O Grande Dia
16 Capítulo XVI - Barracos e Decepções
Notas iniciais
Capítulo XVI
POV Shion
De todas as cenas que presenciei no Santuário, com certeza aquela era uma das mais dramáticas e era simplesmente ridículo que aquela discussão toda acontecesse em público. Resolvi me intrometer, apesar da minha vontade de sumir daquele lugar e ignorar todo aquele circo, que seria o que faria se envolvesse qualquer cavaleiro que não fosse Camus ou Mu.
Andei até o lado de Isaac que acabara de receber uma ordem direta de seu mestre para explicar o que aconteceu.
– Camus.
Eu disse no meu tom grave habitual, ele já me conhecia, sabia que eu queria dizer que aquela não era hora nem lugar para isso. Mas meu pupilo preferiu me ignorar.
– ANDA ISAAC, FALE PARA O MILO PORQUE EU NÃO ESTAVA AQUI E PORQUE ESTOU NESSE ESTADO, FALE!
Isaac se encolheu, era visível que estava com medo. Eu olhei sério para Camus, muito sério, e ele continuou a não me dar atenção. Milo, por sua vez, continuava chorando e nervoso, sem acreditar muito no que acontecia na sua frente.
Foi quando vi Camus dando um passo ameaçador na direção de Isaac.
– ENTÃO VOCÊ QUER ASSIM?
Isaac andou instintivamente para trás com os olhos marejados e levantou as mãos em sinal de derrota, e confessou olhando para o chão.
– Foi minha culpa...
Camus bufou, todos soltaram leves suspiros de espanto e Milo lançou um olhar incrédulo para o filho antes de começar a chorar ainda mais. Mas a reação que ninguém esperava e que nem eu pude conter pela velocidade dos pensamentos foi a de Hyoga que num segundo correu em direção ao irmão e se jogou em cima dele.
– Seu desgraçado!
Os dois rolaram rápido até a entrada do casamento, o início do tapete, derrubando cadeiras e arranjos de flores. Hyoga, então, se sentou na barriga de Isaac o imobilizando enquanto tentava lhe acertar socos.
– Não acredito que fez isso!
Isaac tentava se defender. Era visível que ele estava em desvantagem, afinal, estava sem dormir, sem comer, já tinha levado uns safanões de Camus e passara um medo absurdo nas últimas horas. Naquele momento, ele não era páreo para Hyoga.
Tanto eu quanto Camus corremos para separá-los, seguidos pelos outros dourados, com exceção de Saga e Afrodite que se divertiam com a desgraça do casal. Quando chegávamos ao local, Isaac conseguiu reagir e lançar Hyoga para o lado, que o agarrou, sendo que os dois rolaram morro abaixo.
Eu bufei nervoso com a situação e com os pensamentos de Camus. Mas não podia julgá-lo, ele estava no limite. Um limite que jamais pensei que alguém ultrapassaria. Só precisava segurá-lo, porque ele ia bater no Isaac lá mesmo de uma maneira que eu jamais concordaria.
Mas antes que Camus chegasse até eles, Milo se jogou no meio da briga, abraçando os dois e chorando, obviamente, para tornar tudo mais dramático. Eu não ouvi o que ele dizia, não fiz questão, só queria tenta acalmar Camus.
– OK, ACABOU A NOVELA. TODO MUNDO PRA CASA!
Eu disse, batendo palmas, dispensando os dourados e os respectivos pupilos que não sei por qual motivo não haviam deixado o lugar. Obviamente, as pessoas não me obedeceram, mas ao menos já mantinham certa distância.
– Camus, está vendo? Olha o show que vocês estão dando!
– O senhor fala como se eu fosse o culpado! Sabe que eu odeio isso mais que qualquer um!
– Sim, agora é hora de você pegar esses três e ir imediatamente para a sua casa.
Vi Camus abaixando o olhar enquanto voltava a si, caminhando em direção ao resto de sua família. Eu me virei e vi que os demais já tinham ido embora. Foi então que caminhei atrás de Camus que precisaria da minha ajuda.
POV Milo
Eu não podia acreditar. Isaac? Isaac atrapalhou meu casamento? OU MELHOR, Isaac ARRUINOU meu casamento? Como? Como pôde? Depois de tudo que fiz por ele? Depois das noites em claro cuidando dele, de zelar o tempo todo por sua saúde e alimentação? Depois de defendê-lo com unhas e dentes da rigidez severidade de Camus? Aquele desgraçado! Egoísta! Pirralho! INGRATO!
Minha raiva aumentava junto com meu choro, eu sentia meu estômago revirar e meus olhos arderem de tanto chorar, minhas mãos tremiam e eu já nem conseguia pensar direito tamanha minha dor de cabeça.
Só via Camus gritando e Isaac acuado. Sim, ele estava acuado, com medo. Estava sujo. Parecia faminto. Foi quando voltei a mim e parei de odiar o meu filho. Meu filho. Ele podia ter tentado arruinar minha felicidade, mas era meu filho e era meu dever perdoá-lo. Minha raiva de Camus não diminuíra, mas a de Isaac já nem existia mais.
Foi quando mal vi o que acertou Isaac até ver Hyoga o socando e rolando com ele o barranco todo. Eu queria correr atrás deles para ver se estavam bem, mas meu corpo não se movia nem por um centímetro.
Observei os outros cavaleiros correndo para ver a cena, e eu continuava parado. Eu não sei o que tinha, só não conseguia mais. Tudo doía. Eu desisti.
Não queria mais estar naquele lugar, com aquelas pessoas. Eu precisava de ar. Um ar que não havia alí.
Mas logo que vi Camus indo em direção aos meus dois meninos e nem Shion conseguindo segurá-lo, um instinto gritou em mim e corri, corri como nunca, corri colocando para fora toda aquela vontade reprimida de antes.
Quando dei por mim, estava abraçando os dois.
– Não briguem, por favor não briguem...
Minhas lágrimas escorriam sem parar.
– Não importa o que vocês façam, não importa, eu sempre os amarei...
Isaac começou a chorar, Hyoga me abraçada em consolo. Eu sei que meu apelido desde sempre foi “Talia”, “Maria do Bairro”, “A Usurpadora”, mas aquilo era mais drama do que eu queria. Mais drama do que o meu coração aguentava.
Quando dei por mim, Camus e Shion estavam parados em nossa frente.
– Por favor, Milo, vamos para a nossa casa? Por favor... Eu vou te explicar tudo...
Eu não me movi. Era emoção demais para um dia, e eu estava a beira de uma síncope, uma verdadeira síncope. Fora tanta tensão e tanto choro que eu sentia dor por todo o corpo. E eu não queria soltar meus filhos, pois, apesar de tudo, eles só tinham a mim.
– Ele só precisa descansar um pouco.
Ouvi Shion dizer, e em seguida tentar me levantar. Os meninos ajudaram e fomos nós cinco até a casa de aquário. A casa que sonhei entrar hoje casado, nos braços de Camus.
POV Camus
Eu pensei em cruzar a porta da minha casa hoje segurando um Milo feliz, radiante e casado. Casado comigo. Mas não, eu carregava um Milo que mal tinha forças para ficar de pé diante de toda a dor que passou na manhã que deveria ter sido a melhor de sua vida.
Entrei em casa sem me preocupar com os garotos, Shion os vigiaria. Fui direto com Milo para o banheiro.
– Por favor, meu amor, tome um banho. Você precisa lavar esse rosto, esfriar a cabeça.
– Eu nunca mais quero te ver na minha vida!
Ele disse baixo, mas disse. Eu sabia que ele devia me odiar. Ele estava certo, eu o deixei no altar.
– Por favor, tome um banho e me dê uma chance de explicar o que aconteceu... Apenas uma.
Eu disse enquanto o ajudava a se despir. Primeiro a camisa, depois a camiseta branca que estava por baixo, tirei seu relógio, seu cinto e sua calça. Não pude evitar o pensamento de que Milo era tão forte fisicamente e estava tão derrotado mentalmente naquele momento.
Eu também estava, estava exausto de tanta correria.
Deixei Milo para trás e fui para a sala como um predador, louco para colocar minhas mãos em Isaac. Dei passos pesados e fundos, enquanto fechava e abria a mão direita com força, força que tentava conter.
Para minha surpresa, vi apenas Shion.
– Ele está no quarto, e você vai conversar comigo. Agora.
Ignorei. Não queria saber de Shion naquela hora.
– AQUARIUS CAMUS, NÃO OUSE ME DAR AS COSTAS.
Eu parei, aquilo não era só uma ordem direta como meu instrutor, mas pelas palavras utilizadas para me chamar, eram uma ordem para um cavaleiro. Obviamente eu xinguei em pensamentos, afinal, aquilo não era hora.
– É hora sim! Você precisa se acalmar! Você realmente acha que eu deixaria você fazer o que estava pensando na colina?
– Acho que o senhor se esqueceu do que Isaac fez, não é possível!
Eu disse levando as mãos à cabeça. Já ele me encarou.
– Não esqueci, mas você precisa se acalmar antes de tomar qualquer atitude.
– Me acalmar?! Sim, eu preciso me acalmar assim que meu noivo me perdoar e assim que eu fizer Isaac se arrepender por tudo que ele causou!
– Você viu a forma como bateu nele no carro? Estava fora de controle!
– Eu não bati além do que podia.
– Não, mas faltava pouco para isso, sua raiva não te deixava enxergar direito.
– Eu sabia o que estava fazendo.
– Bateu até em mim! Você sabia o que estava fazendo mesmo?
Shion perguntou levantando uma sobrancelha. Eu havia batido nele também? Está aí uma prova que eu estava um pouco alterado. Percebi o tom de ameaça na voz dele. Respirei fundo e me sentei no sofá de frente à poltrona onde ele estava.
– As crianças estão no quarto.
– E o senhor acha que essa travessura que causou o que causou tem que passar assim, despercebida?
– Não, não acho. Só acho que você precisa de um tempo para se acalmar...
Shion parou de falar por um segundo, se concentrando mais longe.
– E vai ter que se preocupar primeiro em explicar o que aconteceu para o Milo que está mais calmo agora e te culpando pelo que aconteceu e...
De repente, Milo invadiu a sala só de cueca, pegando uma calça de pijama dele que estava jogada e colocando por cima enquanto gritava.
– EU NÃO SEI O QUE ACONTECEU! MAS A CULPA FOI SUA CAMUS! SE NÃO AMEDRONTASSE TANTO ESSES MENINOS!
Foi quando Shion me olhou.
– Vou dar privacidade para vocês.
Se levantou e saiu, ouvindo xingamento de Milo.
– SEU CHIFRUDO DE MERDA, VOLTA AQUI, SEI QUE ESTÁ PRO TRÁS DISSO! SEI QUE QUERIA ARRUINAR MINHA VIDA! QUE NUNCA FOI A FAVOR DE NÓS DOIS JUNTOS.
Foi quando vi que Shion estava certo, Milo precisava se acalmar. E eu também. Foi quando olhei para o meu escorpiano.
– Por favor, apenas ouça o que aconteceu.
Vi Milo cruzar os braços e se sentar, mordendo com força, fazendo suas mand[ibulas parecerem nitidamente tensas. Olhei para o teto tentando organizar aquela noite tão surreal.
– Eu não conseguia dormir direito, me lembro de cuidar das planilhas financeiras e de rolar de um lado para o outro na cama. Então, decidi, como de costume, dar uma olhada nos meninos.
Milo continuava olhando com raiva e desdém para um ponto fixo na parede.
– Entrei no quarto de Isaac e não o vi. Ele não estava em lugar nenhum da casa. Achei que ele podia estar em encrencas ou se drogando. – Nessa hora percebi que Milo olhou para mim. – Não quis incomodar você, então liguei para shion.
Milo revirou os olhos e bufou.
– Claro, me esconder as coisas é uma ótima ideia!
– Eu não queria estragar o dia mais importante das nossas vidas para você!
– FOI MUITO BEM SUCEDIDO, NÃO ACHA?
Eu suspirei, olhei para baixo, ele estava certo. Estava muito certo. Eu havia falhado, apesar de todo meu esforço. Um dor tomou conta de mim. Pareceu que Milo viu isso e perguntou, um pouco menos nervoso.
– E o que aconteceu?
– Vimos que Isaac havia fugido, pois fez uma mala com algumas roupas e aparelhos eletrônicos que ele costuma usar... E... Ele pegou todo o dinheiro do cofre.
– o que?!
– Sim, eu não fazia ideia da onde ele podia estar. Deixei aquele bilhete para Hyoga e liguei para o delegado Ayaaccos para que desse ordem de busca a todas as viaturas e fizessem uma batida policial naquela boca de fumo na qual Isaac foi achado antes.
– E-ele estava lá?
– Calma Milo. Eu precisava me cercar de todas as possibilidades. Enquanto isso, pensamos que ele podia tentar sair da Grécia. Ele não podia fazer isso de avião sem autorização, mas de ônibus ou trem sim. Precisei escolher entre rodoviária e ferroviária para ir. Pelo horário, eu tinha que chegar na ferrovia enquanto Minu falava com os policiais.
Percebi que Milo estava apreensivo com a história.
– Chegamos na ferrovia minutos antes de sair o primeiro trem. Caso Isaac entrasse num deles, ele iria para qualquer lugar da Europa e nós nunca mais o encontraríamos. Shion conseguiu arrancar da vendedora de bilhetes o destino de Isaac que estava lá, graças aos céus. Compramos tickets e corremos, porém as portas já estavam fechando.
Milo me olhava, preocupado e ansioso com a história.
– Nem pensei, me joguei no trem quase em movimento, Shion também. Se não fosse a velocidade da luz que nosso sétimo sentido nos dá, com certeza não teríamos entrado. Conseguimos. Isaac estava lá, naquele vagão.
Milo suspirou aliviado.
– Mas as portas se fecharam e ficamos todos presos. Não tinha como sair e tínhamos que esperar a próxima parada. Eu fazia os cálculos desesperado, o tempo daria certinho, conseguiríamos chegar.
Eu parei por um momento.
– Isaac me afrontou querendo lutar...
– O QUE?
– Sim, fiquei nervoso e bati num dos canos estruturais do trem, amossou um pouco... Mas não consegui lutar com Isaac, eu não podia...
Milo viu meu desespero e mudou de lugar, vindo sentar ao meu lado no sofá. Não encostou em mim, não modificou a face irritada, mas ao menos ficou mais próximo.
– Não tínhamos celular, nem nada. Eu estava de pijama. Sequer pensei em... Bom, quando o trem parou já programávamos pegar um táxi, mas fomos parados pela polícia e presos.
Milo abriu a boca e a fechou, com os olhos arregalados, como quem não pode acreditar no que ouvia. Então mostrei a marca das algemas na minha pele.
– Como isso é possível? Nunca prenderam um cavaleiro de ouro antes...
– Sim, passamos horas sendo ridicularizados, vez que não acreditaram que éramos cavaleiros. Por muitas vezes eu pensei em dar alguns golpes naqueles policiais, mas eu não podia, Milo... Eu não podia... Me perdoa...
Foi quando coloquei as mãos no rosto, estava me condenando por não ter destruído aquela delegacia e saído de lá. Então, senti a mão de Milo no meu ombro.
– Se tivesse agido com violência contra a polícia, poderia ter gerado um conflito interno enorme na Grécia.
– Foi o que pensei na hora. Shion concordou comigo, tentava me acalmar. Foi quando depois de algumas horas fomos chamados, e entendi a prisão. O condutor do trem viu pelas câmeras que eu amassei parte de um cano e avisou a polícia, por achar suspeito, e havia ordem de busca por Isaac, o reconheceram pelas filmagens. Na mochila dele havia os dez mil dólares de casa e pronto. Fomos levados para a delegacia.
Milo me olhou preocupado.
– Isaac fez alguma coisa séria?
– Então, Ayaaccos só apareceu quando eu já estava uma hora atrasado para o casamento, sendo humilhado pelos policiais. Foi quando saímos de lá e viemos no carro dele, o mais rápido possível. Mas era tarde... Muito tarde... Quando cheguei estava tudo arruinado. Tudo... Eu estava fora de mim porque Isaac ainda pensou em fugir depois de tudo isso... E...
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