O Grande Dia
40 Em meio às Correções
Notas iniciais
POV Shion
Peguei meu celular e liguei para Dohko para pedir ajuda. Pelo que me parecia todos os núcleos familiares do Santuário estava em colapso e eu não podia cuidar de tudo, a situação na casa de gêmeos iria se complicar sem alguém para ajudar Saga a colocar a cabeça no lugar.
Eu nunca tinha visto nada parecido, dois adolescentes sumidos por tanto tempo sob a proteção de um dourado mais travesso que uma criança de dois anos. Ora, aquilo era demais, ainda mais uma traição perpetrada pelos próprios filhos e oriunda do próprio irmão. Por mais centrado que Saga parecesse, talvez aquilo fosse demais, talvez até para mim fosse além do suportável.
Ele também cuidaria de encaminhar a situação dos demais adolescentes. Precisaríamos convocar uma reunião geral para determinar a punição de todos, inclusive do meu neto que se envolveu nisso. Claro que, como o levante de fato não ocorreu, como conseguimos extirpar antes de maiores consequências, as sanções administrativas não seriam das mais pesadas.
Meu amigo Dohko era maravilhoso em sua compassividade e aconselhamento, era difícil para eu deixar as rédeas de qualquer situação de lado, mas eu precisava fazer isso – pelo bem da minha família. Dohko era o líder mais alto do Santuário em vários aspectos, isso seria trabalho para o meu tão querido amigo.
Além de ter passado os últimos dias em guerra com a família de Shaka e Mu, de ter que punir meu filho adulta, eu acabara de quase morrer num resgate de três crianças que eu quase perdi, foi fisicamente doloroso e psicologicamente exaustivo. Logo após, acompanhamos o resgate de Shun e nos deparamos com um levante arquitetado por Kanon contra o Santuário. Não tive sequer meia hora de descanso, precisei dar um corretivo em Saori.
Agora tínhamos Hyoga, Ikki, Isaak e Kiki aguardando por nossas punições. Eu simplesmente precisava de um descanso. Se não fossem os anos de experiência enquanto tutor, não sei se aguentaria aquela situação.
Camus seguia firme, e aquilo me orgulhava tanto. Ele certamente era meu sucessor, a pessoa mais próxima de mim e que mais se adequara ao meu modo de dirigir as coisas. Muitas vezes ele era mais rígido se comparado a mim em algumas situações. Sorri olhando para os meus pés quando me lembrei do ciúmes de Camus por Mu em relação a mim...
Se Camus soubesse que em alguns aspectos eu me orgulhava muito mais dele... Mas eram alguns segredos que levaria comigo e deixaria bem guardados, eu tinha outro filho telepata que se pegasse isso no ar começaria uma terceira guerra, em que pese em outros aspectos em preferir o lemuriano.
Ouvíamos gritos de fora da casa. Eu não queria saber motivos, eu não queria conversar... Camus notou minha exaustão.
— Mestre, pode deixar que eu sigo daqui. Vá descansar... O senhor está muito machucado.
— Acho melhor acabarmos com isso de vez, Camus.
— Mas descanse, eu posso resolver a situação aqui.
— Eu sei que pode, mas vamos terminar logo com isso.
Não queria jogar todo esse peso nos ombros do meu filho, ele dava conta sim, mas não era necessário. Entramos e nos dividimos em frentes. Primeiro Camus entrou no quarto de Hyoga, arrancou o videogame com brutalidade e o colocou no chão do corredor enquanto o segurava pela orelha e o arrastava para o sofá da sala.
— Ai, ai isso machuca mestre.
— Sim, isso machuca. Sabe o que ME machuca? Dar uma ordem a você e não ser atendido.
— Mas...
— Não tem mais, essa porcaria vai para a doação.
— NÃO...
— Hyoga, se você tem um mínimo de consciência e amor ao próprio traseiro, siga o meu conselho: não dê mais um pio.
Camus o jogou no sofá e saiu até a sacada, onde estavam Isaak e uma garota que eu nunca havia visto se atracando. Ele pegou o garoto e o lançou no chão da sala, eu apenas ouvi ao fundo ele falando.
— Por favor, peço que você se vista.
Se eu bem conhecia o meu filho, ele provavelmente devia estar virado de costas para ela.
— Qual é o seu nome e quem são os seus pais?
Não demorou muito até ele descobrir que a garota vivia nos arredores do santuário e era filha de dois conhecidos dele. Ele a colocou para fora assim que o táxi chegou e ligou para os pais dela a fim de contar o ocorrido.
Naquela rapidez toda eu acabei ficando apenas como observador da capacidade e agilidade do meu filho em lidar com aquela situação conflituosa. Quando dei por mim, Isaak e Hyoga já estavam sentados no sofá esperando pela bronca e eu não havia feito nada. É, minha exaustão estava me atrapalhando.
— Mestre, sente-se também, fique tranquilo.
— Não, você pegue Kiki e eu vou ter com Ikki.
Eu disse já virando as costas e arrombando a porta do quarto de Camus, que estava trancada, e sua cama era utilizada como cama de motel. Ikki me olhou quase em desespero de cima do outro menino.
— IKKI!
— Me perdoe, mestre... Eu só... Eu só...
Seus pensamentos eram nítidos, eles não estavam transando, ele apenas queria provocar Hyoga. Aquele triangulo amoroso estava absolutamente destrutivo e precisávamos resolver aquela situação o quanto antes.
— Peço que você se vista. E por favor saia daqui AGORA.
O garoto rapidamente vestiu-se e correu para fora da casa. Foi minha vez de pegar Ikki que estava vestindo sua cueca e calça, o agarrei pelo braço e fui levando até o sofá onde estavam os outros com certa agressividade controlada. Com certeza deixei seu braço doendo, e ele sentou-se cabisbaixo com a cueca e calça mal colocadas.
Avistei, então, Camus abaixado falando com Kiki que também estava sentado no sofá. O barulho todo sumiu, a casa estava um silêncio sepulcral. Milo sentou-se numa poltrona, os garotos estavam no sofá com cara de enterro e eu e Camus estávamos de pé com cara de poucos amigos.
— QUEM VAI ME EXPLICAR O QUE ACONTECEU AQUI?
Eu disse, exausto, porém extremamente sério. Por óbvio que ninguém respondeu nada. Olhei para Camus, teríamos que ir por partes.
— Kiki, depois de tudo que aconteceu, você ainda acha que precisa piorar sua situação? Você ainda nem apanhou pela presepada que aprontou com as gêmeas e já está caçando novos motivos para ser punido?
— Me perdoe, mestre Shion. Eu não fiz por mal.
— O que eu vou fazer com você... – Eu disse pressionando meus pontos de raça que ficam localizados na testa.
Camus me olhou interrogativo, ele também não sabia o que eu faria, nem mesmo eu. Não estava com cabeça para cuidar de Kiki e achava que seria melhor se Mu e Shaka fizessem isso.
— Kiki, vá para o quarto de Hyoga e não saia de lá. Não quero ver videogame, TV, computador, nada ligado! Quando eu sair daqui você vem para a casa de Áries comigo.
— Para a casa de Áries não...
Pronto, Kiki estava em prantos, sabia de seu destino. Eu queria apenas dormir, mas precisava ver se Mu e Shaka careciam da minha presença. Lá nós decidiríamos o destino do meu lemuriano caçula.
Olhei para Camus, era a vez dele.
— Hyoga, o que eu disse sobre o videogame durante a semana?
— O senhor já me puniu tirando ele de mim, não foi?
Disse Hyoga revoltadíssimo, com os braços cruzados, afundando no sofá.
— Você quer mesmo levar a conversa para esse tom?
Hyoga olhou para o pai, prevendo o próprio destino, aquela pose bonachão não traria bons frutos. Ele decidiu mudar a postura, apesar de Ikki estar ao seu lado. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ele decidiu abrir o que estava sentindo para tentar evitar a surra que se descortinava.
— Ora pai, seja razoável, o senhor nos trancou aqui. Obrigou-me a ficar encarando esse filho de uma...
— OLHA A BOCA, HYOGA.
— Me obrigou a ficar sob o mesmo teto desse senhor que carrega a armadura de fênix.
Olhei meu novo protegido se remexer no sofá, ostentando seu orgulho e má atitude através de sua postura.
— Em vez de ficar nessa porcaria, você podia muito bem ter aproveitado melhor o momento comigo, né, boneca?
Pronto, Ikki começou a provocar. Eu e Camus nos entreolhamos como que nos questionando sobre o que fazer, afinal, devíamos puni-los pelas travessuras, mas aquela situação entre eles tinha que ser resolvida por eles próprios de uma maneira civilizada.
Camus suspirou e entrou para pegar algo, me questionei o que seria enquanto encarava os adolescentes. Ele voltou com uma espécie de palmatória que não era feita de madeira por completo. Ela tinha o cabo de madeira para segurar, mas dela saia uma tira larga e grossa de plástico preto ou couro, eu não sabia ao certo.
— Isaak, abaixe essa calça.
— Ma-mas mestre... Eu, por favor... Eu...
O menino começou a implorar quase sapateando com lágrimas nos olhos. Camus continuou altivo, com os braços cruzados.
— Vou contar até três para que você esteja sem calças debruçado no braço do sofá. UM...
— Mas mestre, por favor, me ouça...
— DOIS...
— Eu só estava...
— TR...
Antes de eu terminar ele já estava debruçado no braço do sofá com a calça abaixada.
STTAP
— Isaak, a falta de respeito que você demonstrou aqui é inadmissível!
STTAP
— Além de não respeitar o Milo, você ainda acha em sua infinita rebeldia que pode fazer da MINHA casa um motel!
STTAP
— Onde está o respeito pela sua família, hein Isaak?!
STTAP
— Como você pode sonhar que em alguma constelação, você poderia trazer qualquer pessoa aqui dentro para atividades sexuais?
STTAP
— Ainda mais na SACADA, dando um espetáculo para quem quer que passasse?
STTAP
STTAP
STTAP
Enquanto Camus batia, Isaak pulava. Ele não chorava alto, não gritava. Pedia desculpas baixo e tomava cuidado para limpar as lágrimas que caíam pelo canto dos seus olhos.
— Você vai fazer isso novamente?
— Não mestre, me perdoa...
STTAP
STTAP
STTAP
— Você vai deixar de ouvir Milo novamente?
STTAP
— NÃO...
Ele já não aguentava muito. Foi quando Camus esticou a palmatória para Milo como quem dizia que ele deveria continuar aquilo. Eles não eram telepatas, mas estavam juntos há tanto tempo que conversavam pelos olhares. Era nítido que Milo não queria, mas Camus achava que ele precisava começar a se impor um pouco para que situações como aquela não voltassem a acontecer.
Eu concordava com Camus, mas achei que ele forçou um pouco. Era melhor começar mais devagar. Mas, meu filho sabia o que fazia... Ou não.
Milo levantou-se e pegou a palmatória. Levantou-a bem alto com uma careta que me fez querer rir. Milo realmente não sabia fazer aquilo. Ele desceu com força, mas parou antes de chegar no traseiro do garoto.
— AH, MEU TUCO-TUCO... PAPAI TE PERDOA.
Camus revirou os olhos vendo Milo abraçar Isaak. Não tardou até ele puxar Isaak do abraço de Milo e usar seu braço para virá-lo.
— Mas esse “papai” aqui não te perdoa ainda.
PAFT
PAFT
PAFT
PAFT
Camus havia perdido a palmatória, então dava palmadas muito fortes no traseiro de Isaak.
— Você vai sonhar em desobedecer ao Milo novamente?
PAFT
— Não, me perdoa Milo!
— Ele não bateu em vocês, mas saibam que sempre terá a mim para vir aqui e acabar com essa farra. ENTENDEU? Ele é seu pai, vocês devem RESPEITO E OBEDIÊNCIA A ELE! Eu dou a minha palavra aqui, e isso vale para você também, Hyoga! Se vocês sonharem em deixar de obedecer Milo, eu vou dar uma surra em vocês no meio da arena.
Camus me despertou lembranças. Era assim que puníamos os adolescentes que atentavam contra o Santuário de maneira mais leve. Já fazia tantos anos que eu tinha me esquecido. Quando a pena não era a morte ou o exílio, davam-se punições corporais em meio à arena. Isso na atualidade era apenas uma história do passado, mas obviamente aterrorizava os garotos pela vergonha que passariam em público. Não posso negar que aquilo me deu ideias para a próxima pauta da reunião dos líderes.
— Ok mestre, me perdoa, me perdoa... Eu juro que não faço mais.
Vi Camus abraçar Isaak com tanto carinho... Ele pegou o garoto, vestiu suas calças e o abraçou fechando os olhos, como se aquele conforto fosse para ele também. Camus estava em desaviso e parou de proteger os pensamentos, por isso eu vi o quão duro era para ele tudo aquilo. O aconchego de seu filho era dele também.
— Meu amor, por favor Isaak, não me faça ter que repetir isso. É tão duro para mim...
Isaak apenas se afundava mais ainda no peito do meu filho na vã tentativa de ninguém ver as lágrimas que caiam de sua face.
— Me perdoa mestre...
— Eu já te perdoei... Mas vou ter que te deixar de castigo. Eu não quero você fora do seu quarto, não quero você ligando o televisor e usando o celular para entretenimento. E, já aviso, se eu pegar, você vai apanhar novamente.
Isaak suspirou.
— Por quanto tempo, pai?
— Isso Milo vai decidir.
Camus olhou ressentido para Milo. Era como um aviso para que não aliviasse ao menos no castigo. Meu filho estava triste por ter que lidar com aquilo tudo sem a ajuda do companheiro e ainda ficar de carrasco pela falta de rigidez de Milo.
— Agora, meu amor, vá para o seu quarto. Mais tarde eu passo lá e podemos conversar sobre o que você quiser... Em especial sobre prevenção, pois não vi nenhum pacote de camisinha na sacada.
Vi que o garoto ficou sem graça, e foi andando esfregando os fundilhos até o quarto dele. Mas ainda faltavam dois.
— Ikki, se Isaak apanhou dessa maneira por usar a própria casa para sexo. O que eu vou fazer com você por usar a cada DOS OUTROS de motel?
Ikki não me olhava, apenas fitava o chão com a boca retraída e as mãos em punhos fechados.
— Mas acho que essa não foi sua intenção não é?
Ikki me olhou com os olhos muito abertos, como quem implora para que eu pare.
— Você não queria, certo? Você não queria transar com ninguém aqui. Você só queria provocar Hyoga.
Hyoga olhou para Ikki que tentava esconder-se em sua postura fria e indiferente, porém, ele se sentia muito traído por mim.
— E Hyoga, você, na verdade, não quis desobedecer ao seu pai jogando videogame. É que essa era a única coisa que te distraía da raiva que você sentia de Ikki estar com outro.
Camus me olhou interrogativo. Aquilo não era do meu feitio. Não, não era. Mas a minha experiência não me metendo na vida de Camus e Milo me fez ter muitos mais cabelos brancos do que eu queria ter. Aqueles dois iriam se revolver.
— Me ouçam, e ouçam bem. Vocês três, isso é, Ikki, Hyoga e Shun, irão sentar e resolver toda essa situação. Não tem problema se ninguém quiser mais namorar, se ninguém quiser ser amigo, porém vão ter que aprender a conviver de maneira civilizada! Vocês são primos!
Ikki bufou e Hyoga revirou os olhos.
— Eu não vou falar com esse babaca de jeito nenhum.
Ikki puxou Hyoga pelo colarinho.
— Quem aqui você está chamando de babaca?
Hyoga sorriu irônico e cuspiu na cara do meu pupilo que se limpou enervado e logo desferiu um soco na face de Hyoga que revidou. Assim, em menos de um minuto, tínhamos os dois atracados no chão numa luta corporal intensa.
Naquele momento me questionei se fazê-los enfrentar os sentimentos foi uma boa ideia...
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