O Grande Dia
10 Capitulo X - Encontros e Despedidas
Notas iniciais
Pessoal, me utilizei de “licença poética”, ou melhor, “licença poética geográfica” rs. Não existe o mencionado trem, porém isso aqui é uma ficção, mais, isso é uma fanfiction! Usei minha imaginação ;)
POV Isaac
Eu suava bastante, mas meu preparo físico havia me levado até onde eu precisava. Consegui chegar um pouco antes da bilheteria abrir, por isso aproveitei e fui até um pequeno hotel próximo tentar pagar para tomar um banho.
O gorducho da recepção me olhou como quem olha um marginal, típico de quem não se enxerga, pois marginal parecia ele com aquela regata engordurada que deixava suas banhas para fora da calça. Me cobrou um valor injusto e me deu as chaves de um quarto daquele moquifo.
Subi correndo, tinha pouco tempo para me recompor. Tirei aquela camiseta suada e o resto da roupa e me enfiei naquele banheiro escuro e nojento. A água estava fria e a luz falhava, mas só de poder lavar meu cabelo e tirar toda aquela aparência pós maratona, valeu.
Me sequei e coloquei roupas limpas, ainda bem que tinha meu próprio sabonete, consegui ficar cheiroso. Respirei fundo, olhei os dez minutos que perdi no meu relógio e desci correndo as escadas, a bilheteria abriria em menos de cinco minutos.
Nem olhei para o gordo e saí. Não pude conter o sorriso ao verificar que a bilheteria estava abrindo naquele segundo em que a avistei. Eu quase podia sentir o cheiro da liberdade... Corri contente para o guichê.
– Uma passagem para a Turquia, só de ida.
A mulher olhou para mim e me deu a passagem, era jovem, pude ver que eu causei algum interesse nela. Agradeci mentalmente por ter tomado banho, até que ela era interessantezinha, mas não podia perder tempo naquele lugar, muito menos deixar que me vissem demais.
Fui até o banco de madeira, ignorando o olhar apaixonado da menina, e me sentei acendendo um cigarro e esperando o trem que chegaria em menos de meia hora.
POV Milo
Eu estava ansioso demais para dormir, estava eufórico e feliz, muito feliz. Quem um dia diria que eu e meu picolé nos casaríamos? Nem a presença do chifrudo poderia atrapalhar esse dia, nada, nada poderia me tirar das nuvens.
Eu acordava de trinta em trinta minutos e bufava insatisfeito com aquela noite tão longa. Me levantei algumas vezes, hora para fazer xixi, hora para beber água. Quando muito ansioso, comecei a olhar minha roupa para o dia seguinte e treinar minha entrada na frente do espelho.
Depois peguei meu celular, realmente tentado a ligar para o meu ursinho polar. Mas fui impedido pelo medo da bronca que eu levaria por acordá-lo e por não estar dormindo. Deixei, então, meu celular de lado na cabeceira emburrado.
Depois, comecei a surtar achando que ele estava numa despedida de solteiro. Sim, ele e... Saga! Ah, aquele sim era um tarado de marca maior! Peguei-me apertando os lençóis com força e raiva, quando novamente tentei me acalmar, aquilo era tudo fruto da minha imaginação.
Levantei e fui até o prato de frutas lindamente montado para mim, peguei umas cerejas, olhando para a escuridão da noite. Noite? Já devia estar mais perto da manhã... O medo de Camus desistir de tudo me acometeu.
Talvez aquilo fosse demais para ele. Ele, sempre tão reservado e com sentimentos tão escondidos, teria que ir comigo numa festa e afirmar seu amor perante toda aquela gente! Não, não... Aquilo não era bom...
Será que ele estava revivendo as vezes que o trai e... Será que ele estava indo embora e me deixando sozinho com as crianças?
Não, Camus jamais deixaria as crianças para trás. AH, SERÁ QUE CAMUS ESTAVA LEVANDO AS CRIANÇAS DE MIM? NÃO, EU MORRERIA... Levantei com as mãos no cabelo e lágrimas no rosto até me olhar no espelho e começar a rir do meu próprio surto.
Aquilo era uma crise de bipolaridade e eu estava sendo ridículo, ridículo chorando e ridículo rindo. Balancei a cabeça, a verdade é que nunca tinha sido tão feliz em minha vida e tinha medo que aquilo tudo desaparecesse. Eu precisava tentar ser racional.
Lavei o rosto e me deitei novamente, tentando conter a emoção, tentando diminuir meu ritmo cardíaco e minha saudade da minha família.
POV Shion
Era estranho ver Camus tão apreensivo, vez que ele nunca externava o que sentia. Nessas horas eu queria não ser lemuriano e não ter acesso aos pensamentos alheios, já que doía muito ver Camus tão desesperado.
Ele se preocupava com Hyoga e se ele estaria pronto a tempo para a cerimônia, se preocupava com o trabalho e estava completamente preocupado com Milo e algo sair errado com a festa que ele tanto sonhava. Mas o principal em sua mente era Isaac e a sensação de ter falhado. Ele se questionava constantemente acerca do que tinha feito de errado.
– Você não fez nada errado, filho – Eu o chamava assim, apesar de que Camus se sentia inferior a Mu nesse aspecto. Mal sabia ele o quanto estimo ambos.
– Não, mestre? Não me parece, afinal, o menino se superou.
– Sim, mas não é culpa sua. – Dessa vez falei mais firme.
– Ele foi expulso da escola australiana, burlou o sistema para que eu não descobrisse da expulsão, mentiu para mim sobre o motivo do retorno, depois me desobedeceu não se matriculando na escola e mentindo sobre a ausência de vagas. Se já não fosse o suficiente, arranjou briga no santuário, se envolveu com maus elementos, fumava, foi para aquele lugar comprar drogas, teve um coma alcoolico, foi pego numa batida policial e agora fugiu para zeus-sabe-onde faltando apenas algumas horas do meu casamento. Ah, sim, já ia me esquecendo, pegou toda a economia da casa. Pegou não. Roubou.
Não interrompi Camus, deixei ele falar, tirar aquilo tudo de dentro dele.
– Pois bem, mas nada disso é culpa sua.
– Ah não? Me parece algo que um pai deveria impedir, mestre.
– Ah, se eu me sentisse culpado por tudo que vocês aprontavam quando menores, acho que já teria me suicidado – Falei com humor, mas Camus estava tão absorto em preocupação que nem sei direito se me ouviu.
– Filho, vamos achar o Isaac, eu prometo. – Eu disse, dirigindo na máxima velocidade permitida, pensando no horário de partida do primeiro trem.
TRIM
– Alô? Minu? – Camus atendeu apertando um botão do rádio, que colocava o celular no viva-voz através do bluetooth.
– Sr. Camus, falei com o delegado que mandou policiais até os locais que o Sr. pediu. Não encontraram Isaac.
Ela falou, e eu não sabia ao certo se Camus estava mais aliviado ou mais preocupado com tudo.
– Ok.
– Ele mandou viaturas para o aeroporto e para a rodoviária.
– Ótimo Minu, muito obrigado pela sua presteza e competência.
Minu não respondeu, mas tenho certeza que enrubesceu. Não era para qualquer um receber um elogio de Camus, quanto mais naquelas situações.
Eu corri muito mais do que gostaria com aquele carro, mas sabia que corria muito menos do que Camus correria. Faltavam exatos dez minutos para as cinco da manhã quando cheguei ao estacionamento da ferroviária.
Tive vontade de chamar a atenção de Camus quando vi que ele mal esperou o carro parar para descer, mas eu precisava entende-lo. Parei o carro sem grande habilidade e sai correndo atrás dele em direção à bilheteria.
Para o nosso desespero, Isaac não estava por perto. Havia pouquíssimas pessoas lá, e todas que questionamento não sabiam de Isaac. Vi Camus colocar a mão no rosto preocupado, pois vários trens saiam ao mesmo horário de lá.
– Mestre, como vamos saber para onde ele vai?
Eu olhei para cima, pensando numa solução. Faltam apenas cinco minutos para os primeiros trens partirem.
Vi Camus andando em direção à bilheteria assim que viu uma moça retornar à cabine.
– A Sra. viu um menino de cabelos verdes comprando passagens?
A moça ficou enrubescida e olhou para baixo, Camus não sabia porque.
– A Sra. viu? – Ele perguntou novamente, naquele tom autoritário que lhe era peculiar. Como Camus se parecia comigo, às vezes. Ela se retraiu e respondeu quase gaguejando.
– Si-sim, ele comprou passagem para a Turquia.
– NOS VEJA DUAS PASSAGENS PARA LÁ, RÁPIDO.
Foi minha vez de intervir, jogando dinheiro sobre a mesa e pegando as passagens sem esperar troco. Faltavam apenas dois minutos para o trem partir e ainda precisávamos atravessar todo o pátio até chegar ao embarque.
Camus e eu corremos como nunca, ele não olhava para trás ou para os lados. Mal desviava das colunas e bancos. Nunca o vi tão nervoso e então percebi que estava lá principalmente para segurá-lo.
POV Camus
“Ele não sairia da Grécia, não sairia”. Isso era tudo que eu conseguia pensar, nem me lembrava da última vez que corri tanto, era difícil respirar, eu estava fora de mim.
Finalmente avistei a plataforma do trem para a Turquia. Finalmente. Corria como nunca, mas a porta se fechava...
Tudo que vi foi a porta se fechando e eu estava tão perto, tão perto. Corri em direção a ela mesmo assim, corri como se fosse a última coisa que eu tinha que fazer na vida.
E assim que me joguei em direção a porta cai com tudo. Naquele momento eu só precisava respirar um pouco. Olhei em volta, vi Shion se recompondo atrás de mim, ele tinha entrado pela outra porta.
Estávamos nervosos demais para comemorarmos qualquer vitória. Foi quando me deparei com o vagão vazio e com Isaac encolhido num canto do vagão abismado com nossa presença. Dei graças aos céus por ele estar bem e ao mesmo tempo me desesperei.
– O trem partiu, Shion. O trem partiu e estamos aqui dentro! O CASAMENTO! Estamos indo para a Turquia e EU ME CASO EM ALGUMAS HORAS!
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