O Grande Dia
14 Capítulo XIV – Todos a Caminho
Notas iniciais
POV Isaac
Se arrependimento matasse, eu com certeza estaria a sete palmos da terra. Eu só queria fugir, jamais imaginei que o meu mestre viria atrás de mim, que seríamos presos e ele perderia o casamento.
Na sala branca em que estávamos, havia um relógio na parede. Eu não conseguia tirar os olhos deles e perceber que a cada minuto que passava, mais possibilidade havia de não acontecer o casamento. A única coisa que conseguiu desviar a minha atenção foram aqueles gorduchos zombando do meu mestre.
Eu estava com receio de reagir e Camus brigar comigo. Eu tentava me focar em qualquer outra coisa, menos neles. Mas era difícil ser tratado daquela maneira por aqueles babacas, sem termos feito nada para merecer isso.
Quando Ayaccos chegou eu sorri, ele falou “Camus” tão enfático e perplexo.
– O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?
Ayaccos bradou para os policiais.
– Ele destruiu a ferragem de um vagão de trem e estava com esse meliante que o Sr. soltou uma ordem para chama-lo assim que ele fosse capturado – Disse o delegado apontando para mim. – E além de tudo vieram com a história da carochinha de serem cavaleiros de ouro, deuses gregos, figuras do espaço e primos de alienígenas – O policial riu, acompanhado pelos outros.
– COMO VOCÊS TÊM CORAGEM DE PRENDER UM CAVALEIRO DE OURO?!
Quando Ayaccos disse isso, todos coraram e começaram a gaguejar olhando para Camus. Era nítido que todos queria chorar ou fugir daquele lugar.
– E-eles estavam sem documentos e... E tinha a ordem de pri-prisão.
Eu ri alto, eles pareciam o Hyoga falando antes de apanhar. Assim que eu ri, meu mestre me deu aquela olhada, sim, aquela capaz de congelar a espinha de qualquer um. Na hora me retrai cabisbaixo.
– EU NÃO DEI ORDEM DE PRISÃO À ISAAC. MANDEI QUE QUEM O ENCONTRASSE FICASSE COM ELE E ME CHAMASSE IMEDIATAMENTE! ELE NÃO É UM CRIMINOSO, APENAS FUGIU DO PAI.
Camus se cansou daquele blá-blá-blá e levantou-se.
– Ayaccos, temos muito o que conversar sobre esse assunto e sobre a postura desses profissionais que foi lamentável, absolutamente fora dos padrões da legislação e da justiça. Na verdade eu mesmo vou posteriormente tomar a frente dessa situação. – Ele olhou feio para os policiais que se espremiam na parede do outro lado da sala. – Mas agora EU ESTOU MAIS DE UMA HORAATRASADO PARA O MEU CASAMENTO, E LEVA MAIS DE UMA HORA PARA CHEGAR NO LOCAL DA CERIMÔNIA, EU PRECISO DE AJUDA.
Ayaccos olhou o relógio preocupado, franziu o cenho, olhou puto da vida para os policiais e disse.
– Vamos no meu carro! – Então olhou para os policiais. – E VOCÊS, SEUS IMPRESTÁVEIS, PEGUEM DOIS CARROS DE POLÍCIA E LIGUEM AS SIRENES, VAMOS CORRER.
Corremos atrás do delegado amigo do meu mestre e entramos ele, Shion e Camus. Camus foi na frente, eu e Shion atrás. Os carros estavam muito rápido, eu jamais havia andado num carro correndo tanto na minha vida.
Era tão emocionante que por alguns momentos esqueci do que me esperava em breve. Eu rezava mentalmente para o casamento acontecer e Milo não ter se suicidado, porque senão meu mestre me mataria – literalmente.
Camus não parava de usar o telefone tentando ligar para casa, e bufava toda vez que caia na secretária eletrônica. Era óbvio, Hyoa e Milo já estavam fora de lá. Os celulares de nenhum funcionava, afinal, quem precisava de celular sendo anfitrião? Todos que conhecíamos estavam lá.
– Mestre, o Sr. sabe o telefone de alguém de cor?
– Não, Camus.
Meu mestre então colocava a mão no rosto desesperado, pensando em alguma forma de avisar qualquer um que estávamos chegando. Ele continuava a tentar ligar para o telefone fixo do escritório, mas ninguém estava lá, todos era convidados da festa.
Shion olhava para a estrada quase preocupado com a velocidade.
– Camus... Mais devagar.
– Mas mestre...
– Camus...
– Eu sei o que estou fazendo! Pode pisar fundo aí Ayaccos.
Shion franziu os olhos, mas não discutiu com meu mestre. Eu não entendia direito a dinâmica dos dois, Camus parecia ceder, às vezes, às ordem do mestre Shion, mas não sempre. Shion, por sua vez, parecia não comprar todas as brigas com meu mestre... Isso me fazia pensar que Shion foi um tutor mais tranquilo que Camus.
Shion me tirou dos meus devaneios respondendo aos meus pensamentos.
– Não fui não.
Eu fiz uma cara de quem fica emburrado.
– Não dá para ter privacidade aqui, não?
Camus notou o que acontecia e olhou para trás.
– Privacidade e Shion são coisas que não coexistem no mesmo ambiente.
Foi quando eu entendi que a discussão deles continuou por pensamento, Camus deve ter explicado porque a correria, que estava prestando atenção e “etc” por pensamento. Rá, era muito mais fácil para ele do que para mim, afinal, não tinha que ficar se explicando em público e se humilhando.
Quando pensei isso, Shion riu. Camus pareceu não se concentrar mais em nós dois, ele estava absolutamente concentrado na estrada e em seu relógio. Eu ia chama-lo fazendo uma piadinha, mas antes de abrir a boca fui advertido baixo por Shion.
– Isaac, agora é melhor você ficar quieto, Camus está muito mais nervoso do que está demonstrando e você como principal causador da situação é melhor não piorar o quadro.
Shion falou isso e eu não consegui tirar da minha cabeça que meu mestre estava bolando mil e um planos para arrancar o meu couro. Comecei a tentar pensar em qualquer outra coisa, quando vi que Shion me olhava intrigado.
Comecei a reconhecer o lugar, estávamos chegando no monte onde seria o casamento.
POV MILO
Eu estava mais calmo. Respirava fundo, me lembrando das aulas de yoga que fiz, ou melhor, que Camus me obrigou a fazer para aprender a controlar os meus nervos. Não adiantaram muita coisa, mas era algo para eu tentar fazer naquele momento.
Me vesti com calma, tentando deixar cada detalhe da minha roupa perfeito. Tudo estava perfeitamente passado e encaixado no meu corpo, me olhei novamente no espelho e me achei um noivo bem bonito.
Meus cabelos estavam soltos, com certo volume natural. A raiz lisa despontava em ondulações generosas, que me davam um aspecto bem jovial e sedutor. Terminei por colocar uma rosa vermelha na minha lapela e acabei por trocar por um cravo branco, pois sei que Camus não gosta de rosas por causa de Afrodite.
Quem deveria estar se retorcendo com esse casamento era ele, Afrodite, que tanto tentou nos separar. Não sei porque ele tinha aquela fixação comigo... Bem, acho que sei... Mas aquilo eram águas passadas e eu rezava internamente para que ele não atrapalhasse os nossos planos.
Tive que dar uns quatro ou cinco gritos histéricos com Hyoga que estava demorando para colocar aquela porcaria de roupa, quase tive um treco quando vi que ele mal penteara os cabelos.
– HYOGA, VOCÊ ESTÁ QUERENDO ME ATRASAR NÃO É?
– Mas Calma Milo! Pelo amor de Zeus, você está fora de sim, que saco!
Eu peguei a escova e puxei ele para tentar desembaraçar aquela cabeleira.
– Seu cabelo está parecendo uma juba, quer sair horrível nas fotos é?
Ele me olhou com os braços cruzados torcendo o nariz, deixando eu penteá-lo.
– AAAAAAAAAAAAAAAAAAI, ASSIM DÓI!
– Se você tivesse começado a se arrumar antes, eu não precisava pentear com tanta força e rápido.
Eu disse, assim que ele levantou fazendo cara feia e fazendo sinal de desdém para mim com a mão eu ameacei:
– E não faz assim que eu estou com uma escova na mão hein, moleque!
Ele pouco se importou, eu sabia que não representava ameaça nenhuma. Nessas horas eu me lembrei do quanto Camus fazia falta e do quanto ele me complementava em tantos sentidos, até como pai.
Respirei fundo imaginando esses meninos sem Camus para colocar limites ou sem mim para segurar o Camus, com certeza seria um caos. Foi quando lembrei do meu ursão e me deu um aperto no coração, já fazia muito tempo que não ficávamos sem nos falar tanto tempo.
Então, ouvi um resmungo de Oga.
– Sortudo é o Isaac que ficou com o papai ao invés da bruxa do setenta e um...
Pronto, era o que eu precisava para torcer a orelha de Hyoga e me perguntar se Isaac estaria ou não arrumado apropriadamente para o evento, ah, eu mataria Camus se não tivesse feito o menino de aprumar todo para o nosso casamento.
Olhei para o relógio enquanto Hyoga colocava a mão na orelha com aquele olhar “você é louco”. Tentei ligar novamente para Camus, sem sucesso. Nem Isaac atendia o telefone.
– Vamos Hyoga, e eu juro por tudo que é mais sagrado e por todos os meus sapatos da Armani que se você não me obedecer... E deixa essa porcaria de celular aí! Não quero ver você jogando essas drogas de joguinhos enquanto estivermos no altar!
– TÁ BOM, TÁ BOM!!
Ele disse emburrado, saindo atrás de mim e entrando no carro.
Quando estávamos no hall ouvimos o telefone começar a tocar, mas eu não voltaria, já estava atrasado. Na certa era alguém enchendo o saco, dei uns empurrões em Hyoga que cismava em enrolar. Na certa ele estava se aproveitando que Camus não estava por perto para me irritar mais que o costume.
Entramos no carro e saímos cantando os pneus.
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