O Herdeiro do Titã

26 O Núcleo de Cronos


Notas iniciais
Mais um capítulo saindo pra vocês! Espero que gostem e nos vemos lá embaixo!

O corredor para o último salão era, de longe, o mais bem cuidado de todos os outros na Casa dos Imortais. O piso era de mármore branco e bem polido, quase como se fosse limpo diariamente. As paredes eram claras e sem uma teia de aranha ou mancha de umidade.

Mas apesar de todo esse extremo cuidado com o ambiente (ou talvez justamente por causa dele), o lugar todo parecia mortificado. O ar era tão parado que parecia que se você tentasse respirar, ficaria com a garganta entalada. E o completo silêncio fazia ecoar cada um de nossos passos, quase como se estivéssemos batendo no chão com marretas enormes.

— Isso é... assustador... – comentou Lucy.

Eu tive que concordar. Era como se alguém tivesse pego um super controle remoto universal e apertado o botão de “Pause” no mundo inteiro, deixando-o congelado no tempo. Mas eu nunca senti isso quando usei meus poderes...

— Isso é... influência de Cronos? – me pergunto. – Nunca senti algo tão terrível...

Continuamos andando pelo corredor morto e sem fim, tentando ficar calmos, mas a cada passo ecoado, ficávamos em alerta outra vez, esperando um ataque vindo do nada. Aquilo estava me deixando maluco e desesperado... E eu só queria que acabasse... O corredor ou a minha vida, o que viesse primeiro. No caso, foi o corredor. A última porta era de uma madeira negra e polida, com batente de um metal dourado, do tipo que você imagina estar na sala de um executivo figurão ou coisa assim, com exceção de que essa aqui guarda o que pode ser a “chave do fim do mundo”. A melhor parte é que sou o único que pode usar essa chave.

Olho para Lucy, que só assente com a cabeça, e empurro a porta, abrindo-a aos poucos. Por bem ou por mal, agora esse é o fim da linha.

*****

O salão era um espaço grande e vazio, parecido com o interior de uma esfera. A única coisa lá dentro era esse caminho suspenso que levava até o centro do salão, onde tinha algo brilhando em rubro. Um tipo de cristal irregular, negro e flutuante.

— Aquele é... O Núcleo? – Lucy me perguntou.

— É... Eu tenho certeza. – eu disse.

Na verdade, não tenho a menor ideia de como sabia disso, mas sabia. Eu podia sentir a essência de Cronos em todo aquele salão e especialmente vindo daquele cristal. Hesitante, fui caminhando até ele, cada passo lento e pesado como se eu estivesse me movendo em câmera lenta.

“Isso mesmo, David”, ouvi uma voz fria e um tanto metálica. “Só mais um pouco e tudo estará acabado.”

— Cronos... – eu sussurrei.

— O que? – Lucy perguntou.

— Cronos... Está falando comigo... – eu disse, colocando uma das minhas mãos na cabeça, sentindo que estava ficando maluco.

“Vamos, David.”, Cronos falou outra vez. “Só preciso de uma alma de semideus para me alimentar e poderemos acabar com tudo isso! Pegue a garota, jogue-a no cristal, e ela será consumida por mim!”.

— Cale a boca... – disse para mim mesmo, segurando minha cabeça com mais força. – Me deixa em paz... Droga...

Sinto Lucy segurar meu ombro.

— David, calma. – ele falou. – Só temos que destruir o núcleo e tudo aqui estará terminado. Os titãs não vão se erguer, o Olimpo não será destruído, tudo vai voltar ao normal. Só preciso atingir ele com a Flecha de Apolo e estará feito.

“Semideusa estúpida”, a voz metálica de Cronos ressoa na minha mente. “O núcleo...”

— É indestrutível, Lucy. – falei. – Lembra-se do que Eron nos contou? O núcleo de Cronos em si não pode ser destruído de forma alguma. Ele só se torna mais frágil quando está ligado a algo orgânico, quando está absorvendo uma vida...

A mão de Lucy hesitou como se tivesse entendido. Para a gente vencer, um de nós não iria voltar.

— “Com uma flecha de Apolo... o mundo ou um coração irá se quebrar”.— recito a última parte da profecia. – Alguém tem que se sacrificar para termos uma chance.

Eu ia dar um passo em direção ao cristal, mas Lucy me segura.

— Então... Deixa que eu vou! – ela exclamou.

Mas eu nego com a cabeça.

— Não tenho a precisão boa como você. – respondi. – Se eu errar, não teremos outra chance e você vai morrer. Nós dois sabemos que eu é que devo segurar o núcleo e você deve atirar.

Antes que ela possa fazer qualquer coisa, eu tiro o relógio que Leo havia feito para mim e entrego a ela.

— Pra que se lembre de mim... Diz pro Leo que eu gostei muito do relógio e que foi muito útil até o fim.

Lucy olhava o relógio como se fosse algo belo e terrível ao mesmo tempo. Eu só pude dar um sorriso e andar em direção ao cristal de Cronos.

“David, seu tolo!”, eu o ouvi exclamar, mas claramente ele não conseguia fazer mais nada além de ficar gritando na minha cabeça. “O que pensa que está fazendo?! Jogue a garota no núcleo e tudo estará terminado!”

— Fica quieto, Cronos. – eu falei em voz alta, sentindo mais confiança do que eu esperava. Afinal, era uma decisão sem volta. – Eu não sou seu herdeiro. Eu sou um semideus.

Eu agora estava frente a frente com o cristal. Engoli em seco e ergui a mão para segurá-lo.

— Sabe Lucy... Quando eu cheguei ao Acampamento Meio-Sangue, queria mais acreditar que era tudo um sonho maluco e muito ruim. Queria voltar a ser apenas o David de sempre, o cara que não se encaixava em lugar algum, e que mal conseguia ler uma página de um livro sem ter uma crise absurda de dor de cabeça.

Minha mão se fechou ao redor do cristal de Cronos e eu quase gritei. A dor era insuportável. Meu braço ardia como se estivesse sendo incinerado de dentro para fora e várias lâminas invisíveis e incandescentes perfurassem toda a carne exposta. Ao olhar para a minha mão, notei que estava literalmente descascando. Pedaços da minha pele se desprendiam do meu corpo e flutuavam ao meu redor, deixando um braço enegrecido, parecendo o leito seco de um rio em uma terra arrasada pelas chamas. Eu estava sendo descontruído, pedaço a pedaço.

Sentindo a dor gritante e a desconstrução subir até o meu rosto, me virei para Lucy... Com certeza, eu não estava com uma aparência muito agradável.

— Mas quer saber de uma coisa? – tentei dizer, lutando contra a dor. – Depois de conhecer você, o Percy, a Annabeth e os outros... Tudo ficou incrivelmente melhor pra mim. Pela primeira vez na vida, eu fiz amigos de verdade, e não me sentia mais um cara deslocado e sem lugar no mundo. E, se eu pudesse fazer tudo outra vez, mesmo sabendo que eu terminaria assim, eu escolheria repetir tudo. Tudinho.

Estiquei o braço que segurava o cristal para ela.

— Então, Lucy, por favor... Atire. – pedi, sentindo uma pequena lágrima rolar pela parte ainda não desconstruída do meu rosto. – Pra que você e os nossos amigos possam ficar tranquilos por mais algum tempo.

Mesmo dali, pude ver Lucy morder seu lábio inferior trêmulo, tentando não chorar, as poucas lágrimas cristalinas que corriam por suas bochechas. Ela pegou o arco e a Flecha de Apolo. Mesmo sem estar olhando diretamente para mim, eu sabia que ela não ia errar.

Cronos urrava em protesto, mas não conseguia fazer nada. Era como se estivéssemos isolados de todo o resto do mundo. Lucy puxou a corda do arco. A flecha estava na mira. Ela disparou, e então se virou para a porta e saiu correndo. Ela deixaria a Casa dos Imortais, para buscar nossos amigos e voltar para Nova Iorque, para o Acampamento Meio-Sangue.

A flecha vinha zunindo em minha direção. Virei a palma da mão para cima e abri lentamente, de modo que o núcleo de Cronos estava ali, ligado a mim por uma distorção na minha pele.

Quando a flecha atingiu em cheio o cristal, senti meu braço ser arrebentado. Soltei um urro de dor, e minha consciência começou a apagar.