O Grito

2 O Sumiço


Capítulo II

Guilbert estava transtornado. Bufava e socava as paredes enquanto descia pelo elevador. Andava em direção ao estacionamento de Cléber imaginando como ele teve a coragem de lhe negar algo que sabia ser seu bilhete para a liberdade. Tinha plena convicção de que seria bem sucedido se o amigo da vida toda desse o suporte que precisava. “Safado!” Quando precisou de dinheiro para montar sua Bat Caverna, não pensou duas vezes em raspar o que tinha e entregar à ele, mas não ia ficar assim. Provaria a todos que não era o peixinho dourado, mimado e dependente que ele e seus pais achavam.

Dirigiu feito um louco repassando todos os itens de seu plano B. Plano B... Uma coisa que Cléber sempre dizia que todo mundo deveria ter, e ele tinha prestado atenção. Durante a semana de prazo que o amigo havia lhe pedido, criou um caminho alternativo, caso as coisas não saíssem como o esperado. Já tinha quase tudo alinhavado e esperava surpreender Cléber.

—Resgate de um fundo de investimentos — ia precisar de uma boa soma em dólares e euros.

—Cartões de crédito

—Mapas

—Despachante internacional

—Passaportes

—Passe de trem ilimitado

—Seguro viagem

—Aluguel de carro

—Roupas e calçados da estação

—Mochilão

—Notebook foda.

—Iphone com um novo ship

—Guia local

—Outro Hacker

Para os pais, manteve o plano do estágio fictício em Virgínia. Eles nunca checavam nada mesmo. Entregou um atestado, que custou os olhos da cara, no departamento de pessoal. Despediu-se do Garfield com alguns brinquedos e uma ração especial — ele tinha um gato -, e partiu no dia seguinte.

O voo estava atrasado, e seria um prenúncio de mau presságio caso não tivesse checado novamente o tempo, documentos e conferido os contatos que o despachante lhe passara por whatsapp na noite anterior. Ainda olhava para o salão buscando pelo rosto conhecido, achando que ele poderia ter algo a ver com a irritante espera de três horas, mas não. Não tinha comido nada desde que acordara e o estômago começava a reclamar, mas o estresse tinha fechado sua garganta e até água era difícil de engolir. A ansiedade lhe provocava suor e tremores nas mãos. Não era pela viagem. Tinha feito isso inúmeras vezes com seus pais. Seus pais... Nunca havia viajado sem eles ou sozinho com Cléber. “Putz, 27 anos e nunca viajei sozinho? Cléber tem razão. Sou um merda mesmo!”

Sacudiu a cabeça espanando os pensamentos quando o alto falante finalmente anunciou o voo e o portão de embarque. Com o bilhete e o passaporte ainda em mãos, deu um última olhada no salão esperando que Cléber o viesse resgatar ou dizer que iria com ele. Estava arrependido das besteiras que havia dito, mas também achava que precisava cortar o cordão umbilical. Respirou fundo e entrou no túnel.

O voo foi tranquilo. Desceu em Heathrow quando anoitecia, uma vista deslumbrante por sinal, mas seu destino ainda estava bem distante. Precisava do carro de aluguel, mas, pensando bem, nem com um bom mapa e o GPS conseguiria chegar onde pretendia. Estava morrendo de fome de comida de verdade, precisava de um banho e dormir. As últimas horas tinham sido de um estresse devastador.

A forma mais rápida de ir de Londres para Essex era de trem. Havia um direto, com saída da Liverpool Street e chegada Witham (Essex) em cerca de uns cinquenta minutos. De carro levaria uma hora a mais. Estava meio enrolado e o sotaque britânico podia confundir um pouco, mas conseguiu chegar à plataforma a tempo de pegar o que estava para sair. Depois dele, amargaria mais trinta minutos de espera.

Até que o hotel reservado pelo despachante não era dos piores. Teria tempo de descansar e planejar o roteiro de investigações. A vontade era de ligar para Cléber, mas queria ter algo mais substancial antes de fazê-lo. Seria seu bem intencionado pedido de desculpas, com uma distância reconfortante para sua bunda branca. Sorriu imaginando a cena ridícula, e foi dormir.

Acordou bem cedo na manhã seguinte. O clima não estava dos melhores e a rinite o tinha atacado. A mudança brusca de temperatura sempre lhe causava uma coriza desconfortante.

Desceu para o salão de refeições localizado em uma área espaçosa, cuja imensa parede de vidro duplo dava visão para a parte externa. Aguardava o guia, enquanto desforrava a fome em um laudo café da manhã. De repente, um cara atarracado, com roupas inadequadas para a neve que começava a cair, acenou com entusiasmo do lado de fora. Provavelmente era seu guia. Sinalizou de volta, convidando-o a entrar. Uma neve discreta começava a cair e o cara devia estar com frio.

— Bom dia sir.

— Pode me chamar de Guilbert.

— Sim, sir. Por onde gostaria de começar? Quer conhecer a cidade, a mineradora, os pubs?

— Quero ir à vila.

Os olhos do guia se arregalaram denunciando medo e desconforto. Guilbert ficou excitado com a evidência do que havia pesquisado por meses. Realmente, a vila causava terror aos locais.

— Qual o problema? Você já não foi pago por isso?

O despachante tinha contratado o serviço do guia mediante pagamento de cinquenta por cento adiantado e o restante ao final da incursão.

— Prefiro devolver o dinheiro, sir. – disse se levantando e sacando um envelope de um dos bolsos da calça.

— Peraê, vamos conversar primeiro. – Guilbert também se levantou. — Não precisa ser tão radical. Podemos chegar a um acordo?

— Deus não anda por aquele lugar, sir. Aconselho a não andar por lá também. Não foi feito para turismo. Sou um homem pobre, mas se eu soubesse que era lá que pretendia ir, não teria aceitado o trabalho. Perdão. – colocou o dinheiro sobre a mesa e foi embora.

— Ora essa, e agora? – jogou o guardanapo com raiva sobre a mesa.

Pasmo diante a fuga do Hobit gordinho, ligou imediatamente para o despachante.

— Você está sendo muito bem pago pra me deixar numa enrascada dessas. E agora? Quanto tempo mais vou ter que esperar até que me arrume outro que não seja cagão? – vociferava pelo celular.

— O quê? Dois dias? Tá maluco? Não tenho dois dias!

Para piorar seu estado de espírito a neve passou a cair com maior intensidade. Guilbert voltou para o quarto aumentando a temperatura do aquecedor, mas a rinite não melhorou. Não tinha considerado que fosse adoecer, algo facilmente previsível levando em conta a temperatura horrorosa e a baixa imunidade advinda do estresse. Cléber teria antecipado algo assim.

Com o celular na mesinha de cabeceira, ligou a TV e zapeou inúmeras vezes por todos os canais procurando por algo que prendesse sua atenção. Seriam dois dias de espera. Dois dias . Um inferno para alguém ansioso como ele. Comprou alguns antialérgicos e caixas de lenços de papel pelo serviço de quarto e foi para o notebook. Após páginas e páginas, não conseguiu nada de relevante que pudesse acrescentar sua pesquisa. “Como Cléber faz falta...”, pensou. Ao menos estariam bebendo e conversando enquanto a neve insistia em cair. Nenhum ser humano normal sairia com aquela tempestade. “Sossega Guilbert. Tudo no seu tempo.”

Os antialérgicos costumam ter o efeito colateral de tombar qualquer um, e com ele não foi diferente. Acordou sem ataque de espirros ou coriza, mas parecia que um Scânia tinha estacionado sobre seu cadáver. Estava péssimo. Tomou um banho bem quente, pediu serviço de quarto e ficou checando qualquer toque do celular. Vez ou outra fuçava o Facebook de Cléber, mas ele não tinha postado nenhuma indireta ou novidade nos últimos quatro dias. Estranhou.

A neve decidiu dar uma trégua e no fim da tarde o despachante fez contato. Os deuses nórdicos escutaram suas preces. Seu ânimo subitamente foi injetado com altos níveis de endorfina. Sentia-se revigorado. Outro guia tinha aceitado as condições e, por incrível que pareça, era uma mulher. Guilbert estava excitado e curioso. Alguém do sexo feminino tinha mais bolas que os homens do lugar. Contudo, só estaria disponível em mais dois dias e por um valor duas vezes maior que o do antecessor. ‘Tudo bem. – pensou. – Só espero que valha cada centavo. “Por culpa daquele bundão não tenho crédito ilimitado.”

Hanna era o nome dela. Uma garota baixinha de vinte e três anos. Por alguma razão, a empatia foi imediata. Falava pelos cotovelos, como se tivesse guardado muita informação e não tivesse com quem dividir. Contou que tinha se formado em administração, mas os constantes assédios não deixavam que se firmasse nos empregos por muito tempo. Não recusava serviço, desde que fosse digno. Depois de juntar o suficiente, queria de sair do país e conhecer o mundo, mas o que dificultava eram os cuidados com sua avó. Morava com a idosa do outro lado da cidade, em um vilarejo praticamente habitado por funcionários dos hotéis. Contou também que era filha de mãe solteira e que ela tinha ido embora há muitos anos com um turista. A avó era sua única parenta conhecida, por isso lhe devia toda consideração. Justificou a demora em atendê-lo, pois a avó tinha ficado extremamente perturbada quando disse qual seria o trabalho da vez, mas ela fugiu e foi assim mesmo. Muita informação em menos de cinco minutos de conversa. Guilbert só escutava bebericando um chocolate quente.

Hanna sugeriu um roteiro bem inteligente. Segundo ela, deveriam começar de fora para dentro. Levantar dados na prefeitura, delegacia, hospitais, centros médicos e escolas. Teriam assim a ideia do número de moradores e possíveis doenças. Guilbert não queria dizer que já tinha levantado quase todos os dados por meio de um hacker. Ela era tão bonitinha, tinha tanta energia e vontade de ajudar, que ele deixou que o dia fosse dela.

Notas finais
Continua...