O Herdeiro

1 Nada fora do ordinário


Notas iniciais
Olá, feliz em te ter aqui. Essa é a primeira parte da história, serão 4 capítulos para começar a "alta-fantasia" de verdade. Mas me de uma chance e te prometo: vai valer a pena :)

Sua mãe tinha chamado fazia alguns minutos quando Arturo finalmente abriu os olhos sentindo o cheiro do café vindo lá de baixo.

Podia ouvir o jornal da manhã na televisão enquanto no fogão o pão francês de ontem amolecia na chapa da frigideira. A luz do sol invadia o quarto vinda pelo corredor, mas sua janela e cortina estavam fechadas. Arturo se levantou e abriu a janela empurrando o tecido da cortina para o lado, olhando o dia lá fora. Faria calor, pois no céu não havia uma única nuvem, tudo que via era o cinza no horizonte repleto de prédios. Mais um dia na terra da garoa. Pensou pegando suas roupas do chão ao pé da cama. Curiosamente estavam enfrentando uma crise hídrica por falta de chuva.

— Arturo, já se levantou? — Fina, como Serafina era chamada pela vizinhança, gritou lá de baixo.

Arturo soltou um “a-hã” enquanto esfregava os olhos. Com as roupas na mão perambulou pelo corredor do segundo andar até o banheiro onde encarou o reflexo no espelho enquanto colocava a pasta na escova de dentes.

Com uma mão escovando os dentes, a outra arrumou o cabelo. Era um garoto de dezesseis anos, não muito diferente da média. O rosto tinha algumas espinhas e o peito começava a criar cabelos, os braços eram finos e as canelas também, o que fazia Arturo duvidar de si mesmo na metade do tempo, na outra metade estava tentando beijar alguém (isso é: beijar Alicia).

Colocou sua calça jeans escura e a camisa branca do colégio, calçou um par de tênis iate preto e correu escada abaixo para a cozinha. Sua mochila estava em uma das cadeiras. Guto, seu pai, estava sentado no balcão vendo a televisão na sala enquanto sua mãe, do outro lado do balcão, terminava de tirar os pães da frigideira e colocá-los em um prato, salpicando orégano por cima.

— Bom dia bonitona. — Arturo disse passando pela mãe e dando um beijo em sua bochecha. Contornou-a de um lado ao outro e quando terminou a manobra, tinha uma fatia de pão amanteigado quente na mão. Mordeu um pedaço indo pegar uma garrafa de iogurte na geladeira. — Bom dia pai.

— Não vai tomar café? — Fina perguntou quando ele pegou a mochila e viu se tudo estava no lugar.

— Tô atrasado. — Arturo respondeu enquanto tirava o fone de ouvido da mochila e ia indo em direção à porta. — Tchau pai, mãe. Amo vocês!

— Quer uma carona? Estou saindo daqui a pouco. — Guto ofereceu sem tirar os olhos do jornal da manchete de novos heróis surgindo no país. Arturo tinha um poster deles no seu quarto.

Seu pai trabalhava em uma fábrica, na linha de produção, seu horário não era muito fiscalizado porque o ponto era anotado com caneta e o supervisor estava de férias, então eles estavam trabalhando com mais liberdade de chegar atrasado e saírem mais cedo. Caso contrário Guto já teria saído bem antes. Mesmo assim, para Arturo a carona era ruim.

Se esperasse pelo pai chegaria cedo demais na escola e teria que aturar os alunos mais velhos, e repetentes. Se fosse por conta própria corria o risco de chegar atrasado.

— Não preciso. Ainda não pelo menos. Obrigado! — Sorriu para o pai e saiu deixando-os sozinhos. Ouviu pela janela sua mãe dizendo “vai com Deus”.

Atravessou a rua correndo enquanto uma moto vinha à distância e contornou o quarteirão, descendo rumo ao supermercado. O ônibus passava na esquina do supermercado, mas ele podia vê-lo contornando o quarteirão da frente pelo segundo cruzamento depois do que ele estava. Em instantes estaria no ponto e ele ainda não havia chegado. Rápido. Pensou, segurando as alças da bolsa com firmeza e saindo correndo.

Contornou o supermercado só para ver o ônibus passar ali e parar na esquina, no ponto. Continuou correndo, mas quando chegou na metade do quarteirão o ônibus na esquina fechou a porta e voltou a acelerar. Arturo soltou os músculos de seu corpo como uma marionete arriada e suspirou. Agora eu aceitaria a carona.

*****

Pegou o ônibus seguinte.

Estava sentado quando se deu conta que seu ponto já havia chegado. Com fones e fichário na mão Arturo se levantou depressa, fechou o fichário sem trancar as argolas, pediu licença e correu para fora do ônibus. Ainda bem que tinha mais gente pra descer.

Correndo, atravessou a rua para a escola. Era a Escola Estadual Pedro Manuel de Toledo. O portão ainda estava aberto e ele conseguiu subir até sua sala. Dobradinha de química, pediu licença ao professor Geraldo e se sentou enquanto atraia alguns olhares de julgamento dos outros alunos.

— […] é que eu peguei trânsito e aí quando…

— Tudo bem, Artur. — Ele nunca o chamava de Arturo. Mas não era o único, Arturo sequer se incomodava. — Sente-se. Sua folha está lá já.

— Prova? — Perguntou, andando de costas para não virar a cara para o professor.

— Atividade. — Geraldo retorquiu apontando para ele como se quisesse chamar atenção, foi quando Arturo tropeçou.

Titubeou retomando o equilíbrio. O fundo da sala irrompeu em risos contidos, ou não. Ele corou na hora.

— Desculpa…

Virou-se olhando para onde tinha tropeçado. E engoliu as palavras na hora. Era a mesa de Alice Dutrov, a menina mais bonita da turma, e, não por acaso, por quem Arturo tinha não uma queda, mas uma avalanche inteira de emoções. Verdade que na maior parte do tempo ele olhava para os seios dela, mas o rosto era igualmente belo. Alice era delicada e simpática, seus olhos pareciam pequeninos e as bochechas quando sorria viravam duas bolas avermelhadas na pele parda. E o sorriso… Arturo perdia-se toda vez que Alice sorria.

Ela fez um sinal de que estava tudo bem. Arturo fez que sim com a cabeça e continuou caminhando para trás. Se sentada duas carteiras atrás de Alice, olhou a atividade.

— Como eu dizia sobre o ácido do limão…

Geraldo continuou com alguma explicação qualquer.

Arturo não prestou atenção, ficou olhando um dos ombros de Alice enquanto o outro estava coberto com o cabelo ondulado. Ele não precisava prestar atenção, estava um ano adiantado diferente de boa parte da turma que era repetente e ainda entendia bem de química e todas as outras matérias. Além de tudo era considerado um prodígio preguiçoso, sabia falar inglês, espanhol e francês e começava a arranhar no italiano. Conhecia bem a história do país e do mundo, decorava datas com facilidade e aprendeu a mesclar isso com os eventos do mundo, rapidamente percebeu que a facilidade para decorar números podia servir bem a outros fins; fórmulas. Foi quando começou a decorar as fórmulas de física e matemática. Não era muito bom com contas, exceto probabilidade. Foi à única coisa que lhe trouxe conforto, porque conseguia decorar as fórmulas, executava as possibilidades e excluía as menos prováveis. Nunca, desde que começara a usar aquele sistema, teve notas abaixo de oito ou nove.

Então olhou para a atividade. Pegou seu lápis e abriu um sorriso, sabia como fazer todas as questões.

*****

Quando o período de aula acabou, todos deixaram a sala. Todos, exceto Arturo. Ele pegou seu fichário e tentou organizar um pouco as folhas amassadas e misturadas. Saindo da sala, Alice olhou para ele e voltou até sua mesa.

— Quer ajuda? — Alice perguntou com um sorriso cortes, batucando com a ponta dos dedos na mesa ao lado.

— E… Eu, eu que… Quero… não, quer. — Parou de falar e respirou fundo.

— Tá bom, então eu vou indo. — Alice deu de ombros se virando novamente e como um mágico em espetáculo que hipnotiza a plateia e depois solta o encanto Arturo piscou se deparando com a realidade. Ela estava indo embora.

— Não, fica! — Disse de uma vez, então ele meteu uma mão na cara. — Aí, eu tô parecendo um idiota né? — Perguntou acariciando o próprio cabelo, pensando se estava bagunçado, penteado, como ele estava, queria ter um espelho que só ele pudesse ver, ajudaria muito nessas horas.

— Não. — Alice puxou uma cadeira e se sentou sorrindo, aquele lindo sorriso. — Bem, talvez um pouco, mas não importa… então, o que aconteceu aí?

— Ônibus atrasado, estudos, fone de ouvido, pressa, tudo junto.

— Então enfiou o fichário aberto na mochila?

— É. E agora tenho que organizar as matérias… De novo.

— Porque não fez isso durante as aulas, sempre acaba primeiro e fica sem fazer nada.

— Porque eu tava… — Apreciando você. Completou em sua mente, mas teve a decência de não falar aquilo. — Descuido meu.

— Me olhando né?

— Eu? Não… — Começou, mas o sorriso de Alice era do tipo que sabe a verdade e espera que você não minta sobre. — Como você sabe? — Ele retorquiu de cabeça baixa.

— Um espelho. — Ela puxou a maquiagem de bolso. – Serve para mais coisa que ver meu reflexo.

— Tava me espionando?

— Eu que estava te espionando ou o contrário? Pervertido… — Alice abriu um sorriso brincando, mas então o celular em seu bolso tocou. Ela pegou para dar uma olhada rápida. — Olha, eu já mandei mensagem pro meu pai vir me buscar e ele acabou de chegar. Tá aqui a matéria de história em ordem, tenho que ir.

Ela entregou deixando em cima da mesa umas folhas de história todas juntas com os furos alinhados. Inclinou-se e deu um beijo sem estralo, mas macio na bochecha de Arturo que ficou parado feito estatua. Quando ela pegou as folhas de história? Ele nem mesmo percebeu quando isso aconteceu.

— Ei, bobão. — O último professor olhou para Arturo que estava há dois minutos e meio parado sentado na cadeira. — Tchau.

— A… Tá. — Arturo levantou e guardou o fichário na mochila. Olhou ao redor, só havia sobrado ele e o professor na sala e o professor ria dele como se visse graça naquilo tudo.

Ela me beijou. Era a única coisa que pensava.

*****

Quando saiu da escola, Arturo não podia conter sua felicidade e estava cheio de ideias vagas, delirando como quem ganhou na loteria. Andava torto como um bêbado, porque andava suspirando com borboletas no estômago.

A escola ficava em um bairro de comércio pequeno, as ruas eram quase sem movimento, tendo o auge quando as escolas abriam os portões. Então as crianças se dispersavam pelas ruas até minguarem. Ali, aqueles quarteirões adentro, Arturo se deparou parado na frente de uma lojinha olhando seu reflexo na vitrine. Como eu estou bonito hoje. Na verdade, não estava nem um pouco diferente de ontem ou no dia anterior a este. Era tudo efeito de um beijo. Então, no céu, uma nuvem passageira cobriu o sol e seu reflexo deu espaço para o interior da loja.

— Isso é ainda mais bonito. — Ele pensou em um sussurro levando a mão no bolso, na carteira. Será que dá?

Ali, na vitrine, uma boneca de porcelana estava apoiada em um pedaço de madeira de uma casinha de bonecas Barbie. Ele foi até a porta da lojinha olhando o estilo daquele estabelecimento… Era diferente. A fachada em madeira branca talhada a mão, via-se o rústico dos talhos para dar formas as tábuas, a pintura parecia recente, mas suja pela poeira e poluição da cidade. Estavam próximo do coração da cidade. Abriu a porta e entrou.

Lá dentro o ambiente era como o esconderijo de um cleptomaníaco. Todos os cantos tinham algo, caixas com livros, panelas rústicas, brinquedos antigos, ferramentas de jardinagem penduradas na parede, o teto tinha dezenas de lustres, mas apenas uma luminária do século passado estava realmente funcionando. Havia tags de preços em praticamente tudo, mas os preços estavam em branco na maioria dos produtos. Em outro canto havia pilhas de tapetes enrolados e o chão de madeira também estava coberto por tapetes velhos e puídos. O único lugar com algum espaço era o balcão de madeira avermelhada, mas mesmo este tinha uma caixa registradora, potes com balas, chicletes e outros doces além de vários enfeites como budas de porcelana, suportes para incensos e coisas do tipo. Olhou para o balcão, atrás dele na parede havia uma placa escrita “Loja de Variedade” e em baixo “não entre se não for comprar”.

— Em que posso ajudar jovem? — Uma senhora surgiu pela fresta do balcão para o interior da lojinha. Parecia muito simpática e com um sorriso de vó que faz bolo de fim de semana. Uma visão bem diferente do que esperava após ler a placa de só entre se for comprar.

Arturo olhou para trás procurando outra pessoa. É obvio que é comigo. Então olhou para a mulher, mas acabou erguendo os olhos para a placa.

— A boneca da vitrine…

— Oras, pegue ela. — A senhora disse apontando enquanto contornava o balcão indo até o centro da loja. — É um presente, ou você ainda está nessa fase de brincar?

— Eu não, presente. Para uma menina… Só estou dando uma olhada agora. — Arturo começou, mas a mulher mudou a feição, não ficando rude, mas menos carinhosa. — Não sei se tenho todo o dinheiro comigo…

Ele pegou a boneca e deu uma olhada. O rosto e as mãos eram de porcelana, mas o corpo era de tecido com enchimento, em um vestido bordado pequenino, com um chapéu daqueles emplumados, tudo em miniatura e com muitos detalhes.

— A boneca talvez agrade. Mas talvez ela prefira flores. — A senhora sugeriu então.

— Você não vende flores. — Arturo não titubeou. Viu de tudo ali, menos flores ou animais, ou qualquer coisa viva.

— Mas sei que sua paquera preferirá flores. A idade é uma eterna aliada, menos para correr. — Ela sorriu para ele, então se virou retornando ao balcão.

Arturo saiu de perto da vitrine e foi recuando também, quando viu na prateleira uma lamparina que lhe chamou a atenção. Era de bronze, e tinha um único botão na base, a parte interna possuía um globo metálico suspenso por cordas de aço, mas o globo parecia estar coberto por uma fina camada de ferrugem por falta de uso. Parece algum tipo de mecanismo eletromagnético antigo. Ele encostou no vidro e então desceu o dedo até o botão de girar. Havia uma seta em forma de mão indicando o lado para qual deveria ser rodado, então ele, sem pensar duas vezes, girou.

O botão estava duro.

Foi quando a senhora devia ter chegado ao balcão e tornou a olhar para ele.

— Não encoste…

Ela começou a falar, mas o botão soltou um pequeno estralo. Arturo olhou para trás… E aconteceu.

Soltou o botão e um brilho surgiu dentro da lamparina, como se emanando do globo metálico suspenso, ele se virou e a senhora parecia desacreditada. Isso não é energia elétrica ou fogo. Foi seu pensamento enquanto o brilho lá dentro crescia de forma autônoma.

Arturo sentiu o ar sumir como se todo o oxigênio tivesse sido consumido naquele momento e sobrasse apenas carbono ou então o vácuo do universo, provavelmente seria o vácuo porque ele tentou respirar, mas não havia nada para entrar nos seus pulmões ou sair, não existiam partículas ali, vazio total, mas como isso é possível? Nada disso importava, quando ele pensou em começar a se preocupar com o ar para seus pulmões algo pior aconteceu, na frente de seus olhos as paredes, o teto e a velhinha, os moveis prateleiras de vidro, os lustres e os tapetes… Tudo parecia uma caixa de papelão sendo desdobrada. O que eu fiz? Ele gelou entendendo o protesto da mulher tentando imaginar se ela não teria um ataque do coração e morreria ali. Então o inesperado se tornou ainda mais surreal; o céu também se desdobrou, uma coisa incompreensível se fazia a margem de seus olhos, conforme o céu se abria em vez da escuridão do espaço surgir com o brilho das estrelas, um esplendor branco o cercava, em volta de seus pés tudo convergia até sumir por completo o próprio mundo onde estava. O planeta deixou de ser e ele era sozinho naquele sem-fim branco para todos os lados.

E a caixa desdobrada que o mundo ao se redor havia se tornada voltou a se dobrar de forma diferente como se tivesse sido virada do avesso na base de seus pés, ele não estava mais em quatro paredes, o céu era alaranjado com pôr do sol, uma construção enorme se fazia e ao seu lado casas surgiam, casas estranhas que ele nunca havia visto. Onde estou? Tudo tomou forma pessoas surgiram distorcidas pelas paredes da realidade se levantando, vestidas com capas de camurça chapéus longos, tinha coisas no céu que ele não pode distinguir bem ao certo, a forma gigantesca era um castelo repleto de torres no topo de uma colina de pelo menos 100 metros de elevação ao lugar onde ele estava, então tudo estava bem, havia ar, havia chão, horizonte, terra e vida. E se alguém ali, naquela multidão de gente estranha falando em uma língua que ele nunca tinha escutado, notou ele, ninguém fez questão de olhar. Arturo moveu um pé e tudo voltou a convergir com o mesmo efeito de caixa se abrindo e se refazendo do outro lado… óh não, o que é isso… Tentou correr, mas parecia não adiantar, não conseguia se mexer naquele estado e o ar sumia novamente, tudo se desfazendo e as paredes da loja surgindo junto das prateleiras de vidro e a velhinha…

— Ai meu deus — Arturo berrou recuando um passo, pisou em falso no nada, os olhos ficaram pesados quando tudo se tornou borrado e sentiu apenas o corpo caindo sem forças para processar o que acabara de acontecer.

Desmaiou.

Notas finais
Fim do 1° capítulo. Espero que tenha gostado, e já fica por aqui para o segundo? que tal. Vem ver o que o Arturo é capaz....