O Grande Dia

11 Capítulo XI – Entendendo seus Motivos


Notas iniciais
Bom pessoal, pelo que eu pude ver, acho que vocês vão me perdoar

Era uma situação difícil para todos, Shion se condenava por não ter impedido que Camus entrasse no trem, pois apenas ele poderia cuidar de Isaac enquanto o pupilo podia ir se casar. Camus, por sua vez, não conseguia se decidir entre tentar sair do trem ou esganar o filho e Isaac olhava em volta pensando em fugir ou afrontar os dois cavaleiros de ouro que haviam descoberto seu plano.

Isaac já tinha observado que o ataque seria sua melhor defesa, vez que o trem já estava em alta velocidade e as portas e janelas eram daquelas lacradas, em virtude do ar condicionado. Muito rapidamente ficou bem ereto, em posição de afronta, pronto para partir para cima dos dois mestres.

A postura de Isaac tirou Camus de seus devaneios, na realidade a postura de Isaac o tirou completamente do sério. O aquariano sempre era centrado e equilibrado, mesmo quando parecia muito bravo com os adolescentes não era algo não calculado.

Tudo aconteceu muito rápido, tão rápido que Shion não conseguiu impedir Camus de chutar com toda a sua força um pilar de metal que foi completamente destruído.

– Camus, CONTROLE-SE!

O Grito de Shion não impediu Camus de partir para cima de Isaac e levantá-lo pelo colarinho da jaqueta de couro que usava e sacudi-lo com força enquanto praticamente rosnava palavras em seu rosto.

POSIÇÃO DE ATAQUE? POSIÇÃO DE ATAQUE? VOCÊ PENSA QUE É CAPAZ DE TENTAR ME ACERTAR É? ESQUECEU QUE QUEM TE ENSINOU CADA GOLPE QUE VOCÊ SABE FUI EU? ESQUECEU QUE EU SOU MUITO MAIS FORTE DO QUE VOCÊ PODE SONHAR EM SER???

Camus sacudia Isaac com força, somente aquilo já devia doer. Shion chegou por traz e colocou a mão em seu ombro como quem pede calma. Camus o olhou e percebeu que precisava se conter ao menos um pouco e arremessou Isaac no chão sem o menor cuidado.

POR QUE NÃO TENTA ME BATER? VEM, ESTOU ESPERANDO!

POV Isaac

Finalmente as plataformas se abriram e eu passei pela catraca em direção ao trem. Eu era o único a embarcar naquele horário, e os trens estavam vazios, assim, entrei no mais óbvio, o vagão que se abriu logo na frente do corredor da plataforma.

Pensei em andar um pouco e procurar um mais escondido, porém os trens já estavam para sair, eu estava seguro. Ninguém notara minha ausência, obviamente... Aposto que se fosse com o pato já estaria até o FBI atrás dele.

Mas foda-se! Acabou! Eu não precisava mais pensar nisso ou neles... Agora eu seria livre, livre de todos e deixaria o palco todo para aqueles babacas brincarem de casinha enquanto eu vivia minha vida longe dessas regras malditas e do pato paparicado.

Foi quando eu estava arrumando meus fones de ouvido, admirando feliz as portas lentamente se fechando, enquanto dizia um adeus mental àquele passado que ouvi um estrondo.

CAPOFT

Eu não podia acreditar, não podia acreditar que minha liberdade estava tão próxima e aqueles dois malucos se jogaram dentro do trem. Vi Camus vermelho e suado caído no chão e Shion caído logo atrás, tão suado quanto o meu mestre.

Mas o que eles estavam pensando? Eu levantei e fui instintivamente andando para trás encarando os dois. O que eles faziam alí? Como notaram minha ausência tão rapidamente? Como era possível ambos estarem tão cansados, como perderam tanta energia tentando acabar com a minha vida?

Não, eu não voltaria para casa como um carneirinho. Olhando bem para o estado deles, eu talvez até poderia vencê-los. SIM! Eu não me entregaria! Não sem antes lutar! Eles com certeza não iriam lutar comigo...

Eu adotei aquela postura defensiva que Camus havia me ensinado, aquela que defendia golpes e abria a possibilidade de ataque dependendo da postura que ele adotasse, eu conseguiria golpeá-lo no baço facilmente e daí ele cairia no chão e eu poderia dominar a situação.

Dominar a situação, eu olhava nervoso e com raiva para Camus e repetia o mantra “dominar a situação na minha mente”. Camus então percebeu que eu o desafiava e me revidou o olhar, mas, para a minha surpresa ele não adotou a posição de ataque.

Eu engoli seco quando vi que ele se descontrolava e chutava o trem, ele chutando algo de propriedade pública era algo que nunca imaginei. Ficou nítido que ele descontou naquele metal o que queria fazer comigo eu tremi na base, fiquei com medo.

Mas eu iria continuar, permaneci na minha postura de ataque, e ele para a minha surpresa veio em minha direção. Eu me apoiei na perna direita com o braço esquerdo inclinado para trás, assim que ele se aproximasse eu acertaria suas costelas.

Calculei, apesar do medo, cada passo que ele dava para acertá-lo. Ele veio com fúria para cima de mim, e, apesar dos meus cálculos, ele se livrou facilmente da minha postura. Ele me agarrou pelo colarinho sacudindo meus pés, fazendo com que eu perdesse aquela postura inicial de ataque e sem me dar qualquer possibilidade de acertá-lo onde quer que fosse.

E então ele urrou na minha cara, quase cuspindo de tanta raiva...

– POSIÇÃO DE ATAQUE? POSIÇÃO DE ATAQUE? VOCÊ PENSA QUE É CAPAZ DE TENTAR ME ACERTAR É? ESQUECEU QUE QUEM TE ENSINOU CADA GOLPE QUE VOCÊ SABE FUI EU? ESQUECEU QUE EU SOU MUITO MAIS FORTE DO QUE VOCÊ PODE SONHAR EM SER???

Ele me sacudia com força, aquilo doía e eu estava com medo. Mas eu não demonstraria, levaria aquilo até o fim. Se queriam me matar, que o fizessem, eu não morreria como um covarde, por mais vontade de correr e chorar que eu tivesse. Ah, se fosse Hyoga no meu lugar, Camus estaria chorando dando graças aos céus por encontra-lo.

Shion tentou controlar meu mestre o segurando pelo ombro, e foi quando ele me jogou no chão como quem joga uma roupa suja no cesto e gritou:

– POR QUE NÃO TENTA ME BATER? VEM, ESTOU ESPERANDO!

Aquilo doeu em mim mais do que qualquer coisa poderia, ele não se importava em brigar comigo porque eu não era nada para ele. Meus olhos se encheram de água, aquilo era a prova do quanto ele não se importava comigo, do quanto ele não foi me buscar por mim, do quanto ele só pensava nele e no casamento dele.

Se ele queria brigar comigo, então pronto. Eu sabia que ele era mais forte, mas se queria acabar comigo como já fez com outros cavaleiros, que assim fosse...

Eu me levantei dolorido da queda, as lágrimas já rolavam, eu não me importava mais. Passei as costas da mão nos olhos e nariz que já escorria e funguei respirando e comecei a correr em sua direção tentando acertá-lo e esperando o golpe certeiro dele que acabaria comigo.

Eu corri sentindo o vento, corri torto e chorando me embalando pelo balançar do trem. Corri na direção dele esperando um soco que viria seguido de ponta pés e finalizado pela execução auróra. Isso se um pó de diamante não me fizesse parar antes. Eu conhecia meu mestre em batalhas, conhecia, mas isso não me impediria. Se ele queria guerra ele teria guerra.

Foram os segundos mais longos da minha vida. A corrida mais longa e mais curta de toda a minha existência. Continuava a correr, com o punho cerrado em direção ao meu mestre. Ele me olhava e eu mal o enxergava, cheguei perto dele com o punho fechado e ele facilmente se desviou de mim e me segurou, eu fechei os olhos sabendo que nunca mais os obriria depois de um golpe dele.

Ele me segurou e me apertou forte me trazendo para perto dele, eu não conhecia aquele golpe. Ele não me soltava, me apertava forte prendendo meus braços e minhas costas, eu não sabia o que era aquilo.

Logo ouvi soluços e um choro que começou. Ele estava me abraçando e chorando, logo disse que me amava e permaneceu calada por mais alguns instantes.

POV Camus

Eu não consegui manter minha ameaça, eu jamais conseguiria brigar daquela forma com Isaac, por mais nervoso que eu estivesse. Eu pensei em provar para ele que eu era um cavaleiro mais forte que ele na marra, sem machuca-lo, mas quando vi aqueles olhinhos amedrontados vindo em minha direção eu não aguentei.

Ele não precisava de uma luta, precisava de um abraço, precisava saber que era amado apesar de qualquer idiotice que fizesse. Eu não sei mais onde ele estava com a cabeça, eu não sabia mais o que fazer, só queria mostrar que ele era amado do fundo do meu coração.

– Eu te amo.

Foi difícil controlar minhas lágrimas, eu só pensava nas besteiras que ele fez e que ele estava bem graças aos céus, bem aninhado nos meus braços e que eu não deixaria nada acontecer com ele. Nada.

Ele se soltou nos meus braços chorando também. Naquela hora eu sequer me importei com Shion assistindo aquela cena, só pensava que meu filho estava bem, meu filho. Ele não estava drogado, não estava preso, não estava machucado, estava apenas perdido.

Eu respirei, agarrei seus braços de novo fazendo com que ele me encarasse.

– ESCUTE BEM AQUI... OLHE PARA MIM! – Eu ordenei quando percebi que ele tentava desviar o olhar – EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ ESTRAGAR SUA VIDA, ME OUVIU? EU TE AMO E VOCÊ VAI FAZER AS COISAS DO JEITO CERTO, ME ENTENDEU?

Foi quando ele chorou mais ainda e falou entre soluços.

– Nã-não...

– NÃO O QUE?!

– Você só liga para o Hyoga...

Eu revirei os olhos e o abracei novamente, como ele podia pensar isso? Shion então se sentou num banco do vagão e eu pude perceber que ele sorriu para mim e levantou as sobrancelhas. Eu li bem o que ele quis dizer, comparou Isaac a mim e Hyoga ao Mu... Quis dizer que aquilo era mais normal do que eu estava pensando.

Por mais que eu não quisesse soltar Isaac, talvez por medo de perde-lo novamente, eu o sentei num banco perto de Shion e me sentei também cruzando minha perna. Foi a primeira vez que percebi que estava usando pijama ainda.

Ele sentou e olhou para as mãos nervoso. Eu o encarei com a cara séria, mas menos dura.

– Da onde raios você tirou isso?

Ele ficou em silêncio, provavelmente não queria se abrir. Eu respirei fundo e olhei para Shion como quem pede “socorro”. Meus nervos estavam em frangalhos, eu estava perdido em pensamentos. Foi a vez se Shion assumir

– Isaac, seu pai lhe fez uma pergunta. RESPONDA. Porque você se sente preterido a Hyoga?

– E-ele, ele sempre me quer longe. Me mandou para fora do país...

– Mas foi você que pediu para passar um ano estudando inglês! Eu não queria de início e você insistiu sem parar! Você tem ideia do quão caro foi esse programa do qual você foi expulso? Você tem ideia do quanto foi difícil para mim deixar você longe da minha visão?

– SE FOSSE O HYOGA VOCÊ NÃO TERIA DEIXADO ELE IR NUNCA! VOCÊ SÓ PENSA NELE!

Ele levantou e começou a gritar.

– Eu não acredito no que estou ouvindo...

Foi minha vez de tentar me segurar.

– ISAAC, VOCÊ PERDEU O JUÍZO? EU SEMPRE TRATEI VOCÊS DOIS IGUAL! AMBOS ESTUDAVAM COMIGO, AMBOS TINHAM TUDO IGUAL, EU NUNCA PRESENTEEI UM SEM PRESENTEAR O OUTRO! EU CUIDAVA DA SAÚDE DOS DOIS IGUAL, LEVAVA AOS MESMOS MÉDICOS, MESMOS DENTISTAS. TREINAVA VOCÊS DOIS NA MESMA INTENSIDADE! VIAJAVAM SEMPRE COMIGO JUNTOS!

– MAS VOCÊ SEMPRE GOSTOU MAIS DELE!!!

Eu levei a mão até minha cabeça, eu tinha que parar de gritar. Aquilo estava ficando ridículo. Eu levantei e o sentei na cadeira de novo e abaixei, ficando apoiado nas minhas pernas na altura dele sentado, assim pude olhar no fundo dos olhos dele e segurá-lo.

– Meu filho, você e Hyoga são tudo que eu tenho. Os dois dias mais felizes da minha vida foi quando me entregaram vocês dois, eu sabia que para sempre eu teria vocês. Eu sei porque você se sente assim... Hyoga sempre foi mais manhoso e conseguia arrancar um pouco mais de carinho porque não parava de chorar...

Nessa hora ele riu e soltou alguma piada com o irmão chamando por “mamãe” que eu decidi ignorar.

– Você sempre foi mais rígido, assim como eu. Me perdoe se eu nunca demonstrei ou se demonstrei menos, mas eu te amo e nunca vou deixar ninguém fazer nada de mal com você. EU NUNCA VOU PERMITIR NEM QUE VOCÊ MESMO FAÇA ALGO ERRADO COM A SUA VIDA. VOCÊ ENTENDEU? EU TE AMO, ENTENDEU?

Ele olhava fixamente para mim, as lágrimas começaram a escorrer e ele pedia desculpas abafadas. Eu o abracei, abracei e olhei para o meu mestre que piscou para mim.

– Agora, Camus, precisamos pensar em como sair daqui a tempo de chegar ao casamento.

– O casamento... MAS QUE DIA VOCÊ ESCOLHEU PARA APRONTAR TUDO ISSO NÃO É? – Eu disse encarando meu filho. Ele apenas se encolheu. – Você sabe que tudo isso não vai passar em branco não é?

Eu disse dando a entender que ele levaria a maior surra da vida dele, ele me olhou como quem sabia e tinha medo. Ao menos as afrontas haviam acabado. Olhei para Shion que olhava para o próprio celular muito preocupado.

– O que foi mestre?

– A bateria acabou... Não temos como falar com ninguém... Você tem sua carteira aí?

Eu coloquei as mãos nos bolsos, não, eu não tinha nada. Saíra correndo com meu pijama, não tinha pego nada, nem meus documentos. Shion me olhou mostrando que também estava de roupas de dormir e sem nada consigo dado o desespero para sair em busca de Isaac.

Olhei em volta, fixei o olhar na janela do trem que se movia sem parar pela paisagem nos levando cada vez mais longe de Milo.

Notas finais
Curtiram? Lembrem-se... Cada vez que vocês não comentam um capítulo, uma fada morre... T_T :P