O Grande Dia
39 Começando as Correções
Notas iniciais
POV Mu
Eu peguei a orelha de Shun diferente do que já havia feito antes com ele, normalmente de leve, sem muito acreditar na minha atitude e sem deixar um recado. Dessa vez eu agarrei a orelha do meu filho mais velho com a maior convicção que tinha na minha vida e a torci com a dor que eu estava sentindo de vê-lo se desviar do caminho correto.
Eu o peguei e puxei para perto de mim com a certeza de que eu havia errado, mas ainda era tempo. Por mais que doesse em minha alma todas as besteiras que Shun havia realizado, eu ainda tinha tempo de puni-lo por mim mesmo, antes que ele fosse aprisionado ou punido pelo Santuário.
Eu sentia um misto de vergonha e alívio. A vergonha de ver um filho meu fugindo, se juntando a um levante, me desafiando... Noutra banda sentia o alivia profundo de tê-lo em minhas mãos e não perdido em algum lugar do mundo. Ainda era tempo. E eu faria valer aquela segunda chance que me foi dada pelo universo, por Shaka e por meu pai Shion.
Shun sapateava com uma careta enquanto resmungava, eu o soltei com a orelha vermelha o observando levar sua mão até ela e me olhar traído. Na visão periférica via Camus e Shion colocando os adolescentes no carro.
— Entre no carro, Shun, nós vamos conversar em casa.
Eu disse, seco, autoritário e, principalmente, decepcionado com meu filho. Shaka estava perto de mim, mas não falava muito. Eu não sabia o motivo, talvez fosse porque percebeu que pela primeira vez eu tomava a frente de uma situação.
Shun me encarou e gritou:
— Eu não vou voltar com vocês!
Shaka, calmamente, deu alguns passos em direção a ele, ficando ao meu lado. Shun estremeceu no mesmo momento, era nítida a autoridade de Shaka que apenas com passos tranquilos até mim impôs tanto respeito.
Meu companheiro me olhou como quem me dava apoio. Quando dei por mim, Shun estava correndo para dentro da casa enquanto gritava para irmos embora de lá, que ele não queria-nos perto dele. Shaka respirou fundo enquanto andávamos até dentro daquela espelunca atrás do moleque.
Antes de entrar, vi Shaka pegando no chão uma vara verde grande e grossa sem perder a flexibilidade. Eu mesmo olhei aquilo me lembrando das surras de vara que tomei em minha vida, que não foram nada fáceis e muito didáticas. Sim, Shun precisava daquilo e nós, enquanto responsáveis por ele, daríamos o que ele precisava — por mais que doesse em nós.
Não tardou até chegarmos a um quarto onde ele acreditava ser possível se esquivar de nós dois. Caminhamos até que ele próprio se acuasse numa parede, onde nos olhava assustado, com os olhos arregalados e repletos de lágrimas.
Foi a vez de Shaka tomar a dianteira.
— Shun, você vem conosco para o Santuário e vamos conversar lá.
Mais uma vez meu garoto cuspiu palavras grosseiras em tom elevado, quase num grito.
— Eu não vou voltar para lá! E vocês não são ninguém para me obrigar! Vão lá viver sua vida de faz-de-conta e brincar de papai e mamãe com outro, eu não vou mais aturar isso! Por mim, vocês que se fodam, vão à merda, só me deixem em paz!
Shaka abriu os olhos assustado. Respirou fundo. Quando Shaka voltou a si, surpreendeu-se com o fato de que sequer teve tempo de fazer algo, pois eu já puxava Shun pela nuca até o banheiro imundo daquele lugar. Aquele lugar estava aos frangalhos, eu não podia imaginar que Shun cogitou trocar o conforto de nossa casa por esse pardieiro.
— AGORA EU VOU TE ENSINAR O QUE ACONTECE COM CRIANÇAS QUE FALAM PALAVRÃO DESSE JEITO.
Foi fácil pegar o sabonete em barra usado que estava em cima da pia e enfiar na boca de Shun sem delicadeza. Ele tentou cuspir, mas eu segurei o sabão na boca dele com uma mão sem parar de esfregar enquanto com a outra forçava sua cabeça em direção ao espelho para que olhasse para a cena e visse onde havia chegado. Ele olhava para si e para o meu reflexo.
— Veja Shun, não tem faz-de-conta nenhum aqui. Eu e Shaka nos amamos, somos felizes, e você e seu irmão nos fazem imensamente felizes. Entende? Não é porque você de decepcionou com uma pessoa que ninguém mais presta. Não é porque Hyoga te machucou que nada mais vale a pena e a vida acabou. CRESÇA! AMADUREÇA! A vida é feita de vitórias e decepções. Nós entendemos o seu sofrimento, mas nada, EU DISSE NADA, justifica suas atitudes.
Shun tentava cuspir o sabão, mas eu não deixava. Quando escorregou um pouco eu aproveitei para molhá-lo mais na água da torneira e esfregar na língua do adolescente enquanto falava ralhando com ele:
— Você NUNCA MAIS vai falar assim conosco. Em verdade, você NUNCA MAIS vai falar essas palavras chulas para ninguém na sua vida. Você vai lembrar desse gosto horrível para sempre sempre que pensar em falar conosco assim.
Shun demonstrava ânsia de vômito e chorava sem parar enquanto sapateava na frente da pia do banheiro. Quando eu o soltei ele cuspiu sem parar na pia, chorando e lavando a própria boca com suas mãos e a água corrente que caia daquela torneira suja. Novamente eu cheguei perto dele e o fiz me encarar.
— Agora é sua última chance, ou você vez para casa conosco e conversamos lá ou será aqui mesmo!
Eu passei a acompanhar os pensamentos desconexos de meu filho, pois era difícil entender o que raios se passava naquela cabeça confusa e traída. Eu não lhe tirava a razão de estar chateado, porém não era justificativa para fazer nada do que vinha fazendo.
“Ele não devia ter me lavado a boca, que ódio... Não me parece que nenhum deles estão para brincadeira. Mas eu não vou voltar para o Santuário, não vou ser obrigado a ver Hyoga e Ikki o tempo todo juntos, esfregando na minha cara a traição deles. Esfregando na minha cara que eu sou pior... Não, eu não vou voltar e não há nada que eles possam fazer”.
— EU NÃO VOU VOLTAR COM VOCÊS!
Olhei para Shaka. Era o meu sinal. Ele não voltaria por bem, teríamos que leva-lo à força. Teríamos que ser mais rigorosos. Teríamos que começar a lição lá mesmo. Será que Shaka me ajudaria? A resposta foi positiva. Shaka no mesmo momento, concordando com meus pensamentos, puxou a calça moletom de Shun para baixo e o pegou pelo braço, o virando de lado absolutamente desnudo pela ausência de roupas de baixo.
— VOCÊ TEM CERTEZA DISSO, SHUN?
Shun tentou se desvencilhar. Foi a hora que vi Shaka descendo a vara nele, repetidas vezes, deixando marcas finas e vermelhas por toda a superfície. Shaka gritava com Shun, e cada golpe doía em mim. Era muito mais dolorido em mim do que nele — e essa lição de Shion eu havia aprendido com destreza. Aquilo doeria em mim, mas faria tanto bem para ele que valeria a pena.
Não sei quantos golpes eu contei, talvez vinte, talvez trinta. Shaka ralhava com o menino, brigava, o questionava. Eu só rezava para que acabasse logo, afinal, o fato de eu concordar com um corretivo não faz com que eu sofra menos. Só sei que Shaka só parou quando Shun chorava tanto que já não conseguia demonstrar nenhuma resistência, não conseguia mais se opor ao fato de voltarmos ao Santuário.
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POV Shaka
Foi impressionante ver Mu sai de sua zona de conforto e agir em prol do menino de uma maneira mais ativa, menos protetora e materna, mais incisiva e reativa. Eu imaginava que dessa vez o que o meu lemuriano faria seria apenas não me atrapalhar na correção, mas não, ele tomara a frente.
Nunca tinha visto Mu lavar a boca de ninguém com sabão, na verdade eu mesmo nunca havia feito isso. Quando soltavam algum palavrão em nossa casa eu dava um aviso e depois um castigo de alguma espécie, era muito simples. Aquilo me pareceu muito mais eficaz, aquilo deixava um recado de uma maneira muito mais clara e poupava o traseiro de Shun que guardaríamos para coisas muito mais graves.
Não foi uma simples atitude de "lavar a boca com sabão". Mu se esmerou, deu bronca, reforçou, não cedeu aos choros, apelos e sapateados do nosso filho. Mu agiu de uma maneira que eu nunca havia visto...
Me questionei onde Mu aprendera aquilo? Seria Shion? Me desvencilhei dos meus pensamentos interrogativos quando vi que Mu me dava um sinal de que era momento de usar a vara já que o garoto não arredava. Sim, passara do momento. Shun precisava enxergar tudo que tinha feito em seu rompante de raiva, mas antes precisava nos seguir até em casa.
— VOCÊ TEM CERTEZA DISSO, SHUN?
Quando o vi tentando correr para longe de nós novamente, não pensei duas vezes. Uma coisa eu tinha certeza: ele nunca mais fugiria do alcance de nossos olhos. Sofremos demais em sua busca e eu não passaria por isso novamente.
Rapidamente abaixei seu moletom, ele não usava cueca. Levantei meu braço direito com firmeza e desci a vara nele com exatidão. Eu empunhava a força perfeita para que doesse o máximo sem criar cortes.
VUFT * VUFT * VUFT * VUFT
O barulho ressoou em eco naquela casa meio vazia e se misturava aos choros do garoto e seus apelos.
VUFT * VUFT * VUFT * VUFT
Shun se contorcia, mas eu usava seu braço como forma de fazê-lo ficar na posição que eu queria, me virando um pouco e continuando a bater.
VUFT * VUFT * VUFT * VUFT
Eu continuava batendo em blocos de quatro, enquanto ouvia o desespero do meu filho. Realmente, uma varada doía muito e não era comum eu usar neles. Mas aquela situação exigia medidas extremas já que nem para casa Shun queria voltar.
VUFT * VUFT * VUFT * VUFT
Continuei a surra, ao menos até amansá-lo, ao menos até ele ser capaz de nos ouvir novamente, ao menos até conseguirmos leva-lo para nossa casa.
VUFT * VUFT * VUFT * VUFT
Demorou dezoito varadas para Shun começar a implorar para que eu parasse. Naquele momento eu percebi que talvez eu pudesse começar a conversar com ele, mas, pelo histórico, preferi ter certeza e lhe dar mais quatro colpes.
VUFT * VUFT * VUFT * VUFT
— Shun, você vem para o Santuário conosco!
Fui firme, ainda o segurando na minha mira, mas sem bater mais. Esperei uma negativa com a vara empunhada e levantada. A negativa não veio, apenas um choro forte e ressentido. Olhei para Mu que me retribuía o olhar.
— Levante suas calças e vá para o carro agora, e nos espere sentado lá. E, eu juro, se você pensar em fugir eu vou quebrar uma vara no seu traseiro. ENTENDEU?
Shun caminhou cabisbaixo e chorando para fora da casa, em direção ao carro.
Quando estávamos à sós, eu e Mu nos entreolhamos e nos abraçamos tranquilos. Nosso filho estava conosco, nosso filho não havia feito nada para ser expulso da ordem dos cavaleiros ou, então, para ser punido pelo grande mestre com exílio ou prisão especial.
Ambos respiramos um suspiro pesado, sabíamos que tínhamos um longo e exaustivo trabalho pela frente com Shun. Aquela surra não teria precedentes, nem para mim, nem para Mu e muito menos para Shun.
Entramos no carro, felizes por ver nosso filho no banco de trás. Ele chorava, se entristecia, mas estava a salvo. Nós daríamos um jeito naquilo. Era uma questão de tempo, esforço e disciplina.
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POV Camus
Saímos com os garotos espremidos no banco de trás ainda meio moribundos pela batalha que já começara fadada ao fracasso. Quatro adolescentes eram muito para o meu carro, ainda bem que se tratava de um carro estilo perua feito para uma grande família.
Decidi falar com Milo, saber como estavam as coisas em casa. Eu imaginava que depois da minha ligação e de Shion tudo deveria ter se normalizado. Acionei o viva-voz e fiz discagem por comando de voz. Meu carro era realmente de ponta, graças aos apelos de Milo, vez que por mim eu ainda estava com meu carro da década passada.
— Amor?
— Camus, pelo amor de zeus, volte para casa agora!
— Eu já estou à caminho, o que raios aconteceu?
— Não consigo ficar aqui e controlar esse zoológico! A Saori sumiu com a minha carteira, Ikki trouxe um moleque que eu nunca vi para casa e está trancado no nosso quarto com ele, Isaak está na sacada com uma garota e se não parar vai ser preso por atentado violento ao pudor, Hyoga não desgruda do vídeo-game e Kiki brincando de telecinese destruiu o meu jardim...
Eu ouvi aquilo tudo e olhei de canto de olho para Shion, descrente que até lá as coisas saíram de controle. Milo realmente não tinha autoridade nenhuma, era impressionante. Qualquer adolescente fazia gato e sapato dele. Nessas horas eu sentia um pouco de peso em minhas costas pela incapacidade dele de se impor aos garotos.
Por um lado creio que eu deveria respeitar isso, afinal, fazia parte da personalidade dele. Porém, em momentos como esse, em que ele fazia as minhas vezes, era necessário que conseguisse ao menos manter a normalidade da rotina.
— Não se preocupe, Milo, eu já estou chegando.
Shion riu, ele achava cômica a forma de Milo se portar, porém tenho certeza que também partilhava da minha opinião. Logo desliguei o telefone e vi Shion pegar seu celular e discar para alguém com cara de poucos amigos.
— Onde você está?
Não pude ouvir quem estava ao outro lado da linha.
— EU DISSE: ONDE VOCÊ ESTÁ? RESPONDA.
Shion levantou uma sobrancelha.
— Me espere na porta principal. AGORA.
Ouvi Shion bufar apenas e desligar seu telefone.
— Camus, vamos fazer uma pequena parada no caminho para pegar Saori. Ela está na frente do Shopping Olímpio, fica em nosso caminho logo a frente.
Era verdade, estávamos a dois minutos da entrada do shopping e não foi difícil ver Saori logo na entrada. Ela estava com um vestido branco muito curto e absolutamente inapropriado e ao seu redor tinham pelo menos umas vinte sacolas e dois carrinhos com mais sacolas de compras. Eu fiquei boquiaberto, nem mesmo Milo tinha essa capacidade de compras tão aguçada.
Arrepiei-me quando lembrei que o cartão era de Milo e que seria eu que pagaria aquela fatura. Não demorou até Shion quase descer do carro em movimento e começar a gritar com nossa protegida.
— MAS O QUE É TUDO ISSO?
— Mestre, eu precisava de umas roupinhas...
— ROUPINHAS? ISSO AQUI É UM ABSURDO! VOCÊ NÃO CONSEGUIRIA VESTIR TUDO ISSO NEM QUE NÃO REPETISSE ROUPAS POR DÉCADAS!
— O senhor está exagerando, mestre, eu...
Vi Shion apertar os pontinhos da testa. Ele costumava fazer isso antes de começar uma surra, eu sabia disso e Saori sabia disso com certeza. Na mesma hora ela parou de se justificar e passou a pedir desculpas.
— Me perdoa mestrinho, vamos fazer assim, eu devolvo tudo. Por favor.
— Sabe o que eu devia fazer? Eu devia ir te dando palmadas até cada loja, esperando você realizar a devolução de tudo e pedir desculpas às pobres das vendedoras.
Saori começou a chorar na hora, sabia que seu mestre era sim capaz de bater nela daquela forma a fazendo passar vergonha na frente de todos. Eu também sabia que ele não faria isso, aquilo não era motivo suficiente.
— Olha aqui sua inconsequente, temos quatro adolescentes para levar ao santuário, temos seu irmão e primos que estão nos esperando para colocar ordem na casa com nossos cintos. Ou seja, não tenho tempo de te fazer devolver tudo agora.
Saori respirou aliviada, mas se eu conhecia meu mestre, aquilo não tinha acabado ainda.
— Vou colocar essas sacolas no porta-malas e amanhã vou devolver tudo. Entendeu? Tudo!
— Mas mestre, tem coisas aí que eu quero muitoooo...
Ela disse enquanto meu mestre jogava com ferocidade todas as sacolas que mal cabiam no meu porta-malas enorme. Olhei para ela espantado, ela não devia provocar Shion. Devia apenas ficar calada e agradecer por não estar apanhando na frente do shopping. Ele voltou tranquilo e se sentou no banco da frente novamente.
— Mas eu não caibo nesse carro, é melhor voltar de táxi.
Disse Saori. Shion sorriu irônico, aquilo era sinal que Saori estava em maus lençóis.
— Imagina, claro que tem espaço.— Disse ele a puxando para o seu colo. Meu carro era extremamente espaçoso. Espaçoso o suficiente para Saori ter espaço para ficar semi-debruçada no colo de Shion, com seu tronco apoiado no centro de apoio entre os bancos da frente, com o rosto para trás e as pernas esticadas no local onde Shion deixava os pés dele.
Ele bateu a porta e fez sinal para que eu dirigisse. Aquilo certamente devia violar as regras de trânsito.
— Eu vou ter que bater em tanta gente hoje e não posso desperdiçar meu tempo, mocinha.
Saori ficou vermelha e começou a tentar se desvencilhar quando percebeu que havia quatro adolescentes no banco de trás olhando para o rosto dela.
Não demorou até as palmadas começarem, e a dor e a sensação de humilhação acompanharam a menina. Não era fácil ser filho de Shion, isso eu mesmo podia garantir. Ele não costumava se importar com o que os outros pensariam ou na vergonha que nos faria passar.
Hoje eu entendia que ele estava certo, mas quando passamos por essa situação realmente não é fácil. E Mu que o diga, depois de apanhar do jeito que apanhou com três faculdades terminadas.
PAFT
— O que eu disse sobre brigar com o Ikki?
PAFT
— O que eu disse?
PAFT
— PARA MESTREEEEE...
PAFT
O
PAFT
QUE
PAFT
FOI
PAFT
QUE
PAFT
EU
PAFT
DISSE?
PAFT
PAFT
PAFT
— Aaaaah. O senhor disse para não brigar com ele, para te ligar...
PAFT
— E o que você fez?
PAFT
— Eu brigueeeei com ele, me perdoaaaa...
PAFT
PAFT
PAFT
PAFT
PAFT
— Da próxima vez, não importa o que aconteça, você não vai se engalfinhar com ele, entendeu? Se ele te provocar você ME LIGA!
Olhei pelo retrovisor e vi os quatro moleques aterrorizados atrás com a visão de Saori chorando e apanhando. Eu via era as marcas vermelhas na parte que aquela minissaia não cobria e percebia que a cada tapa os garotos pulavam ou estremeciam.
— O que eu disse sobre compras, hein, Saori? E o que eu disse sobre essas roupas tão curtas?
— Meu mestre, me perdoa, eu vou devolver tudo. Mesmo.
— Claro que vai.
Shion levantou a saia dela, descobrindo um traseiro vermelho e uma calcinha diminuta. Os meninos atrás não conseguiam ver pelo ângulo, creio que Shion preocupou-se com isso, não queria dar um showzinho. As palmadas continuaram com Saori chorando sem parar até chegarmos ao Santuário.
— Você vai aprender a não sair sem minha autorização, vai aprender a não pegar a carteira dos outros e, principalmente, vai aprender a se vestir como a dama responsável pelo santuário!
Eu já havia avisado Minu sobre os adolescentes e os responsáveis esperavam na porta para pegá-los. Eu e Shion que arrastava Saori pela orelha, fomos andando até a minha casa para encontrar com Milo.
No caminho Shion soltou a orelha da menina e a puxou num abraço. Eu percebi que ele sabia que não teria tempo de reconforta-la e decidiu fazer isso enquanto podia.
— Saori, meu amor, eu não quero mais você se aproveitando da minha ausência para fazer tudo que eu disse para não fazer.
— Me perdoa...
Ela chorava manhosa. Vê-la com meu mestre me lembrava um pouquinho minha irmãzinha Minu.
— Sim, eu te perdoa, mas me promete que não faz mais isso?
— Prometo.
— Vai para a nossa casa e fique no seu quarto descansando. Conversamos com calma depois. Você não precisa fugir para fazer compras, você pode me pedir o que quer... Mas precisamos dar um jeito no tipo de roupa que você anda querendo usar... Não quero mais te ver com roupas tão provocantes. Mas conversamos com calma depois.
— Tudo bem...
Vi Saori sair em direção à casa de Shion esfregando o traseiro com uma mão e limpando as lágrimas com a outra.
Shion me olhou, tínhamos um longo trabalho ainda e dava para ouvir os gritos de fora da minha casa.
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