu o resto da manhã inteira. Grossa. Barulhenta. Pesada. Daquelas que fazem o telhado da oficina parecer que vai desabar. Maíra fingia trabalhar. Porque era isso que tava fazendo desde que Caio foi embora:

fingindo. Tentou responder cliente. Tentou fazer orçamento. Tentou organizar peça. Mas a cabeça continuava presa naquela frase.

“Porque eu acho que você faria qualquer coisa pra salvar isso aqui.”

Ela odiava como ele tinha acertado.

— Maíra?

Ela levantou os olhos. Seu tio tava parado perto do elevador segurando um copo de café. Camisa velha. Boné azul desbotado. Olheiras profundas. Mais cansado que o normal.

— Hm?

— O que aquele homem queria?

Ela desviou os olhos imediatamente.

— Nada.

Mentira ruim. Péssima. Seu tio conhecia ela desde criança.

— Maíra.

Ela soltou o ar devagar. Não queria contar. Porque falar em voz alta fazia tudo parecer mais real.

— O terreno tá em processo de despejo.

Silêncio. O som da chuva pareceu aumentar. O copo de café desceu lentamente da mão dele.

— Como assim?

Ela entregou os papéis. Observou o tio lendo cada linha devagar. A expressão dele mudando aos poucos. Peso. Cansaço.

Culpa. Aquilo apertou o peito dela imediatamente.

— Tu sabia?

Ele demorou pra responder. E isso já respondeu tudo. Maíra sentiu o sangue subir quente na mesma hora.

— Tu sabia?!

— Eu tava tentando resolver.

— RESOLVER COMO?!

Diguinho levantou a cabeça lá dos fundos da oficina. Até os mecânicos ficaram quietos. O tio dela passou a mão no rosto. Velho. Muito mais velho do que ela lembrava.

— Depois que teu avô morreu apareceu dívida que eu nem sabia que existia.

— E tu escondeu isso de mim?

— Eu não queria te preocupar.

Ela riu. Sem humor nenhum.

— Funcionou super bem.

O tio apoiou os papéis no balcão.

— Esse homem voltou hoje?

Ela ficou quieta. Silêncio demais. E foi aí que ele percebeu.

— O que ele quer?

Maíra cruzou os braços imediatamente.

— Nada que importe.

— Maíra.

— Ele fez uma proposta idiota.

— Que proposta?

Ela olhou pro teto. Respirou fundo. Depois falou rápido:

— Casamento falso.

O silêncio seguinte foi tão absurdo que até Diguinho deixou cair uma chave inglesa no chão. CLANG. Ninguém falou nada. Porque todo mundo tava ocupado processando aquilo. Seu tio foi o primeiro.

— Ele quer o quê?

— Casar.

— Contigo?

— Infelizmente.

Diguinho começou a tossir tentando não rir. Maíra lançou um olhar mortal pra ele.

— Não tem graça.

— Desculpa. — ele falou rindo ainda — É que parece novela.

— EU SEI.

O tio dela não tava rindo. Nem um pouco. Pegou a cadeira do escritório e sentou devagar. Como quem sentiu a coluna pesar dez anos de uma vez.

— E o que ele oferece?

Ela demorou um pouco pra responder. Porque essa era a pior parte.

— Quita o despejo.

O olhar do tio subiu imediatamente pra ela. E ela percebeu. Percebeu o exato segundo em que ele começou a considerar. Aquilo doeu mais do que devia.

— Nem pensa nisso. — ela falou na hora.

— Eu não falei nada.

— Mas pensou.

Ele desviou os olhos. Pronto. Confirmação. Maíra sentiu vontade de gritar. Porque agora parecia ainda mais real. Mais possível. Mais perto.

— Eu não vou casar com um homem que eu conheço há DOIS dias.

— Falso casamento não é casamento de verdade.

Ela virou tão rápido que a cadeira atrás dela quase caiu.

— Tu tá ouvindo o que tá falando?!

— Eu tô ouvindo que a oficina vai fechar em menos de um mês!

Aquilo bateu forte. Porque ninguém levantava a voz ali desde a morte do avô dela. Ninguém. O tio respirou fundo imediatamente depois. Arrependido.

— Desculpa…

Mas Maíra já tava irritada demais. Machucada demais.

— Não. Não faz isso comigo.

Ela apontou pra oficina inteira.

— Isso aqui também é minha vida. Tu acha que eu não sei o que tá acontecendo?

Os olhos dela começaram a arder. Ódio. Cansaço. Medo. Tudo junto.

— Eu acordo todo dia pensando em conta. Durmo pensando em peça. Vivo pensando nessa oficina.

Ela passou a mão nervosa no cabelo preso.

— E agora aparece um homem rico maluco querendo me comprar igual contrato de carro?

— Ele não tá te comprando.

— Ah não? Então o que é isso?

Ninguém respondeu. Porque todo mundo ali sabia. Ela pegou a bolsa em cima do balcão.

— Pra onde tu vai? — Diguinho perguntou.

— Respirar antes que eu jogue alguém dentro do rio.

A chuva ainda tava forte quando ela saiu. Nem levou guarda-chuva. Precisava esfriar a cabeça. Andou sem direção pela rua molhada enquanto carros passavam levantando água perto da calçada. E quanto mais andava… pior ficava. Porque ela continuava pensando nele. No jeito calmo. No olhar cansado. Na forma como parecia controlar tudo. E principalmente no fato horrível de que… a proposta fazia sentido. Aquilo era o pior. Se fosse completamente absurda seria fácil recusar. Mas não era. Ela chutou uma pedra molhada no meio da rua.

— Inferno…

O celular vibrou no bolso. Número desconhecido. Ela atendeu irritada:

— O quê?

Silêncio. Depois a voz dele. Calma demais.

— Você sempre atende telefone assim?

Maíra parou de andar na mesma hora.

— Como tu conseguiu meu número?

— Diguinho me deu.

— EU VOU MATAR ELE.

Do outro lado da linha, ela jurou ouvir um riso baixo. Pequeno. Rápido. Quase inexistente. Mas ouviu.

— Eu liguei porque você saiu sem ouvir o resto.

Ela fechou os olhos. A chuva escorria pelo rosto e cabelo agora.

— Não existe “resto”.

— Existe.

— Eu não vou casar contigo.

— Você ainda tá pensando nisso como romance.

— Porque casamento NORMALMENTE é romance.

— O nosso não seria.

Aquilo fez ela ficar quieta por um segundo. E Caio percebeu. Claro que percebeu. Homem irritante.

— O que tu ganha com isso além da herança?

Silêncio curto. Depois:

— Liberdade.

A resposta saiu estranha. Mais sincera do que ela esperava. Ela franziu levemente a testa.

— Liberdade de quê?

Mas ele não respondeu imediatamente. Só o som da chuva ficou entre os dois. E quando Caio falou outra vez… a voz parecia mais cansada do que fria.

— Da minha família.

Notas finais
ok talvez o Caio tenha aparecido cedo demais na vida da Maíra 😭 mas sinceramente? eu teria mandado ele embora no primeiro “preciso casar” também