Notas iniciais
Capítulo III

Não houve um dia em que Cléber não repassasse o último encontro e até mais, com o amigo de tantos anos. Tentava entender como chegaram àquele ponto. Disseram coisas bem pesadas, mas surpreendeu-se com a quantidade de mágoa que o outro guardava dentro de si. Sabia que ele era mimado e superprotegido, mas recalcado? Tinham um acordo tácito que mútua cooperação com grau de equivalência quase que instintivo. “Não é minha culpa se os pais dele o amordaçaram a vida inteira. Se não fosse por mim, ele seria virgem até hoje” — pensou — Contudo, apesar da raiva, nunca tinham ficado tanto tempo separados. Sua mãe tinha toda razão. Alguém tinha que ser o adulto da relação, e adivinhe quem seria?

Sutilmente, Cléber havia espalhado várias fotos dos dois por todo lugar, inclusive no protetor de tela de seu computador, que só podia ser ligado mediante leitura facial e acessado por digital. Lá estavam eles, em um daqueles momentos de sorrisos eternizados por um click.

Digitava com agonia crescente ao constatar que Guilbert havia viajado há semanas. Ele tinha contratado alguém para apagar seus rastros, alguém que não era da rede, mas ele ia descobrir quem. Contudo, a demora nas respostas só piorava um mau pressentimento de que algo ruim poderia estar acontecendo com ele. Estava nervoso demais e sua mãe não saía de suas costas.

— E aí? Achou ele?

— Me deixa trabalhar mãe? – falou exasperado.

— Só quero ajudar...

— Perdão mãe, mas é melhor a senhora ir pra casa. Vou ficar preso aqui até encontrar aquele idiota. – falou condescendente. – Pode deixar que darei notícias.

Cléber acompanhou-a até a porta e retornou para o computador. Bem mais tarde, naquele mesmo dia, outros três, de sua máxima confiança estavam logados em outros equipamentos, registrando cada passo dado por Guilbert, pelo hacker e despachante contratados. Agradeceu e dispensou os colegas, já podia seguir sozinho dali. A vontade que tinha era de reservar assento em um voo e partir no início da manhã, mas poderia perder seu rastro. Ao invés disso, pediu para que alguém, ligado à sua rede mundial, contatasse um funcionário do hotel e plantasse um localizador em seus pertences.

Já era alta madrugada, e após um bom banho e comer o conteúdo de um dos tupewares, Cléber divagava pelo apartamento sobre as intenções de uma determinada pessoa. Hanna, um nome que oferecia perigo. A mãe era uma desmiolada que tinha se encantado e engravidado de um dos jovens da tal vila. Os dois sumiram após o nascimento da menina que foi criada pela avó debaixo de muitas mentiras. "Provavelmente está usando o babaca do Guilbert pra saber da mãe ou pra uma armadilha, quem sabe?" — pensou — No entanto, ele também estava desenvolvendo uma curiosidade sobre o que o lugar escondia de tão sombrio. Se pessoas sumiam e ninguém se importava, era porque havia a conivência do governo local. Sua cabeça doía. Tinham se passado doze horas e precisava dormir.

Cléber acordou assustado por um alarme alto e insistente. Tinha mantido a sirene do corpo de bombeiros instalada em vários dispositivos da casa: para incêndio; invasão ou ruptura da rede. O último, e para ele o mais assustador, tinha se rompido. Não foi um episódio pontual, mas na rede mundial. Toda sua vida estava pautada na internet. Era questão de sobrevivência sua e de todos que dependiam dela. Não sabia se mover e muito menos como proteger Guilbert que estava do outro lado do mundo. Tentou contato com seus parceiros, mas até os celulares estavam desconectados. O satélite não estava operante. “O que vou fazer? O que vou fazer?”- andava de um lado fazendo uma vala no chão.

Tinha acabado de desligar o alarme quando o interfone convencional tocou.

— Quem é? – atendeu nervoso.

— Somos nós Cléber, os pais de Guilbert? Pode abrir, por favor?

“Caramba! Os pais dele aqui? O que será que eles querem comigo?”

Assim que a porta do elevador se abriu, uma senhora delicada, platinada e de salto agulha, invadiu o ambiente assoando o nariz em um lencinho de linho branco.

— Onde ele está? Onde você escondeu meu bebê?

— Senhora eu...

Cléber tentou explicar, mas foi interrompido por um homem de 1,80 de porte escandinavo.

— Ele não deve estar aqui, querida, mas certamente essa criatura sabe onde. Vamos, desembuche!

— Senhor, acho que deve estar havendo algum equivoco. Também não sei onde ele está. – Disse postando-se discretamente a frente do notebook fechando a tela que ainda mostrava o papel de parede.

Um homem grande desabou sobre seu sofá. Tinha aparência de derrotado e desconfiava que o motivo não fosse só o desaparecimento de seu filho.

— Não tenho ideia de até aonde vão suas habilidades, mas talvez você possa ser útil, finalmente.

O pai de Guilbert tinha uma impressão distorcida da amizade dos dois. Há algum tempo atrás havia contratado uns capangas para lhe dar um recadinho. Parecia que, no mundo inteiro, só o pai de Guilbert e a própria mãe enxergavam além das aparências. Ambos tinham uma grande experiência e, apesar das disparidades entre os dois, o respeito que nutriam era mútuo.

— O senhor aceita uma bebida? Acho que a conversa será longa.

Cléber tinha um bar embutido com estoque invejável, um meio de relaxar e atrair pessoas para festinhas que minimizavam sua profunda solidão. Abriu uma garrafa whisky que guardava para ocasiões especiais. Um Blended de dezoito anos, pagamento por um trabalho simples, mas bem feito.

— Estou sendo sincero quando digo que ele não está aqui. Não o vejo há semanas. – disse-lhes entregando as bebidas. — Poderia ficar ofendido com suas insinuações em minha casa, mas entendo preocupação dos senhores, também partilho dela.

Cléber era um sujeito versátil, acostumado a todo tipo de cliente e situação. Aquela era uma das que exigia ser polido e contido.

— Você sabe muito bem que eu não poria os pés aqui se não fosse algo urgente. Levei tempo até descobrir que ele tinha caído fora. Uma rebeldia insuflada por você, desde a faculdade.

O pai de Guilbert o havia talhado para assumir os negócios no ramo alimentício. Imigrante, tinha passado por muita coisa até alcançar o status e fortuna, algo nobre , mas que o único filho não tinha o menor talento para levar adiante. A esposa, uma mulher troféu, vivia alienada, flanando entre clínicas de estética e desfiles de moda. Contudo, amavam profundamente o filho, só não enxergavam que ele não era mais um bebê. Precisavam de um bode expiatório.

— Mas, não foi só o desaparecimento de Guilbert que nos trouxe aqui e isso para um homem como eu é extremamente constrangedor. Entretanto, sei que você pode vir a ser o que precisamos nesse momento.

— Sou todo ouvidos.

Aquela poderia ser a oportunidade que precisava e ele não a deixaria passar. O pai de Guilbert ficaria em dívida e ainda teria a infraestrutura necessária para trazê-lo de volta. Nada nesse mundo se fazia sem o vil metal, e aquele grosseirão tinha muito.

— Ao contrário do que possa pensar, não sou um homem rude. Posso até ter sido no passado, mas não depois de enfrentar tantas coisas nessa vida. Meus negócios dependem de certas habilidades para me manterem com a cabeça fora d’água, mas uma coisa que é necessária é a demonstração de força e impetuosidade. Você me roubou isso.

Cléber, que ouvia atento, arregalou os olhos de surpresa, mas o incentivou a continuar enquanto a esposa ainda inspecionava suas instalações com extrema curiosidade.

— Trazer Guilbert para o seu estilo de vida foi um golpe para mim. Entenda bem, não sou homofóbico, lido com pessoas do seu tipo todos os dias, mas não quero isso para meu herdeiro.

— Colocado assim dessa maneira, parece ainda mais homofóbico do que não pretendia parecer e, sinceramente, não dou a mínima para o que o senhor pensa do meu “estilo” de vida. Se isso for algo que o perturba tanto a ponto de por os pés em minha casa, posso afirmar que seu “bebê” não faz a menor ideia de minha orientação sexual. – disse levantando-se exasperado.

Cléber procurou se conter ao máximo, mas o homem estava ultrapassando os limites.

— Perdoe se o ofendi, mas sou de outra geração e o momento não facilita a polidez exigida. – Estava frio, mas secou a testa com um lenço. — Guilbert está desaparecido, você alega não saber onde ele está e, antes da queda da rede, fui hackeado. Todas minhas ações foram postas a venda por uma ninharia. Estou falido!

Aquilo sim fez todos sentarem, inclusive a senhora platinada que engasgou com o resto do whisky.

— Querido, estamos pobres?!

Foi só o que ela conseguiu dizer. Desmaiou.

— Agora podemos conversar de homem pra ... homem?

Ele estava provocando.

Notas finais
Continua...