O Grande Dia
49 Tensão Pré Casamento
Notas iniciais
O clima na casa de aquário estava tenso, mais tenso do que Camus, Isaak e Hyoga podiam suportar. Milo estava altamente reativo e enervado pela proximidade do casamento, dada a sua personalidade e os traumas sofridos na última data.
Sua instabilidade emocional acabava por deixar Camus muito nervoso, Isaak absolutamente culpado por tudo que fez e Hyoga cada vez mais distante e fechado pelo drama interno que ele vivia pelo rompimento com Shun.
Naquela manhã, na véspera do casamento, todos se arrastaram para fora de seus quartos para tomar o café da manhã da maneira mais célere quanto fosse possível, a fim de evitar novas brigas e provocações por parte de Milo e dos outros que já estavam fartos.
— Onde está o suco de laranja? – Perguntou Isaak de maneira despretensiosa ao verificar que não estava na mesa nem na geladeira.
— E EU POR ACASO SOU SUA EMPREGADA? – Destilou Milo, ao se sentir ofendido com uma pergunta tão simples.
Isaak revirou os olhos e se sentou emburrado, partindo um pão para passar manteiga. Milo, ao notar a expressão dele, falou para Camus:
— E dá pra aguentar esse tipo de comportamento na mesa logo pela manhã?
Camus respirou fundo, olhando para a sua xícara, sem dizer nada. Estava absolutamente cansado de Milo, já havia tentado de tudo, conversar, brigar, afrontar. Nada fazia o escorpiano ter um mínimo de senso e equilíbrio.
A refeição prosseguiu em silêncio por mais alguns momentos, quanto era possível apenas ouvir o som de copos sendo colocados na mesa e talheres batendo de leve nos pratos. Até mesmo nesses momentos a respiração de Milo era afetada, parecendo que algo o incomodava.
Hyoga pegou o último pedaço de pão de forma e enquanto passava geléia foi surpreendido com um grito de Milo.
— AH, CLARO, VOCÊ NÃO PRECISA PERGUNTAR SE MAIS ALGUÉM QUER, AFINAL, SÓ EXISTE VOCÊ NESSA CASA.
Hyoga permaneceu imóvel, segundo seu pão, com o olhar vidrado num ponto fixo da mesa. Passou toda a semana ignorando todas as afrontas e ofensas de Milo, tentando deixar de lado e enxergar que ele estava num momento difícil da vida.
Mas naquele momento, Hyoga não suportou mais. Ficou vermelho, muito vermelho, e teve que segurar suas mãos no formato de punhos fechados para se controlar.
— NÃO, EU NÃO ACHO QUE SÓ EXISTE VOCÊ. MAS VOCÊ SIM, MILO. VOCÊ EM SEU EXTREMO EGOCENTRISMO SÓ ACHA QUE EXISTE VOCÊ E MAIS NINGUÉM!
Milo abriu a boca e levantou-se colocando a mão na cintura numa pose bastante mexicana e afetada. Camus respirou sem saber ainda o que devia fazer, vez que Hyoga por parte estava certo no que dizia, mas devia respeito a Milo.
— COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE FALAR ASSIM COMIGO, MOLEQUE? COMO EU SÓ PENSO EM MIM? EU SÓ PENSO EM VOCÊS, ISSO SIM!
— Você tem passado a semana toda gritando com todos nós, descontando sua raiva em quem passa pela frente. Olhe isso, nem um pão eu posso comer sem ouvir gritaria! Quer saber? Eu sei o quanto você sofreu no seu último casamento que não aconteceu, eu estava lá, eu sofri também! Mas já foi, não há como mudar o passado. ESTÃO TODOS AQUI E VIVOS E BEM! VOCÊ VAI TER SEU CASAMENTO, CHEGA! PARE POR UM MINUTO DE SER TÃO BABACA E...
— HYOGA...
Camus teve de intervir com um tom de aviso antes que Hyoga prosseguisse com as ofensas.
— O QUE FOI?
Hyoga gritou com Camus, que lhe devolveu aquele olhar com uma sobrancelha levantada.
— ABAIXE ESSE TOM AGORA. Como “o que foi”? Você chamou seu pai de babaca, abaixe esse bola e converse direito. Você pode e deve externar seus sentimentos, mas sem ofensas.
— AH, ELE PODE ME OFENDER NÉ?
Camus revirou os olhos, passando as mãos pelo cabelo. De um lado tinha Milo que estava a flor da pele e de outro Hyoga que não estava nada bem por toda a história com Shun e pela primeira vez externava seus pensamentos.
— Querem saber, FODA-SE! – Levantou-se Hyoga empurrando a mesa e saindo de casa, deixando todos perplexos.
— FODA-SE DIGO EU!
Disse Milo jogando as mãos para o alto e se trancando no seu quarto com uma forte batida de porta.
Camus e Isaak se entreolharam esperando se mais alguém teria um repente de raiva, o que não aconteceu.
— Espero que as coisas melhores depois desse casamento...
— Eu também, pai.
— Se não melhorarem terei que adotar medidas drásticas, com todo mundo. Essa casa está fora de controle...
Isaak começou a recolher a louça e coloca-la na pia, enquanto Camus separava sua papelada para levar ao trabalho. Seu pensamento estava no filho e na demonstração de descontrole que o loiro demonstrou na mesa.
Camus decidiu que precisava conversar com Hyoga. Pegou seu celular.
— Hyoga.
— O QUE?
— Primeiro, OLHA O JEITO DE FALAR. Se acalme, respire e se lembre que eu não sou seu amiguinho.
— ...
— Volte para cá, quero levar você e Isaak para conversar.
Em meio a resmungos do filho, Camus desligou o telefone e aguardou até Isaak e Hyoga estarem na sala. Então, perguntou:
— Vocês querem tomar um sorvete?
Ambos trocaram olhares se questionando sobre as intenções do pai, vez que estavam certos que levariam uma bronca ou algo do tipo.
— Si-sim, pode ser...
Não tardou até chegarem à sorveteria no carro de Camus, que notava que seus filhos estavam bastante desconfortáveis. Lá, se sentaram numa mesa com sofá, a sorveteria estava vazia em função do horário.
— Hyoga, Isaak... Eu chamei vocês aqui porque sei que deve estar bastante difícil para vocês suportarem o Milo no estado atual. Eu mesmo tenho encontrado alguma dificuldade, e vivo com eles há mais anos do que vocês... Nunca o vi assim tão nervoso na verdade.
— A culpa é minha – Isaak sentenciou.
— A culpa não é de ninguém. O que passou, já passou. Só queria pedir a vocês dois um pouco mais de paciência, vez que amanhã será o casamento e creio que tudo irá passar e se tornar apenas uma lembrança tragicômica.
— Está impossível, pai.
— Eu sei Hyoga, peço que vocês façam apenas mais um dia de esforço. É só até amanhã... Depois se o Milo continuar como está, eu darei um jeito, prometo.
Ambos concordaram, não havia muito o que fazer a não ser torcer para que o gênio dele melhorasse após a cerimônia.
— Além disso, vou deixar uma regra aqui BEM CLARA: até amanhã ninguém apronta. Nenhum de vocês sai de casa sem me pedir e explicar exatamente para onde vai. Não quero repetir a experiência da vez passada.
Isaak se afundou no sofá e Hyoga acenou concordando.
— Isaak, toma – Camus lhe entregou uma nota de cinquenta – Pode pegar um taxi desse ponto aqui em frente e ir para casa terminar seus afazeres, preciso conversar com Hyoga.
Isaak não demorou a obedecer, olhando um pouco preocupado para o irmão. Sabia que o que havia ocorrido na mesa mais cedo era sério e se preocupou com o resultado. Hyoga também ficou com medo, vez que já havia apanhado em público e não desejava repedir a dose.
Depois que Isaak deixou o local, Camus respirou fundo cruzando os braços sobre o peito. Não era bom em abordar os garotos em diálogos abertos.
— Hyoga, eu quero conversar com você.
— Sim, senhor. – Hyoga respondeu numa postura militar obediente.
— Mas eu gostaria de conversar com você de outra maneira...
— Como quiser, senhor. – Os olhos de Hyoga encheram-se de água aguardando por uma surra.
Camus bateu com a mão na mesa, nervoso. Hyoga pulou assustado e Camus percebeu que estava fazendo tudo errado.
— Hyoga, primeiro de tudo, eu te trouxe numa sorveteria querendo que fosse uma conversa mais leve. Você consegue olhar para mim e conversar como se eu não fosse um carrasco.
Hyoga franziu o cenho tentando absorver as intenções do pai que gritava e batia na mesa enquanto tentava ter uma “conversa leve” com ele. Ele acabou sorrindo, aquele era Camus.
— Tudo bem pai, o que o senhor quer falar?
— Sobre você, sobre Shun, sobre o que tem feito você se fechar tanto nas últimas semanas, sobre o porquê de você tem se fechado.
Hyoga parou olhando para a mesa, ele não queria responder.
— Eu sou obrigado a falar tudo isso?
— Você não é obrigado a nada. Por hora eu ainda estou conversando com você e tentando te ajudar, mas se seu comportamento continuar como está... Eu não sei Hyoga. Estou muito preocupado, meu filho.
Hyoga suspirou.
— Sabe pai... Eu amo o senhor. Muito. Amo meu irmão, e amo até mesmo o Milo. Mas aguentar o clima de casa está difícil, ainda mais com tudo que estou passando...
— O que está acontecendo?
— Bom, eu e o Shun terminamos, você sabe.
— Sim, eu sei. Aliás, soube através de Shaka a maneira civilizada e madura com a qual se portou. Estou realmente bastante orgulhoso de você.
— Sim. Mas eu sinto falta dele, como se nossa relação não estivesse resolvida ainda. Da mesma maneira, eu comecei a conversar com o Ikki pelo whatsapp...
— Hum...
— Eu não sei, eu estou confuso. Eu quero estar com o Shun, mas ao mesmo tempo tem algo que me empurra desesperadamente para o Ikki. Eu não consigo explicar, é como se fosse mais forte que eu.
— Entendo.
— E eu sei que se eu começar algo com o Ikki significará nenhuma chance de voltar com Shun e, ao mesmo tempo, começará uma guerra entre irmãos. Eu não quero ser pivô disso. Aliás, eu não quero o Ikki. Mas eu quero ao mesmo tempo.
Camus estava imóvel.
— Pai, o que o senhor está pensando?
— Que é uma péssima hora para não contar com Milo – Camus sorriu amarelo, acompanhado por Hyoga.
— É difícil, pai. O Ikki não sai da minha cabeça.
— Eu sei como é.
— Sabe?
— Sei... Olha, eu não sei muito bem o que dizer para você. Mas comigo e Milo era igual, eu não queria nutrir o sentimento que tinha por ele, tentava afastá-lo de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Mas eu simplesmente não conseguia, não apenas pela insistência dele, mas pelo desejo que eu cultivava pelo escorpiano. Eu entendo exatamente o que você quer dizer.
— Então você quer dizer que eu estou predestinado ao Ikki, assim como você estava ao Milo?
— Não, eu não disse isso Hyoga. Mas é isso que você acha, não é?
— Talvez sim. Talvez eu... Talvez eu devesse dar uma chance e ver Ikki e...
— Eu acho que concordo, Hyoga. Veja bem, como pai, eu preciso te dizer que preferiria milhões de vezes você junto ao Shun do que com o Ikki que é uma encrenca. Mas ao mesmo tempo, tudo que quero é você feliz e com a cabeça no lugar.
Hyoga sorriu, o aval do pai era muito importante.
— Apenas tente deixar esse relacionamento às escuras por um tempo, não precisam anunciar. Vejam se conseguem manter algo sem que Shun ou qualquer outra pessoa saiba e, se perceber que era isso que queria, você pensa numa maneira de fazer com que Shun se acostume com a ideia.
— Mas essa é uma ótima ideia.
Camus sorriu internamente, pensando que talvez não fosse tão ruim em conselhos como pensava que era. Afagou o cabelo do filho enquanto se levantava e tirava a chave do carro do bolso da calça jeans.
— Vamos lá, temos um longo dia pela frente.
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