O Grande Dia
38 Contextualizando
Notas iniciais
POV Shion
Aquela situação que a princípio eu achava ser uma mera busca por um adolescente travesso que arranjou um namorado virtual tornou-se uma grande revelação sobre algo que eu jamais imaginaria ocorrer debaixo de nossos olhos: um levante contra a autoridade do Santuário de Atena formado por nossos próprios pupilos.
Estávamos em frente a ótimos lutadores, todos desertores de nossa jurisdição. Dois adolescentes que haviam sumido e que não cogitávamos uma fuga, mas uma baixa em batalhas. Saga havia enviado Tom Rusk e Souma há um ano para uma missão de reconhecimento em território creta e os meninos nunca retornaram.
Saga nunca mais foi o mesmo, culpando-se pelo desaparecimento dos garotos numa missão complicada. O cavaleiro da constelação de gêmeos culpava-se diariamente por tê-los colocado numa tarefa além de suas capacidades enquanto cavaleiros.
Após a tranquilidade ter tomado o Santuário que estava estável com os demais reinos e sem nenhuma ameaça externa, passamos a enviar nossos cavaleiros em frentes de batalha em outras regiões. Em creta havia a ascendência de um grupo opressor que perseguia minorias étnicas e religiosas e Souma e Tom Rusk foram designados para exterminar a facção.
Não sabíamos do alto armamento bélico do grupo que fora dizimado, porém, haviam aparentemente assassinado os garotos. Foi noticiado em todo o mundo que o centro de convenção onde essa facção criminosa e extremista estava havia explodido.
Era impossível reconhecer ou identificar quem quer que seja que estivesse lá. Foi nesse momento no qual demos os dois adolescentes por mortos. Saga passou meses procurando-os, descrente que eles poderiam ter morrido. A dor no olhar de Saga sempre o acompanhou, em especial por Tom Rusk de quem cuidou desde a mais tenra idade.
E era contra ambos que eu lutaria. Não podia acreditar naquilo, eles além de bem treinados estavam se levantando contra o poderio de toda a nossa classe. Tudo que eu queria era pegar meu celular e ligar para Saga, eu sabia da dor que ele sentia, na verdade pelo meu poder de telepatia era extremamente doloroso estar perto dele pelo sofrimento que ele me transmitia sem querer.
A luta não foi fácil, vez que cai numa emboscada armada pelos cinco que me atacaram ao mesmo tempo, desviando a atenção de Camus. Se não fosse Mu e Shaka chegarem, talvez tivéssemos sofrido um pouquinho mais antes de dominar a situação.
Questionava-me como era possível estarem tão bem treinados, não poderiam desenvolver toda aquela técnica sozinhos, sem a presença constante de um adulto. Era difícil vasculhar os pensamentos dele enquanto lutávamos, ainda mais no estado em que eu estava após o resgate de Kiki e das gêmeas.
Quando estávamos prestes a neutralizá-los, a parede de cristal foi quebrada, me causando extrema estranheza. Não podia ser um deles... Não podia ser... Kanon? Me questionei o que raios Kanon podia estar fazendo lá com aqueles comentários irônicos.
Meus cavaleiros Mu, Shaka e Camus se posicionaram em ataque contra Kanon prontos para atender qualquer comando meu. Num primeiro momento eu mesmo pensei em mata-lo ou prende-lo novamente na prisão na qual ele passara tantos anos.
Mas eu precisava entender o que estava acontecendo, pois não havia mais maldade naquele coração. Não demorei até pegar seus pensamentos, Kanon estava brincando. Era mais um de seus jogos doentios – como quando era adolescente e aprontava e depois dava um jeito de Saga levar o corretivo em seu lugar.
Kanon se divertia, ele não queria que ninguém realmente se machucasse, ele não queria que alguém conseguisse tomar o Santuário. O geminiano estava apenas divertindo-se, daquele modo absolutamente questionável e irresponsável, mas divertindo-se. Ao entender isso dei a ordem imediata para Mu, Shaka e Camus não o atacarem. Eu pensaria no que fazer com ele depois.
Com meus pupilos cuidado dos garotos, pude me aproximar de Kanon.
— Isso é exagerado até mesmo para os seus padrões, Kanon.
— A nossa vida está absolutamente parada, precisamos dar a esses meninos e a nós mesmos um pouco de ação. Senão é melhor abandonar as armaduras e viver como civil.
— Sim, muitos fizeram isso. É algo muito melhor do que manipular adolescentes e criar uma falsa rebelião.
— Ah, Shion, Shion... Não exagere. Eu estava apenas brincando.
— Sim, eu sei, por isso que sua cabeça ainda está em cima do seu pescoço agora.
Kanon riu. Eu questionava-me sobre a sanidade do geminiano tão diferente do irmão centrado e disciplinado. Kanon era um bon vivant, eram um eterno rebelde, um adolescente por toda a vida. Mas daquela vez realmente havia exagerado.
— KANON, VOCÊ TEM IDEIA DO QUANTO SAGA TEM SOFRIDO PELOS MENINOS?
— Saga sempre foi sentimental demais. Os meninos estão bem, só estava dando uma folguinha para eles, veja...
Num momento parei de ouvi-lo e me concentrei na cena que se desenrolava ao outro lado do campo. Camus no chão e Shun com o punho apontando para o seu rosto. Por qual razão Camus não se movimentava para contê-lo ou se defender?
Foi quando notei Shaka com os braços cruzando observando e Mu tomando a frente. Mu? Tomando a frente? Ouvi mais de um vez o comando severo de Mu sem acreditar que era meu filho falando daquela maneira.
Foram três comandos firmes para Mu, que não se equiparavam aos comandos de Camus, mas eram bastante claros. Meu filho mandava Shun não agredir Camus.
— NÃO OUSE, SHUN.
Foi o primeiro aviso. Percebi Shun exitando, o que demonstrava um mínimo de senso, pois eu por toda a vida de Mu nunca o vi falar tão sério. Na verdade eu mal podia acreditar que Mu estava se impondo.
— SHUN, NÃO OUSE ENCOSTAR UM DEDO NO SEU TIO!
Ao perceber que seu filho continuava a exitar em atender ao seu comando, Mu falou a segunda frase. Eu me questionava sobre a sanidade de Shun que teimava em ignorar seu mestre.
Na verdade, não tardou até os pensamentos de Shun chegarem a mim. Ele estava confuso, resoltado e perdido. Queria parar, mas olhar para Camus o lembrava de Hyoga e sua traição – o que o fazia ficar cego de raiva e enxergar o garoto em Camus.
Mu acompanhava os movimentos e pensamentos de Shun, avisando pela terceira vez que aquilo deveria acabar naquele segundo:
— SHUN... Abaixe esse punho AGORA!
Shun exitou novamente, até a imagem de Hyoga e Ikki em frente à minha casa tornar ao seu pensamento. Foi quando a voz de Mu sumiu junto com a voz de sua razão. Shun desferiu o soco, não visando acertar Camus, mas um Hyoga que não estava lá.
Os pensamentos lá eram muito intensos e eu estava muito machucado, não apenas pelo resgate das crianças que tive que tirar de dentro do triturador de lixo, mas pelos golpes que havia levado dos adolescentes. Eu estava fraco, confuso e cansado – o que me fazia acompanhar os pensamentos sem filtro.
Ao que me parecia, Camus não se defendia porque queria respeitar a autoridade de Mu. Shaka fez o mesmo porque queria verificar até onde o companheiro chegaria. Já Shun estava com muita raiva reprimida e não conseguia inibir o ímpeto raivoso. Kanon se divertia e os demais estavam desmaiados.
Shun, num novo acesso de raiva, ignorou Mu e tentou socar Camus.
E, para a minha surpresa e de todos os demais, Mu ao perceber que Shun não respondia aos seus comandos e, ainda, os contrariou dando um soco no tio, tomou uma atitude. Quando Shun estava a milímetros de acertar a face de Camus, Mu o conteve agarrando sua orelha e o levantando, evitando o contato de Shun e Camus.
Mu estava vermelho, frustrado, com raiva. Shun conseguira tirar Mu do sério. Shun conseguira o que eu jamais havia visto, Shun conseguira desestabilizar meu filho. Eu observava preocupado, não entendia ao certo se meu conterrâneo lemuriano teria condições de lidar com aquela situação.
Porém, Mu e Shaka estavam juntos. Camus estava certo, aquilo dizia respeito a eles e somente eles. Nós já havíamos cumprido a nossa parte e os ajudado no resgate.
Camus se levantou e me mandou um pensamento que corroborava com a minha conclusão: era nossa hora de partir. Pegamos os quatro garotos e os colocamos no carro, tínhamos que sair de lá e deixar a família se resolver.
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