O Herdeiro

2 A lamparina bidimensional


Dilma olhou o corpo caído no chão. Não ficou surpresa, aquela era, visivelmente, a primeira vez que o garoto viajava entre dimensões. Na primeira vez sempre igual, enjoo, dor de cabeça, pressão, cai, desmaios… Pelo menos não vomitou nos tapetes.

Ela olhou para as vitrines de sua loja, as cortinas suspensas simplesmente se soltaram tapando o sol do lado de fora e impedindo que os forenses vissem o que acontecia ali dentro. Dilma olhou para o teto e os variados lustres se acenderam iluminando o ambiente. Depois das precauções básicas, Dilma encarou a lamparina.

O globo metálico suspenso estava envolto por uma quantidade assustadora de energia residual. Era como ondulações de plasma, presas por gravidade ao globo, contornando-o, acinzentada e translucidas. Dilma se aproximou e observou com cuidado. Aquela situação só acontecia quando muita energia era dissipada no transporte bidimensional abandonando a carga residual aprisionada no veículo de transporte. No caso, a lamparina.

No entanto, nem mesmo os Miswl abandonavam aquela quantidade absurda de energia. Um rastro desses só pode significar uma coisa. Dilma pensou temerosa. Aquele garoto não era um simples humano. Nem um simples mago, nem bruxo, nem feiticeiro. Ele é algo muito maior, mas o quê? Aquilo havia, rapidamente, fugido de sua competência de exilada.

Então abriu o compartimento de vidro da lamparina, olhando a energia com uma malícia terrível. É errado. Disse para si mesma, mas, na verdade, não havia nenhuma lei que a proibisse. Não aqui pelo menos. Com o indicador esticado, chegou perto de tocar aquela forma maleável de energia ao redor do globo, sentiu a vibração do véu e recuou.

Mais poder do que se pode ter é o caminho para o desconhecido e para a destruição. Forçou-se a parar. Foi para o balcão onde abriu uma gaveta e pegou uma bolinha do tamanho de uma bolinha de gude de vidro, era transparente e incolor, mas assim que Dilma encostou nela o interior se revirou e era como se a galáxia ali fosse contida. De volta a lamparina, ela esticou a mão, mexeu os dedos e a energia residual pareceu responder, se desvencilhando do globo, flutuando no ar como uma pluma sendo levada pelo vento. Com a outra mão, Dilma fez a bolinha de vidro flutuar entre seus dedos e uma foi de encontro a outra até que a energia residual se dissolvesse em partículas como faíscas que adentravam a bolinha de vidro, fazendo o pequeno universo ali contido se desmantelar em cinzas. Quando terminou, a bolinha translucida era cinza como uma nuvem chuvosa, não havia rastro algum de um universo ali dentro ou de qualquer coisa anormal na lamparina.

— Pronto. — Disse por fim agarrando a bolinha cinzenta e a guardou no seu bolso.

Fechou os olhos pensando no que aquilo poderia lhe conceder. Talvez o meu caminho de volta. Mas não valia a pena pensar naquelas insanidades. Foram aqueles erros que a fizeram ser banida. Se continuasse naquele caminho acabaria morta. Atrás dela o garoto soltou um gemido, acordando.

— O que aconteceu? — Apoiado na parede, Arturo perguntou enquanto acordava de seu desmaio.

Dilma olhou para ele e então retornou ao balcão, se apoiando.

— Está melhor? Meu nome é Dilma Darttis. Pode me chamar de Dona Dida, todos me chamam assim.

— O que acontece? — Arturo se colocou de pé, bamboleando. A mochila no chão ao seu lado. — Eu, onde quer… Eu morri?

— Quem morre tocando em uma lamparina? Isso seria ridículo. — Ela respondeu com um pouco de humor na voz, não queria ver o lado ruim daquele menino, sequer imaginava como alguém poderia matar ele. — Você entrou em Ipeiros com uma chave dimensional.

— Sim, claro… — Arturo se engasgou olhando ao redor. Foi quando reparou na porta com persianas fechadas, e janelas com cortinas. Os lustres acesos, sem saída, sem testemunhas. — E que ano eu tô?

— Isso vai depender da dimensão.

— Quê? — Ele foi até a porta para ir embora, então lembrou da mochila, deu de ombros rolando os olhos.

— Existem dois mundos nesse planeta, duas dimensões dividindo o mesmo espaço. O seu mundo, esse. E o meu, aquele que você viu. Lá é oito mil em Ipeiros ou, dependendo das ilhas no leste ou oeste muda. Aqui continua dois mil!

— Que horas…

— Vai dar três da tarde.

— Eu deveria estar em casa faz tempo. — Arturo pegou a bolsa e abriu o bolso do meio olhando se estava tudo lá, afinal de contas estava desacordado por um tempo. Também verificou seus bolsos.

— Sua mãe não vai brigar se falar a verdade.

— Que viajei para um mundo que nem existe? Olha, a senhora…

— Que estava com a garota, ela não vai brigar, acredite em mim. — Dilma disse indo até a porta junto de Arturo. — Se quiser, volte amanhã e término de te contar a história.

— Obrigado, mas acho que não. — Ele disse sorrindo, atravessando a soleira.

— Não me disse seu nome.

— Arturo, mas o que isso importa?

— Até amanhã Arturo. — Dilma disse para ele e o garoto fez um tchau com a mão e saiu andando atravessando a rua, jogando a mochila nas costas.

Dilma foi até a porta e então voltou a entrar em sua lojinha, balançou o braço de cima para baixo, os lustres se apagaram, as cortinas se abriram enquanto ela bamboleava para de trás do balcão. Era uma mulher experiente, sabia ler curiosidade quando via transbordar nos olhos de alguém.

Arturo era assim, um garoto poderoso e incomum naquele planeta. Dilma não fazia ideia do que ele era, mas tinha suas dúvidas e dentre as dúvidas havia certezas; o garoto não sabe de nada. Se soubesse não teria tido aquela reação, não teria fugido e mais que isso, não retornaria. Pois dentre as certezas, Dilma sabia que ele voltaria.

*****

Não muito depois que o garoto saiu, outros dois clientes entraram, olharam e nada compraram. Até que um terceiro entrou.

Um homem de barba feita e camisa social branca, ele tinha as mangas arregaçadas e um olhar atento, um tanto sedutor. O cabelo era grande o bastante para ser penteado para trás, mas não o bastante para cair abaixo das orelhas.

— Me chamou?

— Levou seu tempo, veio remando pelo Ospyo? — Dilma perguntou, carrancuda.

Jasper fez uma careta para ela e então fez o mesmo movimento que Dilma mais cedo, janelas se fecharam com as cortinas, a porta se trancou, lustres aumentaram de intensidade.

— O que tem de tão urgente?

— Isso. — Dilma puxou a bolinha de seu bolso.

— Um receptáculo… — Jasper começou a falar, em um tom de quem iria debater com Dilma, mas ao encostar no item percebeu, Dilma estava certa em lhe chamar. — De onde veio essa energia?

Dilma abaixou a cabeça recuando um passo.

— Não fui eu! Não sou besta de quebrar nosso acordo, só vendo chaves. Você sabe disso!

Jasper, de repente todo tenso, decidiu aliviar seus músculos. Colocou uma mão no bolso e alinhou a coluna dando uma volta ao redor do balcão.

— O que ainda não responde à pergunta.

— Um menino. Veio comprar algo para uma garota, encostou na lamparina e foi parar em Miun Saar, no meio de Ovar Azkar no coração. Voltou em segundos, mas deixou um rastro enorme. Disse para ele voltar outro dia.

— Não preciso citar o problema que é você, dentre todos os exilados, estar usando portões ativos para Miun Saar, não é? E ainda mais em um caso desses… aqui tem magia o bastante para explodir esse quarteirão inteiro! — Jasper disse olhando o receptáculo acinzentado, então o espremeu em seus dedos até estourar.

O som foi como de um vidro sob pressão, faíscas acinzentadas brilhantes escaparam por entre seus dedos e retornaram, como se puxadas por um imã, entrando na sua própria pele, até desaparecerem por completo dentro dele. Jasper fez uma expressão de dor, mas ao mesmo tempo prazer. Dilma apenas observou. Toda aquela energia era parte do próprio véu e eles o manipulavam. Jasper manipulava quantidades absurdas, era um dos poucos que tinha autorização para absorver aquele poder, para conter e impedir o caos que poderia vir daquela energia.

— Eu fiz tudo que pude para ajudar. Imaginei que fosse querer ver e saber logo. O garoto se chama Arturo, não sabe de nada pelo visto. É inocente e bem tolo para ser sincera.

— Eu pediria para que você não se aprofundasse mais nesse assunto, mas acho que já é tarde para isso também, não?

— Eu o descobri. De certa forma quero ao menos saber que fim o garoto vai levar. Você não vai…

— Me conhece melhor que isso, Darttis. — Jasper disse olhando para a lamparina, a mesma que Arturo havia encostado alguns momentos antes. — Porém terei que levar o assunto para os Anciões. No fim das contas talvez não devêssemos ter descoberto ele.

— Jasper… — Dilma olhou para o homem e fez que não com a cabeça. — Você sabe o que eles farão. São cegos de medo desde a última guerra.

— Sim eu sei… e conto com isso. Preciso ir, Darttis. — Jasper encerrou a conversa. Tirou a mão do bolso e nela apertava um objeto que Darttis mal conseguiu ver. Jasper foi se tornando transparente e diminuindo de tamanho como se enrugasse após secar ao sol até desaparecer por completo na frente dela, em menos de dois segundos.

Era assim que o transporte entre dimensões parecia visto de fora.