O Grande Dia
23 Capítulo XXIII - Confrontos
Notas iniciais
POV MU
Eu estava esperando Shun voltar com os papéis que pedi para buscar na torre e extremamente preocupado com a finalização dos relatórios que Shion pediu. Honestamente, eu detestava aquele trabalho burocrático que fazíamos, só não detestava mais do que as batalhas nas épocas de guerra do Santuário.
Respirei fundo arrumando os relatórios em pequenos blocos enquanto os grampeava milimetricamente, gostava das coisas retas e certinhas, e sempre inorava Shaka quando zombava das minhas manias dizendo que tenho T.O.C.
Ouvi os passos se aproximante e torci para ser Shun, que já demorava, com a documentação que eu precisava para finalizar aquele trabalho deveras cansativo. Meu queixo quase caiu quando vi Shun abrir a porta com ferocidade e chorando compulsivamente.
– Shun...
Me levantei preocupado indo até o menino que continuou com passos pesados, batendo as portas até o seu quarto. O segui e abri a porta do quarto e o observei andar em círculos com as mãos na cabeça e uma face de completo e absoluto desespero.
– Shun, por favor, o que houve?
– SAIA DAQUI!
– Shun, calma, fique tranquilo, eu posso ajud...
– SAIA DAQUI!
Ele berrou novamente lançando o aparelho de telefone em mim, que caiu no chão quando me desviei e se quebrou. Eu me assustei olhando o aparelho espatifado em pedaços e olhei para o meu Shun tão fora de si.
– Eu não vou sair, você precisa se acalmar...
Ele começou a pegar diversas coisas no quarto e colocar numa caixa. Vi cartas, alguns itens sem valor, e quando o vi colocando as fotos com Hyoga lá percebi o motivo do ataque. Ele e Hyoga tinham tido uma briga das feias. Ora, eles logo iam se acertar...
– Shun, mas que besteira, filho..
– NÃO ENCOSTE EM MIM, ME DEIXE EM PAZ!
Ele gritou reagindo ao meu toque delicado em seu ombro, nunca o vi me olhar com tanto ódio. Ele saiu batendo os pés.
– SHUN, CHEGA, ESPERE!
Eu tentei segurá-lo montando um muro de cristal na porta de saída, não queria que ele fosse conversar com Hyoga naquele estado, queria tentar acalmá-lo antes. Mas percebi que foi uma péssima ideia, vez que assim que ele viu o muro o ataque histérico se agravou.
Shun passou a lançar todos os objetos que via pela frente no muro, incluindo o telefone da sala, o abajur, as revistas da mesa de centro, dois quadros e a televisão. Quando ele ia lançar cadeiras eu desfiz o muro antes que ele destruísse a casa, eu não sabia mais o que fazer para acalmá-lo.
Logo que desfiz a barreira, ele saiu com sua caixa na mão. Eu decidi ir atrás dele para tentar dissuadi-lo no caminho, mas só consegui correr atrás dele como um maluco. Naquela hora me senti mal por Shaka não estar comigo, provavelmente ele teria uma ideia melhor.
Quando me aproximava dele, tropecei e cai alguns degraus da escada, o que lhe deu alguma vantagem. Levantei com o cotovelo esfolado e um rasgo na minha calça jeans e corri em direção à casa de aquário. O vi de longe entrar gritando e jogando as coisas da caixa com bravura.
Quando entrei me deparei com Camus, Milo e Shion. Shion? Era a última pessoa que queria que visse Shun num ataque de nervos. Aquele não era o primeiro ataque de Shun, mas eu sempre conseguia contornar com calma, coisa que Shion não tinha.
Logo começou o show de horrores, com Shun gritando e lançando coisas em Hyoga que acabou levando uma bela bofetada no rosto do meu filho e começou a chorar pedindo perdão.
– Hey, vamos parar com isso aqui!– Camus logo se pronunciou tentando colocar ordem na casa.
Hyoga, também nervoso acertou um soco no rosto de Ikki que deve ter doído. Eu estava sem ação. Vi Shion indo socorrer o novo pupilo com um carinho imenso e Camus me olhou meio preocupado, nós nunca tínhamos vivenciado aquele tipo de situação, ainda mais na frente de Shion.
Logo me surpreendi, ficando mais uma vez sem ação, com Shun pegando um vaso e o espatifando no chão, na tentativa frustrada de acertá-lo em Hyoga. Fiquei petrificado, Shun apesar de dar aqueles ataques em casa, nunca tinha feito assim em público.
– Mu, mas que raios! Você não consegue controlar um adolescente?! Faça alguma coisa!
A voz severa e dura de meu mestre me tirou dos meus devaneios, como ele podia me repreender assim na frente do meu filho e de Camus? Eu o encarei traído, perguntando mentalmente porque raios ele teve que dizer aquilo em voz alta.
Shion me encarou bravo.
“Isso não é hora de ficar com vergonha por ser repreendido, olhe em volta e veja a cena que está se passando aqui. Shun está completamente fora de controle e você não faz nada para impedi-lo. Se Hyoga não se desviasse, estaríamos todos a caminho do hospital agora”.
Eu abaixei minha cabeça envergonhado, era verdade, o que Shun fez fora potencialmente perigoso, mas nada havia acontecido. Só percebi que Shion ficou nervoso quando o vi gritar, mais uma vez.
– Eu preciso fazer tudo sozinho aqui!
Shion bufou pegando Shun pela orelha para o meu desespero e o fez se sentar no sofá, onde jogou Hyoga e Ikki no mesmo sofá onde estava Isaac. Eu não gostei nada daquilo, quem Shion pensava que era? Shun estava deprimido, nervoso, não precisava de gritos e muito menos puxões de orelha.
– Alguém aqui pode me explicar o que está acontecendo?– Camus assumiu perguntando, o que também me deixou contrariado, eu queria levar Shun embora de lá, aqueles dois não sabiam lidar com esses adolescentes de uma maneira civilizada.
– Bom, se nada aconteceu, eu pressuponho que você não teve motivos para cabular o castigo não é Hyoga? – Camus voltou a falar.
– E eu suponho que você fugiu do castigo sem motivo também Ikki... – Shion aproveitou.
Era a minha vez de falar e acabar com aquela palhaçada, se Shion estava pensando que ia bater no meu menino, ele estava muito enganado.
– Você vem para casa comigo, Shun.
Eu falei da maneira mais firme que consegui, quem sabe assim Shion não tentaria me impedir.
– Não Mu.
– O que?
– Não, eu te conheço, você vai acobertar esse menino e esconder de Shaka essa ceninha de agora. Ele chegou aqui, jogou essa caixa e esse monte de tranqueiras no chão, bateu no Hyoga e lançou um vaso no rosto do amigo. Ele vai ficar aqui comigo.
– Ele não está bem, mestre... – Eu tentei explicar, mostrando que aquilo não era jeito de lidar com o menino.
– Eu também as vezes não estou nos meus melhores dias, e nem por isso saio distribuindo pancada nos meus colegas que nem esses aí andam fazendo.
Ele resolveu me ignorar, repreendendo a atitude de Shun mais uma vez. Aquilo me irritou muito. Quem era ele para falar que não sai distribuindo pancadas? Os três adultos que estavam na sala, eu, Camus, e Milo sabíamos bem que isso não era verdade.....
– Ah não? Engraçado... Eu me lembro do contrário.
Eu não sei da onde arranjei forças, mas confrontei Shion. Se ele pensava que podia me dizer como criar os meus filhos, ele estava muito enganado. Ah, e eu sabia que ele estava lendo meus pensamentos. Pois que lesse. Ele não tinha mais nada a ver comigo ou com meu filho, eu sou adulto, oras!
– O que você quer dizer, Mu? – Ele perguntou, nitidamente nervoso.
– Que eles são adolescentes, que Shun não é assim e eu quero entender o que aconteceu antes do senhor sair batendo nele sem nem perguntar o que motivo desse ataque.
Shion estava furioso, eu o conhecia bem, e não demorou para que começasse a gritar comigo mentalmente.
“VOCÊ SÓ PODE TER PERDIDO O JUÍZO”
“Não mestre, eu não perdi o juízo”
“AH NÃO, NÃO PERDEU. VOCÊ PENSA QUE É QUEM PARA FALAR COMIGO ASSIM?”
“O senhor que começou chamando minha atenção na frente de todos! Quem o senhor pensa que é?”
“VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE SOU SEU AMIGO PARA VIR COM ESSA CONVERSA DE ‘VOCÊ COMEÇOU’. ACHO QUE VOCÊ SE ESQUECEU QUEM MANDA AQUI”
Shion segurava aquela palmatória com certa ostentação enquanto falava comigo. Eu me perguntava se aquilo era alguma tipo de aviso ou ameaça. Mas óbvio que eu já tinha passado da fase daquilo, mas decidi perguntar só para provocar com ironia.
“Vai me bater agora?”
“EU DEVERIA SIM TE MOSTRAR QUEM EU PENSO QUE EU SOU E QUAL É O SEU LUGAR – PARECE QUE VOCÊ SE ESQUECEU”.
“Ótimo, quer me bater, me bata. Mas você não vai encostar um dedo no meu filho”.
“HÁ, QUEM VAI ME IMPEDIR?”
“Eu faço qualquer coisa aqui, eu explodo essa casa, eu luto com você, eu faço o diabo, mas eu saio com Shun daqui quer o senhor queira, quer não. Você não tem nada a ver com a educação que dou para os meus filhos e não saio distribuindo porrada que nem você fazia!”.
Eu gritei minhas ameaças vazias em pensamentos, e percebi os olhos de Shion se abrirem cada vez mais, espantados comigo e minha determinação. Eu sabia que eu perderia uma luta corpo a corpo com Shion, e nem sabia se eu tinha realmente coragem de enfrenta-lo, mas eu pensei aquilo diretamente a ele, sem pesar as consequências.
Shun já tinha apanhado de Shaka mais de uma vez, eu não sei por que eu estava afrontando meu mestre. É que a relação dele e Camus ultimamente estava me incomodando... Não sei... Não sei...
Só vi Shion suspirar a apontar a palmatória para Shun.
– Levante-se Shun.
Eu já estava pronto para me jogar na frente de Shion quando ouvi.
– Pode ir com seu mestre.
Até eu me surpreendi. Nessa hora já havia começado a me arrepender pela forma que falei com meu mestre. Eu engoli em seco e estiquei meu braço para agradecer Shion.
– Mest...
Fui interrompido por um sinal brusco que Shion fez com a mão no ar, como quem manda parar imediatamente.
– Estou extremamente decepcionado com você e não quero ouvir sua voz tão cedo.
Eu parei de respirar por alguns segundos com aquela declaração. Eu realmente me senti com vontade de chorar pelo aperto que sentia na garanta. Meu mestre nunca tinha falado comigo daquele jeito. Envergonhei-me por Camus ouvir aquilo. Peguei Shun pelos ombros num abraço apertado para que ele não fugisse, embora quem mais precisasse de um abraço naquela hora era eu.
Logo Shun se soltou de mim e correu para a nossa casa, provavelmente se trancafiando no seu quarto. Peguei meu celular no bolso, com lágrimas nos olhos, e logo usei a discagem rápida.
– Shaky...
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POV Camus
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Eu e Milo paparicamos Isaac além da conta. Ele ganhou colo do Milo e muito carinho meu. Eu quis deixar claro, muito claro, que cada palmada tinha sido porque eu o amava e queria que aprendesse certas lições.
Cheguei a usar aqueles clichês que “dói menos apanhar de mim do que da vida”. Normalmente eu acreditava naquilo, mas quando percebi que Isaac nem conseguia se sentar, me perguntei o quando aquilo era verdade.
Depois de um banho e muitas lágrimas, Isaac adormeceu comigo afagando seus cabelos. Por alguns momentos agradeci por tê-lo ali, comigo, e não perdido e sozinho em algum lugar da Europa.
Milo ainda estava nervoso comigo, era nítido, mas eu ainda precisava conversar com Hyoga. Fui até a porta do quarto do meu caçula e bati, de leve, e só abri um pouquinho quando percebi que ninguém respondeu.
– Filho?
Hyoga estava chorando deitado no travesseiro, não olhou para mim, não respondeu, apenas continuava afundado na cama chorando copiosamente.
– Filho, vamos conversar...
– Eu não quero conversar! – Ele respondeu entre lágrimas.
Eu andei e me sentei na cama ao lado dele, colocando uma mão no seu ombro.
– Filho, olha para mim, eu posso te ajudar...
– Eu não quero ajuda! O senhor não vai me bater? Então acaba logo com isso e me deixa em paz.
Eu estreitei os olhos, o virei para mim e o encarei sério.
– Cuidado com a boca, Hyoga! Não, eu não vou te bater, POR ENQUANTO. Quero saber o que raios aconteceu e tentar te ajudar um pouco, mas se você não colaborar e continuar me respondendo assim...
Deixei a ameaça vazia no ar, ele olhou para o lado pensando nas minhas palavras.
– Hyoga, se você não quiser se abrir comigo, eu vou respeitar. Mas eu já tive muitas brigas de relacionamento antes e com certeza posso te ajudar, assim como Milo também pode te ajudar. Normalmente quem teria essa conversa com você seria ele, mas convenhamos que o seu pai não está no melhor dos momentos...
– Me perdoa, mestre. Eu não quis escapar do castigo...
– Eu sei que não.
– Foi algo do momento...
– Eu imaginei.
– E eu não quis te desrespeitar na escadaria... Eu só não podia voltar aquela hora.
– Eu sei, filho. Eu sei. Você quer se abrir comigo? Ou com o Milo?
Hyoga ficou quieto, voltando a chorar em seguida extremamente desolado. Ele precisava de ajuda, e percebi que não iria se abrir comigo, então chamei Milo para ficar lá com ele enquanto ele chorava. Se alguém podia descobrir o que raios aconteceu era o meu Milo.
Depois de quarenta minutos, Milo saiu do quarto com Hyoga dormindo e os olhos arregalados.
– Milo, você descobriu o que aconteceu?
– Camy... – Milo disse baixo, com os olhos arregalados.
– O que foi?
– É complicado...
– O que houve?
– Bom... Ikki agarrou Hyoga na frente da casa do chifrudo. E rolaram uns amassos quentes.
– Como assim agarrou? Por que Hyoga não se soltou?
– Por que não quis.
Eu fiquei em silêncio.
– Hyoga não entende ainda por quê não se moveu, nós bem entendemos o motivo. Ele tem uma atração por Ikki.
Eu fiquei quieto, aquilo não estava certo. Hyoga não podia trair Shun, se queria ficar com Ikki, devia primeiro terminar o relacionamento com o namorado e depois começar outro.
– Ainda não acabou. Shun os pegou no flagra.
– Então foi por isso...
– Sim. Triste.
Eu não toquei mais no assunto, apesar de me sentir um pouco mal por Hyoga se abrir com Milo não comigo. Só pensava um pouco sobre a confusão que iria acontecer dali para frente. Logo vi Milo fechando a cara para mim e indo se fechar no quarto.
Parei de pensar no Hyoga, eu tinha meus problemas amorosos para resolver... E seria aggora!
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