O Herdeiro do Titã
25 Emily, uma Garota Entediada
Notas iniciais
Depois de passar pelo quarto de um homicida, uma academia militar, uma biblioteca, um bangalô de surfista, uma floresta tropical insana e um velho barraco, o quarto de Emily era... totalmente comum, tal como o quarto de qualquer adolescente por aí.
Comparado com os outros quartos de herdeiros eu tinha visto na Casa dos Imortais, aquele era bem pequeno como se fosse uma casa qualquer. Piso de madeira, paredes brancas com alguns pôsteres, uma estante com alguns CDs e livros, uma escrivaninha com cadeira e aparelho de som, e uma cama com uma outra porta do lado. Sentada em uma poltrona simples, estava uma garota, usando uma jaqueta de couro marrom, uma camisa amarela, jeans e botas. Os cabelos ruivos estavam presos em um rabo-de-cavalo, e os olhos castanhos olhavam, distraidamente, a tela do iPod em sua mão.
— Er... olá? – eu disse, hesitante. Não seria a primeira vez que um inimigo tentava me enganar, fingindo estar distraído. Mas ela nem sequer me olhou,
— Ei! – tentou Lucy, acenando com a mão. E, dessa vez, Emily olhou para nós.
— Hm? Ah, são o Herdeiro de Cronos e outra semideusa. – ela bocejou. – Que saco... Vou ter mais trabalho.
Emily tirou os fones de ouvido, deixou o iPod em cima da escrivaninha e se virou para nós.
— Aí, se importam de irmos pro outro cômodo? – ela perguntou. – Meu quarto não tem espaço pra bagunça e eu não quero que nada aqui quebre.
Sem nem esperar resposta, Emily andou em direção à outra porta, ao lado da cama, e passou por ela, nos deixando no quarto. Eu e Lucy nos entreolhamos, sem entender nada do que estava acontecendo.
— Ei! Vocês dois querem vir de uma vez? – Emily exclamou. – Eu queria terminar logo com isso!
Meio impressionados, acabamos por seguir Emily, atentos a qualquer emboscada... mas nada aconteceu. A porta do lado só levava um aposento cheio de entulho e restos de construções, como pedaços de colunas e paredes. E em pé sobre uma coluna quebrada, Emily nos observava, com as mãos nos bolsos do casaco.
— Relaxem. Eu não sou do tipo de usar armadilhas idiotas. – ela disse, com o mesmo tom entediado. – Eu sou Emily, Herdeira de Hélios, o titã do Sol. E, pra vocês saberem, eu não estou nem aí para o que os titãs querem ou pra essa guerra besta.
— Hein? Como assim? – perguntei sem entender direito.
— É isso que você ouviu, Herdeiro de Cronos. Eu detesto essa porcaria toda de deuses e monstros. – ela respondeu. – É um saco. Só continuei aqui porque os outros herdeiros disseram que quando isso tudo acabasse, eu poderia ter uma vida normal. Por isso, eu quero terminar logo com isso.
— E ajudar os titãs? – Lucy exclamou. – Como quer ter uma vida normal, se o mundo for destruído por eles?
— Isso não é da conta de semideuses. Você, Herdeiro de Cronos, você vai até o próximo salão e vai fazer o que os titãs mandarem, pra eu ter a minha vida normal!
Certo, Emily estava definitivamente passando de todos os limites. Girei meu relógio e apontei a foice contra ela. Me cansei daquela reclamação egoísta e da voz entediada, como se tudo no mundo fosse uma bela porcaria.
— Isso é sério? – ela perguntou, encarando a lâmina da foice. – Você aponta mesmo sua arma contra os seus iguais? É um completo idiota.
— Cale essa maldita boca. – retruquei, com a voz ácida. – Tudo o que você faz é ficar reclamando como uma velha! Eu não sou obrigado a escutar esse papo-furado. Então você vai sair da nossa frente e, se quiser mesmo uma vida normal, basta deixar a Casa dos Imortais e fim de história.
Emily me olhou com de um jeito estranho. Uma mistura de raiva e descrença. Era um olhar de completa repulsa, como se eu fosse alguma coisa asquerosa e que lhe despertava fúria.
— Seu... rato imundo e nojento! – Emily exclamou, e senti o ar começar a esquentar ao nosso redor. – Quem você pensa que é pra me dar ordem?! Você vai completar o plano dos titãs, nem que seja na marra!
E o calor estourou à nossa volta, como se eu estivesse no topo de um vulcão. As rochas da sala racharam com a súbita mudança de calor e a onda de calor nos derrubou, como uma enorme onda quente de choque, que vinha de todos os lados, nos jogando contra os pedaços de parede largados no lugar. Agora entendi o que Eron quis dizer sobre Emily ser “durona”... ela era completamente insana!
Se ficássemos ali íriamos virar churrasco, então eu e Lucy corremos para trás de uma pilha de entulho para nos protegermos, enquanto as explosões de calor continuavam.
— Alguma ideia brilhante? – ela praticamente gritou, para se fazer ouvir entre os ataques de Emily.
— Acho que sim... – respondi no mesmo tom. – Vamos por lados diferentes! Eu distraio e você ataca!
Certo, era um truque meio óbvio e não iria ganhar o prêmio de “Melhor Plano de Contra-Ataque do Ano”, mas se funciona em todos os filmes de ação... deveria valer a tentativa. Eu não sou Annabeth pra ter mil e uma estratégias na manga e não dava pra pensar em algo mais elaborado em um inferno de explosões como aquele. Fiz um sinal para Lucy ir pela esquerda, enquanto eu ia pela direita, me protegendo atrás de cada parede ou coluna quebrada que encontrava.
— Onde estão vocês, seus cretinos?! – Emily exclamou. As explosões de calor pararam, mas ela esava claramente enraivecida. – Apareçam!!
Sabe, supostamente uma pessoa devia se acalmar depois de “explodir”, mas ou essa regra não se aplicava à Emily, ou ela precisava explodir muitas coisas pra esfriar a cabeça. Teria que arrumar uma distração para que Lucy tivesse uma chance de acertar um golpe nela... precisava chamar a atenção de Emily para mim. Peguei um pedra do chão e jogo para o lado, e o som ecoou pelo salão.
— AAAAHH!! – ouvi Emily exclamou e um raio de luz passou perto de onde a pedra bateu.
A luz era tão ofuscante e quente que tive que tapar os olhos e virar o rosto. “Luz do Sol? Isso é sério?”, pensei ao sentir o calor diminuir. “Esse jogo é pra matar!”
Continuei a me esgueirar e consegui ver Lucy de relance. Estávamos diametralmente opostos no salão... ou vai ou racha. Girei o relógio de pulso, e fiquei frente à frente com Emily.
— Olha, pra uma garota que tem proteção do titã do Sol... você é meio pálida demais. – eu a provoquei. Precisava manter a atenção dela em mim. – Devia usar seus poderes pra se bronzear um pouco.
— Cale essa boca! – ela ergueu a mão, que começou a brilhar com incandescência. Ia mandar outro “raio de Sol”.
Quando ia disparar, algo a deteve. Uma flechada direto no ombro... Lucy.
— ARGH!! Sua... – Emily se virou na direção do disparo, o que acarretou em mais flechas em seu outro braço e nas pernas, levando-a ao chão. — ... garota miserável, eu vou...
Mas Emily não completou sua ameaça. Por que? Porque eu acertei a cabeça dela com o cabo da foice, tentando nocauteá-la. Acho que fui bem sucedido, já que ainda dava pra ver ela respirando.
— Vamos embora daqui. – falei, guardando a foice no relógio outra vez. – Ela não vai ficar no chão pra sempre.
Lucy assentiu e procuramos a porta seguinte em meio aos destroços, e a encontramos atrás de um pedaço de parede e um armário velho, coberto de mofo.
— Vamos lá. – falei, respirando fundo. – O último salão deve ser por aqui.
Seguimos pelo corredor, com passos apressados. O núcleo da foice de Cronos estaria logo à frente, e poderíamos acabar com isso tudo.
Só mais um pouco.
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